Autor: Erick Zen

  • Livro: Identidade em Conflito.

    Livro: Identidade em Conflito.

    Caros amigos,

    Finalmente, com alegria, posso anunciar que meu novo livro foi publicado: Identidade em Conflito: Os imigrantes lituanos na Argentina, no Brasil e no Uruguai. A obra foi publicada pela EdUFSCar e contou com o apoio Fapesp, que também concedeu a bolsa de doutorado possibilitou a pesquisa.

    O livro, de uma forma geral, consiste na tese defendida na Universidade de São Paulo (USP) como resultado da minha pesquisa de doutorado em História Social. Claro, que o tempo, e as novas leituras ao longo dos últimos anos permitiu melhorar e aprimorar o texto original. No mesmo sentido, e sempre para melhor, o livro pediu algumas adaptações.

    Leitura do primeiro parágrafo do livro

    Meu trabalho de pesquisa consistiu em analisar as formas de estruturação e as relações entre as comunidades lituanas radicadas na Argentina, no Brasil e no Uruguai. De forma comparada, buscar compreender as referências identitárias deste grupo nacional durante o processo de desenraizamento territorial e a formação dos laços de solidariedade ao longo do processo de inserção nos diferentes Estados nacionais. Ao mesmo tempo, demonstrar como estas comunidades se relacionavam para além das fronteiras dos países em que se estabeleceram, construindo intercâmbios de experiências e organizando movimentos sociais e políticos.

    Busquei, com isso elaborar uma abordagem transnacional preocupada sobretudo com a circulação das ideias e as mobilizações políticas, em particular, em um momento de radicalização e de intensas mudanças tanto para os países latino-americanos, como para a Lituânia.

    Esperamos que o resultado tenha sido satisfatório e para quem quiser conhecer a obra ela pode ser adquirida no site da editora. O lançamento será nas próximas semanas…

     

  • Livro novo: Identidade em Conflito.

    Livro novo: Identidade em Conflito.

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    @erickrgzen

    Caros amigos,

    Finalmente, com alegria, posso anunciar que meu novo livro foi publicado: Identidade em Conflito: Os imigrantes lituanos na Argentina, no Brasil e no Uruguai. A obra foi publicada pela EdUFSCar e contou com o apoio Fapesp, que também concedeu a bolsa de doutorado possibilitou a pesquisa.

    O livro, de uma forma geral, consiste na tese defendida na Universidade de São Paulo (USP) como resultado da minha pesquisa de doutorado em História Social. Claro, que o tempo, e as novas leituras ao longo dos últimos anos permitiu melhorar e aprimorar o texto original. No mesmo sentido, e sempre para melhor, o livro pediu algumas adaptações.

    Leitura do primeiro parágrafo do livro

    Meu trabalho de pesquisa consistiu em analisar as formas de estruturação e as relações entre as comunidades lituanas radicadas na Argentina, no Brasil e no Uruguai. De forma comparada, buscar compreender as referências identitárias deste grupo nacional durante o processo de desenraizamento territorial e a formação dos laços de solidariedade ao longo do processo de inserção nos diferentes Estados nacionais. Ao mesmo tempo, demonstrar como estas comunidades se relacionavam para além das fronteiras dos países em que se estabeleceram, construindo intercâmbios de experiências e organizando movimentos sociais e políticos.

    Busquei, com isso elaborar uma abordagem transnacional preocupada sobretudo com a circulação das ideias e as mobilizações políticas, em particular, em um momento de radicalização e de intensas mudanças tanto para os países latino-americanos, como para a Lituânia.

    Esperamos que o resultado tenha sido satisfatório e para quem quiser conhecer a obra ela pode ser adquirida no site da editora. O lançamento será nas próximas semanas…

    • O livro pode ser adquirido pelo site da editora da UFSCar AQUI  
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  • Legado de Cinzas: uma história da CIA

    • Resenha do livro Legacy of Ashes. The History of the CIA
    • Sobre Tim Weiner
    • A CIA e a Guerra Fria

    Não tenho dúvidas que Legacy of Ashes. The History of the CIA é a obra narrativa mais completa sobre a atuação da CIA. O livro de Tim Weiner recebeu o principal prêmio que um jornalista norte-americano pode receber: o pulitzer. Sua proposta é realizar uma história narrativa dos principais eventos sobre a CIA que se estende da sua fundação ao o que o autor considera o seu momento de maior crise, com a revelação de que o Iraque, ao contrário do que foi levado ao público, não possuía armas de destruição em massa.

    Essa longa trajetória, cobrindo aproximadamente 60 anos, é realizada em 778 páginas. Sua narrativa é clara e prende a atenção do leitor. Mesmo para um leitor estrangeiro, como eu, o vocabulário é acessível e as construções gramaticais não se prendem a desnecessários rebuscamentos. Sua pesquisa também merece destaque. Embora o autor cubra temas relacionados à inteligência americana para diversos órgãos de imprensa, não utilizou fontes que não possam ser verificadas. Com isso a narrativa histórica, feita por um competente jornalista, ganha credibilidade e não se perde nos corredores das hipóteses mirabolantes e das teorias da conspiração.

    Esse é um aspecto importante! Aquele que se propõem a escrever a história de qualquer órgão de segurança (ou de inteligência) anda sempre no fio da navalha entre as teorias da conspiração, o que veio a público e o que pode ser comprovado. A própria comprovação é, muitas vezes, o maior problema. Assim, entrar em assuntos espinhosos e ao mesmo tempo manter a sobriedade da pesquisa é algo exaustivo e cansativo. (Aqui compartilho minha experiência trabalhando com os arquivos do Deops-SP).

    Seja como for, o autor realiza o que se propõe e o que nos oferece cobre uma ampla história da CIA. Não quero dizer com isso que não caibam questionamentos às suas afirmativas. Pelo contrário! Menos ainda que ela é completa e absolutamente correta (mesmo porque isso não existe em nenhum trabalho histórico). Na realizada, o autor nos apresenta uma avaliação bastante pessimista da atuação da CIA. Demonstra exaustivamente a sua debilidade, as suas falhas e os seus erros. O principal deles, ainda segundo o autor, foi o de sempre depender da inteligência de outros países. Mostra ainda a incapacidade desta ter penetrado a URSS, durante a Guerra Fria. Narra uma quantidade enorme de operações fracassadas nas mais diversas partes do mundo, da América Latina, Ásia e Oriente Médio. Ressalta ainda alianças duvidosas com o sub-mundo em diversos países do mundo.

