Autor: Erick Zen

  • Gosta de filme e da Lituânia? Blog História da Lituânia!

    Gosta de filme e da Lituânia? Blog História da Lituânia!

    Se você gosta de filme sobre a Lituânia você vai gostar desse post no meu blog História da Lituânia.

    Depois de algum tempo voltei a escrever um pequeno texto sobre História da Lituânia lá no blog dedicado a Lituânia sobre um belo filme que tive a oportunidade de ver a estréia na AABS 2018 na Universidade de Stanford.

    Dá uma olhada lá no BlogHistória da Lituânia

    eValeu!

    Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Para Twitter e Instagram @erickrgzen

  • Lista de Músicas sobre o Harlem

    Lista de Músicas sobre o Harlem

    Hoje, amanheci com falta de inspiração. Acontece as vezes, mas acontece! Então, fiquei pensado em alguma coisa para escutar e recuperar a vontade de escrever e me dei conta de que depois de ter encontrado muitas músicas sobre Nova York postei poucas sobre o bairro que eu moro:  Harlem. Aqui vai uma lista de músicas sobre o Harlem

    OBS: Harlem Shake não é do Harlem!!!

    Ok! Depois eu coloco outras….

  • Músicas Sobre Nova York. É Possível Traduzi-la?

    Músicas Sobre Nova York. É Possível Traduzi-la?

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    Músicas Sobre Nova York. É Possível Traduzi-la?…Depois de um ano, quase, vivendo, morrendo, me apaixonando e odiando a organização, a loucura e caos. O concreto. O ferro! A limpeza e o lixo na rua. Os esquilos e os ratos. O rap, blues, punk, a Broadway e a vanguarda… Eu fiz uma lista de músicas sobre Nova York.

    Nova York se funde em muitas em seu ar liberal de gente que não para. Mesmo quando descansa o sujeito de Nova York inventa o que fazer. Tem que ler no parque no domingo. Jogar alguma coisa. Correr! Cuidar da saúde, ganhar dinheiro, parecer rico…

    Os protestos e as greves. A vida importa e quase não importa. O racismo, a violência, as drogas… O sonho Americano na Wall Street. A estátua da Liberdade que nos lembra da beleza da sua sociedade civil. E o Harlem. O Harlem é outra cidade… O Brooklyn já foi outra cidade! Já foi Nova York e agora parece Miami…

    Se palavras me faltam resolvi fazer uma lista de músicas. Tão caótica quanto a própria cidade! Tente gostar de alguma delas.

    Obs: E depois que eu escrevi, encontrei uma enorme lista com, supostamente, todas as músicas que citam Nova York. Confira AQUI

  • Brexit: considerações e palpites.

    Brexit: considerações e palpites.

    Por que o Brexit? 

    • Os motivos do Brexit
    • A União Europeia e o Brexit: história
    • Imigração e o Brexit

    Já que estão todos dando palpites e pitacos sobre o Brexit, aqui vão os meus.Toda a campanha Brexit foi conduzida pela direita xenófoba e com um discurso saudosista e nacionalista.

    No entanto, é importante lembrar que uma parte da esquerda sempre foi crítica à União Europeia e, mesmo o líder do Partido Trabalhista, não é lá um grande entusiasta (ou não foi durante muito tempo). Para além disso, a esquerda radical apoiou a saída e uma grande parte da classe trabalhadora também. Acrescentamos que uma grande parte da classe trabalhadora é contra as políticas migratórias.

    277982_Papel-de-Parede-Bandeira-da-Inglaterra--277982_1280x800

    Com o colapso da União Soviética em 1991, ao invés da União Europeia providenciar uma espécie de Plano Marshall que pudesse desenvolver, ou colocar a Europa Oriental nos trilhos, (como a Alemanha fez com a sua parte oriental), ela optou, baseada na teoria neoliberal, por abrir as portas do mercado para o Oriente, terminando de quebrar as empresas orientais recém ingressas no capitalismo, e permitir o fluxo da mão de obra (imigração).

    O ingresso da Polônia, principalmente, e dos países do Báltico (Lituânia, Letônia e Estônia), na União Europeia provocou uma onda interna de imigração na União Europeia. Esse fluxo se somou aos fluxos imigratórios das ex-colônias da Grã-Bretanha, já “tradicionais”, e aos refugiados dos conflitos no Oriente Médio.

    Essa imigração do leste europeu foi tão grande que na Lituânia é costume dizer que “os lituanos não estão emigrando, mas estão evacuando o país”. Assim como no caso polonês, um dos principais destinos é a Grã-Bretanha.  (sobre a Lituânia e a União Europeia ler AQUI)

    E qual é o problema do Brexit?

    uniao-europeia-bandeiras-paises
    Bandeiras

    A imigração em massa foi uma estratégia do capital para depreciar o custo da mão de obra na Europa Ocidental. Na Inglaterra, a conservadora Margaret Thatcher (1925 – 2013), que governou entre 1975 e 1990, foi eliminando praticamente todos os direitos trabalhistas e os sindicatos. Seu conservadorismo social e seu neoliberalismo na condução econômica eliminaram o estado de bem estar social e privatizando todos os serviços públicos.

    A partir da década de 1990, com a imigração em massa do Leste Europeu, a mais uma abundante mão de obra, disposta a trabalhar por qualquer coisa, se acomodou a ausência de direitos trabalhistas. O resultado foi o empobrecimento da classe trabalhadora e a ampliação da desigualdade em níveis que só têm paralelos na Revolução Industrial do século XIX. Com a crise de 2008, a situação se agravou ainda mais. Vale lembrar, que a Grã-Bretanha que ainda segue a cartilha neoliberal como dogma é o único país desenvolvido que ainda não superou a crise de 2008, ao contrário da Alemanha, da França e dos Estados Unidos, por exemplo.

    As possibilidades do Brexit

    Diante desse quadro temos duas saídas possíveis:

    À direita: nacionalismo, saudosismo e xenofobia. Esses sentimentos dão a ilusão de que a mera remoção dos imigrantes resolverá o problema social, com a retomada do emprego. É uma ideia falsa! Pois removidos os direitos trabalhistas a desigualdade permanece! Ou seja, enquanto as práticas neoliberais persistirem persiste a desigualdade.

    À Esquerda: a do papel do Estado na promoção da equidade social. Aí temos um problema, pois a esquerda não sabe o que fazer com os imigrantes. De um lado, ela defende os direitos individuais e o de imigrar e o multiculturalismo (no que está certa!), mas o que fazer com essa mão de obra (imigrantes) trazida estrategicamente?

