Autor: Erick Zen

  • Mataram Alfonas Marma em e-book 

    Mataram Alfonas Marma em e-book 

    • Livro biografia política
    • Formato e-book
    • História do Brasil

    Para quem gosta do formato e-book o meu livro Mataram Alfonsas Marma. imigração, comunismo e repressão publicado em parceria com a editora Aped já pode ser encontrado em diferentes plataformas.

    O livro é uma breve biografia política de um imigrante lituano que no Brasil e no Uruguai se formou jornalista e gráfico comunista. Por suas ideais e ideais foi assassinado pela polícia política.

    Em 1949, a polícia de São Paulo matou três militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) na cidade de Tupã. Entre eles o lituano Alfonsas Marma. Escritor e gráfico na imprensa comunista lituana no Brasil, Alfonsas foi expulso do país por sua atividade política, em 1930. Se estabeleceu no Uruguai no mesmo ano e, em Montevidéu, contribuiu para a fundação de importantes jornais lituanos comunistas.

    Alfonsas Marma e o retorno ao Brasil

    Na metade da década de 1930, Marma voltou ao Brasil e se tornou o responsável pela produção e publicação dos principais jornais comunistas e de esquerda no país. Suas armas de luta política sempre foram as ideias e a imprensa. Por essa razão, foi novamente preso e ao ser posto em liberdade foi, pouco tempo depois, assassinado.

    Amigos e camaradas de Partido Comunista no Brasil e no Uruguai voltaram à Lituânia Soviética na década de 1950 e lá, a história de Marma, passou a ser lembrada em livros de memória, em homenagens pública e em artigos de jornais, principalmente nas datas de seu aniversário de nascimento e morte. Com o fim da URSS, ele foi posto no esquecimento na sua terra natal. No Brasil, a História pouco nos diz sobre os crimes políticos cometidos no chamado período democrático e, aqui, ele é pouco lembrado. A obra é uma biografia que busca reconstituir, a partir de pesquisas realizadas no Brasil, Uruguai e na Lituânia, a trajetória deste imigrante

    Os links de venda:

    https://store.kobobooks.com/pt-BR/ebook/mataram-alfonsas-marma

    http://www.livrariacultura.com.br/p/mataram-alfonsas-marma-90976163

    http://www.saraiva.com.br/mataram-alfonsas-marma-8900196.html

  • Bernie Sanders Um “Socialista” na Casa Branca?

    Bernie Sanders Um “Socialista” na Casa Branca?

    • A pré-candidatura de Bernie Sanders
    • Uma análise da trajetória
    • Sobre as suas ideias

    A mídia tem destacado recentemente a candidatura do midiático, machista, anti-imigrantes, anti-latinos, anti-China e anti-etc. Donald Trump. Com seu jeito espalhafatoso, cabelo engraçado e sem nenhuma educação – em recente debate chegou a perguntar a uma mulher que o questionava se ela estava “no seu período” (TPM) – o candidato tem chamado a atenção de todo o mundo, mais pelas suas bobagens do que pelas suas propostas. Contudo, o fato mais relevante dessas eleições primárias – período de definições dos candidatos nos dois partidos – está do lado Democrata, com o crescimento de Bernie Sanders.

    Em sua página, Bernie Sanders se define como um “democrata socialista”. Seu programa de governo é uma ruptura tanto com as plataformas do atual presidente Obama, como com as tradicionais plataformas apresentados pelos candidatos Democratas. Sua trajetória política não deixa dúvidas sobre o seu desejo de mudar os Estados Unidos. Ao longo de muitos anos como congressista, a maior parte das vezes eleito de forma independente, sem vínculos com Democratas ou Republicamos, ele defendeu as posições mais progressistas. Entre elas: sistema de saúde universal, direito LGBT, igualdade de pagamento para homens e mulheres, igualdade racial, etc.

    Bernie Sanders uma trajetória pelos Direitos Civis

    No Congresso foi um dos poucos a votar contra a Guerra no Iraque durante o governo Bush. Criticou ainda ferrenhamente o corte de impostos para os ricos feitas por este presidente. Posicionou-se contra o USA Patriotic Act, adotado após o atentado terrorista de 11 de setembro, que deu enormes poderes de espionagem e retirou direitos civis. Mais recentemente se tornou um dos críticos dos programas de espionagem defendendo, como sempre, os direitos civis.

    Sua paixão pelos direitos civis tem uma longa trajetória e um acúmulo de experiência que deixam claro não se tratar de um oportunista. Ele é um militante histórico em prol das causas em que acredita. Iniciou sua carreira na juventude da Liga Popular Socialista, participou ativamente da luta pelos Direitos Civis na década de 1960, do histórico Congresso pela Igualdade Racial, bem como diretamente se envolveu no movimento estudantil pacifista contra a Guerra do Vietnã. Em 1963, ele participou da Marcha de Washington por Emprego e Paz.

    No seu Estado, Vermont, foi eleito Mayor por três vezes prefeito de Burlington, a principal cidade. Serviu como Congressista deste Estado por dezesseis anos e foi eleito Senador em 2006 e reeleito em 2012 com 71% dos votos.

    Desta forma, Sanders reúne duas características muito importantes: uma ampla trajetória e larga experiência na administração pública, além de uma incondicional luta pelos direitos das minorias. Sua visão de economia também é bastante diferente da dos demais candidatos. Ele não defende uma forma de liberalismo, mas a de ver nos países nórdicos um possível horizonte. Assim, propõe que os mais ricos paguem mais impostos e que o Estado seja provedor de melhores e universais serviços públicos, como saúde, educação, etc.

    Bernie Sanders é um candidato de esquerda?

    Não há dúvida de que Sanders é o candidato mais à esquerda que os Estados Unidos tiveram na sua história recente. Ao menos com chances reais de vitória. No entanto, o seu radicalismo político está longe da esquerda radical europeia ou latino-americana. Sua visão de transformação está mais próxima a uma humanização do sistema econômico, através de garantias de direitos universais através do Estado

    Se Sanders vai superar Clinton ainda é cedo para saber. Nas últimas pesquisas ele já aparece muito bem posicionado. Mesmo diante dos possíveis candidatos Republicanos, o que tem aumentado significativamente as suas chances de vitória nas primárias.

    Analisando o conjunto, o comportamento do eleitorado americano, ao que parece, está buscando, por um lado ou pelo outro, um candidato fora do status quo da política atual. Assim, o esperado e quase dado como certo, embate entre em os clãs Clinton e Bush está ficando para trás.

    E nós?

    O que é surpreendente, ou nem tanto, é que a mídia brasileira esteja dando tamanho espaço para Donald Trump. Ela nem mesmo olhe para as outras possibilidades. Ela parece preferir alguém que seja machista, anti-imigrantes, liberal e veja todo o resto do mundo como uma ameaça. Talvez a mídia brasileira veja no candidato midiático seu próprio reflexo e desejo. Por sorte a sociedade americana é bem mais complexa do que os jogos televisivos de humilhação coletiva.