    De toda as trajetórias descritas pelo autor gostaria de destacar uma em particular que se refere à Europa Centro-Oriental. Logo no início da Guerra Fria, com o objetivo de levar um discurso pró-ocidente e pró-liberdade para dentro da URSS e dos demais países comunistas, a CIA junto com diversas organizações, apostou na Rádio Europa Livre. A Rádio difundia um discurso do Ocidente que poderia ser facilmente captado por qualquer rádio e que com a tecnologia então disponível era praticamente impossível bloquear sem danificar seriamente a comunicação destes países.

    Guerra Fria: a CIA e a Europa Centro-Oriental: Rádio Europa Livre.

    No delinear da Guerra Fria, uma questão que se abriu foi como lidar com aqueles que haviam escapado da União Soviética e dos países sob regime comunista da Europa Centro-Oriental. Em particular com os intelectuais que agora viviam no ocidente. Assim, os principais cabeças da CIA como, Frank Wisnes, Kennan e Allen Dulles viram uma forma muito melhor de lidar com o fervor e com a energia destes intelectuais dos exilados e decidiram por abrir um canal por trás da cortina de ferro: a Rádio Europa Livre.

    O plano teve início no final de 1948 e no início de 1949, mas foram necessários mais de dois anos para que a rádio fosse levada ao ar. Dulles se tornou o fundador do  Comitê Nacional para Europa Livre (National Committee for a Free Europe), um dos muitos frontes organizados e financiados pela CIA nos Estados Unidos. A comissão da Europa Livre incluiu o General Eisenhower, Henry Luce, os editores da Time, da revista Life e da Fortune e Cecil B. DeMille, um produtor de Hollywood, todos recrutados por Dulles e Wisner como um disfarce  para o verdadeiro propósito: a rádio se tornaria uma arma política na Guerra Fria. Assim, durante décadas pelas ondas do rádio, a CIA, com apoio de muitos intelectuais, lançou contra a chamada “cortina de ferro” um discurso anti-comunista e que incentivava a rebeldia em todos os países na Europa sob domínio comunista.

    Sobre esse aspecto, gostaria de complementar com a seguinte observação. Em muitos países, como na Lituânia atual, a rádio livre entrou na narrativa histórica como parte da resistência “nacional” contra o comunismo. Se de fato, vários lituanos trabalharam nela, ou para ela, é sempre necessário frisar esse aspecto, qual seja, tratava-se de um projeto propaganda e com uma intenção muito bem estabelecida no delinear de uma Guerra. Portanto, estava longe de ser uma atividade espontânea de resistência, como muitas vezes aparece.

    A Tragédia dos Agentes Antissoviéticos.  

    Steve Tanner era um veterano da inteligência do exército e recém egresso da Universidade de Yale, contatado por Richard Helms, poderoso diretor da CIA, em 1947. Em Munique, na Alemanha, sua missão era recrutar agentes que pudessem oferecer material de inteligência aos Estados Unidos atuando por trás da Cortina de Ferro.

    Dessa forma, quase todas as nacionalidades da União Soviética e da Europa Oriental tinham pelo menos um importante grupo, ou que se autoconsiderava importante, de emigrado, buscando pelo socorro da CIA em Munique e em Frankfurt. Alguns dos homens que Tanner investigou como potenciais espiões eram Europeus Orientais que tinham tomado o lado da Alemanha contra a Rússia. Elas incluíam pessoas com passado fascista que tentavam salvar suas carreiras tornando-se úteis aos americanos. Tanner afirmou, e estava preocupado, pois “eles estão automaticamente do nosso lado”. Outros que haviam saído da periferia da União Soviética exageravam seu poder de influência. “Esses grupos de emigrados, o seu principal objetivo é convencer o governo dos Estados Unidos da sua importância e da sua habilidade de ajudar o governo dos Estados Unidos, e então receber apoio de uma forma ou outra”.

    Para organizar suas atividades antissoviéticas, Steve Tunner estabeleceu que para receber ajuda da CIA, os emigrados deveriam ter conexões na sua terra natal e não nos cafés. Eles não deveriam estar comprometidos com o nazismo. Em dezembro de 1948, após um estudo cuidado ele finalmente parecia ter encontrado um grupo: Supremo Conselho para a Libertação da Ucrânia.

    Eles foram infiltrados, mas a União Soviética foi capaz de identificar todos eles e rapidamente os eliminou, assassinando todos eles! Ao estilo soviético… Com isso, centenas de agentes estrangeiros da CIA foram enviados para a morte na Rússia, Polônia, Romênia, Ucrânia e nos países Bálticos durante os anos 1950.

    Essas são apenas algumas das histórias tratadas por Tim Weiner, em sua obra. E por essas e outras que ele considera que o legado da CIA tenha sido um “legado de cinzas”… Ainda sobre a Europa Centro-Oriental o autor enfatiza sua incapacidade de entrar na inteligência soviética e ainda sua total surpresa diante do colapso da URSS e do regime comunista na Europa Oriental…

    Essa é uma questão bastante preocupante para a atualidade: se a inteligência americana não conseguiu compreender e entender a União Soviética, como esperar que lidem agora com a Rússia e suas ações nos países que fizeram parte da URSS? Essa vai ser  outra história.

  • Os Outros Esquecidos: Monumentos ao Exército Vermelho

    Os Outros Esquecidos: Monumentos ao Exército Vermelho

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • A memória na Lituânia
    • Monumento ao Exército Vermelho
    • Memória oficial sobre o comunismo

    Em diversas cidades da Lituânia um incômodo monumento está à vista de quem queira ver: Os cemitérios dos combatentes do Exército Vermelho que caíram ao longo da sangrenta campanha que se arrastou no país. Um duplo sentimento se estabelece. Por um lado, são a celebração da vitória contra o nazismo e a ocupação alemã. Por outro, era o estabelecimento do regime comunista na Lituânia e a sua integração a União Soviética.

    Durante o período soviético, esses cemitérios foram cuidados, preservados, e eram até mesmo lugares de celebração. Com o fim do regime, virou um incômodo, pois se criou ao longo das últimas décadas uma memória e uma história oficial antissoviética – não raramente antiesquerda, como forma de afirmação da independência.

    Nos livros de história, o comunismo é sempre apresentado como algo externo aos lituanos. Como se não houvesse lituanos comunistas e quando estes trabalharam em prol da União Soviética são chamados de colaboracionistas, da forma mais pejorativa possível. Ou como mero oportunistas. Assim, ser lituano é ser anticomunista e quem escreva contra ou tente discutir – negar – o “genocídio” soviético você pode ser punido, com a mesma lei que pune aqueles que tentam negar o holocausto.

