Isso não é uma resenha… São apenas comentários e impressões pessoais!

  • Daniel Aarão Reis. Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos. São Paulo; Companhia das Letras, 2014.

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Com ou sem polêmica era certo de que o livro Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos de Daniel Aarão Reis (1946 – ) faria parte da minha lista de leituras. Não conheço o Daniel Aarão Reis pessoalmente, nem tive com ele qualquer forma de contato acadêmico ou institucional, mas posso dizer que o conheço já faz muitos anos, pois sou um leitor assíduo de suas obras. Além dos vários artigos e conferências que pude assistir, também tenho na minha pequena biblioteca particular algumas de suas obras, como: Ditadura Militar, Esquerda e Sociedade (Zahar, 2000), As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético (EDUNESP, 2003), Uma Revolução Perdida: a história do socialismo soviético (Perseu Abramo, 2007) e Ditadura e Democracia no Brasil (Zahar, 2014). Sobre este último pretendo dedicar algumas linhas nesse blog, quando for possível.

Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que várias obras desse autor fazem parte da minha formação como historiador e são constantes referências na minha forma de pensar o Brasil República e a História da União Soviética. Vale ainda acrescentar a sua influência  na história do marxismo e da esquerda, em geral, no Brasil. Referência não significa ausência de crítica, ou concordância absoluta, mas sou partícipe silencioso, ou nem tanto, das polêmicas, propostas e interpretações deste historiador.

Senti a necessidade de esclarecer o lugar que este historiador, que considero brilhante, ocupa na minha formação, talvez para me sentir livre para criticar a sua recente obra. Também quero esclarecer que não vou tomar lado nos debates e polêmicas em especial aquelas conduzidas pela filha do biografado Anita Prestes, a quem eu também não conheço pessoalmente, mas pela qual tenho profundo respeito pela historiadora. (As críticas de Anita Prestes a obra podem ser lidas AQUI).

  1. Mas o que é isso Companhia das Letras?

Gostaria de começar minha crítica a obra Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos não pelo seu conteúdo e polêmicas, mas pelo tratamento editorial dado pela Companhia das Letras. Me parece incrível que a editora ainda não tenha recebido críticas substanciais por parte dos acadêmicos.

Onde está a nota Companhia das Letras?
Onde está a nota Companhia das Letras?

Essas observações que faço para a obra de Daniel Aarão  Reis também servem para o excelente livro de Mario Magalhães, Marighella. O Guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012). O que parece é que alguém “super” criativo da Companhia das Letras resolveu desafiar todas as convenções, normas, ABNT ao decidir que não é preciso colocar nota nas referências bibliográficas e citações. Eles simplesmente adotaram um sistema de estrelinhas, asteriscos, colocados no final do livro organizadas por capítulo, sem que as mesmas estrelinhas constem no texto. Ou seja, não só não é numerada a referência como você tem que adivinhar onde tem estrelinha e não tem estrelinha com a indicação bibliográfica, documental e de comentários diversos feitos pelo autor (autores no caso).

Assim, a única solução para o leitor atento que quer saber as referências utilizadas pelos autores é tentar adivinhar mais ou menos onde estariam as notas e aí contar estrelinhas no fim do livro.

 O problema é que quando na página 250 e pouco de um total de mais de 500 você encontra frases como: “um militantes escreveu pouco depois (…)” e não consta o nome do militante e quando ele escreveu a primeira coisa que você pensa é: … !!! Vou ter que contar estrelinhas de novo!!! Ou seja, o leitor por mais insistente que seja desiste de ler as referências.

Eu não aguento mais contar estas estrelinhas? Qual é a dificuldade de se numerar as notas?
Eu não aguento mais contar estas estrelinhas? Qual é a dificuldade de se numerar as notas?

Alguém poderia me acusar de fresco, ou dizer que esse é um problema menor. NÃO É! Se você ler um texto de História (com “H”) sem saber as referências a sua operação mental passa a ser a mesma da leitura de uma obra de FICÇÃO!

Aqui chegamos ao centro do problema! Será que eu posso ler uma pesquisa histórica da mesma forma que eu leio uma ficção?  Quando estamos diante de obras de pesquisas extraordinárias feita por gente com talento, como certamente é o caso de Mario Magalhães e Daniel Aarão, então fica claro que a forma do texto não condiz com a qualidade da pesquisa.

Trocando em miúdos: a opção editorial da Companhia das Letras diminui a pesquisa histórica. Pode ser que esse formato seja mais vendável, por ser mais parecido com a ficção e menos com um texto acadêmico, mas certamente, no final das contas, o prejuízo do leitor é muito grande. Vale aqui ressaltar, já que comecei citando duas obras, que esse aspecto é mais visível no texto do Daniel Aarão Reis  do que no de Mario Magalhães. Talvez, pela prática jornalística (e talentosa) de Magalhães, ele conseguiu trazer a maior parte das informações relevantes para dentro do texto. Já no caso de Daniel Aarão Reis isso não acontece, pois os acadêmicos são sim mais dependentes das notas, pelo próprio estilo e prática que livros e artigos acadêmicos exigem.