  • Apresentação dos meus livros, em palestra

    • Apresentação dos meus livros
    • Semana de História
    • Identidade em Conflito

    Boa noite a todos! Obrigado por permitirem realizar o lançamento e a apresentação dos meus livros na Semana de História, mesmo as obras não tratando do tema específico desta Semana. Por isso mesmo agradeço, mais uma vez, a coordenação e aos alunos que apoiaram a difusão do meu trabalho.

    Me cabe, nestes quinze minutos, para fazer a apresentação dos meus livros, ou os dois, nos últimos anos: Identidade em Conflito: os imigrantes lituanos na Argentina, no Brasil e no Uruguai (1924-1950) (EdUFSCar, 2014) e Mataram Alfonsas Marma: Imigração, Comunismo e Repressão (Aped, 2015). Os dois livros nasceram de uma mesma pesquisa realizada durante o meu doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e que recebeu apoio da Fapesp.

    A pergunta que muitos me fazem, quando faço a apresentação dos meus livros, é: Por que dedicar uma pesquisa a um grupo de imigrantes que é tão pequeno em número se comparados com os italianos, espanhóis, japoneses, etc.? A primeira resposta é que é justamente por isso. Os estudos migratórios sempre se dedicaram aos grupos majoritários. Não é à toa que se tornaram um tanto quanto repetitivos em tema. Assim, os grupos minoritários sempre receberam uma atenção menor.

    Como sabemos, nossa sociedade é composta de mais de uma centena de grupos de imigrantes. A imigração, emigração e migração sempre foram parte da nossa formação social. Esses movimentos devem ser considerados, portanto, como parte da nossa sociedade e receber uma atenção especial por parte dos pesquisadores sociais na sua plena diversidade. Isso tanto para temas sociais relacionados à história como às questões contemporâneas.

    Imigração, emigração e migração são temas importantes para a sociedade brasileira, basta vermos as movimentações populacionais no nosso dia-a-dia aqui mesmo no Vale do Ribeira, ou as notícias sobre as agressões sofridas por imigrantes haitianos e africanos nos dias atuais. Da mesma forma, considero importante observar os discursos sobre esses imigrantes, como as acusações de infiltração no país, de que seriam treinados militarmente ou que trariam algum tipo de ideologia política ou doutrina religiosa ao país. Essas acusações, que parecem tão novas e modernas realizadas por jovens, são bastante antigas na nossa história, cada leva de imigrante que aqui aportou as sofreu na carne. Ainda assim, esses mitos da conspiração continuam a ser difundidos por ignorantes travestidos de filósofos.

    Voltando ao tema especificamente dos meus livros, em particular do primeiro, Identidade em conflito ele recebeu certo destaque não só por tratar de um grupo minoritário, mas pela metodologia. Normalmente, as histórias sobre imigrantes europeus (e japoneses também) são apologéticas, algo como: viram, vieram e agora são parte da feliz classe média paulista, contribuindo para o país, mas mantendo alguns traços culturais de sua origem.

    Bonito! Mas aqui o que falta é justamente a História. Uma História da imigração que inclua movimentos políticos, como comunismo, fascismo, nazismo, etc. Que também inclua o tráfico humano e a prostituição. Uma História que pudesse traduzir os conflitos com o Estado brasileiro e os conflitos entre os imigrantes em seus distintos projetos políticos no Brasil.

    Para além desse aspecto, é preciso considerar que os imigrantes mantinham laços de comunicação e solidariedade com os mesmo grupos (de mesma origem) em outros países, como na Argentina e no Uruguai. Essa troca de informações, esse trânsito de pessoas foi, também, parte da formação da identidade dos imigrantes. Portanto, é necessário realizar uma História que se desprenda das formas dos Estados Nacionais.

    Grande parte da nossa escrita da história toma o Estado Nacional como um pressuposto necessário. Então, escreveríamos algo como: os lituanos no Brasil, por exemplo, mas aqui é preciso notar o quanto as fronteiras nacionais são, na realidade, permeáveis. Há uma História que está além das definições apriorísticas das fronteiras nacionais. Eis a questão: Por que delimitar os objetos de estudo de história dentro de uma fronteira nacional? Essa tentativa de superar, ou de ir além do aprisionamento dos objetos da História dentro do Estado Nação, é denominada de História transnacional.

    Essa transnacionalidade dos fenômenos imigratórios foi o que eu me propus a entender, considerando o pequeno grupo dos imigrantes lituanos como objeto de estudo.

    Isso nos leva ao segundo livro: Mataram Alfonsas Marma. Esse pequeno livro, como já mencionei, é resultado desta mesma pesquisa. Quando eu pesquisava para o meu doutorado me deparei com uma série de personagens que mereciam uma atenção em especial e Alfonsas Marma foi um deles.

    Outros dois motivos me motivaram a trabalhar nesta obra. Primeiro nós historiadores no Brasil nos dedicamos muito pouco ao gênero biografia. Normalmente, as biografias são, ainda, associadas a livros de fofocas ou das chamadas “celebridades”, muito embora tenhamos ótimos livros e excelentes pesquisas biográficas. Assim, a biografia é um gênero muito importante para nós e que devemos olhar com atenção, e eu desejava fazer um primeiro trabalho (espero que não seja o último) neste gênero.

    O segundo motivo, e esse mais complicado, se refere à violência política entre os anos de 1946 e 1949. Temos alguns documentos que apontam para ao menos 55 assassinatos políticos praticados por agentes do Estado, neste período. Entre estes crimes políticos está, justamente, o assassinato de Alfonsas Marma pela Força Pública do Estado de São Paulo.

    Quando comecei a escrever o livro, um debate que considero complicadíssimo acontecia. Era o período de início dos trabalhos da Comissão da Nacional da Verdade. A lei que estabeleceu o seu funcionamento, originalmente, previa que as investigações deveriam abranger o período de 1946 até o fim da Ditadura civil-militar, abrangendo assim as duas transições de ditaduras para democracia.

    No entanto, uma enorme pressão política, inclusive de intelectuais e militantes da esquerda, forçou a Comissão a limitar os seus trabalhos apenas sobre o período da segunda ditadura. Desta forma, todos os assassinados no período entre as ditaduras foram simplesmente abandonados…

    Esse abandono foi sem dúvida um estímulo para que eu pudesse escrever uma biografia recuperando a trajetória de um dos ativistas políticos que tinha sido deixado sem verdade, portanto, sem memória. Tenho a esperança de que outros historiadores, com o tempo, recuperem cada um dos casos.

    Espero que minha introdução e a apresentação dos meus livros tenha sido um convite à leitura. Desde a publicação dos dois livros já tomei muitas broncas e tive uma dezena de brigas por conta das minhas ideias.Isso significa que se os livros não são bons… Ao menos não puderam ser ignorados!

    Obrigado a todos e boa noite!

