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  • Alerta no Caribe. As novas disputas geopolíticas.

    Alerta no Caribe. As novas disputas geopolíticas.

    O Caribe como prioridade estratégica

    Desde o início de 2025, o governo Trump voltou a colocar a América Latina e Caribe no centro de sua política externa. A região, considerada uma extensão natural da segurança norte-americana, é hoje apresentada pela Casa Branca como a “primeira linha de defesa” contra cartéis de drogas e fluxos migratórios. Trump marca, assim, uma volta ao continente que recebeu menos atenção, desde o governo Bush.

    A decisão de enviar destróieres, submarinos e cerca de 4.000 militares para patrulhar águas caribenhas representa o maior movimento naval dos EUA na região desde a Guerra Fria. Oficialmente, trata-se de uma operação antidrogas, mas na prática, ela é o retorno da projeção militar americana.

    Para entendermos esse movimento, vamos analisar as tensões com a Venezuela e Cuba, a crise imigratório com o Haiti, bem como as novas alianças.

    Venezuela,  narcotráfico e Petróleo.

    O alvo principal é a Venezuela. Washington acusa Nicolás Maduro e altos oficiais de chefiar o chamado “Cartel de los Soles”, supostamente responsável por canalizar cocaína colombiana por meio da Venezuela até rotas marítimas do Caribe, com destino aos Estados Unidos e Europa.

    Trump elevou a pressão oferecendo US$ 50 milhões de recompensa pela captura de Maduro e ampliando sanções. Caracas reagiu mobilizando 4,5 milhões de milicianos e denunciando uma “campanha de guerra híbrida” norte-americana.

    A geopolítica da acusação vai além das drogas: enfraquecer a influência venezuelana significa também atacar o Petrocaribe, mecanismo que durante duas décadas garantiu petróleo subsidiado a vários países da região, ampliando a influência de Caracas no Caribe.

    A presença de viar destróieres e  submarinos nas proximidades da costa do país, aumentaram as especulações sobre uma possibilidade de intervenção direta. O fato é que Maduro nunca esteve tão pressionado e cercado. Essa pressão pode ter efeitos internos e fragilizar ainda mais o seu governo. A queda de Maduro é inegavelmente o maior propósito de Washington, resta saber como e quando ela se dará.

    As recentes descobertas de grandes reservas de petróleo na Guiana, lideradas pela ExxonMobil, transformaram o pequeno país caribenho em um novo polo energético global. Os EUA veem a Guiana como uma alternativa estratégica ao petróleo venezuelano, fortalecendo investimentos e parcerias para garantir acesso preferencial à produção futura. Essa guinada energética também reposiciona o Caribe no mapa da geopolítica global, com Washington atuando para consolidar sua presença diante da crescente importância do Atlântico Norte e da Bacia do Caribe.

    Em paralelo, a Venezuela mantém sua reivindicação histórica sobre a região de Essequibo, rica em petróleo e atualmente sob jurisdição guianense. A disputa territorial, intensificada pelas novas descobertas, gera tensões diplomáticas e militares entre Caracas e Georgetown.

    Para os EUA, a questão é dupla: enfraquecer a posição de Maduro e, ao mesmo tempo, consolidar um aliado energético confiável no Caribe. Assim, o petróleo se converte em mais um campo de disputa pela influência norte-americana na região.

    Nos últimos meses, Nicolás Maduro intensificou sua retórica sobre o Essequibo, chegando a ameaçar a anexação da região e a realização de exercícios militares próximos à fronteira. Essa postura não apenas eleva o risco de confronto direto com a Guiana, mas também gera preocupação no Brasil, que compartilha fronteira tanto com a Venezuela quanto com a área disputada.

    Brasília teme o impacto de uma escalada militar, particularmente, em Roraima e no norte amazônico, ao mesmo tempo em que observa com atenção a exploração do petróleo da margem equatorial, vista como o próximo grande ativo energético brasileiro.

    A sobreposição dessas tensões coloca o Brasil em posição ainda mais delicada, entre a defesa da estabilidade regional e a proteção de seus próprios interesses estratégicos no setor de energia, com mais uma potencial crise com o governo Trump a vista.

    Cuba e o retorno do isolamento

    Cuba voltou a ser classificada por Washington como Estado patrocinador do terrorismo. Além do embargo renovado, Trump planeja transformar Guantánamo, a base militar / prisão que detinha pessoas acusadas de terrorismo e de serem membros de grupos radicais islâmicos,  em um grande centro de deportação de migrantes, com capacidade para até 30 mil pessoas.

    As medidas afetam diretamente o equilíbrio caribenho, pois muitos deportados são haitianos e centro-americanos enviados para Cuba contra a sua vontade. A política gera críticas de organizações internacionais e aumenta as tensões entre Havana e Washington.

    Cuba tem sofrido por mais de uma década com a escasses de recursos e o empobrecimento. Notícias de descontentamentos populares por falta de itens básicos e as crescentes quedas de energia, mostram que o regime atravessa enormes dificuldades que, mesmo com apoio de aliados, como Rússia e China, a ilha não tem conseguido superar.

    O Haiti e a crise migratória

    O Haiti, já fragilizado por instabilidade política e violência há decadas, sofre forte impacto com a nova política migratória dos EUA. Deportações em massa pressionam um país sem capacidade de absorver o retorno de milhares de cidadãos, agravando a crise humanitária.

    Esse movimento reforça a dimensão geopolítica da migração. Washington projeta sua influência não apenas por meio de operações militares, mas também pelo controle sobre fluxos populacionais no Caribe.

    Esse controle populacional provoca crises econômicas e políticas nos paises de origem. Vale lembrar que os recursos enviados por emigrados são parte importante da economia destes países e que a imigração servia como uma válvula de escape para as tensões econômicas e sociais.

    Novas alianças no Caribe

    Apesar das tensões, alguns governos caribenhos, como República Dominicana e Jamaica, reforçam a cooperação com os EUA em segurança marítima e antidrogas. A maior presença da Guarda Costeira norte-americana é vista como forma de proteção, mas também aumenta a dependência da região em relação a Washington.

    Ao mesmo tempo, países como Trinidad e Tobago mostram cautela, temendo perder acesso ao petróleo venezuelano. O Caribe encontra-se, assim, dividido entre alianças pragmáticas com os EUA e preocupações com o risco de desestabilização regional.