    Um problema sensível da esquerda é que ela, de uma forma ou de outra, sempre conseguiu atuar no âmbito nacional, mas não conseguiu efetivamente se organizar no âmbito internacional e menos ainda dentro da União Europeia. Jamais foi capaz de propor uma reforma igualando os direitos dos trabalhadores e a legislação trabalhista, por exemplo. Pelo contrário, como no vergonhoso caso francês é a tradicional esquerda que propôs a reforma trabalhista. O resultado final, salvo o cosmopolitismo londrino e de jovens que já nem mais conseguem se ver como parte dos “trabalhadores”: a saída foi vitoriosa.

    Depois da Euforia

    Apesar da euforia da extrema direita francesa, alemã e holandesa, o brexit não é necessariamente um indicativo da vitória da direita, ao menos na Inglaterra. A situação ali parece ser bem mais complexa. Por um lado, temos a popularidade do líder trabalhista inglês, Jeremy Corbyn. Por outro, é necessário saber se os conservadores vão conseguir se manter no poder e por quanto tempo.

    Em outras palavras quem fará a transição? Em que termos ela será feita? Quais os efeitos para a economia nos próximos meses? Nesse momento, qualquer tentativa de resposta para essa questão é apenas um chute!

    Aquele que conseguir intermediar as insatisfações sairá na frente neste processo.

    Com relação ao futuro da União Europeia, ao menos nos parâmetros em que a União está dada, será difícil se manter. É de fundamental importância lembrarmos que a estrutura de poder da União Europeia foi desenvolvida a partir de múltiplos acordos. A União Europeia foi articulada através da construção de consensos e não para a solução de crises. Na verdade, a União Europeia não tem mecanismos de solução de crises! Por isso sua movimentação e as respostas às crises são muito lentas…

    Por fim, será necessário acompanhar com muita atenção como a Grã-Bretanha vai lidar com a questão dos imigrantes. Uma política restritiva terá consequências desastrosas para outros países da União Europeia, notadamente, a Polônia e os países do Báltico.

  • Boris Schnaiderman: um tributo

    Boris Schnaiderman: um tributo

    Na semana passada (no dia 18 de maio) recebemos a triste notícia do falecimento do professor Boris Schnaiderman. Tive o prazer de conhecê-lo quando lhe pedi para escrever o prefácio do meu primeiro livro O Germe da Revolução: A Comunidade Lituana Sob Vigilância do Deops e ele, de forma generosa e receptiva recebeu o texto daquele então jovem pesquisador de 21 anos de idade. Ele aceitou! E escreveu um belo texto. (Ler o Prefácil)

    Na mesma época, trabalhando em um projeto chamado PROIN  (Site do projeto Aqui) tivemos a ideia de pedir para que ele escrevesse um pequeno texto para a Revista Seminário 3 editada pelo PROIN (Link para as Revistas). Novamente, Boris Schnaiderman aceitou. Fizemos uma pequena entrevista que eu transcrevi e levei para que ele pudesse acrescentar os dados que faltavam e preparar o texto que finalmente publicamos.

    Ao contrário da maior parte das entrevistas, nesta desejávamos focar na sua participação na Segunda Guerra Mundial e nas suas atividades políticas. Ele selecionou um trecho que já tinha separado do seu livro que colocamos ao fim do texto. Ficou um texto simples, mas como homenagem vale ler novamente. Só lamento profundamente não ter encontrado a foto que tiramos na ocasião!

    Revista Seminários – no 3. Crime, Criminalidade e Repressão no Brasil República

    (link para a entrevista PDF)

    BORIS SCHNAIDERMAN

    UM PACIFISTA QUE FOI PARA A GUERRA…

    Depoimento registrado por Erick R. Godliauskas Zen

    Nasci na cidade de Úman, na Ucrânia, em 1917, como filho de judeus russos, e os judeus russos que moravam nas cidades grandes estavam, na sua maioria, muito russificados. Tive uma formação russa, não tive nenhuma formação judaica. Meu pai era comerciante e, como tal, evidentemente, não estava adaptado ao sistema comunista. Quando eu tinha apenas um ano de idade, meus pais se mudaram para Odessa por causa dos pogrons, os massacres de judeus. Tenho uma vaga lembrança, muito vaga, de histórias sobre um irmão de minha mãe que havia tomado parte nos eventos de 1905… Lembravam dele em casa com muito carinho, mas eram simpatias muito vagas.

    Morei em Odessa até os oito anos de idade, ou seja, até dezembro de 1925, quando minha família imigrou para o Rio de Janeiro. Tenho uma lembrança muito especial de Odessa: era praticamente uma cidade russa. Ali eu nunca ouvi o ucraniano, só se falava russo. Meus amigos falavam russo, nós falávamos russo em casa. E quando eu ia à feira com alguém ouvia o ucraniano falado pelos homens do campo que ali vendiam seus produtos.

    Chegamos ao Rio de Janeiro em dezembro de 1925, onde permanecemos por pouco tempo. Depois minha família mudou-se para São Paulo, onde meus pais tinham alguns amigos judeus, mas eram judeus também muito russificados, de tal modo que o meu ambiente era mais russo do que judeu. Nunca recebi formação judaica, embora eu tenha sido circuncidado. Enfim, nós não tínhamos nenhuma relação com o mundo judaico.

    No Brasil, meu pai continuou a trabalhar como comerciante, mas com muitas dificuldades, muitas dificuldades… A convivência com os brasileiros era boa. Tenho boas lembranças da minha infância no Brasil, apesar das dificuldades, isso na infância. Mas, não tenho lembranças boas da adolescência. Não tenho porque meu pai enfrentou grandes dificuldades financeiras e eu procurava ajudá-lo sempre que possível. Faziam questão que eu tivesse um título, algum curso superior. Insistiam em agronomia e eu queria literatura.

    Quando eu tinha 17 anos, portanto em 1934, meus pais mudaram-se de São Paulo para o Rio de Janeiro. Ali trabalhei com o meu pai em uma lojinha de sua propriedade até completar meus 19 anos. Minhas lembranças são péssimas… Nessa época o Brasil vivia sob um regime autoritário que tinha muita desconfiança em relação ao estrangeiro.

    Eu me formei engenheiro agrônomo em 1940, mas não podia exercer a profissão porque, como estrangeiro, eu só poderia exercer a profissão depois de naturalizado. A naturalização era difícil para quem era nascido na Ucrânia, na União Soviética. Eu tratei da minha naturalização sozinho, sem advogado nenhum. Fiquei andando de repartição em repartição para consegui-la, o que ocorreu em 1941. Mas eu só poderia exercer a profissão de agrônomo depois que eu fizesse o serviço militar. Então, entre 1940 e 1942, eu fiquei sem poder exercer a profissão. Procurei dar algumas aulas, fazer uns bicos. Depois que saiu a minha naturalização, consegui um emprego no Ministério da Agricultura.