  • Sobre Mia Couto: email de uma aluna

    Sobre Mia Couto: email de uma aluna

    Ontem, por motivos diversos, não pude fazer um debate sobre um texto do Mia Couto que havia programado para uma disciplina curso de Psicologia… E qual não foi a minha surpresa quando abri o meu email  e encontrei esse texto da Marina Campos. Vale a a reflexão.

    (…) eu gostaria de comentar sobre a leitura sugerida para a aula. O texto do Mia Couto “Línguas que não sabemos que sabíamos”.

       Eu nunca havia lido nada de Mia Couto e confesso que achei o texto perfeito e acredito que daria espaço para uma boa discussão do tema que aborda uma forma de pensar a língua muito abrangente, muito além do simples falar ou ouvir o que se fala. Ele traz uma crítica ao sistema atual que prende o sujeito a uma cultura única de linguagem e à tecnologia como não sendo um elemento de salvação para o problema de comunicação e entendimento.

       Vai além dos paradoxos de uma língua que supera estereótipos.

       E o homem, diversificado em línguas, pode se tornar um grande ignorante na leitura e no diálogo com os conhecedores da palavra local, e sua grande arma talvez seja a sensibilidade.

       Não sei se esses seriam exatamente os pontos que o professor abordaria em sala porque o texto abre um leque de assuntos sobre a língua. Remete história, cultura, preconceito.

       Mas nos leva para uma visão nova e uma valorização maior da língua.

       Durante uma pesquisa sobre o tema “línguas” encontrei no seu site o tema Lunfardo: “o modo de falar que se opõe a língua”? que fala do “universo do Tango revelando em sua musicalidade uma língua, ou um idioma”…”Uma mescla de idiomas”…”Lunfardo, o idioma de múltiplas origens que expressa vivência”… ”um modo de falar que se opõe a língua comum…”

       Achei que complementou como um exemplo de “liberdade linguística” pelo menos ao meu entendimento (me corrija se eu errei em algo).

    “AO LADO DE UMA LÍNGUA QUE NOS FAÇA SER MUNDO, DEVE COEXISTIR UMA OUTRA QUE NOS FAÇA SAIR DO MUNDO.DE UM LADO, UM IDIOMA QUE NOS CRIE RAIZ E LUGAR.DO OUTRO, UM IDIOMA QUE NOS FAÇA SER ASA E VIAGEM.”

    Desculpe incomodar mas eu precisava falar do texto.

    Marina MF Campos, aluna do 1° semestre de Psicologia da FVR – UNISEPE.

    Imagina! Incomodo nenhum!!!

  • Luís Carlos Prestes na obra de Daniel Aarão Reis….

    Luís Carlos Prestes na obra de Daniel Aarão Reis….

    • Resenha do livro Luís Carlos Prestes
    • Análise da Biografia
    • Comentários históricos

    Com ou sem polêmica era certo de que o livro Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos de Daniel Aarão Reis (1946 – ) faria parte da minha lista de leituras. Não conheço o Daniel Aarão Reis pessoalmente, nem tive com ele qualquer forma de contato acadêmico ou institucional. No entanto, posso dizer que o conheço já faz muitos anos, pois sou um leitor assíduo de suas obras. Além dos vários artigos e conferências que assisti, também tenho na minha pequena biblioteca particular algumas de suas obras, como: Ditadura Militar, Esquerda e Sociedade (Zahar, 2000), As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético (EDUNESP, 2003), Uma Revolução Perdida: a história do socialismo soviético (Perseu Abramo, 2007) e Ditadura e Democracia no Brasil (Zahar, 2014). Sobre este último pretendo dedicar algumas linhas nesse blog, quando for possível.

    Sem dúvidas, as obras desse autor fazem parte da minha formação como historiador e são constantes referências na minha forma de pensar o Brasil República e a História da União Soviética. Vale ainda acrescentar a sua influência  na história do marxismo e da esquerda, em geral, no Brasil. Referência não significa ausência de crítica, ou concordância absoluta, mas sou partícipe silencioso, ou nem tanto, das polêmicas, propostas e interpretações deste historiador.

    Senti a necessidade de esclarecer o lugar que este historiador, que considero brilhante, ocupa na minha formação, para me sentir livre para criticar a sua recente obra. Também quero esclarecer que não vou tomar lado nos debates e polêmicas. Em especial aquelas conduzidas pela filha do biografado Anita Prestes, a quem eu também não conheço pessoalmente, mas pela qual tenho profundo respeito pela historiadora. (As críticas de Anita Prestes a obra podem ser lidas AQUI)

    A confusão dos tempos históricos.

    Em diversos momentos, o texto cai em uma tremenda confusão de tempos históricos. Por exemplo, quando é feita uma citação não sabemos se é um texto escrito na época do evento narrado, se é uma memória escrita posteriormente ou algum documento da época que registra a declaração, como em um jornal. Aqui temos um problema grave!

    Não existe texto sem contextos (e a relação dialética entre os dois). Tal fato deixa o leitor confuso, pois o livro se converte em uma sequência de declarações desorganizadas e, assim, perde-se justamente a História. Quero dizer que eu não posso juntar um documento de uma época com um comentário feito quarenta anos depois sobre aquele evento sem contextualizar os dois documentos.

    No mais é sempre importante pensarmos que personagens históricos muitas vezes mudam de posição ao longo da vida. Até mesmo de ideologia! E o próprio biografado, no caso, o Luís Carlos Prestes, fez avaliações diferentes ao longo da vida sobre um mesmo episódio por ele vivenciado. Assim, quando perdemos do horizonte as relações tempo e vivências ficamos sem referências para refletirmos sobre os acontecimentos e, no fundo, eles se tornam muitas vezes confusos. Assim, a forma como foi armado o texto em nada ajuda o leitor.

    Em alguns casos, a ausência total de referências chega ao absurdo, como na polêmica afirmação sobre um suposto filho de Olga na União Soviética (fiz questão de colocar supostos aqui). Na página 171 aparece a seguinte referência: “ (…) Olga não tinha grande experiência de luta na clandestinidade. Casada e com um filho na União Soviética, sua missão, de seis meses, era oferecer as melhores condições de segurança para que Prestes pudesse ir para o Brasil e aí iniciar o trabalho revolucionário. (…)”

    Contando as estrelinhas lá no fim do livro, descobrimos que essa informação saiu dos arquivos da Internacional Comunista. No entanto, não consta a referência a um documento específico, ou em que circunstâncias tais documentos (ou documento) foiram escritos. Enfim, estamos sem nada nas mãos! Principalmente, porque Aarão não volta ao tema! Não coloca uma observação a mais. Nem mesmo quando trata do longo período da família Prestes na URSS. Parece que essas linhas ficaram simplesmente perdidas no texto. Teria sido um erro? Não sei, mas é a minha impressão final… Esperamos esclarecimentos do autor…

    Família Prestes

    Algo que nos chama a atenção ao longo de toda obra é a forma como Daniel Aarão Reis trata a família Prestes. Se Luís Carlos Prestes, como veremos, é tratado com reverência e elogios, o mesmo não se dá com relação a sua família. O autor trata de um tema delicado. A mãe de Prestes teria sempre omitido que duas das irmãs de Prestes teriam nascido de outro relacionamento após a morte do pai de Luís Carlos Prestes, ainda jovem. A questão, como o próprio autor coloca, é que na década de 1920 isso era condenável e, portanto, era “normal” que uma mulher buscasse se preservar de uma sociedade moralista e machista.