    O Caribe volta a ser palco de uma disputa geopolítica clássica. A estratégia de Trump combina pressão militar, isolamento diplomático e reconfiguração migratória, buscando restabelecer a hegemonia norte-americana na região.

    Entre alianças pragmáticas e tensões abertas, os pequenos Estados caribenhos enfrentam um dilema: alinhar-se ao poder dos EUA ou tentar preservar margens de autonomia frente a um cenário de crescente rivalidade. As tensões se ampliaram em 2025 e tendem a moldar o futuro dos países nos próximos anos. Entre regimes cambaleantes e crises humanitárias o caribe é uma parte importante da reconfiguração geopolítica do governo Trump.

    Referências

    AP News,  US destroyers head toward waters off Venezuela as Trump aims to pressure drug cartels

    El País,  EE UU despliega 4.000 militares en aguas de América Latina y el Caribe para perseguir a los carteles

    El País, Maduro moviliza a cuatro millones de milicianos como respuesta a los destructores enviados por Estados Unidos

    WOLA, Qué implica una segunda administración Trump para América Latina

    NUSO, Trump y América Latina y el Caribe: un laboratorio de control

  • Dia Mundial Humanitário

    Dia Mundial Humanitário


    Em 19 de agosto, celebramos o Dia Mundial Humanitário, uma data dedicada a homenagear aqueles que atuam em crises globais e a lembrar das vidas perdidas no cumprimento desse dever.

    O trabalho humanitário é o conjunto de ações voltadas a salvar vidas, reduzir o sofrimento humano e garantir a dignidade de pessoas atingidas por guerras, desastres naturais, fome, epidemias e outras crises. Seu foco não é político, mas sim atender às necessidades mais urgentes de sobrevivência, como acesso a água potável, alimentos, saúde, abrigo e proteção.

    Quem realiza esse trabalho?

    A ação humanitária envolve uma rede global de esforços. Ela é conduzida por agências da ONU como ACNUR, UNICEF e PMA, por organizações não governamentais como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras, e também por organizações locais, muitas vezes na linha de frente. Milhares de profissionais e voluntários arriscam suas vidas diariamente para levar socorro a quem mais precisa.

    Os princípios humanitários

    Para garantir confiança, neutralidade e eficácia, o trabalho humanitário é guiado por quatro princípios.

    Humanidade:  proteger a vida e a dignidade das pessoas em sofrimento.

    Imparcialidade: prestar ajuda apenas com base na necessidade, sem discriminação.

    Neutralidade: não tomar partido em conflitos ou controvérsias.

    Independência operacional: atuar de forma autônoma, livre de interesses políticos, militares ou econômicos.

    Esses princípios são o alicerce que permite às organizações alcançar populações em risco, mesmo em contextos de guerra.

    O atentado de Bagdá e o Dia Mundial Humanitário

    Em 19 de agosto de 2003, a sede da ONU em Bagdá, no Iraque, foi alvo de um ataque a bomba que matou 22 funcionários, incluindo o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, então Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos.

    A tragédia marcou a história da ONU e revelou a vulnerabilidade dos trabalhadores humanitários em zonas de conflito.

    Como resposta, a Assembleia Geral da ONU estabeleceu, em 2009, o Dia Mundial Humanitário, celebrado anualmente nessa data. O objetivo é não apenas homenagear as vítimas do atentado de Bagdá, mas também reconhecer o trabalho das pessoas que atuam em crises humanitárias em todo o mundo.

    Comemorar o Dia Mundial Humanitário é reafirmar a importância da solidariedade internacional e a necessidade de proteger quem leva ajuda onde mais se precisa.

    Relembrar Bagdá significa também valorizar a coragem de todos aqueles que atuam em defesa da vida, da dignidade e dos direitos humanos.

    Referências
    United Nations, History of World Humanitarian Day
    International Committee of the Red Cross
    BBC News, Baghdad UN headquarters bombing (2003)
    O Globo, A trajetória de Sérgio Vieira de Mello

  • Cúpula EUA e Rússia no Alasca: passos para o impasse

    Cúpula EUA e Rússia no Alasca: passos para o impasse


    O encontro marcado para 15 de agosto, em Anchorage, no Alasca, reunirá o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em um momento tenso da guerra na Ucrânia.

    Embora apresentado como uma tentativa de abrir canais para a paz, o evento reflete mais uma disputa por narrativas e posições estratégicas do que uma convergência de objetivos. A única coisa certa desse encontro é que não sairá uma proposta de paz razoável.

    Continuidade da postura russa

    O Kremlin reafirmou que seus objetivos militares e políticos na Ucrânia permanecem inalterados, ou seja ocupação. Essa posição demonstra que Moscou não está disposta a abrir mão de ganhos territoriais duramente obtidos, utilizando a cúpula como palco para sua propaganda, colocando a Rússia como potência equivalente aos Estados Unidos.

    Putin deve insistir na sua falsa narrativa histórica e com ela buscar deslegitimar a Ucrânia, enquanto Estado e o povo ucraniano, como nação.

    Essa narrativa reforça a linha dura interna e envia um sinal claro de que não há concessões à vista. Afinal, Putin pediu aos russos sacrifício e  prometeu um Império. Ele já sacrificou mais de uma geração, com essa ilusão, e voltar como derrotado colocaria o seu regime em risco.

    Nesse momento, a Rússia parece estar em vantagem. Conquistou territórios, reorganizou a sua indústria bélica, em particular, a fabricação de drones, e dispõe de mercenários e dos norte coreanos para sacrificar.

    Enquanto a diplomacia se arrasta, a Rússia prepara novas operações no sul da Ucrânia, em Kherson, e mantém ataques com drones de longo alcance contra as principais cidades aumentando o risco de vítimas civis. Além das Infiltrações recentes em Dobropillya. Com a proximidade da cúpula, o risco é que esses movimentos militares sejam usados para reforçar a posição de Moscou à mesa de negociação.