    Ainda não raramente, em muitos livros, se tenta enfatizar a quantidade de “não lituanos” nas organizações comunistas naquele país. Isso equivale a dizer que pela expressiva quantidade de judeus, russos e polacos no Partido Comunista Lituano ele não seria legitimo. Muitas vezes essas referência são feitas de forma discreta, espalhada entre as páginas, mas estão lá.

    Podemos comparar aqui a Lituânia com a Rússia e entendermos a diferença. Os russos incorporaram os “feitos” soviéticos a sua memória e a suas datas cívicas, como o Dia da Vitória, ou ainda todas as vitórias olímpicas e…não menos importante… o mausoléu do Lênin continua no mesmo lugar.

    Na Lituânia, a União Soviética é expelida da memória. Qual o problema? O problema é que isso acaba por esconder a participação de lituanos em sacrifícios e feitos importantes, como derrotar o nazismo. Em Šiauliai, por exemplo, um batalhão inteiro do Exército Vermelho era composto por lituanos – parte da historiografia nega isso afirmando que tinham mais russos – para complicar esse esforço de Guerra como esse batalhão teve como grande suporte os imigrantes lituanos que desde a América, Norte e Sul, enviavam ajuda e contribuições.

    Da mesma forma, os partisans comunistas que lutaram contra a presença nazista são em alguns casos chamados de terroristas e a eles são atribuídas as respostas à ação dos comunistas, numa inversão histórica inaceitável, mesmo para a péssima literatura histórica.

    Assim, aqueles que não se somaram às lutas antifascista e nazista na Lituânia são esquecidos ou difamados. É fato que o regime soviético por todas as atrocidades cometidas, e que não podem ser esquecidas ou negadas, representa um trauma, uma cicatriz que será difícil de fazer cicatrizar e já não estou certo de que deve deixar cicatrizar.

    Mas a ferida aberta não pode infeccionar toda a memória lituana. Desprezar ou ter vergonha de seu passado não ajuda, menos ainda falsificá-lo deliberadamente. Os cemitérios aos combatentes, ainda que estejam com os nomes escritos em russo e não tragam todos os símbolos comunistas, estão ali para lembrar do que foi lutar contra o nazismo. Dos sacrifícios de homens e mulheres que entregaram sua vida contra o fascismo e o nazismo e nisso estavam certos em fazer. Foi um sacrifício que valeu. O que aconteceu depois não pode ser imputado a eles e suas memórias não podem ser desprezadas. Ainda hoje, cemitérios dos combatentes do Exército Vermelho na Lituânia são preservados pela embaixada russa…

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  • O Clima no Subterrâneo

    O Clima no Subterrâneo

     
     Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
    Twitter: @erickrgzen 
     
    • O radicalismo político na década de 1970
    • A formação do grupo armado
    • A clandestinidade
    • A mudança no clima

    O Clima do Subterrâneo… Normalmente quando pensamos nos movimentos sociais nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970 sempre tomamos como referência os movimentos pacifistas, como o hippie, o movimento negro liderado por Martin Luther King ou os demais movimentos de contra cultura. Assim, pouco refletimos sobre os movimentos que passaram à luta armada, como os Panteras Negras ou aquele que é o menos conhecido: o Weather Underground. Um grupo reduzido, mas que produziu diversos atentados a bomba ao longo da década de 1970.

     

    Por ser o menos conhecido dos grupos é que o documentário de Weather Underground de Sam Green e Bill Sigel se tornou uma referência para pensarmos o que significou da passagem dos movimentos pacifistas de massa para a luta armada no habito da esquerda naquelas décadas. No caso norte- americano, abordar esse tema se faz ainda mais complicado devido aos traumas causados pelos atentados de 11 de Setembro e também, pelo mortífero atentado realizado por um extremista de direita em Oklahoma.

    O documentário combina documentos históricos, filmes, fotos, leitura de trechos de memórias com depoimentos de ex-integrantes do grupo, entre eles Mark Rudd, Brian Flanagan, David Gilbert, Bill Ayeres, Brian Flanagan. Os depoimentos funcionam tanto como fio condutor da história como inserem momentos de reflexão na busca por motivos, explicações e justificativas para as opções que tomaram naquele período. O documentário também apresenta, de forma competente, o contexto histórico em que o movimento se inseriu e a recuperação do “clima” da época é a melhor contribuição do documentário (e ao meu ver a melhor contribuição que qualquer documentário histórico pode oferecer).

    1. E qual contexto era esse?

    No final da década de 1960, os movimentos sociais pacifistas que lutavam contra a guerra do Vietnã e pelo movimento negro chegaram a um impasse! Por maior que fossem as suas manifestações de massa, as marchas e as outras formas de protestos a direita continuava a vencer as eleições e a ofensiva militar no Vietnã era cada vez maior e mais violenta.

    Esse impasse marcou o congresso organizado pelos Estudantes por uma Sociedade Democrática em 1969. A organização foi fundada entre os estudantes universitários e adotava táticas pacifistas de manifestação e por isso crescera rapidamente durante a luta contra a guerra do Vietnam. No congresso, a liderança da organização passou para as mãos de um pequeno grupo denominado Weathermen (O homem do Tempo) que pregava ações violentas e de enfrentamento contra o Estado. O nome Weathermen foi inspirado na letra de uma música de Bob Dylan: “Não é necessário um meteorologista para saber para qual direção sopra o vento”. E o vento, em 1969, soprava para a revolução em diversas partes do mundo que assistia às ações dos Panteras Negras, do Partido Comunista no Japão, em Angola (luta contra os portugueses). Revolução cultural chinesa, França, México, Vietnã, Congo, Alemanha…

    Bob Dylan, Subterranean Homesick Blues
     
    Maggie comes fleet foot
    Face full of black soot
    Talkin’ that the heat put
    Plants in the bed but
    The phone’s tapped anyway
    Maggie says that many say
    They must bust in early May
    Orders from the DA
    Look out kid
    Don’t matter what you did
    Walk on your tip toes
    Don’t try, ‘No Doz’
    Better stay away from those
    That carry around a fire hose
    Keep a clean nose
    Watch the plain clothes
    You don’t need a weather man
    To know which way the wind blows.
     

    2. A Radicalização Política

    Para completar o quadro, o ano de 1969 marcou o fim da esperança no movimento “paz e amor” e dois eventos se tornaram símbolo do fim de festa hippie: os assassinatos liderados por Charles Manson e sua seita “Família” e o assassinato cometido pela gangue de motociclistas, Hell Angels durante um show dos Rolling Stones no Altamont Speedway, na Califórnia.

