Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

  • Tim Weiner. Legacy of Asches. The History of the CIA. New York. Anchor Books, 2008.

  • Sobre Tim Weiner
  • A propósito do livro
  • Guerra Fria: Europa Centro-Oriental: Rádio Europa Livre.
  • A Tragédia dos Agentes Anti-Soviéticos.

Não tenho dúvidas que Legacy of Ashes. The History of the CIA é a obra narrativa mais completa sobre a atuação da CIA. O livro de Tim Weiner recebeu o principal prêmio que um jornalista norte-americano pode receber: o pulitzer. Sua proposta é realizar uma história narrativa dos principais eventos sobre a CIA que se estende da sua fundação ao o que o autor considera o seu momento de maior crise, com a revelação de que o Iraque, ao contrário do que foi levado ao público, não possuía armas de destruição em massa.

Essa longa trajetória, cobrindo aproximadamente 60 anos, é realizada em 778 páginas. Sua narrativa é clara e prende a atenção do leitor. Mesmo para um leitor estrangeiro, como eu, o vocabulário é acessível e as construções gramaticais não se prendem a desnecessários rebuscamentos. Sua pesquisa também merece destaque. Embora o autor cubra temas relacionados à inteligência americana para diversos órgãos de imprensa, não utilizou fontes que não possam ser verificadas. Com isso a narrativa histórica, feita por um competente jornalista, ganha credibilidade e não se perde nos corredores das hipóteses mirabolantes e das teorias da conspiração.

Esse é um aspecto importante! Aquele que se propõem a escrever a história de qualquer órgão de segurança (ou de inteligência) anda sempre no fio da navalha entre as teorias da conspiração, o que veio a público e o que pode ser comprovado. A própria comprovação é, muitas vezes, o maior problema. Assim, entrar em assuntos espinhosos e ao mesmo tempo manter a sobriedade da pesquisa é algo exaustivo e cansativo. (Aqui compartilho minha experiência trabalhando com os arquivos do Deops-SP).

Seja como for, o autor realiza o que se propõe e o que nos oferece cobre uma ampla história da CIA. Não quero dizer com isso que não caibam questionamentos às suas afirmativas. Pelo contrário! Menos ainda que ela é completa e absolutamente correta (mesmo porque isso não existe em nenhum trabalho histórico). Na realizada, o autor nos apresenta uma avaliação bastante pessimista da atuação da CIA. Demonstra exaustivamente a sua debilidade, as suas falhas e os seus erros. O principal deles, ainda segundo o autor, foi o de sempre depender da inteligência de outros países. Mostra ainda a incapacidade desta ter penetrado a URSS, durante a Guerra Fria. Narra uma quantidade enorme de operações fracassadas nas mais diversas partes do mundo, da América Latina, Ásia e Oriente Médio. Ressalta ainda alianças duvidosas com o sub-mundo em diversos países do mundo.

De toda as trajetórias descritas pelo autor gostaria de destacar uma em particular que se refere à Europa Centro-Oriental. Logo no início da Guerra Fria, com o objetivo de levar um discurso pró-ocidente e pró-liberdade para dentro da URSS e dos demais países comunistas, a CIA junto com diversas organizações, apostou na Rádio Europa Livre. A Rádio difundia um discurso do Ocidente que poderia ser facilmente captado por qualquer rádio e que com a tecnologia então disponível era praticamente impossível bloquear sem danificar seriamente a comunicação destes países.

  1. Guerra Fria: Europa Centro-Oriental: Rádio Europa Livre.

No delinear da Guerra Fria, uma questão que se abriu foi como lidar com aqueles que haviam escapado da União Soviética e dos países sob regime comunista da Europa Centro-Oriental. Em particular com os intelectuais que agora viviam no ocidente. Assim, os principais cabeças da CIA como, Frank Wisnes, Kennan e Allen Dulles viram uma forma muito melhor de lidar com o fervor e com a energia destes intelectuais dos exilados e decidiram por abrir um canal por trás da cortina de ferro: a Rádio Europa Livre.