    Essa era uma época difícil para os judeus que, localizados em diferentes pontos da Europa, tentavam encontrar refúgio em algum lugar. Lembro-me que, em 1940, meu cunhado Marc Leitchic ajudou muitos desses judeus que estavam fugindo do nazismo. Ele era diretor da JCA, instituição que cuidava da entrada de judeus para uma colônia no Rio Grande do Sul, razão pela qual tornou-se “suspeito”. A polícia política invadiu minha casa. Eu estava voltando da aula e quando cheguei encontrei homens sem paletó… Naquele tempo ficar sem paletó era o cúmulo da intimidade! Me detiveram, porque minha família já havia sido levada para o DOPS, para onde também fui levado. Era o tipo da coisa boba. Eu não tinha nada para dizer, pois não sabia o que o meu cunhado fazia. Nós morávamos na mesma casa, mas eu não sabia se ele tinha ajudado emigrantes clandestinos. Prenderam todo mundo, levaram de casa tudo que era documento, papéis, correspondências, etc. Eu recebia cartas de amigos, possuía cadernos de estudos… Levaram tudo! No entanto, minha detenção foi bem curta.

    Com relação às idéias marxistas, aconteceu o seguinte: meus pais tinham muita preocupação para eu não me envolver em nada, não ter nenhum contato… Agora eu tinha um interesse muito grande, lia os textos marxistas, mas tinha muitas dúvidas em relação à União Soviética. Tinha muitas dúvidas… Então,quando começou a II Guerra Mundial e ocorreu o pacto germano-soviético, aí fiquei contra mesmo. Os nazistas estavam fazendo coisas horríveis. Agora durante a guerra, existia aquele entusiasmo pela resistência russa. No ocidente todo havia muita admiração pela resistência russa.

    Em 1942, eu fiz o serviço militar no quartel. Poderia fazer o que se chamava “Linha de Tiro”. Mas, o CPOR – que formava oficiais de reserva – eu não tinha o direito de fazer, porque como brasileiro naturalizado não poderia ser oficial. Eu só poderia fazer o serviço militar como praça; então ao invés de fazer “Linha de Tiro”, preferi fazer no quartel. Por isso, eu fui convocado. Tinha vontade de ir para a guerra, mas ao mesmo tempo tinha muito medo da minha família… Se chegasse para a minha família e dissesse que queria ir para guerra, não daria certo. Eles tinham um domínio completo sobre mim, então eu não fiz isso. Ao invés de fazer a “Linha de Tiro” fui servir no quartel. Nessa época eu já era engenheiro-agrônomo. Fiz curso de sargento, portanto, era inevitável que iria ser convocado. Sabia que iria ser. Fui convocado nas vésperas do primeiro embarque das tropas brasileiras para a Europa em julho de 1944.

    Vejamos: qual era a motivação dos soldados? O Brasil estava sob regime de inspiração fascista e ao mesmo tempo ia-se para um outro país lutar contra o fascismo… Aí é que está! Os soldados não tinham motivação nenhuma. A grande maioria, no entanto, lutou e lutou muito bem, como os melhores. Não posso dizer o contrário. Mas, não tinham preparo nenhum, era nulo. Durante meu tempo de quartel fui treinado de acordo com as normas do exército francês, porque a tradição do exército brasileiro era a francesa; então o armamento era diferente, o sistema era diferente. Era tudo diferente do que nós encontramos na Itália. Eu era sargento de artilharia. Pelo sistema vigente no Brasil não poderia calcular tiro, quem calculava era o capitão. Pelo sistema americano, passei a ser calculador de tiro, aprendi lá, praticamente em ação, na prática.

    Durante o conflito na Itália, participei da artilharia: primeiro num front menos duro. Aos poucos fomos passando mais ao centro da Itália, depois ficamos na região do rio Serchio. Agora, o duro mesmo foi quando nos transferiram para o front do Castelo. Ali passei algumas semanas diante de uma ponte que era constantemente bombardeada. Depois participei da ofensiva final em abril de 1945.

    A população local estava completamente arrasada, em estado de miséria. Quando nós entramos no norte da Itália… aí foi uma glória! A população nos recebeu de braços abertos, jogavam flores, abraçando a gente. Antes disso era uma população miserável. Tivemos bastante contato com eles. A relação foi boa, mas não como nós encontramos no norte da Itália, o delírio da libertação. O fascismo já era muito impopular. A população já se manifestava contra o fascismo no final da guerra.

    A guerra acabou e nós voltamos ao Brasil. Depois de ter lutado contra o fascismo e o nazismo na Europa, qual foi a reação dos soldados ao voltar e encontrar o governo Vargas? A maioria dos soldados tinha lutado, lutado bem, como os melhores, mas a grande maioria não tinha consciência, a grande maioria era getulista. O povo era getulista.

    Depois da guerra, meus pais continuavam preocupados com que eu não tivesse nenhum contato com a União Soviética. Mas, ao mesmo tempo, eles se aproximaram da embaixada russa. Acabei trabalhando junto à agência de notícias soviética, a Tass, no Rio de Janeiro, mas não me considerava comunista, meus pais é que tinham medo. Eu não me considerava comunista, tinha muitas dúvidas e ficava em uma posição contraditória, porque ao mesmo tempo achava que o capitalismo tinha que acabar e tinha desconfiança em relação à União Soviética. Era uma situação muito ambígua a minha. Depois que me casei – meu primeiro casamento foi em 1949 com Regina Schnaiderman – fiquei muito influenciado não só pela minha mulher, mas pelo círculo de seus amigos. Acabei praticamente militando no Partido Comunista Brasileiro no que se chamava “comissão de finanças”, porque o partido, de modo geral, queria da colônia judaica “grana”, queria “grana”. Em fins da década de 1940, eu era funcionário do Ministério da Agricultura, mas estava cansado daquele tipo de serviço público. Meus pais estavam muito assustados com a repressão do governo Dutra. O sistema era democrático, eleito pelo povo, etc. Mas grande parte da legislação em vigor era a mesma legislação fascista do Estado Novo. Então eu participei da comissão de finanças durante alguns poucos anos. Estávamos vendo o Stalinismo, mas ao mesmo tempo queríamos que o capitalismo acabasse e achávamos que o único jeito era apoiar. Logo que houve o “estouro da boiada” em 1956, com as revelações do relatório de Kruchov e a invasão da Hungria, muitos se colocaram contra e eu fui um deles. Foi quando deixei o partido.

    Com relação à minha experiência na agência Tass, onde trabalhei entre 1945 e 1947, se não me falha a memória, eu era o secretário do então correspondente Iúri Kalúguin. Essa experiência foi bastante frustrante, embora ele fosse muito boa gente. Tive contato também com as pessoas da embaixada, onde eu percebia antissemitismo. Não eram pessoas com grande abertura para o mundo… de jeito nenhum! Eram muito fechados nas suas posições, muito dogmáticos.

