Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter: @erickrgzen 
 
  • O radicalismo político na década de 1970
  • A formação do grupo armado
  • A clandestinidade
  • A mudança no clima

O Clima do Subterrâneo… Normalmente quando pensamos nos movimentos sociais nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970 sempre tomamos como referência os movimentos pacifistas, como o hippie, o movimento negro liderado por Martin Luther King ou os demais movimentos de contra cultura. Assim, pouco refletimos sobre os movimentos que passaram à luta armada, como os Panteras Negras ou aquele que é o menos conhecido: o Weather Underground. Um grupo reduzido, mas que produziu diversos atentados a bomba ao longo da década de 1970.

 

Por ser o menos conhecido dos grupos é que o documentário de Weather Underground de Sam Green e Bill Sigel se tornou uma referência para pensarmos o que significou da passagem dos movimentos pacifistas de massa para a luta armada no habito da esquerda naquelas décadas. No caso norte- americano, abordar esse tema se faz ainda mais complicado devido aos traumas causados pelos atentados de 11 de Setembro e também, pelo mortífero atentado realizado por um extremista de direita em Oklahoma.

O documentário combina documentos históricos, filmes, fotos, leitura de trechos de memórias com depoimentos de ex-integrantes do grupo, entre eles Mark Rudd, Brian Flanagan, David Gilbert, Bill Ayeres, Brian Flanagan. Os depoimentos funcionam tanto como fio condutor da história como inserem momentos de reflexão na busca por motivos, explicações e justificativas para as opções que tomaram naquele período. O documentário também apresenta, de forma competente, o contexto histórico em que o movimento se inseriu e a recuperação do “clima” da época é a melhor contribuição do documentário (e ao meu ver a melhor contribuição que qualquer documentário histórico pode oferecer).

  1. E qual contexto era esse?

No final da década de 1960, os movimentos sociais pacifistas que lutavam contra a guerra do Vietnã e pelo movimento negro chegaram a um impasse! Por maior que fossem as suas manifestações de massa, as marchas e as outras formas de protestos a direita continuava a vencer as eleições e a ofensiva militar no Vietnã era cada vez maior e mais violenta.

Esse impasse marcou o congresso organizado pelos Estudantes por uma Sociedade Democrática em 1969. A organização foi fundada entre os estudantes universitários e adotava táticas pacifistas de manifestação e por isso crescera rapidamente durante a luta contra a guerra do Vietnam. No congresso, a liderança da organização passou para as mãos de um pequeno grupo denominado Weathermen (O homem do Tempo) que pregava ações violentas e de enfrentamento contra o Estado. O nome Weathermen foi inspirado na letra de uma música de Bob Dylan: “Não é necessário um meteorologista para saber para qual direção sopra o vento”. E o vento, em 1969, soprava para a revolução em diversas partes do mundo que assistia às ações dos Panteras Negras, do Partido Comunista no Japão, em Angola (luta contra os portugueses). Revolução cultural chinesa, França, México, Vietnã, Congo, Alemanha…

Bob Dylan, Subterranean Homesick Blues
 
Maggie comes fleet foot
Face full of black soot
Talkin’ that the heat put
Plants in the bed but
The phone’s tapped anyway
Maggie says that many say
They must bust in early May
Orders from the DA
Look out kid
Don’t matter what you did
Walk on your tip toes
Don’t try, ‘No Doz’
Better stay away from those
That carry around a fire hose
Keep a clean nose
Watch the plain clothes
You don’t need a weather man
To know which way the wind blows.
 

2. A Radicalização Política

Para completar o quadro, o ano de 1969 marcou o fim da esperança no movimento “paz e amor” e dois eventos se tornaram símbolo do fim de festa hippie: os assassinatos liderados por Charles Manson e sua seita “Família” e o assassinato cometido pela gangue de motociclistas, Hell Angels durante um show dos Rolling Stones no Altamont Speedway, na Califórnia.

Sob a liderança dos Weathermen, a Sociedade Democrática chamou a manifestações com um discurso de enfrentamento, anunciando o início do chamado “Dias de Fúria”… Foi um fracasso! A manifestação em Chicago reuniu entre 150 e 200 pessoas e o conflito com a polícia se generalizou pelas ruas da cidade.

 

Para além das manifestações, os estudantes deram início a um movimento de “sair do campus” e formar casas coletivas nos bairros operários. A ideia era abandonar a vida burguesa dos campus universitários e se juntar à luta dos trabalhadores. Era um movimento subversivo, pois a liberação do mundo burguês significava o abandono da sua moral e pela busca da liberdade sexual, abandonando a monogamia, do culto à heterossexualidade, do machismo, etc.