2. A confusão dos tempos históricos.

 Ao quiproquó das notas soma-se um resultado ainda mais grave na obra Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos. Em diversos momentos, o texto cai em uma tremenda confusão de tempos históricos. Por exemplo, quando é feita uma citação não sabemos se é um texto escrito na época do evento narrado, se é uma memória escrita posteriormente ou algum documento da época que registra a declaração, como em um jornal. Aqui temos um problema grave!

Não existe texto sem contextos (e a relação dialética entre os dois). Tal fato deixa o leitor confuso, pois o livro se converte em uma sequência de declarações desorganizadas e, assim, perde-se justamente a História. Quero dizer que eu não posso juntar um documento de uma época com um comentário feito quarenta anos depois sobre aquele evento sem contextualizar os dois documentos.

No mais é sempre importante pensarmos que personagens históricos muitas vezes mudam de posição ao longo da vida. Até mesmo de ideologia! E o próprio biografado, no caso, o Luís Carlos Prestes, fez avaliações diferentes ao longo da vida sobre um mesmo episódio por ele vivenciado. Assim, quando perdemos do horizonte as relações tempo e vivências ficamos sem referências para refletirmos sobre os acontecimentos e, no fundo, eles se tornam muitas vezes confusos. Assim, a forma como foi armado o texto em nada ajuda o leitor.

Em alguns casos, a ausência total de referências chega ao absurdo, como na polêmica afirmação sobre um suposto filho de Olga na União Soviética (fiz questão de colocar supostos aqui). Na página 171 aparece a seguinte referência: “ (…) Olga não tinha grande experiência de luta na clandestinidade. Casada e com um filho na União Soviética, sua missão, de seis meses, era oferecer as melhores condições de segurança para que Prestes pudesse ir para o Brasil e aí iniciar o trabalho revolucionário. (…)”

Contando as estrelinhas lá no fim do livro, descobrimos que essa informação saiu dos arquivos da Internacional Comunista. No entanto, não consta a referência a um documento específico, ou em que circunstâncias tais documentos (ou documento) foiram escritos. Enfim, estamos sem nada nas mãos! Principalmente, porque Aarão não volta ao tema! Não coloca uma observação a mais. Nem mesmo quando trata do longo período da família Prestes na URSS. Parece que essas linhas ficaram simplesmente perdidas no texto. Teria sido um erro? Não sei, mas é a minha impressão final… Esperamos esclarecimentos do autor…

3. Família Prestes

Algo que nos chama a atenção ao longo de toda obra é a forma como Daniel Aarão Reis trata a família Prestes. Se Luís Carlos Prestes, como veremos, é tratado com reverência e elogios, o mesmo não se dá com relação a sua família. O autor trata de um tema delicado. A mãe de Prestes teria sempre omitido que duas das irmãs de Prestes teriam nascido de outro relacionamento após a morte do pai de Luís Carlos Prestes, ainda jovem. A questão, como o próprio autor coloca, é que na década de 1920 isso era condenável e, portanto, era “normal” que uma mulher buscasse se preservar de uma sociedade moralista e machista.

Esse ocultamento só aparece em algumas falhas, como por exemplo, nas datas de nascimento que não batem com a data de morte do pai ou em um documento soviético que logo é substituído por outro. Neste sentido, descobrimos que na família Prestes esse tema era um tabu. A questão é: em que outra família não seria?

Para além, se esse fato não tem nenhuma conexão com o comportamento moral de Prestes e nenhuma influência sobre as suas decisões, fora a curiosidade da vida privada, qual é a relevância do fato para entendermos o biografado? O texto não deixa claro e a conclusão a que se chega é: nenhuma!

Da forma como Daniel Aarão Reis desenha a relação entre Prestes e a sua família fica um incômodo, pois parece que ocultar a origem e a existência de determinados filhos é um comportamento padrão. Primeiro essa questão da mãe de Prestes, segundo o suposto filho de Olga (coloco supostos novamente) e terceiro os filhos da segunda esposa de Prestes fruto de um primeiro relacionamento, mas que Prestes sempre tratara como filhos e que somente muito depois souberam de seu verdadeiro pai.

4. Seria esse um comportamento padrão da família Prestes?

A história é muito mais complicada do que isso e o próprio autor a esmiuça em detalhes para mostrar que não se tratava de uma questão moral, mas sim de múltiplas circunstâncias de que quem vivia ao lado de Prestes acabava tendo que suportar, pois exílio, clandestinidade, confusões e intrigas políticas sempre foram parte da vida deste atribulado personagem e sim afetaram as suas relações pessoais e familiares como era de se esperar.