    Depois do golpe de 1964, minha reação foi de revolta, inclusive enfrentei muitas dificuldades. Nessa época eu já era professor da USP e lecionava junto ao Departamento de Lingüística, Teoria Literária e Línguas Orientais. Tornei-me professor da USP em 1960, primeiro como contratado para iniciar um curso livre de russo. Eu sabia que eles precisavam de um professor de russo porque iria ser inaugurado, aí me candidatei. Eu já tinha publicado alguns trabalhos sobre literatura russa na imprensa. Trabalhava na redação de uma enciclopédia. Em 1963, o curso livre foi substituído por um curso regular, enquadrado no sistema geral da USP. A partir de 1964, participei das manifestações e comícios, mas não tinha nenhuma ligação partidária com grupo nenhum. Se alguém me interrogasse sobre grupos atuantes, não teria o que dizer. Agora, ao mesmo tempo, eu participei de todos os protestos. Meu filho Carlos – eu tenho um filho e uma filha – participou da luta contra a ditadura então, eu tinha muitas vezes a polícia em casa à procura do meu filho. Fui preso várias vezes, mas por poucas horas, porque eles sabiam que não tinha ligação nenhuma. Tanto é que quando eu era preso não me perguntavam quem eu conhecia, porque sabiam que estava completamente “solto”. Lembro-me que uma vez tive a polícia na sala de aula para verificar documentos dos alunos. Protestei violentamente e fui preso, claro! Várias vezes fui preso, sem maiores conseqüências. Era uma situação muito desagradável, muito difícil. Você estar almoçando e aparecer quatro, cinco indivíduos, todos com arma na cintura para revistar a casa e para te levar. Numa ocasião fui levado para o OBAN; em outra ocasião fui levado para o DEOPS.

    Opção pela luta armada? Eu não tinha muita convicção. Achava que se devia apoiar, mas ao mesmo tempo não tinha muita certeza se era esse o caminho. Mas estavam lutando e tinha que apoiar tudo que se fizesse contra a ditadura. Tenho uma certa resistência ao uso de arma, apesar de ter ido para a guerra. Nunca tive vontade de usar arma, sempre resisti a usá-las. Tenho um respeito muito grande pela vida alheia. Agora, durante a guerra, achei que era necessário, não se podia deixar! O nazismo estava avançando… Com toda a minha aversão a pegar em arma achei que não tinha outro caminho. Um paradoxo: um pacifista que foi para a guerra com vontade de ir para a guerra.

    Quando criança, nos primeiros tempos de Brasil, estava muito ligado às lembranças da Rússia, na verdade da Ucrânia (mas digo Rússia porque vivíamos em um meio muito “russificado”). Odessa era uma cidade russa. Tinha uma ligação afetiva muito grande com a minha infância na minha terra natal, com a língua russa. No Brasil eu ficava copiando autores russos… Fazia cadernos, copiava, não queria esquecer a língua. Em casa se falava o russo, e eu me esforçava para não esquecer a língua. Tinha sido alfabetizado apenas, mas queria conhecer bem a língua, ficava copiando e lia muito em russo. Aos 14 anos passei por uma fase de fascínio pelo mundo que estava encontrando no Brasil, passei a ler autores brasileiros e portugueses, a me dedicar ao português. Fui muito estimulado pelos professores no curso primário. Tenho uma lembrança muito boa. Acho que não se dá o suficiente valor à contribuição da mulher brasileira na formação de jovens. Foi uma coisa muito importante para mim. A partir daí queria me dedicar à literatura, mas como tinha antes dito que gostava de agronomia, isso aos doze, treze anos, então meus pais achavam que tinha que fazer agronomia e acabei fazendo. Com muitas dificuldades, pois meus pais estavam passando por dificuldades financeiras e eu tinha perdido todo o meu curso secundário. Em São Paulo houve – isso nos tempos de Getúlio Vargas – uma coisa horrível! Cassaram os direitos dos estudantes do Mackenzie. Os diplomas do Mackenzie passaram a não valer nada; o meu curso secundário não valia nada… Então eu cursei no Rio de Janeiro o que hoje em dia chamamos de supletivo, ou melhor, durante dois anos fiz os exames, que eram muito fáceis, muito simples, e acabei efetivando o meu curso secundário. Depois ingressei na Escola Nacional de Agronomia.

    Continuei com meu interesse pela literatura. Maiakovski eu conhecia um pouco de ver revistas, trechos, poemas reproduzidos. Tomei contato com a obra dele quando pude comprar as obras completas, isso no fim da década de 50 ou início da década de 60. Me entusiasmei e fiz traduções de suas obras em colaboração com Augusto e Haroldo de Campos, e que hoje estão no livro Maiakovski, Poemas, publicado pela Editora Perspectiva.

    Hoje, com relação ao panorama político do país, sobretudo depois da eleição de Lula, não tenho muito a dizer. Sou membro fundador do PT e sempre o encarei com muita simpatia; depois acabei me afastando… Achei a eleição muito positiva. Estou na expectativa…

    FRAGMENTO DA OBRA: GUERRA EM SURDINA

    BORIS SCHNAIDERMAN

    Eu estava certo de que, para lutar, era preciso saber o que se fazia. Estes homens, evidentemente, não sabem. E, todavia, como se dedicam, como enfrentam esta natureza hostil, como investem contra um inimigo experimentado e ardiloso! Lá diante, no front da infantaria, as patrulhas saem, penetram nas linhas inimigas, enfrentam mil perigos. Aqui, sob a minha janela, vejo soldados arrastando-se sobre a neve da estrada, às vezes sob o bombardeio, consertando linhas telefônicas. Nenhum deles pára a fim de pensar no que está fazendo, mas são tremendamente eficazes.

    A Guerra tem suas próprias leis, os homens vivem nela como num turbilhão do qual não adianta querer sair. Até a crueldade tem algo de inexorável, acaba sendo aceita como uma fatalidade. Lembro-me da ausência de qualquer animosidade contra o inimigo, e que chegou a me deixar tão indignado. Mas agora tudo mudou. A brutalidade, a estupidez da guerra nazista são por demais evidentes. O bombardeio contínuo das cidades, a população alucinada de pavor, as crianças famintas, as notícias de atrocidades contra os partiggiani e seus parentes, a morte de companheiros, tudo isso tem o seu reflexo mesmo no homem de gênio mais brando.

    SCHNAIDERMAN, Boris. Guerra em Surdina. História do Brasil na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 128.

  • Porto Rico em Crise: soluções?

    Porto Rico em Crise: soluções?

    • Crise em Porto Rico
    • Eleição Americana, 2016
    • A Proposta do Senador Sanders

    A crise em Porto Rico é um anúncio da crise americana? É uma pergunta apenas provocativa! Mas que chama a atenção para a precária situação institucional e financeira deste que é um “Estado livre associado” aos Estados Unidos da América (EUA). Com uma dívida de aproximadamente 73 bilhões de dólares, a pequena ilha caribenha não parece ter forças para arcar com sua dívida, sem causar um caos social.