    Condições impostas por Washington

    A Casa Branca, estabeleceu limites explícitos: não haverá qualquer acordo sem um cessar-fogo imediato e sem a participação formal da Ucrânia nas negociações. Trump acrescentou que, caso Putin se recuse a avançar em conversas, a Rússia enfrentará “consequências muito graves”. O que isso significa exatamente e se haverá recuos, não é possível saber. O certo é que o presidente não pode sair da negociação com a imagem de perdedor.

    Por isso, Trump mantém aberta a possibilidade de um segundo encontro, desta vez com a presença do presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, se houver avanços concretos e já jogando qualquer solução para um futuro indefinido.

    Reações da Europa e de Kiev

    A União Europeia rejeitou a exclusão de Kiev, afirmando que a integridade territorial da Ucrânia é inegociável.

    Em Londres, Zelenskyy reforçou que não aceitará concessões territoriais e obteve novas promessas de apoio militar.

    A Alemanha anunciou um pacote de US$ 500 milhões para reforço da defesa aérea, complementado por contribuições da Holanda e da Suécia. Esses movimentos indicam que, mesmo diante de conversas bilaterais entre EUA e Rússia, o eixo europeu continuará a sustentar a resistência ucraniana, pois uma derrota, ou mesmo a imagem de derrotados, traria graves consequências políticas, já que a popularidade dos seus líderes, principalmente na França e na Alemanha, não anda nada bem.

    A cúpula no Alasca se anuncia como um momento de alta visibilidade internacional, mas com poucas garantias de avanços concretos.

    Entre exigências e resistência e  inflexibilidade, cresce a percepção de que o encontro pode servir mais para a construção de imagem política do que para uma solução efetiva do conflito. Mesmo porque, como seria possível sair de uma negociação na qual ninguém pode sair com a aparência de perdedor?

    Referências:
    Reuters
    The Guardian
    Time
    Kyiv Post

  • Sul Global ou Leste Global?  Uma questão russa.

    Sul Global ou Leste Global?  Uma questão russa.


    • As origens históricas do Sul Global
    • Por que a Rússia prefere o termo Leste Global ?
    • Como diferentes países utilizam o Sul Global em sua diplomacia
    • As contradições e conflitos potenciais no uso político desses conceitos

    O que é o Sul Global?

    O conceito de Sul Global é uma construção político e geográfica que ganhou força no final do século XX na busca por alinhar  países em desenvolvimento, concentrados no hemisfério Sul.

    Ele substituiu expressões como “Terceiro Mundo” e “países subdesenvolvidos”, usados durante a Guerra Fria (1945 – 1991). Durante a  Guerra Fria,  o “Norte” reunia potências industrializadas, enquanto o “Sul” representava economias periféricas ou emergentes. Essa perspectiva se consolidou na Conferência de Bandung, em 1955, e no Movimento dos Não Alinhados, que buscavam maior autonomia frente à disputa entre Estados Unidos e União Soviética.

    Assim, o conceito passou a simbolizar solidariedade política, defesa de reformas na governança global e a promoção de cooperação econômica entre países em desenvolvimento.

    Mas se a Rússia, ou URSS, era parte no conflito global durante a Guerra Fria, como ela poderia fazer parte do Sul Global no século seguinte?

    A questão russa e o Leste Global

    A Rússia evita ser enquadrar no Sul Global e prefere empregar expressões como Leste Global ou “países amigos”.

    Essa escolha está ligada à estratégia de se apresentar como potência euroasiática equivalente a Estados Unidos e China, e não como parte de um bloco de países em desenvolvimento.


    Propagandistas do Kremlin associa o Leste Global à construção de um bloco civilizacional alternativo ao “Ocidente Coletivo”, formado por potências militares e industriais com interesses convergentes na Eurásia. Essa visão está conectada  com a ideologia  geopolítica do eurasianismo, que coloca Moscou como centro de um espaço integrado entre Europa Oriental e Ásia.

    Ao adotar esse enquadramento, o regime de Putin se afasta do peso histórico colonial implícito no termo Sul Global e reforça sua imagem de liderança no espaço pós-soviético.

    Ao contrário dos paises do Sul Global a Rússia não passou pela experiência histórica do colonialismo, pelo contrário, no século XIX, junto com os paises europeus, o Império Russo era uma potência imperialista.

    O Imperio Russo avançou para o Cáucaso, absorvendo territórios como a Geórgia, o Azerbaijão e o Armênia, além de incorporar vastas áreas da Ásia Central, incluindo o atual Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão, Cazaquistão e Tadjiquistão. Na Europa, dominou a região do Báltico e as Finlândia, além de partilhar a Polônia.

    Esse movimento foi impulsionado tanto por objetivos estratégicos, como o controle de rotas comerciais e a contenção de influências britânicas e otomanas, quanto por motivações ideológicas ligadas à missão civilizatória e religiosa do czarismo ortodoxo.

    No extremo Oriente, a Rússia expandiu-se para a Sibéria e estabeleceu presença no Pacífico, consolidando sua posição como um império transcontinental com interesses simultâneos na Europa e na Ásia.

    Nesse sentido, o regime de Putin que se apropria, tanto da imagem de grandiosidade do Império Russo, quanto da União Soviética, joga para o seu público interno a leitura euroasiatica de leste Global. Já a sua diplomacia, por estratégia aceita a ideia de Sul global por conveniência geopolítica.


    Como os países utilizam o Sul Global

    Apesar da posição russa, outros países do BRICS utilizam o conceito de Sul Global de formas distintas. A China se apresenta como líder do mundo em desenvolvimento, fortalecendo sua posição em fóruns multilaterais e ampliando sua influência na Ásia, África e América Latina.

    A Índia mantém a identidade de porta-voz dos não alinhados e organiza encontros específicos do Sul Global para reafirmar seu papel diplomático.

    Já África do Sul, emprega o conceito para sustentar sua liderança continental e propor reformas na ordem internacional.

    O Brasil, nos governos Lula e Dilma, usa o Sul Global como narrativa de mediação e protagonismo, buscando reformas multilaterais e intensificando a cooperação com países do Sul Global e Rússia.

    Contradições e conflitos potenciais

    O uso político do Sul Global cria uma base retórica de unidade, mas esconde contradições relevantes. Potências emergentes que defendem o conceito nem sempre compartilham os mesmos interesses econômicos ou estratégicos.

    Um exemplo é a China que se tornou credora de diversos países africanos e asiáticos, os colocando em relação de dependência.