    Esse ocultamento só aparece em algumas falhas, como por exemplo, nas datas de nascimento que não batem com a data de morte do pai ou em um documento soviético que logo é substituído por outro. Neste sentido, descobrimos que na família Prestes esse tema era um tabu. A questão é: em que outra família não seria?

    Para além, se esse fato não tem nenhuma conexão com o comportamento moral de Prestes e nenhuma influência sobre as suas decisões, fora a curiosidade da vida privada, qual é a relevância do fato para entendermos o biografado? O texto não deixa claro e a conclusão a que se chega é: nenhuma!

    Da forma como Daniel Aarão Reis desenha a relação entre Prestes e a sua família fica um incômodo, pois parece que ocultar a origem e a existência de determinados filhos é um comportamento padrão. Primeiro essa questão da mãe de Prestes, segundo o suposto filho de Olga (coloco supostos novamente) e terceiro os filhos da segunda esposa de Prestes fruto de um primeiro relacionamento, mas que Prestes sempre tratara como filhos e que somente muito depois souberam de seu verdadeiro pai.

    Seria esse um comportamento padrão da família Prestes?

    A história é muito mais complicada do que isso e o próprio autor a esmiuça em detalhes para mostrar que não se tratava de uma questão moral, mas sim de múltiplas circunstâncias de que quem vivia ao lado de Prestes acabava tendo que suportar, pois exílio, clandestinidade, confusões e intrigas políticas sempre foram parte da vida deste atribulado personagem e sim afetaram as suas relações pessoais e familiares como era de se esperar.

    Seja como for, não deixa de ser incômoda essa entrada na vida privada que o autor faz, mas afinal é uma biografia e entrar na vida privada de personagem políticos não é uma tarefa fácil. Compreender mais do que julgar, bom, essa é uma tarefa para poucos.

    Quem foi Luís Carlos Prestes?

    Aqueles que procurarem uma obra anti-Prestes nesse livro certamente vão sair decepcionados. Não há uma única palavra contra Prestes, pelo contrário. Todos os adjetivos, mesmo em momentos complicados de sua vida parecem ser elogiosos. Suas qualidades pessoais e sua coerência ideológica são uma marca de sua trajetória.

    Assim, emerge uma imagem de Prestes bastante distinta do assassino cruel e calculista da obra de Willian Waack Camaradas, Nos Arquivos de Moscou: a história secreta da revolução brasileira de 1935 (Companhia das Letras, 1993), ou do herói iludido pela ideologia soviética da obra de Paulo Sérgio Pinheiro Estratégias da Ilusão. A Revolução Mundial e o Brasil, (Companhia das Letras, 1991). Também não é o Prestes herói romântico do Fernando Morais em Olga (Companhia das Letras, 2008) e menos ainda um mítico cavaleiro da esperança de Jorge Amado. Só para citar algumas referências…

    É bem possível que por se distanciar dessas imagens de louvação por um lado e de escárnio de outro que a obra de  Daniel Aarão Reis provoque incômodos. Aqui temos um Prestes com muitas qualidades, mas com dilemas, com uma coerência que esbarra na própria mudança dos tempos políticos. Ele errou, e feio, mas não é nem herói e nem bandido e sim um homem lutando com o seu tempo histórico e com os seus possíveis. Por essa razão, creio que a obra que o autor nos apresenta tem mais méritos do que se tem dado nas críticas (ao menos nas que eu tenha lido).

    Um ponto que gostaria de destacar da obra é a parte final. Em geral estamos mais acostumados com a história de Prestes na Coluna ou na “intentona”, menos destaque, por motivos óbvios, damos ao seu papel no fim da ditadura e do seu rompimento com o PCB, por exemplo.

    Aqui temos uma questão importante para percebermos quem foi Prestes, pois não foi ele quem mudou de rumos. Prestes continuou fiel ao socialismo e aos projetos de transformação radical da sociedade. Quem abandou tal projeto foi o PCB e no final das contas a própria União Soviética que, apesar das homenagens, no final acabou por desconsiderar e até desprezar Prestes, quando esse cobrava um compromisso com o socialismo que a própria URSS já tinha perdido.

    A coerência de Prestes se tornou incômoda no fim dos anos 1970 e na década de 1980. Trouxe críticas e problemas aos novos atores sociais, como Lula, e também, a antigos políticos, como Leonel Brizola, que muitas vezes recebeu apoio crítico de Prestes na luta contra a ditadura que ia chegando ao fim. Assim, o Velho, como passou a ser chamado, dá uma lição de compromisso com a esquerda e com o socialismo, enquanto os demais a sua volta foram fazendo concessões e mais concessões a uma “democracia” limitada e controlada da qual Prestes já desconfiava.

    É para se pensar…

    No mesmo sentido, seria curioso de ver a cara dos velhos decrépitos que governavam a União Soviética nos seus últimos dias e os moralistas do PCB ao escutarem declarações como essas do nosso Velho comunista, citado por Aarão na página 464:

    Um dia, quando a humanidade construir uma sociedade igualitária, todos terão liberdade para fazer qualquer coisa. Quem quiser fumar maconha, vai fumar. Homem que quiser casar com homem, vai casar. Quem desejar morar em outro planeta, vai morar (…) sem repressão religiosa, policial, ditatorial ou política. Nessa época a humanidade estará livre dos preconceitos que infernizaram a sua trajetória. (…)”

    Por fim…

    É fato que a obra deixa muitas lacunas e pontos problemáticos que precisam ser esclarecidos e estamos certos de que seria salutar se o próprio autor assim o fizesse. Uma obra como essa é merecedora de um debate tanto por respeito à figura de Prestes, quanto à pesquisa e interpretações que Daniel Aarão Reis nos propõe. Assim, longe das críticas radicais e das acusações sem o menor sentido essa é uma obra que deve permanecer viva enquanto referência e análise, pois no fim ela tem mais a contribuir para esse importante personagem da nossa vida política do que as críticas radicais e o “puxa-saquismo” tem permitido discutir. Não é uma obra anticomunista e também não é uma obra oficial para o PCB ou instituto Prestes, tampouco é uma obra que vá servir aos que odeiam Prestes e o Comunismo. Pontos para Daniel Aarão Reis!

  • Um Crime político na década 1940

    Um Crime político na década 1940

    • Um Crime Político
    • Mataram Alfonsas Marma
    • Imigração Lituana
    Apresentação do Livro!