    História de Porto Rico 

    A situação de Porto Rico é bastante intrigante, pois a ilha é parte dos Estados Unidos como um “estado livre associado”. Ou seja, juridicamente é parte dos Estados Unidos, mas não tem a mesma autonomia e direitos dos outros Estados que compõem os Estados Unidos da América.

    Porto Rico era parte do Império Espanhol na América até o fim do século XIX. Com a intervenção dos Estados Unidos na Guerra de independência de Cuba, deu-se início a Guerra Hispano-Americana que terminou com o tratado de Paris de 1898. Nesse tratado, a Espanha repassou por período indeterminado a autoridade colonial sobre Porto Rico.

    Em 1917, os Estados Unidos estenderam o direito de cidadania aos nascidos em Porto Rico. No entanto, alguns direitos lhes foram negados, como o de votar para a Presidência da República (embora possam votar nas primárias atualmente).

    É bem verdade que sempre houve grupos pró-independência em Porto Rico. Alguns com ações violentas, mas nas duas vezes em que a questão da autonomia foi levada a referendum a população optou por outro caminho. No referendum de 1998, foi decidido pela não independência e pela manutenção de Estado Associado.

    Em dezembro de 2012, um referendo na Ilha expressou, por 65%, a vontade de Porto Rico em se tornar um estado dos EUA. No entanto, para alcançar esse status é necessária a aprovação do Congresso Americano, o que ainda não aconteceu. Se é que vai acontecer! Assim, Porto Rico tem o direito de eleger o seu próprio governador e sua língua oficial é tanto o inglês quanto o espanhol. O espanhol é mais utilizado.

     A Crise em Porto Rico

    Atualmente, Porto Rico detém uma dívida de aproximadamente 73 bilhões de dólares. Ela foi adquirida através de empréstimos com diversos fundos e o atual governador Alejandro Garcia Padilha declarou que a dívida é simplesmente “impagável”. A ilha já deixou de realizar pagamentos, o que levou a uma situação de desgoverno.

    A situação chegou ao Congresso Americano que deveria apontar soluções para o problema. Depois de meses de inação, aprovou uma medida intitulada PROMESA (Oversight Management and Economic Stability Act), em um acordo entre os dois partidos Republicanos e Democratas. De acordo com o ato seriam escolhidos pelos líderes do Congresso sete membros fiscais com amplos poderes de negociação. Eles também poderiam realizar cortes no orçamento poderiam suspender leis locais e congelar pagamentos.

    Críticos a essa medida observam que uma comissão com tais poderes seria uma forma de recolonização de Porto Rico, mais do que isso. A comissão atuaria em favor dos credores e não da população local ampliando a crise na Ilha, que já acumula taxa de desemprego de 12%. Uma taxa muito maior do que a média dos outros Estados Americanos. Acrescenta-se a esse fator desestabilizador a enorme emigração, sobretudo entre os mais jovens.

    É preciso lembrar que muitos cidadãos de Porto Rico tem suas poupanças e aposentadorias investidas em títulos do governo, ou seja, a depender da negociação a ser realizada, o resultado pode ser a ampliação da pobreza principalmente na população mais vulnerável.

    Solução proposta por Sanders?

    Todas essas questões surgem, pois Porto Rico, como Estado Associado, não tem os mesmos direitos dos demais Estados. Por exemplo, o de utilizar a lei de falências que já foram utilizadas por cidades como Detroit. Neste sentido, desprotegido de uma lei que possa representar segurança e dar alguma margem de negociação para Porto Rico, seus credores têm poucos motivos para acelerar um processo de negociação ou reestruturar a dívida, já que não estão sujeitos às leis Americanas.

    Em um último esforço para aliviar a situação, o Senador e pré-candidato à Presidência Bernie Sanders propôs que o “Banco Central Americano”, o FED, use a mesma “imaginação” e engenharia financeira utilizada para resgatar empresas em dificuldades durante a crise de 2008. Na ocasião, o FED abriu os seus cofres e ofereceu bilhões em empréstimos e subsídios para salvá-las da falência.

    Por agora, ao que tudo indica, a voz de Sanders parece ecoar solitária. Os Olhos do público americano (ao menos aqueles que se preocupam com a coisa pública) está voltado para as próximas eleições.

    O debate 

    A discussão sobre Porto Rico tem ocupado um lugar bastante marginal na imprensa dos Estados Unidos. Ele também não foi tratado com a devida atenção por nenhum dos pré-candidatos (a exceção de Sanders dentro do Congresso). Parece que assim, a situação de Porto Rico, terá que ser tratada pelo próximo Presidente já que a dívida, que tem uma significativa parcela a vencer no dia Primeiro de Julho e, ao que parece, não será paga.

    Qual será o futuro de Porto Rico? E como os EUA vão lidar com os seus débitos? Perguntas que o próximo Presidente dos EUA terá que responder.

  • Sobre Sanders e a eleição americana 

    Sobre Sanders e a eleição americana 

    Caros amigos,

    Tive a oportunidade de publicar uma síntese das minhas reflexões sobre Bernie Sanders e a eleição americana no blog do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais IPPRI/UNESP

    O artigo sobre Bernie Sanders e a eleição americana tem o título: Um Socialista à Americana? Conheça Sanders, o democrata. Segue o link: http://neai-unesp.org/um-socialista-a-americana-conheca-o-democrata-bernie-sanders-por-erick-zen

  • Bernie Sanders e a Eleição Americana

    • Candidatura de Bernie Sanders
    • Ideias democratas socialistas
    • Socialismo nos Estados Unidos

    O Fenômeno Democrata Bernie Sanders

    Na imprensa brasileira, e mesmo nas publicações especializadas, fica evidente a dificuldade dos analistas em entenderem o fenômeno Democrata Bernie Sanders. Para muitos, um candidato à presidência dos Estados Unidos que se apresente como Democrata Socialista, é exótico! Para outros, ele não seria um “verdadeiro socialista” e, finalmente, a direita, já utilizou até mesmo a palavra populista para defini-lo.

    Neste pequeno texto vou esboçar (sim esboçar!) a resposta para duas perguntas: 1) Por que os analistas brasileiros têm dificuldade em lidar com os fenômenos da política interna dos Estados Unidos ? 2) O que o fenômeno Sanders nos diz sobre a sociedade americana? Esse texto completa o primeiro publicado AQUI

    O Brasil é o seu Eurocentrismo

    Uma das coisas mais impressionantes sobre as Ciências Humanas no Brasil é o seu eurocentrismo! Eurocentrismo tanto na elevada carga horária dos cursos de graduação como na visão europeia de mundo que coloniza a nossa percepção. Apenas aponte um único curso de História de Ciências Políticas, Relações Internacionais e Jornalismo que se dedique a História e a sociedade americana e eu mudo esse parágrafo. No geral, o que vi (e mais de uma vez) foi a História da América Latina e História dos EUA perderem espaço nas grades dos cursos substituídas, na maior parte das vezes, por um blá-blá-blá pseudo teórico ou por regionalismo provincianismo pseudo culturais.