    O Brasil, embora invoque o Sul Global, não superou a sua dependência econômica das potências do Norte e se tornou dependente do mercado Chinês, o que apontou para fragilidades importantes, nas crises mais recentes.


    A própria existência da narrativa russa do Leste Global demonstra que o termo não é neutro. Sua aceitação ou rejeição revela alinhamentos geopolíticos específicos.

    Diante das crises atuais, com os EUA e a guerra na Ucrânia, será importante perceber se de fato existe a  capacidade do Sul Global de articular uma política unificada, como sonha o Brasil, ou se a retórica acabara se esfacelado diante de interesses específicos.

    Para além, retomado o sonho expansionista imperialista russo, como ficou explícito com a invasão da Ucrânia, é de se perguntar: a Rússia deve ser de fato considerada como uma aliada no Sul Global? Ou para ela os BRICS e o Sul Global são apenas estratégias dentro de uma perspectiva de reconstrução de áreas de domínio e influência que remontam ao Império Russo e a União Soviética?

    É preciso repetir, a Rússia não passou pela experiência colonial, ela foi (e é) uma potência colonizadora e se o Sul global tivesse essa compreensão, para além da propaganda do regime Putin, as estratégias e expectativas de aliança seriam melhor dimensionadas.

  • Fronteiras Invioláveis: A Posição do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia

    Fronteiras Invioláveis: A Posição do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia


    Contexto da declaração conjunta

    O que é o Northern-Baltic Eight?

    Relação do grupo com a OTAN e a segurança europeia

    Consequências geopolíticas da posição adotada


    O Northern-Baltic Eight (NB8) reúne Dinamarca, Estônia, Finlândia, Islândia, Letônia, Lituânia, Noruega e Suécia. Trata-se de um fórum regional de cooperação política e econômica que, embora não seja uma organização formal com tratado constitutivo, atua de forma coordenada em questões de segurança, diplomacia e integração europeia.

    O grupo é formado por países nórdicos e bálticos que compartilham interesses estratégicos no Mar Báltico e no Ártico, áreas de crescente importância geopolítica.

    A declaração recente do NB8 reafirma que as fronteiras internacionalmente reconhecidas da Ucrânia são invioláveis e não podem ser alteradas pela força.

    O texto defende que a paz só será possível por meio de diplomacia firme, apoio militar e econômico contínuo à Ucrânia e pressão constante sobre a Rússia para interromper sua ofensiva.

    Os líderes ressaltam que qualquer negociação só deve ocorrer após a implementação de um cessar-fogo efetivo, de forma a preservar os interesses de segurança da Ucrânia e da Europa.

    O posicionamento do NB8 também reflete o alinhamento estratégico da maioria de seus membros com a OTAN. Atualmente, todos os oito países integram a Aliança Atlântica, com a Islândia, Dinamarca e Noruega como membros históricos, enquanto Estônia, Letônia e Lituânia aderiram em 2004, e Finlândia e Suécia se tornaram membros recentemente, em 2023 e 2024. Essa integração fortalece a capacidade de defesa coletiva e a interoperabilidade militar, permitindo respostas coordenadas diante de ameaças como a guerra na Ucrânia.

    A posição do grupo é um sinal político claro para Moscou e para a comunidade internacional de que qualquer tentativa de legitimar a ocupação de territórios ucranianos seria inaceitável, violaria o direito internacional e criaria precedentes perigosos. Aceitar a anexação de territórios obtidos pela força poderia encorajar novos conflitos e minar a estabilidade do sistema internacional.

    O fortalecimento da atuação do NB8 ocorre em paralelo à intensificação da presença militar da OTAN no flanco norte e leste da Europa. O Mar Báltico, agora cercado quase totalmente por países da Aliança, tornou-se um ponto crítico de dissuasão contra avanços militares russos.

    Além disso, a cooperação entre NB8 e OTAN vai além do campo militar, abrangendo cibersegurança, proteção de infraestruturas críticas e vigilância no Ártico.

    Essa sinergia amplia o alcance político e militar do grupo e demonstra que, no atual cenário internacional, alianças regionais funcionam como multiplicadores de poder dentro de estruturas multilaterais maiores.

    Referências

    Ministério das Relações Exteriores da Estônia. Declaração conjunta do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia. [Disponível em: https://vm.ee%5D

    Organização do Tratado do Atlântico Norte. Membros e datas de adesão. [Disponível em: https://nato.int%5D

    Conselho Nórdico de Ministros. Cooperação NB8. [Disponível em: https://www.norden.org%5D

  • Áustria repensa neutralidade militar diante da guerra na Ucrânia e debate sobre OTAN

    Áustria repensa neutralidade militar diante da guerra na Ucrânia e debate sobre OTAN

    Como a guerra na Ucrânia pressiona a revisão da neutralidade austríaca?

    Declarações da ministra Beate Meinl-Reisinger e o impacto político

    Reações internas e resistência de setores contrários à OTAN

    Perspectivas para a segurança austríaca no cenário europeu

    Desde 1955, a Áustria mantém uma posição constitucional de neutralidade permanente, evitando alianças militares e equilibrando relações com o Leste e o Oeste. A invasão russa da Ucrânia e o agravamento do ambiente estratégico europeu estão colocando essa postura histórica em debate. A recente fala da ministra das Relações Exteriores, Beate Meinl-Reisinger, afirmando que “a neutralidade por si só não nos protege”, trouxe o tema para o centro das discussões políticas e midiáticas do país.

    A neutralidade austríaca foi estabelecida após a retirada das forças aliadas no pós-guerra e tornou-se parte fundamental da identidade política do país. Neste texto, vamos examinar o contexto histórico dessa neutralidade, as declarações recentes do governo, as reações políticas internas e como a guerra na Ucrânia está influenciando o reposicionamento estratégico da Áustria. Pesquisas mostram que a maioria da população ainda defende a neutralidade, mas o clima geopolítico europeu mudou, com a Finlândia e a Suécia abandonando essa condição e ingressando na OTAN.

    Em entrevista ao jornal alemão Die Welt, Beate Meinl-Reisinger afirmou que “a neutralidade por si só não nos protege” e defendeu um debate público sobre a política de segurança da Áustria. Ela reconheceu que não existe maioria no Parlamento ou na sociedade para mudar a postura atual, mas sustentou que a discussão é necessária diante das ameaças russas e da instabilidade regional.