O plano teve início no final de 1948 e no início de 1949, mas foram necessários mais de dois anos para que a rádio fosse levada ao ar. Dulles se tornou o fundador do  Comitê Nacional para Europa Livre (National Committee for a Free Europe), um dos muitos frontes organizados e financiados pela CIA nos Estados Unidos. A comissão da Europa Livre incluiu o General Eisenhower, Henry Luce, os editores da Time, da revista Life e da Fortune e Cecil B. DeMille, um produtor de Hollywood, todos recrutados por Dulles e Wisner como um disfarce  para o verdadeiro propósito: a rádio se tornaria uma arma política na Guerra Fria. Assim, durante décadas pelas ondas do rádio, a CIA, com apoio de muitos intelectuais, lançou contra a chamada “cortina de ferro” um discurso anti-comunista e que incentivava a rebeldia em todos os países na Europa sob domínio comunista.

Sobre esse aspecto, gostaria de complementar com a seguinte observação. Em muitos países, como na Lituânia atual, a rádio livre entrou na narrativa histórica como parte da resistência “nacional” contra o comunismo. Se de fato, vários lituanos trabalharam nela, ou para ela, é sempre necessário frisar esse aspecto, qual seja, tratava-se de um projeto propaganda e com uma intenção muito bem estabelecida no delinear de uma Guerra. Portanto, estava longe de ser uma atividade espontânea de resistência, como muitas vezes aparece.

2. A Tragédia dos Agentes Antissoviéticos.  

Steve Tanner era um veterano da inteligência do exército e recém egresso da Universidade de Yale, contatado por Richard Helms, poderoso diretor da CIA, em 1947. Em Munique, na Alemanha, sua missão era recrutar agentes que pudessem oferecer material de inteligência aos Estados Unidos atuando por trás da Cortina de Ferro.

Dessa forma, quase todas as nacionalidades da União Soviética e da Europa Oriental tinham pelo menos um importante grupo, ou que se autoconsiderava importante, de emigrado, buscando pelo socorro da CIA em Munique e em Frankfurt. Alguns dos homens que Tanner investigou como potenciais espiões eram Europeus Orientais que tinham tomado o lado da Alemanha contra a Rússia. Elas incluíam pessoas com passado fascista que tentavam salvar suas carreiras tornando-se úteis aos americanos. Tanner afirmou, e estava preocupado, pois “eles estão automaticamente do nosso lado”. Outros que haviam saído da periferia da União Soviética exageravam seu poder de influência. “Esses grupos de emigrados, o seu principal objetivo é convencer o governo dos Estados Unidos da sua importância e da sua habilidade de ajudar o governo dos Estados Unidos, e então receber apoio de uma forma ou outra”.

Para organizar suas atividades antissoviéticas, Steve Tunner estabeleceu que para receber ajuda da CIA, os emigrados deveriam ter conexões na sua terra natal e não nos cafés. Eles não deveriam estar comprometidos com o nazismo. Em dezembro de 1948, após um estudo cuidado ele finalmente parecia ter encontrado um grupo: Supremo Conselho para a Libertação da Ucrânia.

Eles foram infiltrados, mas a União Soviética foi capaz de identificar todos eles e rapidamente os eliminou, assassinando todos eles! Ao estilo soviético… Com isso, centenas de agentes estrangeiros da CIA foram enviados para a morte na Rússia, Polônia, Romênia, Ucrânia e nos países Bálticos durante os anos 1950.

Essas são apenas algumas das histórias tratadas por Tim Weiner, em sua obra. E por essas e outras que ele considera que o legado da CIA tenha sido um “legado de cinzas”… Ainda sobre a Europa Centro-Oriental o autor enfatiza sua incapacidade de entrar na inteligência soviética e ainda sua total surpresa diante do colapso da URSS e do regime comunista na Europa Oriental…

Essa é uma questão bastante preocupante para a atualidade: se a inteligência americana não conseguiu compreender e entender a União Soviética, como esperar que lidem agora com a Rússia e suas ações nos países que fizeram parte da URSS?

Essa vai ser  outra história.

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