    Na narrativa oficial da história da nossa República o fim do período de governo de Getúlio Vargas (1930 – 1945) é denominado democrático. No entanto, um olhar mais acurado sobre o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946 – 1951) nos revela que, apesar da aprovação de uma nova carta constitucional em 1946, esteve longe de ser plenamente democrático, pelo contrário, a repressão política e os crimes políticos foram uma constante. Nesse livro analisamos um crime político: o massacre de Tupã, no qual morreu Alfonsas Marma.

    Capa. Mataram Alfonsas Marma.
    Capa. Mataram Alfonsas Marma.

    Durante o período Dutra estima-se que aproximadamente 50 militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) tenham sido assassinados pelas forças repressivas do Estado. Muitas dessas histórias e desses personagens permanecem desconhecidos da nossa sociedade, longe tanto da nossa história, como da nossa memória política. Memória essa que ficou ainda mais distante quando a Comissão da Verdade, decidiu, após receber pressão de organizações sociais e intelectuais, que seriam investigados os crimes políticos cometidos somente durante o Regime Militar.

    Não quero aqui reacender esse debate! Mas vale lembrar que o principal argumento era que não se deveria misturar o que ocorreu em um período de exceção, autoritário, com um período de liberdade democrática. Bom, considerando o período Dutra essa distinção é uma bobagem. Para além, na nossa história republicana, o assassinato político, sempre foi mais uma regra do que uma exceção. No mais, no Brasil sabemos que é possível reunir regra e exceção, democracia e autoritarismo ao mesmo tempo.

    Um crime político no governo Dutra

    O governo Dutra foi em tese pautado pela aprovação de uma nova constituição e de um processo eleitoral que não só deu legalidade ao Partido Comunista Brasileiro como fez de Luís Carlos Prestes um vitorioso nas urnas. Eis que uma armação política realizada pelo PTB recolocou o PCB na ilegalidade e todos os representantes legitimamente eleitos foram caçados. A partir desse momento o que se viu foi que a polícia política, como o Deops em São Paulo, deu início a uma implacável perseguição aos militantes políticos do PCB.

    Esse é um ponto a ser notado. A ruptura de regime do Estado Novo (1937 – 1945) para a democracia não significou uma mudança nas estruturas das instituições. Ou seja, as mesmas práticas, e os mesmos indivíduos, que atuavam na repressão durante o varguismo continuaram a atuar no governo Dutra. Essa manutenção das instituições repressivas e até mesmo o seu aprimoramento é que permitiram uma repressão tão feroz.

    Especificamente no caso de São Paulo, durante o governo de Adhemar de Barros o Deops, passou por mudanças estruturais sendo mesmo criada uma Delegacia de Expulsandos, mais tarde renomeada para que o propósito de deter e expulsar estrangeiros não ficasse tão evidente.

    Mataram Alfonsas Marma

    Se a Comissão da Verdade não fez o processo de investigação dos crimes políticos no pós-Varguismo cabe a nós historiadores fazermos. Eis, portanto, a pequena contribuição que quis oferecer com a história de um dos assassinatos cometidos pela polícia durante o processo repressivo de 1948-1949. Procurei traçar na forma biográfica a trajetória do imigrante lituano Alfonsas Marma que desde jovem participou das atividades políticas e sociais entre os lituanos na cidade de São Paulo.

    Aprendeu a função de gráfico ao trabalhar em diversos jornais. Foi preso e expulso do Brasil em 1930. No Uruguai, onde se estabeleceu, ajudou na formação dos principais jornais em idioma lituano naquele país. Retornou clandestinamente e voltou a atuar nas principais organizações e jornais lituanos até ser novamente preso e, após ser libertado, assassinado pela polícia.

    Essa é apenas uma das mais de 50 histórias que ainda devem ser recuperadas para que possamos entender melhor a nossa República, a nossa história política e o lugar que a violência e os crimes de Estado ocupam nessa.

    Referência:

    E.R.G. ZEN. Mataram Alfonsas Marma. Imigração, Comunismo e Repressão. Rio de Janeiro: Aped, 2015.

    Para Adquirir

    O livro pode ser adquirido AQUI

  • A Noite dos Generais: Um Comentário 

    A Noite dos Generais: Um Comentário 

    • Sobre o filme A Noite dos Generais
    • O nazismo na Segunda Guerra Mundial
    • A perversa moral

    A noite dos generais: um comentário. Mania de ver filme antigo! Não tão antigo, esse é de 1967. Vi quase por acaso! Estava procurando outra coisa na internet, quando me deparei com A Noite dos Generais (The Night of the Generals). Um filme dirigido por Anatole Litvak, conhecidos por filmes como: Crepúsculo Vermelho, Anastacia, a Princesa Esquecida e A Cova da Serpente. No elenco, o filme conta com Omar Sharif, Peter O’Toole e Tom Courtenay.

    Não me lembro quando o assisti pela primeira vez, mas sei que me marcou… Não pela ação, elaboração ou mesmo pelo brilhantismo da narrativa. O filme fica longe de ter tudo isso e, se não fossem por algumas cenas psicológicas intensas, e uma das análises mais extraordinárias sobre um criminoso de guerra apresentado no cinema, seria simplesmente enfadonho. Tem uma característica bem típica do cinema da década de 1960: é longo e tem imagens e tomadas lentas.

    Inicialmente a história parece simples e estranha. Durante a Segunda Guerra Mundial, um general nazista de elevada patente era também um frequentador de bordeis e assassino de prostitutas. A primeira prostituta foi assassinada em Varsóvia e um investigador alemão foi designado para investigar o brutal assassinato. O criminoso foi transferido para Paris, então sob ocupação nazista, e ali assassina mais uma prostituta. O investigador alemão se junta a um policial francês, simpático à resistência, e toma como missão investigar os crimes contra as prostitutas. Mas afinal, para quê?

    Quem se importa?

    Quem se importa com a morte de prostitutas durante uma Guerra que provoca o assassinato de milhões de outras pessoas? Pior! Prostitutas que aceitavam se deitar com militares de uma força militar de ocupação!

    Em meio à investigação e às atividades de repressão e comando das tropas de ocupação, o filme constrói uma sequência de cenas brilhantes, recuperando os aspectos nefastos deste período da história da França ocupada, perdida entre colaboracionistas e a resistência.

    Entre as cenas, merece destaque, a que se passa no museu do Louvre. Os nazistas classificavam as obras que não obedeciam a sua estética, uma cópia da arte clássica, como “arte degenerada”, entre estas estavam as obras realizadas por judeus. Durante o regime Nazista foram organizadas várias exposições sobre a chamada arte “degenerada”. Nos países, ocupados pelos nazistas, os museus eram também reorganizados (pilhados em grande parte) e elaboradas galerias de obras “degeneradas”.

