A política não é mais sobre entender. É sobre sentir! Esse título é uma provocação, mas me acompanhe, por favor. Vejo a maior parte dos meus amigos inconformados, e sou solidário a eles, com toda essa irracionalidade e estupidez que nos cerca nesses dias difíceis. Justo! Mas observe. Vocês estão reagindo fazendo campanhas de esclarecimento. Oferecendo argumentos racionais para lidar com o que aparece como irracional.
No entanto, e eis a questão, a política nesse tempo de radicalismo está sendo guiada pelo sentir e não pelo pensar. Por isso, os argumentos racionais estão batendo em uma parede impenetrável. Eu sei que a política sempre foi carregada de sentimentos, mas o que temos aqui é que a mídia, as novas formas de comunicação, trabalham com o sentir e não mais com o pensar.
Sentimento e mídia
Hoje, a televisão não te diz mais o que você deve pensar, mas o que você deve sentir. Vocês devem se lembrar quando os Titans cantavam: “a televisão me deixou burro, muito burro de mais”, pois bem! Agora, a televisão não te deixa burro, ela te deixa paranóico, histérico, sentimentaloide, amedrontado… A televisão, hoje, trabalha com o pavor e não mais com a ignorância. O mesmo para todas as outras mídias e formas de comunicação.
Portando, os gráficos, esquemas, longas explicações que apelam à razão não chegam naqueles que estão mobilizados por sentimentos. Por isso, o líder carismático, pode fazer um discursos totalmente irracional e sem coerência interna nenhuma, se uma ou duas frases desse discurso mobilizarem sentimentos. Ele te diz o que você deve sentir!
Assim, a análise do discurso do líder carismático deve buscar essas frases, esses pontos e não a sua lógica ou a coerência. Observe os apelos a libido, ao medo, ao ódio e sobretudo a sexualidade (que é uma sínteses de tudo isso), que pode ser simplificado na frase:
– “Você vai virar viado!”
A Política e o medo. O medo da política
Nos momentos de medo, frustração, isolamento, tédio, ansiedade, etc. Esses apelos sentimentais são ainda mais ressonantes. O medo é o sentimento mais fácil de ser mobilizado. É o mais irracional! Por que?Porque o medo foi fundamental para que nós nos tornássemos a espécie dominante. O medo é parte de nós. Nós assumimos sempre a pior hipótese. É parte do nosso cérebro:
Se o mato está se mexendo é melhor que você assuma que ali tenha uma onça. Se não tiver você só gastou energia para correr. Se for uma onça você teve chance de se salvar. Se você assumir que é vento e tiver uma onça você está morto! Assim, sobrevivemos! Assumindo que sempre há uma onça. Mas o medo, tão nosso, pode ser manipulado e estimulado se alguém ficar gritando: onça, onça. E digo mais: Onça! Você sempre vai correr.
Ao aprender a manipular medos e sentimentos, as redes sociais, mídias e aqueles que aprenderam a lidar com ela souberam estimular o medo. Vivemos com medo e o medo não permite ser analítico. O medo supera a análise! Quais medos?Medo de se descobrir gay, vai ter o machão! Medo de ser governado pelo desconhecido, medo de ter que viver outra forma de vida, medo de morrer sem entender o motivo…
O desafio é como quebrar esse medo? Como superar essa irracionalidade estimulada pelo medo? Eu proponho que a forma de não sentir medo é pela revolta! Sejamos revoltados.
A fotografia no passaporte revelam histórias que estão para além dos rostos dos imigrantes. É o caso do passaporte da minha família, Godliauskas. Depois de muitos anos, consegui pela primeira vez ter acesso a um dos passaportes utilizados para família godliauskas, quando imigraram da Lituânia para o Brasil.
Neste passaporte, encontrei diversas referências sobre a trajetória da minha família que até então desconhecia. Entre elas, a data exata da imigração. A datas e locais de saída e chegada. O local da última residência, entre outros detalhes de suas trajetórias.
A fotografia do passaporte, com toda a família, mostrava algo um pouco mais sensível e pessoal: os rostos, as expressões nos olhares, as caras de assustados diante da maquina fotográfica ou do futuro incerto que os esperava em terras distantes.
Como historiador empolgado em investigar, comecei a mostrar a foto para um e para outro. Ao mostrar para uma amiga, ela me perguntou: por que estão todos os membros da família em uma mesma foto de passaporte?
Boa questão!
Fotografia Imigração e História de Gênero.
Eu não tinha muita ideia do que responder na hora. Passando a empolgação e olhando mais cuidadosamente me dei conta de que aquela foto, para um documento oficial, também nos comunica uma história de gênero. Primeiro é preciso notar que o documento é da minha bisavó. No documento está explicitamente escrito: “autorizada a viajar somente acompanhada do marido”.
Na Europa, do início do século XX, em particular na Lituânia, ao se solicitar ao governo um documento cabia ao homem estabelecer se a mulher poderia viajar sozinha ou não!
Por essa razão, as mulheres, não autorizada a viajar sozinhas eram fotografadas junto ao marido nos documentos oficiais. Assim, as autoridades nas fronteiras dos países, nas estações de trem e nos portos deveriam verificar pela foto a identidade dos dois (marido e esposa) antes de autorizar o embarque ou desembarque, a entrada e saída de um país para o outro.
No limite, essa ação do Estado, por meio de sua burocracia, impedia a circulação das mulheres desacompanhadas de seu marido!
Na fotografia está a minha avó, a primeira da esquerda para a direita, e seus irmãos, pois como eram menores de idade, não tinham um passaporte próprio e seus nomes eram colocados no passaporte da mulher. Dessa forma, para se deslocar de um país a outro de forma oficial e regular a família necessariamente teria que estar sempre junta ou seria impedida pelas autoridades estatais.
Para quem nasceu depois do período de hiperinflação, eu quero compartilhar como era viver nesse mundo, usando minha memória quase afetiva. Afinal, “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”, diria Albert Einstein.
A hiperinflação na minha infância.
1 – Quando tinha idade suficiente para comprar na cantina da escola, minha mãe me dava uma nota de 100 (não lembro a moeda) na primeira semana, com ela, eu comprava um salgado, um “refri” e vinte balinhas (aquela vermelha embrulhada em papel prateado). Eu enchi o bolso de balinhas me sentia rico por isso. Na semana seguinte, com os mesmos 100, vinham dez balinhas e na outra cinco… No final do mês, minha mãe me dava uma nota de 100 e uma de 50 e só dava comprava o salgado o “refri” e sete balinhas. Enfim, nunca mais enchi os bolsos de balinhas.