    Com isso, o nosso conhecimento, e a produção do conhecimento, sobre Estados Unidos é muito limitado. No que se refere as questões temáticas, em geral, os estudos se limitam a política externa americana e sua influência no Brasil e muito pouco sobre a sociedade americana (a excessão são as comparações entre escravismo no Brasil e nos EUA).

    Nossos analistas.

    Como resultado, não dispomos de analistas que tenham instrumentos intelectuais adequados para interpretar a sociedade e a política americana e, quando a fazem, utilizam instrumentos e paradigmas europeus para a análise. Isso é realmente incrível! Afinal, qual foi o país mais influente no Brasil em termos culturais e políticos no último século? E justamente este é o que você, caro colega de humanas, não estuda!

    Diante deste quadro, o que resta são muitos chutes e desentendimentos. O fenômeno Sanders poderia servir como estudo de caso, nesse sentido. O primeiro erro é tentar analisar o que Sanders propõe como “socialismo” através da história da Europa. Assim, tentamos entender Sanders pela lente do Partido Social Democrata Alemão ou pelo Partido Socialista Francês, ambos utilizados como paradigma de social democracia. Ocorre que, em grande medida, o “socialismo”, tem um desenvolvimento histórico particular nos Estados Unidos.

    O Desenvolvimento do Socialismo nos EUA

    Se é verdade que o Partido Socialista e o Comunista Americano seguiram por longo tempo os caminhos da Segunda e da Terceira Internacional, no que se refere ao campo das ideias, muitas perspectivas socialistas e anarquistas nos EUA se combinaram com um liberalismo radical, em particular na virada do século XIX para o XX. Portanto, se não for considerado o desenvolvimento particular do socialismo nos EUA, a tendência que se tem é de considerar Sanders como um exótico, ou como um falso socialista. Na verdade, a dificuldade aqui são dos analistas e não do candidato.

    Um dos lugares mais profícuos do desenvolvimento socialista e anarquista nos EUA foi Nova York, em especial em dois bairros no Harlem e no Brooklyn. Bairros estes que são tradicionalmente de operários negros, mas também de imigrantes do leste Europeu, no início do século, e de imigrantes latinos, a partir da segunda metade do século XX.

    No Brooklyn, como filho de judeus imigrados da Polônia, que Sanders nasceu e foi criado, em uma família com ideias de esquerda. Em muito, esses imigrantes operários, como ele, se desenvolveram economicamente e chegaram ao sonho da classe média americana.

    O socialismo de Sanders

    Portanto, o socialismo que Sanders viveu e viu se desenvolver como princípio e ideal é histórico e não oportunista. O socialismo americano, no decorrer do século XX (e aqui precisaria de páginas e páginas para explicar como), toma bandeiras como da igualdade e equidade o que muito significou salário justo, direitos trabalhistas, direitos civis (sobretudo para inclusão do negro, indígena e das mulheres).

    Ao mesmo tempo, também apresentou uma crítica aguda ao domínio do Estado por uma plutocracia financeira, ao segredo de Estado, as guerras não justificadas, a crítica ao crescente poder do complexo militar e industrial sobre democracia. Não foi atoa que a primeira aparição de Sanders como ativista político se deu na luta por direitos civis e contra a Guerra do Vietnam.

    A essas bandeiras, a esquerda socialista americana acrescentou uma defesa dos direitos humanos e aos direitos constitucionais e principalmente, (principalmente!) nos direitos dos trabalhadores! E a defesa do poder local como fundamental para a democracia.

    Bernie Sanders Carregou Essas Bandeiras

    Desde que se iniciou na atividade política, Sanders carregou todas essas bandeiras, mesmo quando isso significou enormes contradições. Por exemplo, sua defesa radical da constituição americana, o que inclui a Segunda Emenda, fez com que ele nunca defendesse a restrição ao uso das armas de fogo! Quando foi eleito como Governador do Estado de Vermont recebeu doações da NRA (Associação Nacional do Rifle), principal lobista dos fabricantes de arma.

    Por outro lado, sua coerência fez com que ele fosse um dos poucos Senadores a votar contra a intervenção militar no Iraque e ser um forte crítico das guerras recentes que os EUA se envolveu. Incluindo ai a guerra ao terror e ao excessivo poder das agências de informação para espiar os cidadãos americanos.

    Isso não significa que não tenha posições duras com relação a política externa, pelo contrário. Sanders é um grande defensor, por exemplo, do Estado de Israel. Em um comício de sua campanha um militante pró-palestina que o criticava foi retirado a força do evento.

    Bernie Sanders e suas ideias

    Se as ideias de Sanders não são novas, o que o levou a crescer politicamente a ponto dos democratas preferirem a ele e não a Clinton? A reposta está na defesa dos direitos trabalhistas! Esse é o ponto central!

    Desde a crise de 2008 os EUA passaram por uma enorme onda de desemprego que vai até 2010 (2011). Atualmente, a maioria dos americanos já recuperou o emprego (o desemprego está por volta de 5%). No entanto, nesse dado tem uma “pegadinha”.

    Se o emprego aumentou o salário diminuiu! Ou seja, os americanos que já estiveram próximos a classe média tem dificuldade em pagar as suas contas. Quem recebe o salário mínimo ($7 dólares por hora) não consegue pagar por aluguel ou hipoteca, ter um plano de saúde. Vale lembrar que nos EUA não há saúde pública universal e é preciso comprar um plano privado ou agora Estatal). Pagar educação (College) para os filhos também é proibitivo.

    É para essa população e para a classe média, que perdeu o seu poder de consumo, que as propostas de Sanders soam como música. Propostas tais como: elevação do pagamento mínimo, saúde universal, acesso a educação entre outras.

    O Papel dos jovens

    Ainda é preciso acrescentar o papel dos jovens que aderiram a campanha. Atualmente, as possibilidades de um recém formado em uma faculdade entrar ou de se manter na classe média, na atual situação americana, é bastante limitada. Com as enormes dívidas que os jovens acumulam para estudar, somadas as dificuldade para se conseguir um emprego, com benefícios ou contrato longo, a ascensão social é limitada.

    No mesmo sentido, as críticas ao poder dos financistas e ao complexo militar na democracia americana, e a proposta regulamentar essa participação, revelam que a maior parte dos americanos entendem que a sua democracia corre risco, quando o poder financeiro é maior do que participação popular.