    Sob a liderança dos Weathermen, a Sociedade Democrática chamou a manifestações com um discurso de enfrentamento, anunciando o início do chamado “Dias de Fúria”… Foi um fracasso! A manifestação em Chicago reuniu entre 150 e 200 pessoas e o conflito com a polícia se generalizou pelas ruas da cidade.

     

    Para além das manifestações, os estudantes deram início a um movimento de “sair do campus” e formar casas coletivas nos bairros operários. A ideia era abandonar a vida burguesa dos campus universitários e se juntar à luta dos trabalhadores. Era um movimento subversivo, pois a liberação do mundo burguês significava o abandono da sua moral e pela busca da liberdade sexual, abandonando a monogamia, do culto à heterossexualidade, do machismo, etc.

    O movimento buscava, assim, construir uma base operária e libertária, mas não teve êxisto, pois mesmo os Panteras Negras rejeitavam a proximidade com o movimento. Os Panteras os viam como brancos, pequeno burgueses, que utilizavam métodos infantis de enfrentamento. Mesmo sem o apoio o Weathermen buscou sempre a proximidade com o movimento negro e reagiu à extrema violência do Estado americano posta contra essa organização.

     

    O então presidente Nixon estava decidido a destruir os Panteras Negras e essa determinação levou a polícia a assassinar uma importante liderança revolucionária negra: Fred Hampton, um jovem que ficou conhecido pelos seus discursos eloquentes e organização de manifestações. Sob o pretexto de buscar armas em sua casa, a polícia o fuzilou, enquanto ele dormia. A resposta dos Panteras Negras foi abrir a casa de Hampton a visitação pública, mostrando a quem quisesse a quantidade de furos de bala na casa e o colchão repleto de sangue onde ele dormia no momento de seu assassinato.

    3. A Clandestinidade

     

    Diante da violência de Estado, o Weathermen decidiu responder com violência e adotou seu famoso lema: “Trazer a Guerra para Casa”. A ideia principal era promover uma série de eventos catastróficos que pudessem “despertar” o público americano para os horrores da guerra. O primeiro projeto fracassou, pois no momento em que um pequeno grupo montava uma bomba em uma casa na cidade de Nova York ela acidentalmente explodiu e matou os três integrantes.

     

    Com a explosão e a pressão do Estado o Weathermen teve que passar para a clandestinidade, formou-se assim o Weather Underground (O Clima no Subterrâneo). A explosão também levou a uma reflexão sobre a tática a ser utilizada, por um lado havia um entendimento de que “não havia inocentes” nos EUA, por outro não se desejavam ataques que pudessem matar civis. Assim, os alvos do grupo tinham objetivos simbólicos e não pessoas.

    O primeiro atentado, por exemplo, teve como alvo o edifício sede da administração penitenciária em resposta à morte de George Jackson, um importante líder do movimento negro dentro dos presídios, morto em uma suspeita tentativa de fuga. A partir daí uma série de atentados, nenhum deles causando mortes, foram realizados até o ano de 1975, incluindo o Capitólio, a Universidade de Harvard, a sede da polícia de Nova York…

     

    Uma das ações mais espetaculares do grupo foi planejar e executar a fuga de Timothy Leary da penitenciária da Califórnia. Leary era conhecido por pregar o uso do LSD como forma de “abrir as portas da percepção” e suas ideias tiveram ampla influência nos movimentos de contra cultura (inspirou o nome do grupo The Doors). Depois de fugir Leary se dirigiu à Argélia onde se juntou a Eldridge Cleaver, líder dos Panteras Negras e ali lutaram pela libertação do país do domínio francês.

    4. A Mudança no Clima.

     

    No meio da década de 1970, o clima no subterrâneo começava a fechar e o vento da revolução já não soprava com a mesma intensidade. A Guerra do Vietnam chegara ao fim, com a humilhante derrota americana. Os Estados Unidos entraram em uma forte recessão e a sociedade em um clima de desesperança, com as sucessivas vitórias de presidentes conservadores. Mesmo na esquerda, o clima não era favorável. Houve um processo de fragmentação, no qual ganhou força o movimento feminista, ecologista, etc. Para piorar a situação, o FBI havia se infiltrado no grupo com uma unidade especial, provocando conflitos, desinformação e desconfianças, colocando todo o grupo em crise.

     

    Como acontece com os grupos clandestinos, quando chegam ao ponto da irrelevância, o Weather Underground começou a se devorar e se autodestruir. Perdera o sentido de sua existência e ficou reduzido a poucas pessoas, cerca de 30 na década de 1980. Como resultado, a maior parte do grupo se apresentou à justiça e se entregou. No entanto, a justiça americana não conseguiu condená-los, pois ao longo do processo de investigação a polícia cometeu tantas irregularidades que os processos não puderam ter sequência.

     

    O documentário, muito bem elaborado, e sem se perder em discursos morais, nos coloca, através da análise de um grupo específico, diante das esperanças e tragédias vivenciadas pela esquerda, em escala global, entre o final da década de 1960 e a metade da década de 1970: movimentos de massas exigindo democracia direta, o enfrentamento de um processo repressivo, a radicalização e a luta armada, por um lado, a fragmentação por outro. A derrota de ambas perspectivas pela derrocada do socialismo real e a vitória do neoliberalismo… Até que o vento mudasse novamente de direção.

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  • Žagarė: memória de um genocídio

    Žagarė: memória de um genocídio

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • Sobre o genocídio em Žagarė
    • Minhas impressões sobre a memória de um genocídio

    Žagarė: memória de um genocídio… Quando saí do Brasil carregava comigo uma obsessão: conhecer a Lituânia. Já na Lituânia de norte a sul de leste a oeste. Era o meu encontro com a terra natal da minha família. Ao chegar fui conduzido por uma amiga que em um fim de semana me convidou para conhecer a cidade onde vivia a sua família, localizada bem ao norte do país. Pegamos um ônibus em Kaunas e fomos para Joniškis, uma pequena cidade próximo a Šiauliai.

    Já na casa dela, fui recebido por seus pais e suas três irmãs mais novas e ali me deliciei com a farta comida: sopa de beterraba e bolinhos de carne de porco que foram servidos no café da manhã. Delicioso, mas pesado para quem não está acostumado.

    Seguimos para nossa jornada, as irmãs mais novas da minha amiga decidiram nos acompanhar. Conhecemos Šiauliai! Andamos pelas ruas principais e fomos ao gigantesco shopping, que estava vazio. Na parte da tarde, passamos horas simplesmente andando sem direção por algumas ruas. Buscamos por alguns lugares onde eu queria tirar fotos: a escola, o centro, a estação de trem.