2 – Como os preços mudavam quase todo dia, e na época eram marcados com etiqueta no produto, o supermercado virava uma caça ao tesouro. A aventura era buscar as latas que estavam com preço “antigo”. Aí você enfiava a mão na prateleira e ficava buscando as latas lá no fundo. Eu era “pró” em achar lata de pêssego em caldas e achocolatado, com preço antigo.
3 – Quando meus pais recebiam o salário, saiamos como doidos para fazer compras, já que no outro dia poderia estar mais caro, e dependendo da época faltar produtos. Pena que tudo mundo fazia a mesma coisa. Os supermercados tinham filas enormes e pessoas com dois três carrinhos, comprando tudo o que dava no mesmo dia. Alguns supermercados limitavam um carrinho por pessoa, mas aí as famílias inteiras se aventuravam nos supermercados. Era o dia do supermercado.
4 – Fila da Coca-Cola era outro problema e quando tinha promoção dobrava! Dobrava, triplicava. Eram as garrafas de vidro em
Na Casa da Classe Média
5 – A galera da classe média tinha freezer em casa. Tinha um freezer que era um pouco menor que a geladeira. E tinha (mais chic) a geladeira com duas portas. Porque você tinha que comprar tudo de uma vez, então você comprava toda a mistura do mês (as vezes de dois meses) e congelava. Era um tal de congelar carne moída, salsicha (sim salsicha!) e frango. O Freezer tinha que estar cheio, porque como energia custa, só é viável se ele estiver todo cheio.
6- Naquele período de hiperinflação também houve, na classe média, a acessibilidade ao microondas. Então, eram um tal de congelar no freezer e descongelar no microondas. Até pão! Sim, pão…
7 – Combustível também era um problema. Os carros consumiam muito na época e era gasolina ou álcool. As filas se espremiam pelas avenidas até chagar no posto. Alguns com preços suspeitos, muito suspeitos. Mas tanque cheio e ir equilibrando no mês era fundamental para “chegar ao fim do mês”.
E Se Não Fosse o Humor…
8 – O gatilho salarial era quando o acumulado da inflação chegava em 20%, os salários eram automaticamente reajustados. Ou seja, basicamente você diminuía o consumo da galera e quando estava prestes a matar o consumo (e as pessoas de fome) você reajustava o salário em uma pancada. Óbvio que deu errado, porque quando o salário era reajustado todo mundo reajustava tudo e a inflação ia para a lua.
Para fazer piada, com o que já era piada, Jô Soares, que tinha um quadro que chamava O Jornal do Gordo um “jornal para as pessoas mais ou menos surdas”. Um comediante lia a notícia e o Jo interpretava de forma distorcida com gestos e objetos. Daí liam a noticia lá: “De acordo com o Ministro fulano o gatilho vai disparar nesse mês.”Eu o Jo saia berrando: “o gatilho! O gatilho vai disparar” e puxava uma arma e sai dando tiro “vai disparar o gatilhooo! “ Melhor que essa era só o: “Bota ponta Tele!”(Sim na época ainda se jogava futebol com ponta esquerda e ponta direita)
Não temos a menor dúvida de que o embate entre Trump e Biden será fundamental para os rumos da política em escala global. De forma até exagerada se enxerga um embate entre a civilização e a barbárie, ou entre a democracia e a demagogia (populismo) autoritário. Por essa razão, a esquerda, com excessões, tem se entusiasmado com a provável vitória do candidato Democrata, Joe Biden.
No Brasil, a esquerda, particularmente a militante de partido, torce muito, pois entende que essa vitória fará o que ela não consegue fazer: derrubar, ou ao menos fragilizar, o atual governo. Para nós, Biden é o caminho certo para a decepção da esquerda, em todos os lugares.
Nós sabemos quem é ele
Os pensadores de esquerda nos Estados Unidos, seja aqueles que atuam junto aos Democratas ou não, sabem quem é o político pragmático, negociador e centrista Joe Biden. Bastaria lembrar que ele foi escolhido para ser vice de Obama como uma forma de acalmar o status quo Democrata diante do “radicalismo” que representava as propostas apresentadas Obama (“Yes, We can”) e a candidatura de um negro para a Casa Branca. Quando Obama superou a Hillary Clinton, Biden era, naquele momento, a certeza do equilíbrio e da manutenção do status quo para os Democratas e seus eleitores.
Por essas características, muitos prefeririam ter lançado ele e não Hillary, em 2016. No entanto, devido a uma tragédia pessoal, Biden preferiu não se candidatar. Em 2020, nesse ano complicado, ele apareceu novamente como essa figura estável e conciliadora, incapaz de sustentar qualquer dogma ou algo que não possa ser mudado de acordo com a conveniência do momento, dentro dos parâmetros estabelecidos pelos Democratas.
É mais fácil…
Essa visão fica evidente, no apoio, com ressalvas, que recebe de Bernie Sanders (ver meu artigo de 2016). Sanders sempre afirma ter diferença com Biden, mas ressalta saber que ele é um homem decente, que respeita as regras do jogo e que respeita principalmente “a democracia”, entendendo a democracia aqui como o sistema eleitoral / legal dos Estados Unidos.
Assim, a esquerda americana está dizendo para quem queira escutar: “é mais fácil sobreviver no neoliberalismo formalmente democrático regido por Biden do que caminhar para uma nova forma de fascismo, com um demagogo, autoritário, megalomaníaco. Por isso, vote em Biden e é só isso mesmo!”
Nas suas atitudes e nos debates, Biden fez questão de jogar baldes de água fria na esquerda que atua entre os Democratas e foram muitos os baldes… Vamos a alguns exemplos.
Um grande balde de água fria é a estratégia de atrair os Republicanos que se afastaram de Trump (ou do trumpismo). Entre eles, o governador Republicano de Michigan Rick Snyder que responde pela acusação de ser o responsável pela contaminação da água da cidade de Flint. (ver aqui). Os movimentos sociais estão há anos lutando contra ele e seu governo.