    A visita ao museu

    O General visita uma dessas galerias dedicadas à “arte degenerada” e encontra a obra de Vicente van Gogh considerado degenerado tanto pela sua estética pós-impressionista como pela sua biografia e seu processo de loucura. Foi justamente diante do quadro Auto Retrato que o General se depara com a própria loucura. E olha a orelha defeituosa representada no quadro. A lenda é que o pintor cortou a sua própria orelha para se parecer com a da representação já que não conseguia pintar uma orelha como a sua. Diante desse símbolo estético da loucura, o General, entra em crise.

    Observa o quadro com olhos arregalados! Fixa seu olhar na orelha cortada! Transpira! Seus olhos se tornam olhos de psicopata revelando o que a sobriedade da sua farda e de seus luxos escondia. Colocado diante da representação da loucura, ele encontra a sua própria loucura, e entra em pânico com ela. Perde o seu autocontrole e corre da galeria em um ato de fúria e medo.

    Após a Guerra

    Com o terminar da Segunda Guerra Mundial, o General foi preso e julgado pelos seus crimes de Guerra. Passou alguns anos na prisão e foi liberado.

    Ao reencontrar a liberdade passou a ostentar, ainda que mais velho, sua postura militar, seus trejeitos nazistas. Encontra também seguidores do velho nazismo, que mesmo derrotado é capaz de mobilizar os insanos e dementes. Uma centena de seguidores para os quais defendia seu legado e sua ideologia.

    Em uma das conferências que proferia, difundindo a sua ideologia de ódio e assassinato, ele, diante dos seus admiradores, encontra o detetive que guardara as provas necessárias para incriminá-lo como assassino comum. O detetive o enfrenta, não mais como general, ou o propagandista de uma ideologia, mas como assassino comum!

    Restava-lhe enfrentar a sua verdade e revelá-la a público. Desmascarar sua ideologia e assumir a sua psicopatia. Ninguém segue um psicopata se reconhecer nele um psicopata! Restava-lhe a perpétua humilhação de assassino comum de pessoas que não teriam condições de se defender.

    Ali, ele já estava morto. Restava-lhe somente realizar o gesto final…

    A Noite dos generais e a Perversa Moral 

    Movidos por ideologias somos capazes de aceitar a justificativa pela morte de milhões!

    No entanto, o assassinato de prostitutas é apenas um ato insano! Psicopata…  Se o assassino de milhões é descoberto como o assassino de prostitutas, a sua psicopatia é revelada. A loucura escondida por trás do discurso contundentes e moralista, do seu uniforme, da sua patente… Se revela e se autodestrói.

    O psicopata travestido de autoridade, que quer seguidores não pode se deixar revelar, enquanto psicopata.

    Ele tem que usar uma máscara permanente de homem moral, de defensor “dos grandes ideais”, de promessa de um grande futuro glorioso. As suas ações têm que ser percebidas como um sacrifício, como gesto heroico, mas na noite são apenas doentes psicopatas que se escondem na perversão do poder pela sua investidura.

    Depois de ver o filme fiquei refletindo sobre os defensores das ditaduras.

    Os homens de bem!

    Saudosistas dos grupos de extermínio!

    Da ordem construída sobre a tortura!

    Aqueles que argumentam que não se percebia o regime autoritário!

    São eles os que seguem, como inocentes úteis, como massa, os psicopatas vestidos de autoridade? São eles os que foram cúmplices e preferem o silêncio complacente para que sua face mais cruel permaneça nas penumbras da história.

    Aqui e lá, os heróis da segurança nacional eram eles assassinos de prostitutas, homossexuais e “bandidos” nas noites. Os nossos repressores matavam por dinheiro e torturavam por sadismo. Eram psicopatas úteis de um projeto de poder que nem mesmo tinham capacidade para entender. Saíam dia e noite na busca de fama, dinheiro e aventura… Essa era a noite dos nossos Generais e dos seus cúmplices.

    Nós e a Noite dos Generais?

    No nosso eterno medo da liberdade, diante de um futuro incerto e da nossa imaturidade preferimos deixar para que o outro organize esse mundo e nos deixamos ser guiados.

  • Direitos Humanos Sem Ser Chapa Branca!

    Direitos Humanos Sem Ser Chapa Branca!

    • História dos Direitos Humanos
    • A proposta de Samuel Moyn
    • Direitos Humanos como Utopia

    Direitos Humanos Sem Ser Chapa Branca! História dos Direitos Humanos. Os usos e abusos do passo… Como uma vez comentou minha amiga Renata Meirelles: Samuel Moyn é um dos poucos estudiosos sobre Direitos Humanos que não é “chapa branca”. Uma definição perfeita para o professor de Direito e de História da Universidade de Havard. Em sua obra Human Rights and the Uses of History (2014).

    Samuel Moyn assume um tom crítico elevado tanto sobre os usos históricos como pelos abusos retóricos nas políticas externas da noção de Direitos Humanos. Contudo, ao contrário da esquerda radical – que ainda hoje o despreza como conceito “burguês” – e da extrema direita – incapaz de compreender a universalidade da condição humana – Moyn demonstra como Direitos Humanos é um conceito em disputa.

    A análise históricas e os mitos fundadores

    No que se refere a análise histórica, e aqui não pretendo comentar cada um dos autores com os quais Moyn debate, pois seria uma lista extensa (Lynn Hunt, Tony Judt, David A. Bell…) o autor critica e desconstrói um discurso que se tornou “padrão” e é adotado como “A” história dos Direitos Humanos.

    Se entrarmos na maioria dos sites de instituições vinculadas as lutas pelos Direitos Humanos, nos manuais e textos de referência dos cursos de Direito e de Relações Internacionais, encontramos uma narrativa linear que começa em uma antiguidade longínqua, passa por marcos históricos medievais, posteriormente a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e chega ao ápice com o documento aprovado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948. Essa narrativa também, vale dizer, é adorada sem maiores críticas por historiadores, politólogos, internacionalistas, jornalistas e etc.

    No entorno de cada um desses marcos se formou uma mitologia que nos leva a acreditar que a humanidade caminhou sobre as suas tragédias até encontrar o Direito Universal. É justamente esse aspecto que Moyn vai tratar de desmontar (ou desconstruir). Tomemos dois importantes exemplos utilizados pelo autor.

    Desconstruindo os Mitos fundadores na História dos Direitos Humanos

    Ao analisar a Declaração Universal dos Direitos do Homem e dos Cidadãos aprovada durante a Revolução Francesa, Moyn demonstra que esta tinha como horizonte o conceito de NAÇÃO. Assim, o documento buscava vincular o indivíduo (agora convertido de súdito a cidadão) a sua terra natal (a sua nação), portanto estava longe de estabelecer parâmetros para toda humanidade. Na realidade a sua noção de “universalidade” era bastante limitado. Nesse sentido, é que o autor questiona esse marco histórico como uma das origens dos Direitos Humanos, na sua percepção universal.