    No dia seguinte, decidimos ir para o norte de Joniškis, depois de tomar a tradicional sopa lituana. Chegamos à cidade de Žagarė que parecia vazia e um tanto bagunçada depois de uma tremenda tempestade de verão. Žagarė é uma cidade muito particular na Lituânia, pois, durante o período do Império Russo foi zona de residência de judeus e ciganos. Pela sua localização, quase na divisa com a Letônia foi um ponto de passagem e comércio por séculos. Assim, a cidade teve seu tempo de glória, de desenvolvimento econômico e cultural ou, podemos dizer, multicultural.

    Essa história foi drasticamente interrompida pela brutalidade da Segunda Guerra Mundial, quando aproximadamente 2.500 judeus foram fuzilados e enterrados em uma vala comum. Hoje, no local, um gramado com um caminho de pedra e poucas arvores. No centro, um pequeno monumento em memória às vitimas do genocídio nazista.DSC03641 Diante deste monumento, minha amiga tentava explicar a sua irmã de oito anos o que tinha acontecido ali e o porque do pequeno monumento. A menina olhava a sua volta e não acreditava. Dizia não ser possível ter 2.000 pessoas enterradas naquele parque.Seu argumento era simples e comovente: não havia espaço suficiente para fazer cada um dos túmulos para essa quantidade de corpos.

    Era sem dúvida um argumento intrigante e nos colocava em uma situação complicada. Como explicar para uma criança que milhares de pessoas podem ser mortas e seus corpos atirados em uma vala comum? Minha amiga tentou explicar uma vez mais. A garotinha continuava olhando de um lado ao outro buscando algum sinal das covas e dos túmulos. Ela se aproximou de nós uma vez mais, com seus comentários, e nos disse que aquilo era muito errado. As pessoas não podem ser enterradas juntas, pois os familiares não poderiam reconhecer onde estavam os seus parentes?

    Os cemitérios na Lituânia são distintos do que estamos acostumados no Brasil. Eles são visíveis das estradas, das ruas e não são escondidos por muros. No geral, estão sempre muito arrumados, particularmente no verão e na primavera, quando arranjos de flores de diferentes tipos e cores são colocados. Pode ser que a ligação com os mortos das religiões tradicionais não exista mais. Pode ser pelo simples hábito ou para não ser difamado pelos vizinhos. Seja como for, os cemitérios são frequentemente visitados e arrumados. Dai nossa garotinha ficar ainda mais impressionada, afinal a colocamos diretamente e de uma vez diante de uma tragédia brutal.

    Com oito anos, ela entendeu muito rápido o sentido daquele genocídio, e que talvez seja o de qualquer genocídio (etnocídio): o de eliminar, esconder e principalmente fazer esquecer aqueles que foram mortos. Não bastaria eliminar fisicamente era preciso eliminar de cada memória a simples existência daquela comunidade. Fabricar um esquecimento é o que segue ao genocídio. Fazer os mortos perderam sua individualidade, suas histórias pessoais, suas relações com os descendentes. Desaparece da memória!

    Caminhar por aquele parque e escutar minha amiga explicar uma história tão difícil a sua inquieta irmã me fez repensar a importância da memória. Não deixar esquecer a brutalidade, do genocídio e da violência é uma tarefa árdua e que deve ser contínua. O que aconteceu em Žagarė deve ser lembrado, por mais doloroso que seja.

  • Lunfardo:  “o modo de falar que se opõe a língua” ?

    Lunfardo: “o modo de falar que se opõe a língua” ?

    • Lunfardo como idioma
    • Tango portenho
    • poesia e música

    Lunfardo. O universo do Tango que se desfruta nas noite de Buenos Aires e Montevidéu revela em sua musicalidade uma língua, ou um idioma, que se desenvolveu nas duas cidades portuárias. Uma mescla de idiomas trazidos por distintos tipos de imigrantes de todos os lugares da Europa, reminiscências de linguagem africanas e o dialeto do cárcere, do porto, do prostíbulo.

    A música que não era bem vista e  inadequada as meninas de família, até se tornar sofisticada e mesmo orgulho nacional. Contudo, é nos seus gestos, na sua musicalidade e nas letras que o tango revela sua história e origem popular. O contemporâneo Cacho Castaña na musica La Gata Varela já ensina que:

    Los que cantan a los gritos
    seguirán siendo aprendices
    porque el tango no se canta
    porque al tango se lo dice
    con la pausa y el silencio
    al que aluden los poetas
    despacito, poco a poco
    para que entiendan la letra

    Ouvir a letra de um Tango pode levar ao Lunfardo, o idioma de múltiplas origens que expressa a vivência dos setores mais baixos das cidades porteñas. Jorge Luis Borges chamou de “tecnología de la furca y de la ganzúa”. Não é propriamente uma língua, um idioma, um dialeto italiano, mas um modo de falar que se opõe à língua comum. A língua dos presos diante dos carcereiros ou dos portuários diante do explorador.

    images
    Tango nas ruas de Buenos Aires

    O Lunfardo é a Língua do Lupen… É a língua do fardo do trabalho ou da luta contra ele. Do Gaucho que não se adapta ao trabalho disciplinado exigida dos operários e tenta na “malandragem” continuar com sua vida livre. A complexidade e a mescla. São palavras de origem italianas, bascas e mesmo polacas que exigem um dicionário:
    http://www.elportaldeltango.com/dicciona.htm

    Lunfardo na poesia.

    Con este tango que es burlón y compadrito
    se ató dos alas la ambición de mi suburbio;
    con este tango nació el tango, y como un grito
    salió del sórdido barrial buscando el cielo;
    conjuro extraño de un amor hecho cadencia
    que abrió caminos sin más ley que la esperanza,
    mezcla de rabia, de dolor, de fe, de ausencia
    llorando en la inocencia de un ritmo juguetón.

    Por tu milagro de notas agoreras
    nacieron, sin pensarlo, las paicas y las grelas,
    luna de charcos, canyengue en las caderas
    y un ansia fiera en la manera de querer…

    Al evocarte, tango querido,
    siento que tiemblan las baldosas de un bailongo
    y oigo el rezongo de mi pasado…
    Hoy, que no tengo más a mi madre,
    siento que llega en punta ‘e pie para besarme
    cuando tu canto nace al son de un bandoneón.

    Carancanfunfa se hizo al mar con tu bandera
    y en un pernó mezcló a París con Puente Alsina.
    Triste compadre del gavión y de la mina
    y hasta comadre del bacán y la pebeta.
    Por vos shusheta, cana, reo y mishiadura
    se hicieron voces al nacer con tu destino…
    ¡Misa de faldas, querosén, tajo y cuchillo,
    que ardió en los conventillos y ardió en mi corazón.

