Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

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?… Que pasó en los 70?

Montoneros, Una Historia… ?Que pasó en los 70? Essa pergunta incômoda de uma filha para a mãe abre espaço em uma memória até então silenciada e que hoje clama e celebra diante da verdade, do castigo e da justiça que o Estado argentino corajosamente tem levado à frente. Ela, uma ex-militante do movimento armado peronista chamado de Montoneros, que sobreviveu ao terrorismo de Estado.

A história dos anos 1970, politicamente dura e sem meias palavras é narrada em suas minúcias, nos seus detalhes pessoais e emotivos de quem viveu os dilemas do movimento armado, foi jogada na ESMA e saiu viva. Algo a ser notado, a dor dos sobreviventes, a pergunta que martela e continua a torturar: Por que meus companheiros morreram e eu sobrevivi?

1335--400-montoneros__grande_1O sobrevivente do terror carrega a sua dor. Leva sobre ele, muitas vezes, o olhar da desconfiança …Ele (a) colaborou? É um herói, um traidor? Por isso o soltaram? A dor é para os que ficaram também. Como fechar essa cicatriz? Como curar um trauma. Não temos uma resposta, mas explicitar as ansiedades dúvidas e medos. Colocar a público a dor parece até o momento ter sido a melhor forma.

A ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada) foi, sem dúvida, o que mais próximo existiu dos campos de extermínio nazistas. Ali, o preso perdia sua identidade, sendo-lhe atribuído um número. As torturas eram cotidianas, além das chantagens e extorsões que foram parte do processo que e enriqueceram muitos dos repressores.

Na ESMA eram jogadas as mulheres grávidas que, em condições muito precárias, viam seus filhos nascer e desaparecer. Uma quantidade ainda incerta de presos recebeu o último tratamento: a injeção com calmantes que tinha como objetivo “apagá-los” para que fossem transportados até o Aeroporto próximo e dali arremessados ao mar e no Rio Plata para desaparecerem em suas águas.

Emilio Eduardo Massera, o comandante do ESMA – que tinha amplas pretensões de poder, como a de se tornar presidente – implantou um esquema de tortura, morte e extorsão que deixou cicatrizes profundas na sociedade Argentina. Em meio a sua loucura e ambição foi implementado na ESMA um processo de “reabilitação” de presos.

Estes eram conduzidos por militares escolhidos para serem reintroduzidos à sociedade, desde que estivessem recuperados de suas aspirações montoneras. Não sabemos muito sobre esse processo. Sabemos que a maioria foi assassinada da mesma forma. Daí a narração proposta no documentário ser ainda mais importante.

Não se trata de mera descrição. As questões políticas se misturam com o lado mais íntimo da vida, o que explicita a violência da ditadura. Temos assim uma mulher militante, esposa e mãe, que passou pela tortura, pela violação, pela desconfiança de seus companheiros de armas e até mesmo de seu marido que é um dos desaparecido políticos.

Além do roteiro e depoimento, destaco o trabalho de pesquisa histórica. Uma pesquisa histórica que respeita a história e não a trata como coisa fútil (quando nós aprenderemos a fazer isso?) É um filme longo, detalhista, forte e indispensável para quem quiser saber “…que pasó en los 70” e NÃO gosta de documentário político e histórico que parecem com vídeo clipes da MTV, nos quais o editor parece querer ser o personagem principal e não o entrevistado ou a história. Aqui um exemplo de documentário histórico!

Montoneros, Una Historia, 1994.

Dirección: Andrés Di Telle
Roteiro: Ricardo Piglia

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  • Sobre radicalismo político nos anos 1970 ver também: O Clima no Subterrâneo (Aqui)
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