A água fria nos debates
Nos dois debates, Biden jogou vários baldes de água fria na esquerda. Alguns deles foram bem discretos. No primeiro, marcado pelo caos, uma questão passou quase desapercebida: a do Green New Deal. Lembrando: essa é a proposta da esquerda Democrata para que os EUA se tornem uma economia verde. Durante o debate, Biden afirmou que ele não implantará o programa denominado Green New Deal, mas na plataforma dele estava lá. Em suma: ele afirmou que não implementará a principal bandeira da esquerda que vinha com Sanders.
No segundo debate, sem usar a expressão Green New Deal, ele retomou o tema, usando a palavra “transição”, ou seja, na cabeça dele, é possível passar para a economia verde sem perder a os investimentos e afetar os empregos no carvão e no petróleo, por exemplo. Será?
De toda forma, ele tentou agradar a esquerda sem desagradar aos que dependem ainda das outras formas de atividades econômicas. Obviamente, Trump tentou associar a isso a uma forma de socialismo, o que não deu certo. Ainda assim, logo após os debates, os Democratas ligados a sua campanha saíram em defesa da indústria do carvão e do Petróleo, nada de Green New Deal, portanto.
No mesmo debate, Biden, ao ser associado aos projetos de Sanders por Trump, lembrou que ele não é socialista! E foi além! Lembrou que ele é Biden! O que derrotou os outros projetos! (não tinha conciliado?) E isso quando respondia sobre saúde. Em outras palavras, Biden descartou aderir ao programa de saúde pública e para todos, como pretendia Sanders. O mesmo, vale dizer, para a educação. Ou seja, os projetos de Sanders, representantes dos Democratas socialistas foram todos descartados!
Biden e o Brasil
A esquerda brasileira também não deve nutrir ilusões com relação a Biden. Primeiro, porque o Brasil e continuará a ser estratégico independente dos governos nos dois países. Segundo, porque a luta contra o avanço da influência da China é a única coisa que unifica os dois partidos e nisso, o Brasil, ainda está em disputa. Assim, o que veremos é uma mudança da forma, mas não o abandono do país nas relações estratégicas, como isso será articulado com o bolsonarismo é que é a questão.
Os Democratas costumam oferecer vantagens aos países que querem manter boas relações, ou manter o diálogo aberto. O provável, nessa relação, entre crítica e oferecimento de vantagens, é que Biden vai buscar atuar. O efeito no Brasil, para o bolsonarismo, talvez seja mais forte no aspecto simbólico e de perda de narrativa do que de uma ação direta do governo americano. Aqui é preciso lembrar que grande parte dos investimentos estrangeiros já saíram do país. Assim, é pouco provável que o governo Biden faça aquilo que a esquerda brasileira não está conseguindo fazer…
Com Biden… Estaremos mais confortáveis
Em todos os cantos do mundo, em todas as alas progressistas há uma torcida por Joe Biden. Ela vai durar até o dia da sua vitória (se ela se confirmar). No dia seguinte, já ficou obvio, que ele não fará um governo de esquerda e nem mesmo progressista. Não vai assumir os compromissos de Sanders e dos Democratas Socialistas que tanto lutaram para o eleger.
A esquerda nutre a ilusão de que é mais fácil lutar dentro das regras do jogo liberal democrática do que contra as forças que trouxeram Trump ao poder. Mas será mesmo? Se fosse fácil derrotar o neoliberalismo ela já teria conseguido. Teve oportunidades em todos os continentes e não foi o neoliberalismo o derrotado. O Brasil é um ótimo exemplo disso. Talvez a esquerda esteja apenas mais confortável no neoliberalismo.
Nele, a esquerda, pode livremente adotar bandeiras novas, movimentos novos, fazer longos discursos e manifestações. Pode ainda publicar os seus livros, podcasts, canais no youtube, blogs (como esse) e manifestos. Pode ainda louvar e se acostumar com as derrotas e ver nela um princípio moral, quase cristão, “sou perseguido e injustiçado, por isso estou certo”…. Mas a esquerda, na sua zona confortável, nunca derrotará ninguém. Ainda assim, espero que a esquerda americana resolva sair de casa e votar em Biden.
As eleições na Belarus provocaram uma onda de protestos jamais vista naquele país. Manifestações essa que colocam contra a parede o regime que é considerado como a última ditadura da Europa. Neste texto vamos abordar brevemente a História da Belarus e o processo político atual.
A República da Belarus
A Belarus teve breve períodos de independência como Estado nacional moderno. Durante a Revolução Russa de 1917, a Belarus teve um breve momento de independência, quando se formou um Congresso que declarou a independência da Republica Popular da Bielorrússia, em março de 1918. No entanto, ela foi ocupada pelas tropas alemãs, mais tarde foi tomada pelo Exército Vermelho e integrada a União Soviética, como uma de suas repúblicas.
Em março de 1990, com a crise da União Soviética, a oposição começou a ganhar espaço com a formação do Front Popular. Em 27 de julho de 1990 a Belarus declarou a sua soberania. Ao contrário do que ocorreu nos países Bálticos, o Partido Comunista, ou seja, a elite burocrática do país continuou comandando o processo político e dominando a economia.
Com a Rússia e a Ucrânia, a Belarus participou do evento 8 de dezembro de 1991 que colocou fim a União Soviética e formou a Comunidade dos Estados Independentes. Assim, ao contrário dos países Bálticos que saíram da esfera de influência da Rússia, em direção ao ocidente, a Belarus e a Ucrânia permanecem unidas a Moscou.
Portanto, observe uma questão importante: somente com o fim da União Soviética é que a Belarus teve a experiência de um Estado moderno soberano. Assim, a construção de um Estado nação se deu baixo a ditadura de Lukashenko. Esse fato levou-se até o questionamento se haveria uma identidade nacional Belarus e uma sociedade civil que poderia atuar.
O governo de Alexandre Lukashenko
Alexandre Lukashenko chegou o poder em 1994 e foi reeleito, 2001, 2006, 2010, 2015, formando um governo autoritário. Não faltam denúncias de violação aos Direitos Humanos no país. Através da violência, censura e mão de ferro, ele estabilizou o país formando uma classe de privilegiados, uma verdadeira oligarquia, sustentada pelas riquezas do país e em uma relação privilegiada com a Rússia.