    Outro questionamento é sobre o impacto do holocausto como “A” causa principal que teria levado as Nações Unidas, na sua fundação, a adotar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Para desconstruir essa ideia, Moyn dedica um capítulo inteiro do livro intitulado: The Intersection with Holocaust Memory, retoma alguns fatos históricos. Ele demonstra a dissincronia entre difusão do que foi o holocausto com a aprovação do texto pela ONU. Para o autor, o texto da ONU foi aprovado antes que se desse o conhecimento pleno do holocausto e que a sua magnitude pudesse ter sido absorvida pelos países membros da ONU. É um argumento para lá de polêmico!

    De certa forma, como nós absorvemos a história dos Direitos Humanos até hoje, sempre colocamos o holocausto como o epicentro do reconhecimento da necessidade de um código universal de direitos que garantisse a dignidade humana. Contudo, Moyn argumento que assim como no caso francês, o texto da ONU tem uma universalidade limitada. Ela é limitada no que se refere a proteção do indivíduo em escala global e, novamente ele servia para vincular cada indivíduo a uma nação, a um país, tal qual o texto francês.

    Direitos Humanos e a Intervenção Humanitária

    Importante notar, que da mesma forma que o autor desconstrói a ideia de intervenção humanitária, pois nos anos de 1990 essa começou a ser utilizada pela ONU e justificar as ações do governo Bill Clinton (como a intervenção em Kosovo). Alguns intelectuais se obrigaram a encontrar precedentes históricos e muitos deles são simplesmente absurdos. Entre eles argumentar que a ação inglesa de afundar navios negreiros era uma forma de intervenção humanitária orquestrada pelo Império Britânico.

    Para o Moyn intervenção humanitária é simplesmente um erro! A mesma desconfiança o autor lança sobre as Cortes Internacionais que, apesar da sua pretensão universalista, até hoje somente jugou criminosos de países subdesenvolvidos, a maior parte da África, e jamais tocaram os violadores dos países desenvolvidos.

    Qual é a história dos Direitos Humanos proposta por Moyn

    Dessa feita, fica o questionamento: então quando a noção de Direitos Humanos, entendido como a necessidade de proteção a dignidade humana teria emergido? Para responder essa questão Moyn retoma a sua obra anterior The Last Utopia (2010) na qual argumenta que os Direitos Humanos se tornaram a última Utopia – como já aponta o título.

    Assim, nos anos 1970, quando as demais utopias que visavam a transformação radical do sistema, como a socialista, entram em decadência, vencidas tanto na Europa como na América (Norte e Sul) é que emerge a luta pelos Direitos Humanos. Uma luta, não vinculado a um governo específico e em nome da proteção individual contra as violações cometidas pelo Estado. Devemos lembrar que este era também um período em que prevaleciam as ditaduras militares na América Latina. As ditaduras usavam sistematicamente a tortura, das lutas coloniais, além de países que lutavam contra a segregação racial e pelos Direitos Civis, notadamente na África do Sul e Estados Unidos.

    Isso não significa que Moyn jogue o conceito no lixo, pelo contrário! O que ele busca é uma estratégia de abordagem sem ilusões que permitam um entendimento crítico do conceito seus usos e abusos e principalmente o uso de uma suposta história da ideia de Direitos Humanos para justificar ações no presente.

    Algumas considerações e criticas

    De todas as questões apresentadas gostaria de deixar apenas algumas questões a serem consideradas. Primeiro, o autor toma muito `a sério a ideia de fim das utopias. Principalmente das utopias da esquerda de transformação da sociedade, essas podem ter mudado de forma, mas afirmar que terminaram é algo bastante questionável (isso fica mais clara no livro anterior).

    Esse entendimento é bastante comum entre os pensadores liberais e conservadores Norte-Americanos, desde a década de 1990, com o fim da URSS: O fim das utopias e a vitória do liberalismo. Assim, embora seja um crítico ferrenho dos “liberais internacionalistas”, acaba por assumir um dos pontos principais da argumentação destes com relação a construção de “uma nova ordem multipolar”.

    Retomando um clássico

    Outra questão a ser coloca é uma observação de Norberto Bobbio no seu livro A Era dos Direitos (2004). Eu sei que esta é uma obra limitada (ao contrário das outras obras desse autor) e até mesmo datada, tanto assim que foi (e é) utilizada como manual em vários cursos de graduação. Por fim, está mais do que claro que é justamente esse tipo de narrativa que Moyen critica. Ainda assim tem um ponto que eu acredito que mereça ser trazido para o debate. Qual seja?

    Nos demonstra Bobbio que tanto o texto francês quanto o aprovado nas Nações Unidas, se eram limitados no seu alcance universal, ambos tornaram-se referências em todas as constituições dos Estados Modernos e, desta forma, seus princípios incorporados pelos países. Por que esse ponto é fundamental? Porque de uma forma ou de outra, foi a incorporação desses princípios que permitiu aos grupos de Direitos Humanos. Na década de 1970, a utilizarem as próprias constituições nacionais contra as violações realizadas pelos seus governos.

    Da mesma forma, no plano internacional, foi o que permitiu que os países aprovassem as resoluções na ONU e nos Congressos subsequentes sobre o tema pois havia, ainda que de forma discursiva, uma congruência mínima entre os princípios constitucionais, de cada país, e as propostas no plano internacional. Essas brechas possibilitaram muitas das ações dos grupos de Direitos Humanos na luta contra as violações, tanto no plano interno quanto no internacional, como colocamos.

    É para ser lido!

    O livro de Samuel Moyen é excelente pela sua proposta interpretativa. Mesmo que o leitor não concorde com ela, e pelo exercício de desconstrução historigráfico que o autor realiza com acidez e maestria. Eu diria mesmo que é uma leitura obrigatória para qualquer debate sobre o tema. Como coloquei no início, não espere um discurso bonitinho sobre Direitos Humanos e nem a sua glorificação, o autor não é “chapa branca”!

    Especificamente, para nós brasileiros há uma questão importante! Muitos intelectuais defendem que o Brasil deveria adotar uma política externa voltada para os Direitos Humanos criticando a política atual (que sim merece muitas crítica!). Esse discurso é muito comum entre os liberais e conservadores que tem nos Estados Unidos e na Europa um horizonte, pois bem! Eis uma boa leitura para uma visão mais crítica sobre o tema.

    Lamentavelmente o livro não foi publicado em português e como hoje são lidos mais manuais e resumos do que obras. E qualquer contestação a verdades estabelecidas no Brasil é um problema, acho que as ideias dele vão demorar uns 10 anos para chegar aqui na vanguarda do atraso.

    Referências:

    MOYN, Samuel. Human Rights and the Uses od History. London/ NYC: Verso, 2014.

    MOYN, Samuel. The Last Utopia. Human Rigts in History. Harvard University Press, 2010.

    BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro. Campus, 2004.

  • Uma cisão no Báltico? A crise russa e os seus desdobramentos.

    Uma cisão no Báltico? A crise russa e os seus desdobramentos.