    Analisando o vocabulário:

    Compadrito: Homem jovem do subúrbio, que imita a atitude dos compadres. Compadre é o Gaúcho absorvido pela cidade que manteve sua vestimenta e o comportamento de atitude e independência.

    Paica: (Muchacha), mulher

    Grelas: Mulher, (mugre, suciedad)

    Canyengue: efeito ritmo que se pode obter golpendo as cordas de um instrumento, ou com o uso do arco. É usado também como reunião em um baile

    Pernó: Um licor

    Shusheta: Pessoa que cuida de seguir a moda

  • Crônica de Um País Alpino

    Crônica de Um País Alpino

    Crônica escrita em 2010.

    Em um dia frio em Kaunas entrei no trem para ir a Vilnius. Mais um dia de trabalho! O Arquivo histórico do antigo Partido Comunista me esperava e eu por ele. Ainda com sono, completamente descolado no fuso horário, me atirei na poltrona nova do trem rápido. Rápido era só o nome da linha e não tem relação com a real velocidade do treco. Olhei pela janela. Gelo no chão. Arvores peladas. Passarinhos escondidos.

    Unknown

    Na poltrona, do outro lado do corredor, uma menina com mala e mochila virava e revirava um monte de mapas e livretos. Me olhou! Olhou para o mapa! Percebeu que eu era estrangeiro? Com certeza.

    Me olhou novamente e chegou perto. Com um inglês cheio de RRRRRRR e SSSSSS, me perguntou alguma coisa sobre um lugar que eu não tinha a menor ideia de onde ficava. Depois perguntou sobre outro lugar que consegui localizar no mapa. Ela queria ir para a cidade velha em Vilnius, um hostel. Problema resolvido com os mapas. Ficou ali sentada do meu lado. Silêncio constrangedor. Para puxar um papo, fiz aquela pergunta muito útil: de onde você é?

    – Da Eslovênia – me respondeu tirando a franja e arregalando os seus enormes olhos azuis que contrasta com sua pele branca e a sobrancelha negras como seus cabelos longos – Conhece?

    – Não… Nunca fui aos Balcãs…

    – Balcãs? No!!! No, Eslovênia não fica nos Balcãs – me olhou feio. Quase indignada

    – Ahhhhhh. Não?

    – Não! Fica nos Alpes. É um país Alpino!

    Putz ! Além de ignorante me senti velho. Estudei geografia no final da Guerra Fria. Em um tempo em que tudo o que ficava para lá de Berlim era Leste Europeu. Agora o Leste Europeu acabou. Ninguém mais quer ser do Leste. Assim como não querem ser mais Balcãs.

    Os países andam inventando a sua própria geografia para se reinventar no Ocidente. Quanto mais no Ocidente melhor. Ocidente é… Digamos, União Européia. Para os eslovenos, que foram um dos primeiros do “Leste” a serem aceitos na União Européia, é mais interessante inventar uma identificação com a Austria e com a Itália do que com a Sérvia. Viraram Alpino!

    Em Vilnius, você pode ir ao centro da cidade e pedir um diploma autenticado afirmando que você esteve no centro geográfico da Europa. Coisa inútil! Imagina colocar uma coisa dessas na parede da sua casa. A função desse papel é simplesmente afirmar: “não estamos no Leste. Esqueça a União Soviética e aquela geografia”.

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    Crônica de Um País Alpino

    Seja como for, minha ida para Vilnius seguiu silenciosa. A menina voltou para a sua poltrona. Maldita geografia pós-Soviética…

    Para mim, Alpino continua sendo o chocolate duro e doce embrulhado no papel dourado. Assim como o centro da Europa continua sendo Berlim queiram ou não. (isso foi uma ironia!).

  • FBI uma História dos seus Inimigos

    FBI uma História dos seus Inimigos

    • Sobre Tim Weiner
    • uma estimulante pesquisa
    • as polêmicas entorno de Edgar Hoover
    • Filme J Hoover de Clint Eastwood
    • Tim Weiner. Enemies. A History of the FBI.  New York, Random House, 2012.

    O livro Inimigos: Uma História do FBI, de Tim Weiner, é uma obra estimulante e instigante, pois busca traçar um amplo histórico do FBI, desde a sua fundação até o ataque  terrorista de 11 de setembro, além de apontar alguns dos problemas atuais da instituição e do sentimento de fracasso que se abateu sobre todos os órgão de inteligência americanos, após o ataque às Torres Gêmeas.

    Unknown

    O jornalista Tim Weiner é um autor reconhecido e premiado. Ele recebeu o Pulitzer (o principal prêmio nos EUA), pelo livro Legacy of Ashes, um livro dedicado a analisar a CIA. Durante anos, ele foi correspondente do jornal New York Times (entre outros) cobrindo a CIA e se tornou um especialista em temas relacionados a inteligência. Os jornalistas americanos, mesmo entre os conservadores, são capazes de realizar habilidosas e competentes pesquisas históricas e, eis aqui, um bom exemplo.

    Os Inimigos do FBI

    Uma  característica importante do trabalho de pesquisa do autor foi a utilização somente de materiais, documentos, “desclassificados” e, portanto de acesso público. Isso permite que o leitor interessado, como eu, busque as fontes sem dificuldades. Claro, que essa forma de trabalhar só é possível quando há uma política de arquivos (que não é perfeita, mas é melhor do que a nossa). Esse procedimento evita, também, as especulações, o uso de fontes ocultas e inventadas, como muitas vezes já vimos por essas terras.

    A narrativa proposta por Weiner é organizada de forma cronológica e o livro é dividido de acordo com a administração, ou seja, o presidente que governava. Esse é um procedimento clássico na história e no jornalismo norte-americano. Essa característica reforça um dos pontos fortes do livro: como cada presidente americano lidou com os órgão de segurança? Assim, somos informados sobre os dilemas de Roosevelt, os usos e abusos de  Nixon, a desconfiança com relação aos democratas, em particular Kennedy, e Clinton que deixou o FBI à míngua em termos de recursos.

    Quem foi Edgar Hoover? 

    Nessa relação entre a instituição e os presidentes a principal figura, e não poderia ser diferente, é John Edgard Hoover, pois foi ele foi o primeiro diretor do FBI e permaneceu no cargo de 22 de março de 1935 até 2 de maio de 1972, quando faleceu.  Portanto, dirigiu o FBI por 48 anos! (vou concentrar este post neste aspecto). Interessante notar que em um país com alternância democrática na presidência, um dos cargos mais importantes dentro da segurança de Estado tenha experimentado tamanha estabilidade.