Apesar da aparente estabilidade, o regime começou a dar sinais de fragilidade. Um desses sinais, o mais evidente, se deu quando a Rússia ocupou parte da Ucrânia e tomou toda a Crimeia. A ideia de uma expansão russa continuada se tornou um pesadelo para a Belarus, como para todos os demais países que fazem fronteira com a Rússia.
A invasão da Crimeia e a Reação da Belarus
Após a anexação da Crimeia, Lukashenko pela primeira vez começou a discursar no idioma local. Seus discursos eram somente em russo, até então. O regime começou a apelar aos belarussos como uma nação e defender a sua soberania.
Esse movimento fez com que o país se aproximasse dos países ocidentais, em particular dos países Bálticos e da Polônia. Acordos comerciais, educacionais e culturais foram estabelecidos no que parecia uma virada para o Ocidente.
A virada para o Ocidente foi interrompida. Por um lado, a Rússia ofereceu certas vantagens comerciais. Além disso, diversos acordos militares com a Rússia, mas ainda com uma certa tensão, pois a ideia de instalar uma base aérea russa sofreu resistência. Em 2019, em um encontro com Putin, Lukashenko, em discurso coloca a ideia de união entre os dois países, ou seja, parecendo uma volta ao lado russo. Por outro lado, a União Europeia manteve restrições ao comércio com o país e criticas ao regime autoritário e as sistemáticas violações dos Direitos Humanos. Assim, o regime pareceu novamente pender para a Rússia.
Resumindo, nos últimos anos Lukashenko tentou jogar dos dois lados observando de qual deles poderia conseguir maiores vantagens. Um jogo perigoso, pois seu autoritarismo nunca foi aceito pelos europeus e a sua relação com Putin não era das melhores, pessoalmente, ao que se sabe, Putin nunca teve apreço por Lukashenko.
A Crise na eleição de 2020
Essa situação piorou em 2020, com a pandemia, pois Lukashenko foi um dos líderes mundiais que entraram no negacionismo. Ele recomentou aos seus cidadãos: vodka, sauna e trator, como remédio para a Covid 19. O resultado, além de virar uma piada mundial, foi que sua credibilidade, já abalada, sofreu ainda mais ao se aproximar da eleição.
O início do processo eleitoral se deu como sempre. Era para ser novamente uma eleição controlada. Em outras palavras, os candidatos seriam escolhidos a dedo, apenas com formalidade, e para dar ar de legitimidade. Os oposicionistas foram presos e exilados. Restou uma candidata que deveria ser a figurante nesse processo.
A candidatura de Svetlana Tikhanovskaya era tida como um arranjo. Os demais líderes oposicionistas ou foram presos ou tiveram que escapar para outros países. .
Assim, Svetlana Tikhanovskaya não faz parte de uma oposição histórica organizada contra o regime, pelo contrário. De toda forma, como ela era a única candidata houve uma união ao seu entorno já como uma forma de protesto contra ao regime. Na eleição, ela, que faz parte da elite educada, deveria apenas fazer a figuração para que se criasse a imagem de uma disputa legitima
A propaganda eleitoral foi limitada, bem como as manifestações públicas. Cenas de manifestantes e de opositores ao regime sendo presos nas ruas vazaram para o ocidente e foram divulgados pelas mídias sociais.
A Repressão e os Movimentos Grevistas
Mesmo com a repressão e as limitações, a candidatura Tikhanovskaya encampou a contrariedade contra ao regime e houve uma união silenciosa para votar contra o regime. Esse movimento cresceu ao ponto de ser percebido pelo conjunto da população. Assim, no dia da eleição, ao fim da tarde, quando os primeiros dados eleitorais foram divulgados a desproporção dando a vitória ao ditador chamou a atenção. Era o indício da fraude que despertou os primeiros movimentos de protestos naquela mesma noite, sobretudo na capital Minsk.
Nos dias que se seguiram, vimos emergir manifestações públicas cada vez maiores, reunindo milhares de pessoas em um fenômeno sem precedentes para o país. Essa movimentação foi seguida pela greve dos trabalhadores dos principais setores do país.
As declarações públicas de Lukashenko geraram ainda mais protestos e sua aparição pública diante dos trabalhadores resultou em protestos e vaiais. Algo que ele não está acostumado a receber. A situação chegou ao patético do ditador apelar a Putin para uma eventual ajuda. Ou seja, a ameaça de intervenção russa voltou a circular.
A Influência Russa na Belarus.
A Belarus de Lukashenko sempre atuou na espera de influência da Rússia, sobretudo com Putin no poder. Por essa razão, vimos a cena patética de um presidente dizer que recorreria a outro para ajudar com o levante popular.
No entanto, a Rússia tem os seus próprios problemas. Uma intervenção russa, como na Crimeia (ou mesmo na Síria), poderia resultar em reações tanto externa, como mais sanções econômicas. Lembrando que esse é um momento em que a economia russa passa por dificuldades, devido a queda no preço do petróleo e a pandemia. Além disso, a Rússia está lutando para uma presença de influência no cenário geopolítico, como pode ser observado com a questão da vacina, não por acaso denominada de Sputnik 5.
Será que Putin estaria disposto a se colocar em risco para contribuir com Lukashenko? Ainda que Putin seja um estrategista repleto de surpresas e movimentos inesperados, uma ajuda a Belarus é um cálculo complicado não só pelas reações externas, mas principalmente pelas questões internas.
O presidente Putin acabou de aprovar uma controversa reforma constitucional que o garante no poder perpetuamente. Esse referendo, suspeito, já provocou uma série de tensões no país. Recentemente protestos contra o seu poder foram registrados no extremo oriente da Rússia, na divisa com a China. Portanto, o cálculo envolve a seguinte questão: uma intervenção pode reforçar a imagem de autoritário e ditador, mas uma não intervenção pode significar que movimentos sociais como aqueles que agora parecem colocar fim ao regime de Lukashenko possa se espalhar pela Rússia.
Nesse quadro, Putin terá que sentir a temperatura externa e interna para tomar a melhor decisão com relação ao regime. Não está descartado apenas trocar de figura no poder, mas que mantenha a política pró-Rússia que é, no fim das contas, o que realmente o interessa.
Imprensa Russa
Mesmo a imprensa russa, como a RT, já colocou a ditadura de Lukashenko como em um estágio final, ainda que observe que a sua última esperança esteja na proteção de Moscou e na vontade de Putin de que ele continue no poder.