    O candidato Bernie Sanders, portanto, não é um exótico, oportunista, populista. Pelo contrário, ele faz parte das lutas políticas e das crises recentes pelas quais os Estados Unidos passaram nas últimas décadas. A luta é histórica e ganhou força diante de uma conjuntura em parte estrutural e em parte específicas. Se tudo isso será suficiente para conseguir a vitória sobre Hillary Clinton e sobre o candidato Republicano ainda é cedo para saber. O que certo é que tentar entender Sanders e suas ideias a partir de uma referência europeia ou latino-americano não vai facilitar o nosso entendimento do processo eleitoral americano.

  • Bulgária: O Lado Esquerdo.

    Bulgária: O Lado Esquerdo.

    • Resenha do livro O Lado Esquerdo da História
    • História da Bulgária
    • Antropologia e gênero

    O Lado Esquerdo da História de Kristen Ghodsee foi sem dúvida um dos melhores livros que conseguir ler nos últimos anos, por duas razões: pelo tema abordado e pela forma como foi escrito. Kristen Ghodsee é uma conhecida antropóloga americana cujos estudos abordam temas relacionados a gênero e a Europa Oriental, após o colapso do comunismo. Em particular se concentra na região dos Balcãs, principalmente na Bulgária.

    O livro tem um tom particular: ao contrário do que se espera de uma obra escrita por uma acadêmica, a autora mescla suas pesquisas a elementos do seu cotidiano, suas impressões, e reflexões. Assim, é como se nós estivéssemos lendo o seu caderno de campo e não somente sua análise final. Essa característica, ao invés de deixar a análise confusa, acrescentou uma dramaticidade pessoal que deu maior intensidade ao livro.

    A obra começa com uma investigação sobre o assassinato de Frank Thompson que lutou como partisan na Bulgária até ser capturado e fuzilado. O capitão Thompson se tornou famoso por sua luta dedicada e foi homenageado até com nome de rua, durante o governo comunista. Ocorre que ele foi também o irmão mais velho, e para alguns o mais talentoso, de Edward P. Thompson (1924 – 1993) um dos mais importantes historiadores marxistas do século XX.

    Ao buscar as fontes de suas pesquisas sobre Frank Thompson, a autora entrou em contato com uma série de personagens que se entrelaçam com as tensões e conflitos de uma Bulgária presa entre as memórias do regime comunista e a crise que se abateu sobre o país na primeira década do século XXI. A Bulgária foi aceita na União Europeia, mas é considerada o seu membro mais pobre.

    As Mulheres na Bulgária Comunista.

    Se na primeira parte do livro, Kristen Ghodsee recupera a História daqueles que lutaram contra o fascismo, na segunda, ela se dedica à questão das mulheres na Bulgária, encontrando no seu percurso interessantes e intrigantes personagens.

    Entre esses personagens duas mulheres que trabalhavam para o regime se destacam. A primeira foi Elena Lagadinova, uma das heroínas da luta contra o nazi-fascismo, uma das mais jovens mulheres a fazer parte da resistência. Recebeu o codinome de Amazona por ter se reunido aos partisans e ao seu irmão Assen, um dos principais líderes, em um cavalo.

    Após a Guerra, e de se formar e doutorar, Elena integrou o Comitê das Mulheres. Durante o período comunista, a Bulgária conseguiu estabelecer uma relevante política de Estado com relação às mulheres o que incluía: licença maternidade de dois anos, jardins de infância, ingresso na universidade entre outras questões.

    Todo esse trabalho deu à mulher búlgara uma das melhores condições entre os países do bloco comunista e, certamente, muito melhor do que da maior parte dos países ocidentais.

    O Fim do Comunismo na Bulgária

    Com o fim do comunismo, Elena passou a ser apenas mais uma entre tantas aposentadas com as dificuldades financeiras de todos os búlgaros que viviam (vivem) de pensão, em plena crise que se abateu na economia europeia em 2008.

    Apenas saudosismo ou era tudo verdade?

    Entre os diálogos mais intrigantes registrados pela autora está o do seu último encontro com Anelia (pseudônimo). Anelia foi uma importante participante das publicações femininas na Bulgária e representante deste país em Berlim em diversos congressos.

    Ao longo dos anos ela sempre escreveu artigos críticos ao modo de vida ocidental, ao capitalismo, demonstrando como este explorava os indivíduos e os deixava em situação de miséria. Em todos os anos em que escreveu ela demonstrava desconfiança sobre o conteúdo dos seus próprios textos. Acreditava realizar apenas trabalho de propaganda ditada pela linha do Partido Comunista, da qual ela nunca foi um membro.

    Ao chegar aos setenta anos de idade, com uma pensão que não a sustentava, correndo risco de perder seu único apartamento e desempregada, ela olha para o passado e entende que tudo o que havia escrito de negativo sobre o capitalismo era verdade: “era tudo verdade”.

    Dilemas da Escrita da Bulgária

    Como muito bem aponta Ghodsee, escrever o comunismo nos coloca diante de muitas tensões. Os comunistas derrotaram o nazi-fascismo, mas instalaram um regime repressor e censor que levou milhares de pessoas às prisões e à morte.

    Assim como Boris Lukanov, assassino de Frank Thompson, Petar Gabrovski que pessoalmente assinou a deportação de 20.000 judeus está na lista de vítimas do comunismo.

    Ao mesmo tempo, no cotidiano, abriu horizontes para a ciência, para uma vida melhor das mulheres, principalmente na Bulgária, aprimorou a educação, garantiu emprego, moradia, assistência médica e principalmente acabou com a miséria. Em suma, deu estabilidade ao cotidiano dos indivíduos.

    Como articular essas duas pontas? Como expressar essas contradições? Este é o desafio de quem quiser escrever essa história de uma forma honesta. Honestidade que anda em falta nos estudos sobre o comunismo.

    Ávidos por ingressar no Ocidente, os países da Europa Oriental, com apoio financeiro do Ocidente, se apressaram em destruir qualquer referência positiva ao comunismo. Negam, manipulam, demonizam constantemente até mesmo a palavra socialismo.

    Mesmo os intelectuais, que tanto se beneficiaram do sistema universitário comunista, hoje trabalham com recursos ocidentais para falsificar a História. Colocam, assim, todos os reclames sociais gerados pela perda de benefícios e direitos que a adesão ao liberalismo radical representou, bem como todas as memórias que não combinam com a memória oficial, sob o rótulo de revisionismo e saudosismo.

    Ainda no que se refere à memória, o que se tem realizado é um discurso de vitimização, ou seja, todos viraram vítimas do comunismo, mesmo aqueles que eram conhecidos nazistas e fascistas. Como muito bem ilustra a autora, o assassino de Frank Thompson está em um destes sites de “memória” como vítima do comunismo.