    A abertura para discutir a OTAN gerou forte reação de setores políticos, especialmente do Partido da Liberdade, que acusa o governo de seguir a agenda de armamento da União Europeia. Organizações e movimentos civis também anunciaram manifestações em defesa da neutralidade.

    Partidos de centro e liberais, por outro lado, defendem que a Áustria aumente seus gastos militares. A meta oficial é elevar o orçamento de defesa de cerca de 1% para 2% do PIB até 2032. A participação no programa europeu de defesa antiaérea European Sky Shield é vista como um passo relevante nesse sentido.

    O prolongamento da guerra na Ucrânia é o principal fator que está mudando a percepção sobre segurança na Áustria. A possibilidade de expansão do conflito para outras regiões da Europa aumentou a sensação de vulnerabilidade. A pressão diplomática dentro da União Europeia para que todos os membros fortaleçam sua defesa coletiva coloca a Áustria diante de escolhas estratégicas inéditas desde a Guerra Fria.

    A comparação com a Finlândia e a Suécia serve como alerta para Viena. Embora o contexto austríaco seja diferente, a experiência desses países mostra que alianças militares podem oferecer garantias de segurança que a neutralidade isolada já não consegue assegurar. O desfecho dependerá tanto do curso da guerra na Ucrânia quanto da capacidade de Viena de equilibrar sua tradição histórica com as novas demandas estratégicas.

    Referências

    Die Welt, Entrevista com Beate Meinl-Reisinger
    Daily News Hungary, Austria considers move from neutrality to NATO
    Central European Times, Austria should consider NATO membership
    Defense News, Austria is torn over age-old question of neutrality and NATO
    TVP World, Austria questions neutrality but NATO still far off
    Financial Times, Austria boosts defence amid European security concerns
    Wikipedia, Austria–NATO relations

  • Segurança do Báltico em Meio às Negociações sobre a Ucrânia

    A proposta de Donald Trump de incluir concessões territoriais da Ucrânia em um possível acordo com a Rússia gerou forte reação nos países bálticos. Estônia, Letônia e  Lituânia alertaram que qualquer cessão de território sob pressão do imperialismo russo representaria um precedente perigoso, ameaçando a estabilidade europeia em uma ameaça objetiva as independências dos paises.

    Os líderes no Báltico defenderam  que a soberania e a integridade territorial da Ucrânia devem ser preservadas, pois uma solução baseada em trocas territoriais deve incentivar novas anexões orquestradas por Putin.

    Motivos para a Preocupação Báltica

    O receio dos Estados bálticos se baseia em fatores históricos e geográficos. A proximidade com a Rússia, a presença do enclave de Kaliningrado e a existência de minorias russas na Estônia e na Letôniaem, aumentam a vulnerabilidade, sobretudo, quando se considera as  estratégias híbridas, como as vistas na Crimeia em 2014.

    Para além, as declarações recentes de autoridades russas, como a do chefe da inteligência Sergey Naryshkin, indicaram que Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia seriam as primeiras a sofrer em caso de confronto direto entre Moscou e a OTAN.

    A percepção de risco é reforçada pelo uso intensivo de propaganda e desinformação, patrocinada por Moscou (inclusive no Brasil) somado à instabilidade gerada pela guerra na Ucrânia.

    Para os paises Bálticos, qualquer concessão ucraniana abriria caminho para questionamentos sobre suas próprias fronteiras, colocando em risco segurança dos países.

    Fortalecimento Militar e Diplomático

    Em resposta a essas ameaças, os países bálticos avançam com a construção da Baltic Defence Line, uma rede de fortificações, bunkers, valas antitanque e barreiras defensivas ao longo das fronteiras com a Rússia e a com a  Belarus.

    O projeto, iniciado entre 2024,  conta com investimentos nacionais e busca financiamento da União Europeia, além de um projeto de integração com as iniciativas polonesas, como o “Eastern Shield”.

    A Estônia já iniciou a construção de valas e depósitos militares, enquanto a Letônia planeja destinar mais de €300 milhões até 2028. A Lituânia pretende acelerar sua participação ainda este ano.

    Os  gastos de defesa foram elevados para 5% do PIB, já em 2026, alcançando a meta estabelecida pela OTAN.


    O apoio da OTAN se faz cada vez mais intensa,  com a presença de batalhões multinacionais e exercícios conjuntos regulares.

    A Alemanha instalou a 45ª Brigada Blindada em solo lituano, e caças aliados seguem monitorando o espaço aéreo báltico, interceptando as insistentes incursões da aviação militar russa.

    Em agosto, a Lituânia solicitou reforços à defesa aérea da OTAN, após drones vindos de Belarus entrarem em seu território, provocando alerta de segurança, também para os civis.

    No campo diplomático, Letônia, Lituânia e Estônia articulam declarações conjuntas com outros países europeus, reforçando que qualquer negociação de paz para a Ucrânia deve incluir Kyiv como protagonista e respeitar as fronteiras internacionalmente reconhecidas.

    Essa posição foi reafirmada em fóruns internacionais e em reuniões com aliados-chave como os Estados Unidos.

    A percepção geral nos países bálticos é de que sua segurança está diretamente ligada ao desfecho da guerra na Ucrânia. Assim, defendem que qualquer acordo que premie a agressão russa colocará toda a arquitetura de segurança europeia em risco. Para eles, a linha que hoje se defende na Ucrânia é também a linha que protege Tallinn, Riga e Vilnius

    Os paises Bálticos são pequenos, tanto em extensão, quanto em números de habitantes. Carregam, ainda hoje, traumas históricos com as ocupações russas / soviéticas. Sabem pelo passado e pelo presente que sem apoio militar e Diplomático do ocidente a sua existência está objetivamente em risco, diante do Imperialismo russo.