O movimento buscava, assim, construir uma base operária e libertária, mas não teve êxisto, pois mesmo os Panteras Negras rejeitavam a proximidade com o movimento. Os Panteras os viam como brancos, pequeno burgueses, que utilizavam métodos infantis de enfrentamento. Mesmo sem o apoio o Weathermen buscou sempre a proximidade com o movimento negro e reagiu à extrema violência do Estado americano posta contra essa organização.

 

O então presidente Nixon estava decidido a destruir os Panteras Negras e essa determinação levou a polícia a assassinar uma importante liderança revolucionária negra: Fred Hampton, um jovem que ficou conhecido pelos seus discursos eloquentes e organização de manifestações. Sob o pretexto de buscar armas em sua casa, a polícia o fuzilou, enquanto ele dormia. A resposta dos Panteras Negras foi abrir a casa de Hampton a visitação pública, mostrando a quem quisesse a quantidade de furos de bala na casa e o colchão repleto de sangue onde ele dormia no momento de seu assassinato.

3. A Clandestinidade

 

Diante da violência de Estado, o Weathermen decidiu responder com violência e adotou seu famoso lema: “Trazer a Guerra para Casa”. A ideia principal era promover uma série de eventos catastróficos que pudessem “despertar” o público americano para os horrores da guerra. O primeiro projeto fracassou, pois no momento em que um pequeno grupo montava uma bomba em uma casa na cidade de Nova York ela acidentalmente explodiu e matou os três integrantes.

 

Com a explosão e a pressão do Estado o Weathermen teve que passar para a clandestinidade, formou-se assim o Weather Underground (O Clima no Subterrâneo). A explosão também levou a uma reflexão sobre a tática a ser utilizada, por um lado havia um entendimento de que “não havia inocentes” nos EUA, por outro não se desejavam ataques que pudessem matar civis. Assim, os alvos do grupo tinham objetivos simbólicos e não pessoas.

O primeiro atentado, por exemplo, teve como alvo o edifício sede da administração penitenciária em resposta à morte de George Jackson, um importante líder do movimento negro dentro dos presídios, morto em uma suspeita tentativa de fuga. A partir daí uma série de atentados, nenhum deles causando mortes, foram realizados até o ano de 1975, incluindo o Capitólio, a Universidade de Harvard, a sede da polícia de Nova York…

 

Uma das ações mais espetaculares do grupo foi planejar e executar a fuga de Timothy Leary da penitenciária da Califórnia. Leary era conhecido por pregar o uso do LSD como forma de “abrir as portas da percepção” e suas ideias tiveram ampla influência nos movimentos de contra cultura (inspirou o nome do grupo The Doors). Depois de fugir Leary se dirigiu à Argélia onde se juntou a Eldridge Cleaver, líder dos Panteras Negras e ali lutaram pela libertação do país do domínio francês.

4. A Mudança no Clima.

 

No meio da década de 1970, o clima no subterrâneo começava a fechar e o vento da revolução já não soprava com a mesma intensidade. A Guerra do Vietnam chegara ao fim, com a humilhante derrota americana. Os Estados Unidos entraram em uma forte recessão e a sociedade em um clima de desesperança, com as sucessivas vitórias de presidentes conservadores. Mesmo na esquerda, o clima não era favorável. Houve um processo de fragmentação, no qual ganhou força o movimento feminista, ecologista, etc. Para piorar a situação, o FBI havia se infiltrado no grupo com uma unidade especial, provocando conflitos, desinformação e desconfianças, colocando todo o grupo em crise.

 

Como acontece com os grupos clandestinos, quando chegam ao ponto da irrelevância, o Weather Underground começou a se devorar e se autodestruir. Perdera o sentido de sua existência e ficou reduzido a poucas pessoas, cerca de 30 na década de 1980. Como resultado, a maior parte do grupo se apresentou à justiça e se entregou. No entanto, a justiça americana não conseguiu condená-los, pois ao longo do processo de investigação a polícia cometeu tantas irregularidades que os processos não puderam ter sequência.

 

O documentário, muito bem elaborado, e sem se perder em discursos morais, nos coloca, através da análise de um grupo específico, diante das esperanças e tragédias vivenciadas pela esquerda, em escala global, entre o final da década de 1960 e a metade da década de 1970: movimentos de massas exigindo democracia direta, o enfrentamento de um processo repressivo, a radicalização e a luta armada, por um lado, a fragmentação por outro. A derrota de ambas perspectivas pela derrocada do socialismo real e a vitória do neoliberalismo… Até que o vento mudasse novamente de direção.

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