“Baixem as faixas, para que eu possa olhar o povo nos olhos” . Néstor Kirchner

As imagens assustadoras de uma arma apontada para a Cristina Kirchner me cobriram de aflição. Respirei fundo, ela renasceu! Uma sorte! Me bateu uma alegria por ela ter sobrevivido, ao que poderia ter sido uma tragédia. 

No dia seguinte, sentimentos mistos, a alegria por ver a sociedade argentina, mesmo em uma profunda crise, reagindo ao ato de violência, me alegou novamente… Alegria solapada pela frieza e certo cinismo por parte de políticos e da imprensa (propagandista) em terras brasileiras. 

Parece, que por aqui, a apologia da violência e o desprezo à vida humana se tornaram o norte de percepções políticas que promovem o culto a arma e apologia a violência. Só faz apologia a violência quem sabe (ou tem a ilusão) de estar seguro. Não por acaso, os noticiários estão cobertos de armas de fogo disparadas nas situações mais banais. 

Memórias argentinas

A minha memória me levou ao momento em que vi o casal Néstor e Cristina pela primeira vez. Foi em uma manifestação no ano de 2009, ou 2010. Não estou certo da data, mas esses foram os anos que passei mais tempo em Buenos Aires.

De 2005 até 2014 fui todos os verões e invernos para Buenos Aires e morei no segundo semestre de 2009 e primeiro de 2010, por motivos de estudo para o meu doutorado. Naquela época, a Argentina me atraia, me encantava, pela cultura, pela música, pela sociedade e política tumultuada. 

Esses anos foram repletos de aprendizagem, de alegrias e de esperanças. Vivi em Buenos Aires nos anos em que a Argentina voltava a crescer e o pleno emprego voltou a ser próximo da realidade. Buenos Aires era uma festa! Obviamente, os problemas sociais não estavam superados e eles se faziam presentes no dia-a-dia. Para além dos problemas sociais… O ranço da elite saudosista e anti-peronista estava presente no cotidiano.

Neoliberalismo: a causa da crise na Argentina.

Na crise de 1999, presidentes passaram pelo poder e não se estabeleceram: cinco presidentes em uma semana. Era a imagem do colapso, resultado do neoliberalismo, das privatizações alucinadas, da dolarização da economia, da desindustrialização, dos muitos créditos fáceis oferecidos para aqueles que adotavam as políticas neoliberais defendidas pelo famigerado “consenso de Washington”. Carlos Menem foi a expressão de tudo isso! E no fim veio o colapso, pela mão dos seus sucessores.

As políticas neoliberais causaram o que elas sempre causam: desemprego em massa e inflação. A exclusão social e a fome. O fechamento de grandes fábricas e dos centenários frigoríficos na cidade de Berisso, que conheci, eram a expressão dessa crise que cortava empregos e, principalmente, futuros. 

Os saques aos supermercados eram diários, as greves explodiram, enquanto tecnocratas apontavam como saída confiscar os dinheiro da população que estava nos bancos para pagar o FMI, Fundo Monetário Internacional, com um plano chamado “corralito”. 

É o neoliberalismo! É O NEOLIBERALISMO!!!!

Nos dias 19 e 20 de dezembro de 1999, a população reagiu e as ruas foram tomadas por trabalhadores, os sem-teto, os desempregados e a classe média. Os protestos provocaram a renúncia de Fernando de la Rúa, que fugiu de helicóptero da Casa Rosada, em 10 de dezembro de 1999.

As grandes crises na Argentina são causadas pela adoção de políticas neoliberais e empréstimos de curto prazo, que são impagáveis. Exatamente a mesma receita adotada por Macri A mesma política tem o mesmo resultado: alívio e falsa sensação de prosperidade nos primeiros meses, crises nos anos seguintes. 

As crises na Argentina são o resultado de políticas neoliberais! Vou repetir e repetir isso! Isso é um fato! Que políticos e formadores de opinião, doutrinados no neoliberalismo dos anos 1990, tentam enganar, colocando a culpa nos governos progressistas e na esquerda. A ultrapassada e fracassada política neoliberal defendida por velhos decrépitos, lamentavelmente, ainda são os argumentos para atacar aqueles que lutam pelo mínimo de dignidade. 

Para os doutrinados do neoliberalismo, nem a História e nem a lógica parecem ser suficientes! Os neoliberais partilham de uma fé no mercado semelhante à fé dos terraplanistas e dos anti-vacinas. 