    Referências

    Financial Times. European allies back Ukraine’s borders after Trump floats Russia land swap

    Reuters. Europe stresses need to protect Ukrainian interests ahead of Trump-Putin talks

    Wikipedia. Baltic Defence Line

    FPRI. The New Baltic Way: Assessing the Baltic Defensive Line Concept

    AP News. Poland to lead Eastern Shield project

    VoxEurop. Russia and the Baltic states: evacuation scenarios

    Reuters. Lithuania asks NATO for more air defences

  • Karol Nawrocki assume a presidência da Polônia e apresenta plano para ampliar a cooperação militar


    Novo presidente conservador quer expandir o Formato Bucareste 9, reforçar a OTAN e reposicionar a Polônia como potência regional

    Quem é Karol Nawrocki e como chegou ao poder?

    Karol Nawrocki assumiu oficialmente a presidência da Polônia esse mês (agosto de 2025), após vencer as eleições de junho com pequena vantagem no segundo turno.

    Historiador e ex-diretor do Instituto da Memória Nacional, construiu sua carreira defendendo uma leitura conservadora da história, com forte ênfase na soberania nacional e nos valores tradicionais poloneses. Sua eleição representa um realinhamento político no país, com maior protagonismo da direita nacionalista.

    A vitória de Nawrocki sinaliza uma mudança de rumo nas prioridades estratégicas da Polônia, especialmente na política externa e na segurança militar. Desde a campanha, ele vinha defendendo que Varsóvia deveria assumir um papel mais ativo na defesa do flanco oriental  da OTAN.

    Relação com os Estados Unidos e distanciamento da União Europeia

    Aliado próximo de Donald Trump, Nawrocki já indicou que pretende aprofundar a cooperação com os Estados Unidos e reduzir a influência política de Bruxelas sobre Varsóvia. Essa postura sugere possíveis atritos com a União Europeia, sobretudo em questões relacionadas ao Estado de Direito, imigração e integração econômica.

    Em seu discurso de posse no Parlamento, declarou que “os poloneses são responsáveis por construir o flanco leste da OTAN” e anunciou seu objetivo de transformar o atual Formato Bucareste 9, criado em 2015 após a invasão russa da Crimeia, em um “Bucareste 11”, incluindo países escandinavos. Essa ampliação teria como meta criar uma rede de defesa mais robusta contra ameaças vindas da Rússia e Belarus.

    Conflitos com o primeiro-ministro Donald Tusk

    O início do mandato de Nawrocki já é marcado por tensões com o primeiro-ministro Donald Tusk, líder liberal e defensor da integração europeia. As diferenças entre ambos vão muito além de posicionamentos ideológicos, envolvendo também a condução da política externa, o papel das Forças Armadas e a relação da Polônia com as instituições da União Europeia.

    Analistas políticos alertam que esse embate pode gerar impasses legislativos e comprometer a estabilidade política do país, especialmente se as divergências se intensificarem nos próximos meses.

    Impactos para a Ucrânia e para a segurança regional

    A postura de Nawrocki gera incertezas em Kiev. Embora mantenha um discurso de apoio à resistência ucraniana contra a Rússia, seu alinhamento com Trump pode levar a uma política mais pragmática, com pressão por negociações de paz. Isso levanta dúvidas sobre a continuidade de um apoio militar irrestrito.

    Ao mesmo tempo, a proposta de expandir o Formato Bucareste 9 com a entrada de países escandinavos poderia reforçar a dissuasão contra Moscou e ampliar a cooperação militar entre os membros da OTAN. Tal iniciativa colocaria a Polônia no centro da estratégia de segurança do norte e do leste da Europa.

    Um possível novo eixo de liderança na OTAN

    O plano de Nawrocki de transformar Varsóvia em um polo de liderança no flanco leste da OTAN pode reposicionar a Polônia como ator-chave na arquitetura de segurança europeia. Se bem-sucedido, o projeto aumentaria a influência política do país dentro da aliança atlântica e ampliaria sua capacidade de ação frente a ameaças regionais.

    O sucesso dessa estratégia dependerá da habilidade do presidente em equilibrar alianças externas, manter a coesão interna e administrar as inevitáveis tensões com a União Europeia. O mandato que se inicia será um teste decisivo para o futuro papel da Polônia na segurança europeia.

    Referências

    NATO. “Bucharest Nine (B9) Format and Regional Security Cooperation.” OTAN.int, 2024.

    Parlamento da Polônia. Discurso de posse de Karol Nawrocki, agosto de 2025.

    Warsaw Institute. “The Strategic Role of Poland in NATO’s Eastern Flank.” WarsawInstitute.org, 2025.

    Atlantic Council. “Poland’s Security Policy in the Context of US-Poland Relations.” AtlanticCouncil.org, 2025.

    Reuters. “Karol Nawrocki Sworn In as Poland’s New President.” Reuters.com, agosto de 2025.

  • Guerra híbrida: como a Ucrânia ataca a influência da Rússia na África


    Operações secretas, sabotagem e drones revelam como a Ucrânia enfraquece a presença russa no continente africano


    Principais pontos abordados neste artigo

    Por que a África se tornou parte da guerra entre Ucrânia e Rússia

    A presença do grupo Wagner e da Africa Corps em países africanos

    Operações de sabotagem da inteligência ucraniana

    Impactos estratégicos e geopolíticos da atuação ucraniana no continente


    A África como campo de batalha geopolítico

    Desde 2023, a Ucrânia vem expandindo sua atuação internacional com foco em minar a presença da Rússia em países africanos. Essa estratégia busca atingir os pontos vulneráveis da estrutura de poder russa fora do território europeu, especialmente em regiões onde Moscou mantém operações militares, contratos de mineração e parcerias políticas com regimes autoritários.

    A Rússia mantém bases logísticas e redes comerciais estratégicas no continente por meio do grupo mercenário Wagner, reestruturado em 2024 como Africa Corps. Ao atacar essas conexões, Kiev pretende bloquear o financiamento alternativo da guerra russa e reduzir a influência de Moscou junto ao chamado Sul Global, onde ainda conserva apoio diplomático.

    Ao tornar a África parte ativa do conflito, a Ucrânia também envia um sinal geopolítico: sua defesa envolve não só o território nacional, mas uma resposta global às estruturas de poder russas.


    Sabotagem militar e operações da inteligência ucraniana

    Sudão e República Centro-Africana como alvos prioritários

    Em novembro de 2023, uma explosão destruiu um depósito de armas da Wagner próximo a Omdurmán, no Sudão. Embora inicialmente tratada como acidente, investigações indicaram uma ação planejada pela inteligência militar ucraniana (GUR). Esse ataque foi um marco no uso de operações clandestinas fora da Europa.