Putin, de acordo com a própria RT, ofereceu uma “vaga necessária assistência”. No discurso, a imprensa Russa coloca como ameaça a soberania da Belarus a influência de Varsóvia. Assim teríamos uma disputa entre Moscou e Varsóvia. Um discurso que tem por objetivo convencer o publico russo, pois o regime na Belarus parece estar chegando ao fim
É o fim?
Nesse momento, o ditador parece que conta apenas com as forças repressivas para conter a população. Será que isso será suficiente para manter a ditadura? As manifestações continuam crescendo a cada dia, bem como a violência. Nem mesmo a censura e os cortes na internet tem evitado a difusão de imagens da repressão para o mundo. A União Europeia, com protagonismo da Lituânia e da Polônia tem elevado o tom das críticas. Os próximos dias serão decisivos.
O Basquete na Lituânia é mais do que um exporte! É a expressão da identidade nacional. O esporte e o sentimento de comunidade sempre andaram juntos. Em situações sociais ele representar o grupo, tribo, cidade estado, bairro, clube, fábrica. Formar grupos, desenvolver sentimento por ele e enfrentar o oponente está na essência do sentimento de tantos que se movem pela paixão por algum esporte. Na contemporaneidade, o esporte mobilizou, também, os sentimentos nacionais e alguns casos o sentimento de países ou grupos nacionais para os quais o direito a um Estado foi negado.
Esse era o caso do basquete na Lituânia durante o período em que esteve ocupada pela União Soviética. Jogadores e times moveram os mais profundos sentimentos nacionais com as suas vitórias, fazendo lembrar um tempo em que a Lituânia era livre e podia ser representada com a sua seleção nacional.
Quando a Lituânia conquistou novamente a sua independência, a seleção Lituânia pode disputar um jogo internacional carregando a sua bandeira. A explosão de sentimentos nacionais com o terceiro lugar em Barcelona em 1992 deu uma mostra de um sentimento que por décadas estava reprimido. Para entendermos um pouco da paixão dos lituanos pelo basquete vamos aqui recuperar alguns aspectos da história deste esporte naquele país. Focaremos neste texto na seleção nacional e suas rivalidades e deixaremos para um próximo a história dos clubes e como esses se desenvolveram e a biografia dos jogadores.
A história do basquete lituano é muito significativa, pois o país é uma potência no esporte, mesmo com uma população diminuta. Se fizéssemos uma analogia, a Lituânia representa para o basquete mundial o que o Uruguai representa para o futebol. São pequenas potências! Entender o que a Lituânia significa para o basquete é aprender sobre a própria história do basquete.
O basquete na Lituânia as primeiras cestas na independente.
A história do basquete na Lituânia tem início com a primeira independência do país, em 1918, como um desdobramento da Primeira Guerra Mundial (1914 -1918) e o fim do Império Russo (1917). Já na década seguinte o esporte começou a se consolidou como prática nacional e se tornou vitorioso na década de 1930. Inicialmente, os lituanos jogavam uma variação do chamado netball que é jogado com uma bola menor e sem a tabela atrás da cesta. O esporte era praticado pelos alemães que ocuparam a região durante a Primeira Guerra Mundial. Os primeiros times formados no país eram femininos e foi naquele momento considerado um “jogo de mulheres”, já que não envolvia contato físico, como nas lutas.
Na década de 1920, o basquete masculino, já com as regras parecidas com as atuais, começou a ser praticado pelos homens e o primeiro jogo oficial na Lituânia ocorreu em 1922. Embora tenha atraído a atenção e fosse jogado regularmente, o basquete profissional não prosperou rapidamente, pois perdia em popularidade para o futebol.
O ponto de virada se deu em 1935. Naquele ano, ocorreu o Congresso Mundial dos Lituanos na então capital Kaunas, com o objetivo de reunir representantes das organizações dos emigrados lituanos. Para o congresso, a Comunidade Lituana de Chicago enviou diversos atletas incluindo um time de basquete com jovens jogadores que despontavam nos campeonatos do College. Com os jogos e demonstrações, o interesse dos lituanos pelo esporte começou a crescer. Os americanos-lituanos Juozas Žukas e Konstantinas Savickas decidiram permanecer na Lituânia para jogar e treinar os times do país.
As Primeira Vitórias
Em 1936, a Lituânia entrou para a FIBA e começou a disputar os seus campeonatos sofrendo grandes derrotas sobretudo para a Letônia, o seu maior rival. Os letões bateram os lituanos por placares como 123 a 10 e 31 a 10. Essas derrotas acabaram por produzir grandes mudanças no basquete lituano. A primeira delas foi não participar da Olimpíadas de Berlim em 1936, o primeiro ano em que o basquete se tornou um esporte olímpico.
Na Letônia, o basquete também começou a se desenvolver na década de 1920 e com maior sucesso do que na Lituânia. Durante as décadas de 1920 e 1930, a Letônia teve um time com muitas vitórias no cenário internacional. A Federação Letã de Basquete foi fundada em 26 de novembro de 1923.
Em 1932, foi uma das fundadoras da FIBA (Federação Internacional de Basquetebol), junto com a Suíça, Tchecoslováquia, Grécia, Itália, Portugal e Argentina. O primeiro campeonato nacional masculino foi disputado em 1924 e o feminino em 1933. Assim como na Lituânia, o desenvolvimento do basquete se deu em conexão com os Estados Unidos, pois os primeiros treinadores eram da YMCA (Young Men’s Christian Association) dos Estados Unidos.
Seleção de Basquete Lituana, 1937
A Letônia venceu o primeiro Campeonato Europeu de basquete em 1935 organizado pela FIBA. Como campeã, Riga sediou o campeonato europeu seguinte. Embora fosse a favorita nas Olímpiadas de Berlim, o time não conseguiu chegar às finais. O representante do Báltico que mais avançou foi a Estônia que competia internacionalmente pela primeira vez.
Para disputar o torneio em Riga, o time lituano decidiu não contar com jogadores “americanos”, mas uma publicação na Letônia criticando o time lituano e o colocando como o pior do torneio fez com que os lituanos mudassem de ideia. Dois jogadores foram trazidos para a Lituânia: Pranas Talzūnas e Feliksas Kriaučiūnas, o último foi designado também como técnico. A manobra junto com a intensa preparação deu certo e a Lituânia venceu pela primeira vez um título europeu batendo a Itália na final.