Repetem suas pequenas verdades e velhas fórmulas, cuja sustentação já fracassaram, tanto nos aspectos teóricos, quanto práticos. A formulação do teólogo Adam Smith, da mão invisível, como um Deus que se manifesta no mercado foi reatualizada por teólogos tecnocratas. 

O mercado é um deus vingativo, para os teólogos do neoliberalismo que catequizam os privilegiados contra os pobres, dando fantasiosa racionalidade ao seu preconceito de classe. Do menino youtuber, no seu apartamento de classe média, do jornalista bem pago da grande mídia, dos economistas com cabeça de Python, comendo o próprio rabo, todos rezam para o deus mercado, sonhando com o afago da mão invisível, nas suas partes íntimas.   

Do Caos à Esperança. 

O colapso na Argentina trouxe formas de esperança que apareciam em movimentos sociais, como os “piqueteros” que cortavam (paravam) a Argentina, lembrando aos deuses do mercado que a sociedade existia. A “toma” de fábricas que se converteram em cooperativas, era outra forma de esperança de reação dos trabalhadores.

Em meio a todos esses movimentos, emergiram os Kirchner, que de certa forma capitanearam e assumiram essas manifestações de esperança popular. Assumiram junto com a crítica ao neoliberalismo, diversas bandeiras sociais e demandas de progresso social. Nesse aspecto, não decepcionaram e é notável o progresso na legislação argentina em diversas áreas nos últimos anos.

Na economia, as questões eram mais complexas. A Argentina, como de resto a América Latina, continuou suscetível ao comércio internacional. As dívidas pesam, sempre voltam à tona. Com as dívidas, as crises cambiais e um Estado que não consegue preservar as suas reservas. A economia, de fato, em muitos setores continuou dolarizada. Com a dolarização as crises cambiais, e daí de volta ao caos. Os Kirchners na sua luta pelo poder, não foram capazes de apresentar soluções duradouras aos problemas econômicos da Argentina.

Os Kirchners

Assim, como todos os governos progressistas que chegaram ao poder na América do Sul, nas primeiras décadas do século XX, os Kirchner acertaram e erraram muito. E a reação a eles também se deu da mesma forma: discurso neoliberal, ressentimento de classe, saudosismos de um passado glorificado, impulso do agro em só querer exportar e faturar, formaram um caldo perigoso que resultou em um discurso de ódio.

As acusações de corrupção, em uma guerra através do judiciário, também foi uma fórmula usada contra os Kirchners. Assim, como aqui, o resultado lá também é de muita confusão e indefinição que tensionam o mundo político. Além de não conseguir, de fato, apontar os culpados, devido a bagunça e a politização do processo judicial.

Para escapar das ameaças de judicialização das eleições, Cristina fez um acordo com Alberto Fernandez, o conduzindo à presidência e ela, como vice. Erraram! Nada disso deu resultados. A pandemia somada à crise internacional, pressão do FMI e dos fundos, pelo pagamento das dívidas, piorou a situação, devolvendo a economia argentina para a incerteza. Os dois se desentenderam, sobretudo com a forma de lidar a dívida e com o FMI

Com os diversos erros e da não superação dos problemas, arrastaram a Argentina para mais uma crise econômica … O discurso de ódio cresceu. A oposição ganha voz, junto a uma mídia irresponsável e ressentida, devido a reforma na legislação de mídia, realizada nos primeiros governos Kirchners. Grande parte da mídia argentina vê os Kirchners como inimigos e os tratam como inimigos. 

O ódio que sempre encontra um fanático, um doutrinado disposto a radicalizar. Por sorte, o atentado fracassou! 

Olhando o povo nos olhos.

Os Kirchner sempre mantiveram uma forte mobilização política e talvez essa seja uma característica do peronismo. Nas crises, se recorre às massas para criar uma pressão social e nos parlamentares que não conseguem fugir das manifestações, dos protestos, das demandas sociais. 

E foi em uma dessas crises que minha memória me levou. Ao ler as notícias, lembrei de uma manifestação. Néstor Kirchner, no seu último ano de vida, na frente do Senado, diante de uma enorme massa. Eu andando de um lado para o outro, um pouco perdido, um pouco cantando músicas e hinos. Camisetas eram pintadas com o rosto da Cristina. Néstor aparece para o público que vibra. As enormes faixas sobem! Parado na frente, em voz rouca, Néstor pede… Ou melhor comanda.

– Baixem as faixas, para que eu possa olhar o povo nos olhos!