    Em janeiro de 2024, um líder de segurança vinculado à Wagner foi morto em Bangui, capital da República Centro-Africana, por um drone artesanal. A ação foi atribuída a uma operação de agentes ucranianos com apoio técnico de serviços de inteligência ocidentais, seguindo a mesma lógica de precisão e discrição.

    Líbia: espionagem sobre voos russos

    Agentes ucranianos também foram infiltrados na Líbia oriental, com a missão de monitorar voos militares russos que transportavam armas e mercenários para o Oriente Médio e outras regiões da África. Foram detectados aviões IL-76, Su-24 e caças MiG operando sob disfarces civis, ampliando a rede logística russa longe da vista internacional.


    A guerra pelo ouro: estratégia econômica contra Moscou

    O ouro africano tornou-se uma das principais fontes de financiamento para a presença militar russa no continente. Minas em Mali e na República Centro-Africana, controladas por mercenários da Wagner, são utilizadas para exportar ilegalmente o metal precioso, especialmente para mercados como os Emirados Árabes.

    Em 2024, a Ucrânia obteve documentos que expuseram essa rede e compartilhou as informações com autoridades francesas e americanas. O resultado foram sanções, congelamento de ativos e apreensão de carregamentos, enfraquecendo diretamente os cofres que sustentam a atuação russa na África e em outros conflitos externos.

    Essa guerra silenciosa demonstra como o confronto se dá não apenas com armas, mas com dados e inteligência econômica.

    Mali e a guerra por procuração com drones

    A atuação ucraniana também envolve apoio a grupos armados que se opõem à presença russa. No norte do Mali, rebeldes tuaregues passaram a usar drones explosivos, com orientação técnica atribuída à Ucrânia. Essas armas permitiram emboscadas e ataques de precisão contra forças aliadas à Rússia, forçando Moscou a reforçar sua presença na região.

    Após uma série de baixas em combates indiretos, o governo do Mali anunciou o rompimento de relações diplomáticas com Kiev em agosto de 2024. A medida foi vista como resposta ao crescente envolvimento ucraniano em ações indiretas contra Wagner e Africa Corps em solo maliano.

    Esse modelo de guerra por procuração mostra como a Ucrânia está adaptando sua estratégia a contextos externos, impondo custos crescentes à expansão russa.


    Uma guerra que ultrapassa fronteiras

    A guerra entre Ucrânia e Rússia já não se limita ao Leste Europeu. O campo de batalha se estende para outros continentes, como a África, onde estruturas econômicas, rotas logísticas e alianças políticas são alvos da inteligência ucraniana. Operações cirúrgicas, vazamentos estratégicos e apoio técnico a grupos locais revelam um novo tipo de guerra híbrida.

    A Ucrânia está demonstrando que, para enfrentar Moscou, é preciso ir além do território e disputar influência global. Ao comprometer redes de financiamento e alianças militares russas na África, Kiev redefine as linhas invisíveis do conflito contemporâneo.


    Referências:

    Lawfare Media. How Ukraine is challenging Russia in Africa and the Middle East

    The Kyiv Independent. Russia has laundered $2.5 billion of African gold

    The Times. Mali cuts ties with Ukraine after drone support

    Le Monde. Ukrainian drones provide support for northern Mali’s rebels

    UCF Global Perspectives. Africa: a second front in Ukraine war

    RIDL. Russia’s chances of establishing a base in Sudan

  • Eu chorei pela Argentina.

    “Baixem as faixas, para que eu possa olhar o povo nos olhos” . Néstor Kirchner

    As imagens assustadoras de uma arma apontada para a Cristina Kirchner me cobriram de aflição. Respirei fundo, ela renasceu! Uma sorte! Me bateu uma alegria por ela ter sobrevivido, ao que poderia ter sido uma tragédia. 

    No dia seguinte, sentimentos mistos, a alegria por ver a sociedade argentina, mesmo em uma profunda crise, reagindo ao ato de violência, me alegou novamente… Alegria solapada pela frieza e certo cinismo por parte de políticos e da imprensa (propagandista) em terras brasileiras. 

    Parece, que por aqui, a apologia da violência e o desprezo à vida humana se tornaram o norte de percepções políticas que promovem o culto a arma e apologia a violência. Só faz apologia a violência quem sabe (ou tem a ilusão) de estar seguro. Não por acaso, os noticiários estão cobertos de armas de fogo disparadas nas situações mais banais. 

    Memórias argentinas

    A minha memória me levou ao momento em que vi o casal Néstor e Cristina pela primeira vez. Foi em uma manifestação no ano de 2009, ou 2010. Não estou certo da data, mas esses foram os anos que passei mais tempo em Buenos Aires.

    De 2005 até 2014 fui todos os verões e invernos para Buenos Aires e morei no segundo semestre de 2009 e primeiro de 2010, por motivos de estudo para o meu doutorado. Naquela época, a Argentina me atraia, me encantava, pela cultura, pela música, pela sociedade e política tumultuada. 

    Esses anos foram repletos de aprendizagem, de alegrias e de esperanças. Vivi em Buenos Aires nos anos em que a Argentina voltava a crescer e o pleno emprego voltou a ser próximo da realidade. Buenos Aires era uma festa! Obviamente, os problemas sociais não estavam superados e eles se faziam presentes no dia-a-dia. Para além dos problemas sociais… O ranço da elite saudosista e anti-peronista estava presente no cotidiano.

    Neoliberalismo: a causa da crise na Argentina.

    Na crise de 1999, presidentes passaram pelo poder e não se estabeleceram: cinco presidentes em uma semana. Era a imagem do colapso, resultado do neoliberalismo, das privatizações alucinadas, da dolarização da economia, da desindustrialização, dos muitos créditos fáceis oferecidos para aqueles que adotavam as políticas neoliberais defendidas pelo famigerado “consenso de Washington”. Carlos Menem foi a expressão de tudo isso! E no fim veio o colapso, pela mão dos seus sucessores.

    As políticas neoliberais causaram o que elas sempre causam: desemprego em massa e inflação. A exclusão social e a fome. O fechamento de grandes fábricas e dos centenários frigoríficos na cidade de Berisso, que conheci, eram a expressão dessa crise que cortava empregos e, principalmente, futuros. 