Como vencedora, a Lituânia organizou o torneio em Kaunas e para ele contou com jogadores descendentes de lituanos nascidos nos Estados Unidos o que gerou protestos por parte das demais delegações. A Lituânia venceu o segundo torneio derrotando a Letônia na final e o basquete se tornou o esporte nacional.
O sonho dos lituanos era o de vencer a Olimpíadas de 1940, mas a Segunda Guerra Mundial e a invasão do país pela União Soviética adiaram esse sonho. Um sonho que só foi retomado com a segunda independência, em 1991.
Os jogadores Lituanos no período soviético
Com a ocupação soviética da Lituânia que passou a fazer parte da União Soviética, o time de basquete nacional foi eliminado e os principais jogadores passaram a fazer parte da seleção da União Soviética.
Os jogadores lituanos passaram a fazer parte do time soviético a partir da olimpíada de 1952, já que a URSS não participou da de 1948, e tiveram como resultado um segundo lugar, perdendo apenas dois jogos para os Estados Unidos. Nesse time jogaram os lituanos Stepas Butautas, Kazimieras Petkevičius, Justinas Lagunavičius e Stanislovas Stonkus.
A partir de 1969, o lituano Modestas Paulauskas se tornou o principal jogador e o capitão da União Soviética. Na Olimpíada de 1972, disputada em Munique na Alemanha, a União Soviética superou os Estados Unidos, que até então haviam vencido todas as olimpíadas, e ficaram em segundo lugar, quebrando uma hegemonia que vinha desde 1936.
A outra derrota dos Estados Unidos para a URSS viria em Seul (1988) lembrando que os Estados Unidos boicotaram a Olimpíada de Moscou (1980) e a URSS boicotou a Olimpíada de Los Angeles (1984).
Em 1988, a seleção da União Soviética tinha como principais jogadores de basquete os lituanos: Arvydas Sabonis e Šarūnas Marčiulionis. Eles lideraram o melhor time da União Soviética, que ainda contava com Rimas Kurtinaitis, Valdemaras Chomičius. A seleção soviética derrotou os Estados Unidos na semifinal e ganhou a medalha de ouro.
O basquete dos Estados Unidos entrou em crise, pois apenas um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil, liderado por Oscar e Pipoca.
Diante das derrotas, os americanos decidiram que para as próximas Olimpíadas passariam a enviar os jogadores da NBA.Era o início do Dream team, liderado por Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird.
A União Soviética não sobreviveu até a Olimpíada de Barcelona, disputada em 1992, mas os principais jogadores daquele time soviético poderiam defender pela primeira vez a sua seleção nacional. A Lituânia enfrentou os Estados Unidos e seu Dream Team.
O Basquete na Lituânia: De Volta ao Jogo!
As Olimpíadas de Barcelona foram um momento marcante para a história dos países bálticos. Depois de quarenta anos, eles voltavam a disputar uma Olimpíada carregando as suas próprias bandeiras.
Ao contrário dos demais países que faziam parte da União Soviética, Estônia, Letônia e Lituânia se recusaram a integrar a CEI (Comunidade dos Estados Independentes). As suas delegações não eram grandes, mas eram representativas de um sentimento nacional e de uma esperança de independência que por décadas foram suprimidas.
Entre as atrações principais dos países bálticos estava a seleção de basquete da Lituânia. Seus principais jogadores, Arvydas Sabonis e Sarunas Marciulionis, lideraram o melhor time da União Soviética, campeão da Olimpíadas de Seul. Agora, o time soviético estava dividido, mas as suas estrelas principais comandavam a Lituânia. A Lituâniavenceu todos os seus jogos até enfrentar os Estados Unidos nas semifinais, quando perdeu de 127 a 76. Para entendermos o que aconteceu naquele jogo temos que voltar um pouco no tempo e recuperar uma história que também envolve o basquete brasileiro.
Os Estados Unidos vinham de duas derrotas humilhantes no basquete. Em1988, na Olimpíadas de Seul, eles perderam nas semifinais para a União Soviética. Um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil liderado por Oscar e Pipoca. Além do talento dos jogadores que venceram os Estados Unidos, outra questão importante que explica essas duas derrotas foi a mudança no sistema de pontuação.
A FIBA introduziu a cesta de três pontos, enquanto os campeonatos nos Estados Unidos mantiveram o sistema de pontuação antigo. Como resultado, das duas derrotas, mudanças foram realizadas no basquete americano. Eles passaram a incluir a cesta de três pontos no College e na NBA (National Basketball Association). Pressionaram o comitê olímpico para aceitar a inscrição dos jogadores da NBA no time olímpico. Em resumo, Brasil e os jogadores lituanos atuando pela União Soviética mudaram a história do basquetebol.
O Outro “Dream Team” De Volta ao Pódio
Em 1992, a Lituânia passava por enormes dificuldades financeiras e o recurso para levar o time para Barcelona eram poucos. O drama dos lituanos se espalhou pelo mundo. Comovidos, a banda de rock americana Grateful Dead resolveu financiar as passagens de todo o time lituano para as Olimpíadas.
Para Barcelona, os americanos formaram o chamado “time dos sonhos”, Dream Team, com Michel Jordan, Magic Johnson e Larry Bird. Para muitos especialistas, este foi o melhor time de basquete de todos os tempos. A superioridade era tão grande que a audiência dos jogos se dava pelos astros, pelo show, para saber quem perderia por menos pontos ou qual jogador americano faria mais cestas. Com esse time os EUA derrotaram a Lituânia na semifinal.
Time Lituano, Barcelona, 1992.
Para completar a história, a disputa da medalha de bronze foi conquistada contra a CEI, sendo muitos jogadores ex-companheiros de seleção e de clubes. Não importava em que lugar ficasse a bandeira nacional. Os hinos da Estônia, Letônia e Lituânia, proibidos até dois anos antes, foram tocados e os jogadores subiam ao pódio também para celebrar as independências nacionais.
O terceiro lugar não deixou nenhum lituano triste. Ver a bandeira no pódio, a sua camiseta e a suas cores foi de uma alegria enorme para os lituanos e seus descendentes. Outro aspecto que chamou a atenção foi a camiseta utilizada no pódio.