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • A questão russa no Báltico
    • Lituânia, Letônia e Estônia as suas diferenças
    • É possível uma política coordenada?
    • As contradições das posições anti-russas

    Nos últimos meses as tensões entre as três repúblicas do Báltico (Estônia, Letônia e Lituânia) e a Rússia só se fizeram ampliar. Provocações de lado a lado em discursos inflamados. Movimentações de tropas nas fronteiras, sobrevoos de aviões militares, entre outras formas de provocação fizeram parte de um repertório pouco diplomático e profundamente agressivo. No entanto, as sanções econômicas impostas à Rússia e as medidas de taxação para negociação com moeda estrangeira da Bielorrússia e as tensões com a enorme população russa na Estônia e Letônia estão levando a este país a se separarem de uma política mais agressiva, na diplomacia, sustentada pela Lituânia

                Do ponto de vista da formação cultural e histórica as três repúblicas do Báltico tem pouco em comum. A Lituânia tem maioria católica enquanto os outros dois protestantes. Estônia e Letônia tiveram por muito uma cultura próxima à germânica, já que foram ocupados pelos cruzados daquele país ainda durante a Idade Média. A Lituânia, por sua vez, ao repelir a invasão dos cruzados germânicos, constitui um vasto Império Medieval, que acabou com a União Polonesa-Lituana. Assim, a história da região, que hoje forma as três Repúblicas se manteve em muito separado. Mesmo do ponto de vista linguístico. Há quem afirme que o lituano e o leto têm muito em comum. Eu, como aprendiz dos dois, discordo! Está longe de ser como português e espanhol, como muito se diz, uma vez que a estrutura das declinações é distinta.

                Assim, a “unidade” das três Repúblicas se deu pela primeira vez com a situação de ocupação do Império Russo, pós Guerras Napoleônicas, e com os movimentos de resistência a este. Com o fim do Império Russo, resultado da Primeira Guerra Mundial (1914 -1918) e da Revolução Russa (1917), Estônia, Letônia e Lituânia conheceram pela primeira vez a independência enquanto Estado nacional moderno. Independência essa que durou somente até o início da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), quando já no tratado de não agressão Ribbentrop-molotov, Alemanha e União Soviética dividiram em protocolos secretos aquela região em áreas de influência, vulgo ocupação. Assim, as Repúblicas foram ocupadas primeiras pelas tropas soviéticas, depois, com a derrota inicial dessas, pelos nazistas e novamente anexadas a URSS como Repúblicas Socialistas Soviéticas.

                Durante o período soviético os países foram completamente transformados, inclusive na sua composição nacional. As comunidades judaicas foram praticamente eliminadas pelo genocídio nazista. Ao longo da Guerra, parte da população de origem germânica nos bálticos também acabou por ser deslocada pelos nazistas.

    Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a URSS incentivou um programa de imigração de russos para os países Bálticos que teve um grande impacto na Estônia e na Letônia, que chegou por volta de 30% da população. É preciso também acrescentar que um extenso processo de deportações em massa foi levado a cabo durante a Segunda Guerra Mundial e durante o período de Stalin. Processo esse que praticamente eliminou a elite econômica e cultural do período da independência e a substituiu por uma elite vinculada aos respectivos partidos comunistas. Com isso, temos nos países Bálticos duas comunidades distintas de russos. Uma mais antiga estabelecida durante a modernidade e o Império Russo. A outra uma elite russa transplantada dentro de um projeto soviético.

                Para encurtar, e simplificar na medida do possível, durante a crise que levou ao fim da União Soviética, as três Repúblicas do Báltico tiveram o seu momento de protagonismo. Ali foi início, ou um deles, de movimentos pela independência nacional que colocou em cheque o já decadente sistema soviético. O momento mais simbólico, sem dúvida, foi o caminho do Báltico, quando a população dos três países se reuniu em uma corrente humana nas estradas da fronteira com a Rússia.

                Com o fim da URSS, cada país seguiu o seu caminho (ver post anterior), mas tentativas de cooperação, com acordos econômicos e militares sempre estiveram presente no horizonte comercial e de segurança. Recentemente, diante das tensões com  a Rússia, tratados de mutua-defesa foram ratificados e ampliados e a princípio as três Repúblicas pareciam andar juntas.

                Devido a enorme população de origem russa na Estônia e na Letônia, a crise na Ucrânia, e mesmo antes dela, despertava o medo dos lideres políticos de que essa fosse utilizada e mobilizada para permitir uma influência maior, uma intervenção e até mesmo a ocupação dos dois países. Esse medo se tornou ainda maior devido à ostensiva propaganda de Moscou realizada pelos seus meios de comunicação, em idioma russo. Até mesmo na área esportiva Moscou tem influenciado a Letônia patrocinando, via empresas de Petróleo, “ super times” de Hockey. Toda essa influência russa, também se fazia presente nas relações comercias.

                Na questão economia, há um aspecto importante para o qual devemos atentar. Em geral quando se faz uma análise econômica, se considera a produção, exportação, capacidade de financiamento e etc. No entanto, há uma dimensão cotidiana da economia que é mais difícil de ser captada. Refiro-me ao pequeno comércio, ao pequeno produtor, aos caminhoneiros que faziam transporte da Rússia para os portos bálticos. O atravessador de produtos legais – e não tão legais assim – com a fronteira da Bielorrússia. A isso poderíamos acrescentar um fluxo turístico. Enfim, todo esse microcomércio, pequenos serviços e mais os indivíduos que hora buscam por emprego na Rússia, hora no ocidente, foram os mais afetados pelas sanções a Rússia, a desvalorização da sua moeda e pelas recentes medidas de taxação tomadas pela Bielorrússia. Neste contexto, um contingente de insatisfeitos e cujo impacto econômico até então não se fazia sentir, começa a se manifestar.

                Dessas questões ficou claro, ainda mais no dia de hoje, as diferenças entre Estônia e Letônia de um lado e Lituânia do outro. Enquanto os dois primeiros se aproximam da política da Alemanha, de busca de novas soluções e diálogos, a Lituânia mantem a rigidez da sua política externa e um discurso de enfrentamento com relação a Rússia. Ontem, um novo embaixador da Lituânia foi designado para a Rússia e sua primeira declaração foi que “não buscaria novos diálogos”. Essa postura de não diálogo contradiz até mesmo a função do embaixador. Para complicar o quadro, Lituânia preparou e distribuiu um manual explicando o que deve ser feito em caso de invasão russa… Exatamente no mesmo momento, a Letônia parece querer retomar o diálogo perdido.

                O fato que parece estar cada vez mais claro para Europa, em especial para a Alemanha e a França, é que uma Rússia debilitada econômica e isolada politicamente pode causar mais danos do que resultados. Resta saber: Como será o movimento político em cada um dos países para lidar com essa nova situação? Como lidar com as pressões sociais que começam a surgir? Até que ponto um discurso nacionalista anti-russo pode continuar como elemento mobilizador diante da crise na economia? O que parece certo é que há um movimento de distanciamento entre as políticas externas dos três países e a pergunta final é: Quem ganha com isso?

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