    Os saques aos supermercados eram diários, as greves explodiram, enquanto tecnocratas apontavam como saída confiscar os dinheiro da população que estava nos bancos para pagar o FMI, Fundo Monetário Internacional, com um plano chamado “corralito”. 

    É o neoliberalismo! É O NEOLIBERALISMO!!!!

    Nos dias 19 e 20 de dezembro de 1999, a população reagiu e as ruas foram tomadas por trabalhadores, os sem-teto, os desempregados e a classe média. Os protestos provocaram a renúncia de Fernando de la Rúa, que fugiu de helicóptero da Casa Rosada, em 10 de dezembro de 1999.

    As grandes crises na Argentina são causadas pela adoção de políticas neoliberais e empréstimos de curto prazo, que são impagáveis. Exatamente a mesma receita adotada por Macri A mesma política tem o mesmo resultado: alívio e falsa sensação de prosperidade nos primeiros meses, crises nos anos seguintes. 

    As crises na Argentina são o resultado de políticas neoliberais! Vou repetir e repetir isso! Isso é um fato! Que políticos e formadores de opinião, doutrinados no neoliberalismo dos anos 1990, tentam enganar, colocando a culpa nos governos progressistas e na esquerda. A ultrapassada e fracassada política neoliberal defendida por velhos decrépitos, lamentavelmente, ainda são os argumentos para atacar aqueles que lutam pelo mínimo de dignidade. 

    Para os doutrinados do neoliberalismo, nem a História e nem a lógica parecem ser suficientes! Os neoliberais partilham de uma fé no mercado semelhante à fé dos terraplanistas e dos anti-vacinas. 

    Repetem suas pequenas verdades e velhas fórmulas, cuja sustentação já fracassaram, tanto nos aspectos teóricos, quanto práticos. A formulação do teólogo Adam Smith, da mão invisível, como um Deus que se manifesta no mercado foi reatualizada por teólogos tecnocratas. 

    O mercado é um deus vingativo, para os teólogos do neoliberalismo que catequizam os privilegiados contra os pobres, dando fantasiosa racionalidade ao seu preconceito de classe. Do menino youtuber, no seu apartamento de classe média, do jornalista bem pago da grande mídia, dos economistas com cabeça de Python, comendo o próprio rabo, todos rezam para o deus mercado, sonhando com o afago da mão invisível, nas suas partes íntimas.   

    Do Caos à Esperança. 

    O colapso na Argentina trouxe formas de esperança que apareciam em movimentos sociais, como os “piqueteros” que cortavam (paravam) a Argentina, lembrando aos deuses do mercado que a sociedade existia. A “toma” de fábricas que se converteram em cooperativas, era outra forma de esperança de reação dos trabalhadores.

    Em meio a todos esses movimentos, emergiram os Kirchner, que de certa forma capitanearam e assumiram essas manifestações de esperança popular. Assumiram junto com a crítica ao neoliberalismo, diversas bandeiras sociais e demandas de progresso social. Nesse aspecto, não decepcionaram e é notável o progresso na legislação argentina em diversas áreas nos últimos anos.

    Na economia, as questões eram mais complexas. A Argentina, como de resto a América Latina, continuou suscetível ao comércio internacional. As dívidas pesam, sempre voltam à tona. Com as dívidas, as crises cambiais e um Estado que não consegue preservar as suas reservas. A economia, de fato, em muitos setores continuou dolarizada. Com a dolarização as crises cambiais, e daí de volta ao caos. Os Kirchners na sua luta pelo poder, não foram capazes de apresentar soluções duradouras aos problemas econômicos da Argentina.

    Os Kirchners

    Assim, como todos os governos progressistas que chegaram ao poder na América do Sul, nas primeiras décadas do século XX, os Kirchner acertaram e erraram muito. E a reação a eles também se deu da mesma forma: discurso neoliberal, ressentimento de classe, saudosismos de um passado glorificado, impulso do agro em só querer exportar e faturar, formaram um caldo perigoso que resultou em um discurso de ódio.

    As acusações de corrupção, em uma guerra através do judiciário, também foi uma fórmula usada contra os Kirchners. Assim, como aqui, o resultado lá também é de muita confusão e indefinição que tensionam o mundo político. Além de não conseguir, de fato, apontar os culpados, devido a bagunça e a politização do processo judicial.

    Para escapar das ameaças de judicialização das eleições, Cristina fez um acordo com Alberto Fernandez, o conduzindo à presidência e ela, como vice. Erraram! Nada disso deu resultados. A pandemia somada à crise internacional, pressão do FMI e dos fundos, pelo pagamento das dívidas, piorou a situação, devolvendo a economia argentina para a incerteza. Os dois se desentenderam, sobretudo com a forma de lidar a dívida e com o FMI

    Com os diversos erros e da não superação dos problemas, arrastaram a Argentina para mais uma crise econômica … O discurso de ódio cresceu. A oposição ganha voz, junto a uma mídia irresponsável e ressentida, devido a reforma na legislação de mídia, realizada nos primeiros governos Kirchners. Grande parte da mídia argentina vê os Kirchners como inimigos e os tratam como inimigos. 

    O ódio que sempre encontra um fanático, um doutrinado disposto a radicalizar. Por sorte, o atentado fracassou! 

    Olhando o povo nos olhos.

    Os Kirchner sempre mantiveram uma forte mobilização política e talvez essa seja uma característica do peronismo. Nas crises, se recorre às massas para criar uma pressão social e nos parlamentares que não conseguem fugir das manifestações, dos protestos, das demandas sociais. 

    E foi em uma dessas crises que minha memória me levou. Ao ler as notícias, lembrei de uma manifestação. Néstor Kirchner, no seu último ano de vida, na frente do Senado, diante de uma enorme massa. Eu andando de um lado para o outro, um pouco perdido, um pouco cantando músicas e hinos. Camisetas eram pintadas com o rosto da Cristina. Néstor aparece para o público que vibra. As enormes faixas sobem! Parado na frente, em voz rouca, Néstor pede… Ou melhor comanda.

    – Baixem as faixas, para que eu possa olhar o povo nos olhos!