O artista psicodélico americano Greg Speirs presenteou o time com uma camiseta com uma caveira “enterrando” uma bola entre raios coloridos com as cores da bandeira da Lituânia. A arte foi adotada como um símbolo do basquete lituano e foi a camiseta mais vendida na Olimpíadas seguinte disputada em Atlanta nos EUA.
Sugestão sobre o basquete na Lituânia
O Documentário The Other Dream Team (2012) do diretor Marius Markevicius de 2012 é uma excelente obre sobre o time lituano na Olimpíada de Barcelona. Vale investir, mesmo se você não encontrar uma versão em português.
Para compreendermos a nossa sociedade, os cientistas sociais formulam conceitos que possibilitam definir e entender características da nossa contemporaneidade. Atualmente, um conceito que começa a ser utilizado com mais frequência é o de pós-política. O que é pós-política? Como ela nos ajuda a entender o nosso momento político?
Certamente, você já escutou pessoas afirmarem que não são: “nem de direita e nem de esquerda”. Que suas decisões e seus princípios são somente técnicos. Esse discurso, devalorização da técnica e de negação da política é o que podemos conceituar como pós-política.
O que é a pós-política?
A pós-política, ao valorizar a técnica, a boa gestão, a decisão administrativa, esconde no seu discurso a verdadeira opção política do indivíduo. Como se fosse possível para alguém se colocar acima das ideologias, ou acima da dela. Portanto, no discurso da pós-política, qualquer embate político e ideológico, é visto como negativo, como atraso ou desnecessário.
Por isso, políticos que se utilizam do discurso da pós-política tem por hábito acusar o outro de serem ideológicos. Assim, esses mesmo políticos estariam fora destes debates. Eles se consideram mais racionais e acima das disputas ideológicas.
O problema da pós-política é que ela tem o papel de enganar aqueles que participam dela. Ela serve unicamente para mascarar um ponto de vista, uma ideologia. Assim, para esconder as verdadeiras posições diante das questões sociais. O pós-político se apresenta como técnico, quando, de fato, a sua verdadeira intenção estão dissimuladas, mascaradas, escondidas em planilhas, dados e distorções da realidade. Essa postura, tem por objetivo impedir o debate político. Sufocar as escolhas que a sociedade pode fazer.
O debate e a Democracia
Em uma democracia liberal, no Estado de Direito, a pós-política é perigosa, pois impede os debates de diferentes ideias, de diferentes opções que podem surgir em muito dos debates, sobre qualquer tema relacionado ao Estado ou a sociedade. A democracia, em uma perspectiva liberal, é justamente o debate, o conflito entre ideias e ideologias que se opõe e, dentro de um conjunto de regras consensualmente aceitos, disputam o seu espaço de poder sem eliminar a outra. Portanto, a anulação do debate por meio do tecnicismo, ou da negação da ideia do outro acaba por anular a própria política e por consequência a democracia.
A consequência da pós-política é invariavelmente o autoritarismo, mesmo que disfarçado de uma democracia formal, pois a democracia precisa da política para ser efetiva. O autoritarismo, disfarçado de técnica e a negação da ideia do outro, nada mais é do que a imposição da vontade de um grupo sobre os outro. Resultando na negação, das vozes dissidentes, negando a oposição. Portanto, lembre-se, quando alguém se apresentar como neutro, como nem de direita ou de esquerda, quando alguém criticar a sua ideia como “ideológica”, está se usando a pós-política para impor a sua vontade e negar a sua voz e impor a sua vontade.
Essa semana foi um show de horrores na prévia Democrata. Sanders na frente com a primeira votação das prévias no radar mexeu com os nervos do status quo Democrata.
Elizabeth Warren, a outra suposta candidatura progressista, tentou uma bala de prata identitária, acusando Sanders de machismo (que homem branco ainda não foi acusado de machismo levanta a mão) por uma suposta fala privada. Deu errado!
Já Hillary Clinton foi no mesmo caminho de “ninguém que trabalhar com Sanders”. O bilionário Bloomberg jogou milhões para conseguir alguma visibilidade na mídia, com o objetivo de deter Sanders.
Mas tudo isso ainda se somou a uma canalhice quando Joe Rogan disse que: “estou pensando em votar no Sanders”. Rogan é famoso pelos seus comentários de UFC, MMA e milhares de maravilhosas entrevistas em seu podcast Joe Rogan Experience, um dos mais escutados do mundo.
Para quem não conhece seu podcast (e YouTube) consiste em entrevistas com os mais variados tipos de pessoas de direita à esquerda, de malucos da conspiração até físicos de Harvard. Do próprio Sanders a lutadores de MMA… Não raramente fumando vários tipos de maconha (na Califórnia é legal!) ou comendo cogumelo. Tem a famosa imagem do Elon Musck fumando que circulou no Brasil.
Bom, a declaração de Joe Rogan foi o suficiente para gente liberal politicamente correta do status quo Democrata e da mídia descerem o pau no Sanders como, populista, diálogo com a extrema direita, etc. E como não poderia faltar uma dose de identitarismo.
A polêmica principal se deu porque Rogan criticou lutadoras transgênicas de participarem da luta de MMA. O caso que ele se revoltou foi de uma “mulher” transgênica que sem avisar da sua mudança de sexo entrou no octógono e quebrou, literalmente, quebrou o rosto da sua adversária e ganhou as lutas.
Rogan ficou indignado com a falta de critério e colocou a pergunta: pode alguém que treinou arte marcial e foi treinado por 32 anos como homem lutar como uma mulher dois anos depois da sua “transformação”?
A resposta foi NÃO!
Rogan foi criticado como transfobico e homofóbico. Alegação ridícula! Basta escutar as entrevistas que ele realizou com homossexuais e transexuais em seu programa…
Claro, Rogan não usa o vocabulário da mídia liberal politicamente correta e fala mais como um cara do subúrbio de uma metrópole americana. Não adotou a novílingua dos movimentos identitários.
Ele também tem alguns “defeitos” a vista dos identitários da androginia pós-moderna! Ele gosta de caçar e pescar, tem armas, fuma, bebe, prática lutas marciais, faz piada de gosto duvidoso e impróprias, elogia mulheres por sua beleza, gosta de esportes, caga para opinião alheia, acha veganismo e vegetarismo no Ocidente um modismo complicado, por assim dizer.