    John Edgar Hoover, nasceu em Washington D.C em janeiro de 1895 e quando entrou nas forças policiais, enfrentava sobretudo as “ameaças” internas, os anarquistas, que haviam realizado diversos atentados nos EUA, e posteriormente os comunistas. Sem esquecer do combate ao crime organizado, que foi o que levou Hoover a fama. Após a Segunda Guerra Mundial foi Hoover quem preparou o FBI para enfrentar a Guerra Fria e, claro, o crime organizado.

    A análise e caracterização de Hoover realizada por Weiner é muito intrigante. O autor demonstra que o diretor do FBI era capaz de odiar igualmente qualquer coisa que demonstrasse uma ideologia… Que demonstrasse rejeição ou que se diferenciasse do “sonho americano”, dos “valores americanos”. Assim, perseguiu violentamente, e muitas vezes usando recursos ilegais: anarquistas, comunistas, o movimento negro, hippies,  mas também os movimentos racistas como a Ku Klux Klan e os movimentos que pregavam (ainda pregam) a supremacia ariana. Alguns dos seus “inimigos” foram personalidades públicas, como Luther King… e por aí vai!

    Outra característica de Hoover era o seu personalismo. Em muitos casos tratava pessoalmente das operações e mantinha um arquivo próprio de informações. Em muitos documentos as instruções e as comunicações eram realizadas com um E. H., na borda, indicação clara de quem dera a instrução e como deveria ser seguida.

    Hoover homossexual?

    Um ponto polêmico do livro é a análise da relação entre Hoover e seu principal assistente: Clyde Tolson. Na literatura recente sobre Hoover encontramos de forma explicita e / ou  sugerida a homossexualidade de Hoover e os dois são frequentemente descritos como amantes. Esse aspecto foi explorado em algumas biografias e até no cinema. Tim Weiner descarta essa ideia, para o autor, Hoover não manteve relações sexuais com Tolson ou com “qualquer outro ser vivo”. Assim, para ele, Hoover era “assexuado” (palavra minha e não do autor).

    Parece um argumento estranho, para dizer o mínimo, porém a visão de Weiner sobre o contexto da sociedade americana é mais interessante do que qualquer argumento sobre esse aspecto. Afinal, cabe questionar: Qual é a relevância desse fato (se foi um fato)?  Qual a relevância em se saber se o diretor do FBI era ou não homossexual? Não seria esta uma questão secundária? Uma questão privada para além das ações públicas de Hoover?

    FBI e a perseguição aos homossexuais

    Seria! Ocorre que entre as páginas mais obscuras da história do FBI está a de uma ampla perseguição aos considerados “desviados” sexualmente. Neste “desvio”, os principais “inimigos” foram os homossexuais e as prostitutas. Assim, o debate (se é que é um debate) seria até que ponto a orientação sexual de Hoover teria influenciado nas ações persecutórias?  Como dissemos, Weiner descarta essa questão, como fantasia.

    Do meu ponto de vista, pois o debate se perdeu entre as caricaturas formadas sobre Hoover. As perseguições políticas ou motivadas por questões morais não são parte de uma escolha individual de quem ocupe um lugar de poder (e no caso de Hoover um destacado lugar de poder!). As medidas tomadas pelo Estado contra um grupo social devem ser explicadas pelo contexto social, muito mais do que por uma “pseudo psicologia de boteco”! Aqui, pontos para o autor, por saber inserir a figura pública no contexto histórico (o que é sempre muito complicado!)

    Por fim! 

    O livro começa com um dilema clássico nas Ciências Políticas: liberdade individual x segurança coletiva. Um dilema que perseguiu todos os pensadores políticos e todos aqueles que ocuparam lugar de poder no Estado. Um dilema que sempre se coloca quando o Estado precisa de órgãos de segurança e inteligência, como FBI.

    Quais são os limites do poder de vigilância? O que é legítimo em nome da segurança? A leitura do livro nos coloca o tempo todo, essa questão. Obviamente que o autor, claramente um liberal, não resolve, mas conhecer a trajetória do FBI, e em particular os dilemas de Hoover, nos ajuda a refletir, principalmente neste tempo em que temos a invasão do privado e dos escândalos de  espionagem, por um lado, e por outro o trauma dos atentados terroristas. Eis os desafios para a sociedade americana e para o próprio FBI.

    J. Edgar Hoover no Cinema.

    Interessante observar a diferença, sobre a questão da homosexualidade, abordada no filme J Edgar, dirigido por Clint Eastwood e com Leonardo DiCaprio no papel principal. O filme assume a versão de que Hoover era homosexual, embora não coloque cenas explícitas do relacionamento.

    Uma cena que nos chama a atenção é a que os dois vestidos em roupão entram em uma briga violenta em um hotel. Este episódio é relatada em diferentes biografias de Hoover, mas Weiner a descarta como verídica. No filme a parte mais explícita do suposto relacionamento de Hoover com seus principal assistente.

    Novamente é preciso dizer que se Hoover era homosexual ou não seria uma questão privada do que pública! Se não fosse o fato de o FBI nas primeiras décadas de atividade não tivesse articulado uma perseguição sistêmica aos homosexuais.

    • Leia também a obra do mesmo autor sobre a CIA (Aqui)
  • Inimigos: uma História do FBI

    Inimigos: uma História do FBI

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • Tim Weiner. Enemies. A History of the FBI.  New York, Random House, 2012.
    • sobre Tim Weiner
    • uma estimulante pesquisa
    • as polêmicas entorno de Edgar Hoover
    • Filme J Hoover de Clint Eastwood

    O livro Inimigos: Uma História do FBI, de Tim Weiner, é uma obra estimulante e instigante que busca traçar um amplo histórico do FBI, desde a sua fundação até o ataque  terrorista de 11 de setembro, além de apontar alguns dos problemas atuais da instituição e do sentimento de fracasso que se abateu sobre todos os órgão de inteligência americanos, após o ataque às Torres Gêmeas.

    O jornalista Tim Weiner é um autor reconhecido e premiado. Recebeu o Pulitzer (o principal prêmio nos EUA) pelo livro Legacy of Ashes, um livro dedicado a analisar a CIA. Durante anos, ele foUnknowni correspondente do jornal New York Times (entre outros) cobrindo a CIA e se tornou um especialista em temas relacionados a inteligência. Ao contrário dos jornalistas brasileiros, muitos jornalistas americanos, mesmo entre os conservadores, são capazes de realizar habilidosas e competentes pesquisas históricas e, eis aqui, um bom exemplo.