    Referências

    Outros livros de Kristen Ghodsee

    Kristen Ghodsee. The Left Side of History. World War II and The Unfulfilled Promise of Communism in Eastern Europe. Duke University Press, 2015

    _________________ Lost in Transition: Ethnographies of Everyday Life After Communism, Durham: Duke University Press, 2011.

    ___________ Muslim Lives in Eastern Europe: Gender, Ethnicity and the Transformation of Islam is Postsocialist Bulgaria. Princeton: University Press, 2009.

    ___________ The Red Riviera: Gender, Tourism and Postsocialism on the Black Sea. Durham: Duke University Press, 2005.

  • Morar no Harlem: Hotel Theresa

    Morar no Harlem: Hotel Theresa

    Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    Encontrar com o Hotel Theresa foi uma das minhas primeiras surpresas, quando cheguei a Nova York e fui morar no Harlem. Entrar no Harlem é encontrar uma parte dos Estados Unidos que fica, muitas vezes, oculta aos olhos dos turistas. Na realidade, é comum vermos o brasileiro de classe média confundir a Disneyland com a sociedade americana. Longe dos bichinhos de Orlando, da coisa brega de Miami e dos espetáculos para o público do terceiro mundo da Broadway, a sociedade americana é muito mais complexa, plural, repleta de contradições e conflitos.

    São essas contradições e conflitos que encontramos em um bairro historicamente composto por maioria negra e latina (e de negros latinos) como é o Harlem. Em cada uma das suas esquinas e das suas construções, esse bairro de trabalhadores guarda a história de luta e sofrimento dos que não foram plenamente favorecidos pelo sonho americano.

    Assim, decidi escrever alguns pequenos textos sobre o lugar onde agora resido e suas localidades históricas. Não escolhi escrever por tema ou importância e ainda não sou capaz (e não sei se serei) de escrever uma história geral do bairro. De uma forma livre, a partir das minhas caminhadas, encontros e desencontros, vou buscar contar algumas de suas histórias.

    Hotel Thereza

    Descendo a Rua 125 olho para o horizonte e vejo um enorme prédio branco e antigo. Lá no alto o letreiro indica Hotel Theresa. O hotel ficou conhecido por ser o primeiro a acabar com a segregação racial e pelos encontros inusitados que ali aconteceram.

    Fidel Castro no Harlem.

    Quando Fidel Castro veio a Nova York para discursar na ONU, após a Revolução Cubana, teve muita dificuldade em ser aceito nos hotéis da cidade. Por má vontade dos proprietários de hotéis solidários aos seus pares cubanos que perderam seu negócio devido à Revolução, pelas pressões do governo e por todo o movimento anti-comunista que se lançava contra Cuba, nenhum hotel se dispôs a aceitar a delegação cubana.

    Eis que um hotel, confortável, mas menos luxuoso que seus pares no centro financeiro de Manhattan, resolveu abrir as suas portas. O Hotel Theresa era um dos poucos hotéis em Nova York cujo proprietário era negro. Seu nome era Love B. Woods e em 1940 colocou fim à segregação racial no estabelecimento. Sua justificativa para aceitar Fidel Castro e os demais membros da delegação cubana foi extraordinário, disse ele: “como negro americano eu sei o que é ser rejeitado”.

    Foi assim que Fidel Castro chegou ao Harlem e com ele uma tropa de curiosos, políticos e do FBI que monitorou cada encontro, cada conversa que teve o líder cubano. E ali na Rua 125 foram realizados encontros políticos de personagens que marcaram o século XX.

    Um dos visitantes de Fidel Castro no Hotel Theresa foi Malcolm X, o lendário líder do movimento negro islâmico que pouco depois seria assassinado. O conteúdo do diálogo foi inteiramente anotado pelos espiões do FBI que acompanharam de muito perto a conversa.

    O mesmo caminho de encontro com Fidel Castro fez o então jovem candidato à presidência dos Estados Unidos John Kennedy que esteve pela primeira vez frente a frente com o presidente cubano. Depois de eleito, o mesmo presidente tentou derrubar Fidel Castro no fatídico episódio da Bahia dos Porcos. Assim como Malcolm X, o presidente americano também acabou por ser assassinado.

    As visitas não pararam por ai, o líder soviético Nikita Khrushchev entrou no hotel para conhecer o líder cubano. Já teria ele se convencido a aceitar o comunismo naquele momento nunca saberemos, mas o que é certo é que a presença de um revolucionário vindo de um país subdesenvolvido atraiu outras lideranças que fizeram uso dos apartamentos desenhados pela empresa George & Edward Blum em sua decoração de terracota construída entre os anos de 1912 e 1913. Assim, naqueles poucos dias passaram por ali o presidente do Egito Gamal Abdel Nasser, o Primeiro Ministro da Índia Jawaharlal Nehru e o líder do Congo Belga Patrice Lumumba. Além dos líderes políticos, escritores como e poetas como Langston Hughes e Allen Ginsburg também foram conhecer Fidel Castro. Se aqueles dias foram quentes para o hotel, esteve longe de ser o único…

    Hotel Theresa: racismo e resistência

    Aqui entra o outro lado da história americana e o seu racismo. Muitos hotéis de luxo de Manhattan se recusavam a receber hóspedes negros, mesmo aqueles que já tinham obtido fama. Desta forma, o Hotel Theresa acabou por se tornar o local de hospedagem dos músicos que iriam se apresentar no Teatro Apollo, que dista apenas uma quadra do hotel e também dos principais atletas, em particular dos lutadores de boxe. Entre os hóspedes mais ilustres estiveram os músicos Luis Armstrong, Ray Charles, Duke Ellington, Jimi Hendrix, Lena Horne, Little Richard, Dina Washington e aquele que também foi gerente do bar do hotel Andy Kirk.

    Entre os atletas, os boxeadores Muhammad Ali, Sugar Ray Robinson, Joe Louis entre outros. O hotel também abrigou organizações do movimento negro como Organization of Afro-American Unity criado por Malcolm X depois que ele deixou a Nation of Islam (Nação Islâmica). O hotel também chegou a abrigar uma livraria que difundia as obras do movimento negro.

    O hotel, e o bairro em geral, foram locais de duras lutas políticas que deixaram as suas marcas até os dias de hoje. Atualmente não há nenhum registro no prédio que lembre os seus tempos de hotel, apenas os letreiros e a fachada que tem de ser preservada, pois o local é considerado um marco histórico da cidade de Nova York. Assim, um visitante que não conheça a história do local pode passar por ele sem percebê-lo ou sem se dar conta da sua importância histórica.

    Hotel Theresa. Foto Erick Zen
    Hotel Theresa. Foto Erick Zen

    Hotel Theresa. Foto Erick Zen
    Hotel Theresa. Foto Erick Zen