No fim, o tiro saiu pela culatra! Sanders está na frente! Rogan continua com uma puta audiência. E como vemos, mais uma vez, o identitarismo sendo usado como uma arma contra a esquerda.
Os
Romanov 1613 – 1918 de Simon Sebag Montefiore
é uma obra monumental. Monumental tanto pelo número de páginas, quanto pela
profunda pesquisa em documentos históricos necessárias para a sua escrita. O
autor privilegiou uma análise da vida privada dos tzares, entrando a fundo em
suas intimidades, entendendo suas personalidades e as relações que estabeleciam
com aqueles que estavam a sua volta. Uma opção importante, pois em se tratando
de uma autocracia, entender cada aspecto da vida dos tzares é relevante.
Contudo, essa opção carrega problemas que merecem ser considerados.
O
jornalista e historiador Simon Sebag Montefiore é uma referência em História da
Rússia, com uma produção prolífica abordando diferentes períodos. Entre as suas
obras mais importantes, cabe mencionar aquelas dedicadas à biografia de Stalin:
Stalin. A Corte do Czar Vermelho (Companhia das Letras, 2006) e OJovem Stalin (Companhia das Letras, 2008). Sobre o período dos
Romanov, ele escreveu duas obras: Catarina a Grande & Potemkin: Uma
História de Amor na Corte Romanov (Companhia das Letras, 2018) e Os
Ramanov 1613 – 1918 (Companhia das Letras, 2016).
Nas
bem escritas e fluidas 944 páginas de Os Romanov, Montefiore apresenta
uma profunda pesquisa documental em que busca a vida privada e a intimidade
daqueles que ocuparam a posição de tzar e tzarina (com “t”), bem como daqueles
que estiveram em suas cortes ao longo dos 304 anos da dinastia Romanov.
Dessa intimidade, o autor resgata os excessos,
a vida sexual, a religiosidade, ambições, medos e a busca pelo poder. Através
principalmente da análise de correspondências, Montefiore consegue uma
aproximação com o cotidiano dos Romanov.
A sua forma de escrever e transcrever nos leva a pensar como aquelas
cartas foram lidas. Para fazer compreender as mudanças e os lugares, o autor nos
oferece descrições detalhadas das cidades, do campo, dos palácios e dos
aspectos físicos dos indivíduos. Essas descrições são complementadas pela rica
pesquisa de imagem que compõem o livro.
A
proposta do autor não foi realizar a biografia de cada um dos personagens que
aborda. Assim, dedica partes desiguais para destacar os processos que ele entende
ser mais importante da História da Rússia, mais páginas são oferecidas a Pedro,
O Grande, Catarina, Alexandre II e ao Nicolau II. O livro também é
desproporcional devido as fontes, quanto mais nos aproximamos da modernidade,
mais as fontes escritas são abundantes e seu incurso na vida privadas se torna mais
precisas.
O
leitor que não esteja familiarizado com a História da Rússia, e das dinastias em
geral, pode se surpreender com a quantidade de intrigas, com a vida sexual, com
os assassinatos como forma de resolver conflitos. E aqui é preciso lembrar a
natureza do poder autocrata. Em um regime político no qual todas as decisões
giram entorno daquele que está no trono, ficar próximo e íntimo deste significa
poder, estabilidade, ascensão social e fortuna. E que forma pode-se ser mais
íntimo do que a sexual? Já o distanciamento resultava no contrário e poderia levar
à desgraça deportação e até a morte.
A intimidade dos tzares, e tzarinas, é O poder!
E é preciso para aqueles que o queiram disputá-lo, seja conquistando a intimidade
e destruindo aquele que estejam usufruindo. Portanto, o que aos olhos contemporâneos
pode aparecer apenas como um conjunto de intrigas e fofocas era justamente a
disputa pelo poder. Nesse sentido, percorrer o caminho da vida privada dos
autocratas é percorrer os caminhos do poder! E essa é a maior contribuição que
a obra nos oferece.
Se
essa opção do autor nos leva a entender os caminhos do poder ela pode causar
alguns problemas. O primeiro deles é que o autor dá muita fé aos documentos, ou
seja, ele não procede uma crítica do que significa usar as cartas, por exemplo,
como documentos. O leitor pode ficar com a impressão de que as cartas, por
serem íntimas, representam necessariamente verdades, mas é preciso considerar
que elas mesmas representam narrativas de poder.
Outro
ponto importante é a intricada relação entre as mudanças sociais e a vida íntima
dos sujeitos históricos que o autor aborda. Por exemplo, há mais páginas
debatendo a influência de Rasputin do que sobre as transformações econômicas e
sociais que levaram a Revolução Russa. Inclusive mais destaque sobre a
controvérsia do tamanho do pênis do Rasputin do que sobre Lenin ou Trotsky. O
resultado é a ideia de que a queda do Império foi o resultado do conjunto de
relações privadas e não fruto da inadequação do tzarismo a um mundo que se
transformava. Importante observar que essa mesma questão aparece na série da Netflix
para a qual Montefiore foi um dos historiadores entrevistados.
Outro
exemplo, é a forma como o autor aborda a trajetória de Lenin. Montefiore iguala
as ideias revolucionárias de Lenin ao “terrorismo” dos populistas o que é de
uma enorme controvérsia na historiografia. Essa controvérsia não é avisada ao
leitor ou mesmo desenvolvida.
Por
fim, Montefiore tem uma tese que perpassa toda a obra, e que está pressente em
seus outros livros também. Para o autor, o poder na Rússia, na sua forma
autocrática, é imutável! Essa percepção de uma forma de poder e Estado
essencial o permite fazer analogias e comparações com períodos históricos
distintos, ao ponto de comparar tzares com Stalin e com Putin. O problema dessas
comparações é perder justamente a historicidade dos regimes políticos na Rússia
que tiveram (e tem) grande impacto global.
O Caminho do Báltico foi uma das mais belas demonstrações pacíficas de descontentamento e contestação à União Soviética unindo a população dos três países Bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia. A demonstração reuniu dois milhões de pessoas, ou seja, quase um quarto do total da população das três então Repúblicas Soviéticas e entrou para o Livro dos Records como a mais longa corrente humana ao cobrir um total de 600 Km. O movimento foi um dos pontos centrais no processo político que levou a independência da União Soviética (URSS)… Artigo