Seja como for, não deixa de ser incômoda essa entrada na vida privada que o autor faz, mas afinal é uma biografia e entrar na vida privada de personagem políticos não é uma tarefa fácil. Compreender mais do que julgar, bom, essa é uma tarefa para poucos.

5. Quem foi Luís Carlos Prestes?

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Aqueles que procurarem uma obra anti-Prestes nesse livro certamente vão sair decepcionados. Não há uma única palavra contra Prestes, pelo contrário. Todos os adjetivos, mesmo em momentos complicados de sua vida parecem ser elogiosos. Suas qualidades pessoais e sua coerência ideológica são uma marca de sua trajetória.

Assim, emerge uma imagem de Prestes bastante distinta do assassino cruel e calculista da obra de Willian Waack Camaradas, Nos Arquivos de Moscou: a história secreta da revolução brasileira de 1935 (Companhia das Letras, 1993), ou do herói iludido pela ideologia soviética da obra de Paulo Sérgio Pinheiro Estratégias da Ilusão. A Revolução Mundial e o Brasil, (Companhia das Letras, 1991). Também não é o Prestes herói romântico do Fernando Morais em Olga (Companhia das Letras, 2008) e menos ainda um mítico cavaleiro da esperança de Jorge Amado. Só para citar algumas referências…

É bem possível que por se distanciar dessas imagens de louvação por um lado e de escárnio de outro que a obra de  Daniel Aarão Reis provoque incômodos. Aqui temos um Prestes com muitas qualidades, mas com dilemas, com uma coerência que esbarra na própria mudança dos tempos políticos. Ele errou, e feio, mas não é nem herói e nem bandido e sim um homem lutando com o seu tempo histórico e com os seus possíveis. Por essa razão, creio que a obra que o autor nos apresenta tem mais méritos do que se tem dado nas críticas (ao menos nas que eu tenha lido).

Um ponto que gostaria de destacar da obra é a parte final. Em geral estamos mais acostumados com a história de Prestes na Coluna ou na “intentona”, menos destaque, por motivos óbvios, damos ao seu papel no fim da ditadura e do seu rompimento com o PCB, por exemplo.

Aqui temos uma questão importante para percebermos quem foi Prestes, pois não foi ele quem mudou de rumos. Prestes continuou fiel ao socialismo e aos projetos de transformação radical da sociedade. Quem abandou tal projeto foi o PCB e no final das contas a própria União Soviética que, apesar das homenagens, no final acabou por desconsiderar e até desprezar Prestes, quando esse cobrava um compromisso com o socialismo que a própria URSS já tinha perdido.

A coerência de Prestes se tornou incômoda no fim dos anos 1970 e na década de 1980. Trouxe críticas e problemas aos novos atores sociais, como Lula, e também, a antigos políticos, como Leonel Brizola, que muitas vezes recebeu apoio crítico de Prestes na luta contra a ditadura que ia chegando ao fim. Assim, o Velho, como passou a ser chamado, dá uma lição de compromisso com a esquerda e com o socialismo, enquanto os demais a sua volta foram fazendo concessões e mais concessões a uma “democracia” limitada e controlada da qual Prestes já desconfiava.

6. É para se pensar…

No mesmo sentido, seria curioso de ver a cara dos velhos decrépitos que governavam a União Soviética nos seus últimos dias e os moralistas do PCB ao escutarem declarações como essas do nosso Velho comunista, citado por Aarão na página 464:

Um dia, quando a humanidade construir uma sociedade igualitária, todos terão liberdade para fazer qualquer coisa. Quem quiser fumar maconha, vai fumar. Homem que quiser casar com homem, vai casar. Quem desejar morar em outro planeta, vai morar (…) sem repressão religiosa, policial, ditatorial ou política. Nessa época a humanidade estará livre dos preconceitos que infernizaram a sua trajetória. (…)”

7. Por fim…

É fato que a obra deixa muitas lacunas e pontos problemáticos que precisam ser esclarecidos e estamos certos de que seria salutar se o próprio autor assim o fizesse. Uma obra como essa é merecedora de um debate tanto por respeito à figura de Prestes, quanto à pesquisa e interpretações que Daniel Aarão Reis nos propõe. Assim, longe das críticas radicais e das acusações sem o menor sentido essa é uma obra que deve permanecer viva enquanto referência e análise, pois no fim ela tem mais a contribuir para esse importente personagem da nossa vida política do que as críticas radicais e o “puxa-saquismo” tem permitido discutir. Não é uma obra anticomunista e também não é uma obra oficial para o PCB ou instituto Prestes, tampouco é uma obra que vá servir aos que odeiam Prestes e o Comunismo. Pontos para Daniel Aarão Reis!

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