    Uma  característica importante do trabalho de pesquisa do autor foi a utilização somente de materiais, documentos, “desclassificados” e, portanto de acesso público. Isso permite que o leitor interessado, como eu, busque as fontes sem dificuldades. Claro, que essa forma de trabalhar só é possível quando há uma política de arquivos (que não é perfeita, mas é melhor do que a nossa). Esse procedimento evita, também, as especulações, o uso de fontes ocultas e inventadas, como muitas vezes já vimos por essas terras.

    A narrativa proposta por Weiner é organizada de forma cronológica e o livro é dividido de acordo com a administração, ou seja, o presidente que governava. Esse é um procedimento clássico na história e no jornalismo norte-americano. Essa característica reforça um dos pontos fortes do livro: como cada presidente americano lidou com os órgão de segurança? Assim, somos informados sobre os dilemas de Roosevelt, os usos e abusos de  Nixon, a desconfiança com relação aos democratas, em particular Kennedy, e Clinton que deixou o FBI à míngua em termos de recursos.

    Quem foi Edgar Hoover? 

    Nessa relação entre a instituição e os presidentes a principal figura, e não poderia ser diferente, é John Edgard Hoover, pois foi ele foi o primeiro diretor do FBI e permaneceu no cargo de 22 de março de 1935 até 2 de maio de 1972, quando faleceu.  Portanto, dirigiu o FBI por 48 anos! (vou concentrar este post neste aspecto). Interessante notar que em um país com alternância democrática na presidência, um dos cargos mais importantes dentro da segurança de Estado tenha experimentado tamanha estabilidade.

    John Edgar Hoover, nasceu em Washington D.C em janeiro de 1895 e quando entrou nas forças policiais, enfrentava sobretudo as “ameaças” internas, os anarquistas, que haviam realizado diversos atentados nos EUA, e posteriormente os comunistas. Sem esquecer do combate ao crime organizado, que foi o que levou Hoover a fama. Após a Segunda Guerra Mundial foi Hoover quem preparou o FBI para enfrentar a Guerra Fria e, claro, o crime organizado.

    A análise e caracterização de Hoover realizada por Weiner é muito intrigante. O autor demonstra que o diretor do FBI era capaz de odiar igualmente qualquer coisa que demonstrasse uma ideologia… Que demonstrasse rejeição ou que se diferenciasse do “sonho americano”, dos “valores americanos”. Assim, perseguiu violentamente, e muitas vezes usando recursos ilegais: anarquistas, comunistas, o movimento negro, hippies,  mas também os movimentos racistas como a Ku Klux Klan e os movimentos que pregavam (ainda pregam) a supremacia ariana. Alguns dos seus “inimigos” foram personalidades públicas, como Luther King… e por aí vai!

    Outra característica de Hoover era o seu personalismo. Em muitos casos tratava pessoalmente das operações e mantinha um arquivo próprio de informações. Em muitos documentos as instruções e as comunicações eram realizadas com um E. H., na borda, indicação clara de quem dera a instrução e como deveria ser seguida.

    Hoover homossexual?

    Um ponto polêmico do livro é a análise da relação entre Hoover e seu principal assistente: Clyde Tolson. Na literatura recente sobre Hoover encontramos de forma explicita e / ou  sugerida a homossexualidade de Hoover e os dois são frequentemente descritos como amantes. Esse aspecto foi explorado em algumas biografias e até no cinema. Tim Weiner descarta essa ideia, para o autor, Hoover não manteve relações sexuais com Tolson ou com “qualquer outro ser vivo”. Assim, para ele, Hoover era “assexuado” (palavra minha e não do autor). Parece um argumento estranho, para dizer o mínimo, porém a visão de Weiner sobre o contexto da sociedade americana é mais interessante do que qualquer argumento sobre esse aspecto. Afinal, cabe questionar: Qual é a relevância desse fato (se foi um fato)?  Qual a relevância em se saber se o diretor do FBI era ou não homossexual? Não seria esta uma questão secundária? Uma questão privada para além das ações públicas de Hoover?

    Seria! Ocorre que entre as páginas mais obscuras da história do FBI está a de uma ampla perseguição aos considerados “desviados” sexualmente. Neste “desvio”, os principais “inimigos” foram os homossexuais e as prostitutas. Assim, o debate (se é que é um debate) seria até que ponto a orientação sexual de Hoover teria influenciado nas ações persecutórias?  Como dissemos, Weiner descarta essa questão, como fantasia.

    Do meu ponto de vista creio que o debate se perdeu entre as caricaturas formadas sobre Hoover. As perseguições políticas ou motivadas por questões morais não são parte de uma escolha individual de quem ocupe um lugar de poder (e no caso de Hoover um destacado lugar de poder!). As medidas tomadas pelo Estado contra um grupo social devem ser explicadas pelo contexto social, muito mais do que por uma “pseudo psicologia de boteco”! Aqui, pontos para o autor, por saber inserir a figura pública no contexto histórico (o que é sempre muito complicado!)

    Por fim! 

    O livro começa com um dilema clássico nas Ciências Políticas: liberdade individual x segurança coletiva. Um dilema que perseguiu todos os pensadores políticos e todos aqueles que ocuparam lugar de poder no Estado. Um dilema que sempre se coloca quando o Estado precisa de órgãos de segurança e inteligência, como FBI. Quais são os limites do poder de vigilância? O que é legítimo em nome da segurança? A leitura do livro nos coloca o tempo todo, essa questão. Obviamente que o autor, claramente um liberal, não resolve, mas conhecer a trajetória do FBI, e em particular os dilemas de Hoover, nos ajuda a refletir, principalmente neste tempo em que temos a invasão do privado e dos escândalos de  espionagem, por um lado, e por outro o trauma dos atentados terroristas. Eis os desafios para a sociedade americana e para o próprio FBI.

    J. Edgar Hoover no Cinema.

    Interessante observar a diferença, sobre a questão da homosexualidade, abordada no filme J Edgar, dirigido por Clint Eastwood e com Leonardo DiCaprio no papel principal. O filme assume a versão de que Hoover era homosexual, embora não coloque cenas explícitas do relacionamento.

    Uma cena que nos chama a atenção é a que os dois vestidos em roupão entram em uma briga violenta em um hotel. Este episódio é relatada em diferentes biografias de Hoover, mas Weiner a descarta como verídica. No filme a parte mais explícita do suposto relacionamento de Hoover com seus principal assistente.

    Novamente é preciso dizer que se Hoover era homosexual ou não seria uma questão privada do que pública! Se não fosse o fato de o FBI nas primeiras décadas de atividade não tivesse articulado uma perseguição sistêmica aos homosexuais.

    De toda forma, vale conferir o filme também. Eu assisti pela Netflix.

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