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  • Ucrânia: os erros de Putin

    Ucrânia: os erros de Putin

    Quando a agressão à Ucrânia teve início, as expectativa era que essa seria uma guerra rápida e a vitória da Rússia inevitável. Hoje, vemos um Putin derrotado, ao menos nos seus propósitos mais megalomaníacos de ocupação da Ucrânia.

    Mas quais foram os erros cometidos por Putin e seus seguidores?

    Preparei uma  lista deles:

    1 – Visão de mundo.  A invasão da Ucrânia é a consequência de uma visão de mundo sustentada pelo presidente Putin  e  seus seguidores. Nessa visão, a Rússia teria sido propositadamente fragilizada e ignorada, com o fim da União Soviética, o que daria legitimidade à ocupação da Ucrânia, como seu “espaço vital”, para usar as palavras dos propagandistas.

    2 –  Considera a  identidade nacional da Ucrânia uma  artificialidade. Nas suas peças de propaganda, buscava sempre associar o sentimento nacional ucraniano ao extremismo nazista, o que o levou a  duvidar da resistência ucraniana.

    3 – A ilusão de que os ucranianos que se identificam etnicamente como russos (que falam russo) aderiram às políticas do Kremlin. Ilusão compartilhada pelos russófilos de plantão.

    4 – Declínio do  Ocidente. A difusão da ideia de que o mundo vai ser governado por uma  aliança asiática. Assim, a União Europeia é apresentada como uma instituição frágil, incapaz de manter uma política própria e independente. A OTAN, como uma aliança que, apesar da sua expansão anti-russa, não conseguiria garantir mais a segurança dos seus membros e da Ucrânia. Aqui temos três avaliações erradas. 

    5 – Acreditar que por fornecer matéria prima, sobretudo o gás, para a Europa, essa seria incapaz de reagir. A reação foi brutal. As sanções, ao contrário das de 2014, provocaram danos na economia russa, que de aliada passou a ser dependente da China. Já a Europa, passo a passo ruma a outros fornecedores de gás petróleo, deixando a Rússia isolada. 

    6 –  A supremacia do Exército Russo. A propaganda russa, sobretudo aquela difundida pela RT e Sputnik, sempre mostraram as forças armadas russas, como modernizadas e eficientes. Imagem essa valorizada pela atuação na Síria. Como vemos, as ações militares foram ineficientes ao ponto de exigirem mudanças nos objetivos da guerra. Analistas apontam que a corrupção destruiu parte das forças russas, completamente despreparadas.

    7 – A irmandade com os ucranianos. Dentre as bobagens propagadas, a de que a Rússia evitaria a força total para não massacrar um povo com laços  históricos em comum foi a maior delas. Diante das derrotas russas, não foi possível esconder os massacres cometidos pelas forças russas. Essa irmandade não existe! Não existe ocupação imperialista civilizada. 

    8 – O desprezo do papel da Europa central e do Norte, como agentes na geopolítica. Polônia, países bálticos e escandinavos reagiram de forma dura e solidária a Ucrânia e passaram a exercer pressão tanto na União Europeia, quanto na Otan (com a já anunciada adesão da Finlândia e da Suécia), para ações mais decisivas, empregaram recursos vultosos, se abriram para abrigar a onda de refugiados, além de sistematicamente denunciarem a Rússia e os crimes cometidos. Assim, se tornaram protagonistas na geopolítica, deixando para trás as políticas francesas e alemãs.

    9 – A rebeldia da Belarus. Depois dos protestos dos anos anteriores, a Belarus pareceu totalmente dominada pela Rússia, mas uma coisa é domesticar o seu ditador, a outra a  sociedade civil. O que vimos na Belarus foram atos de sabotagem e resistência que dificultaram as operações russas a partir do país, ainda, satélite.

    10 – Desprezar Zelensky, enquanto liderança. Ao pressupor na fragilidade de Zelensky, a Rússia desprezou a sua capacidade de articular a resistência. Tomado como palhaço, se esqueceram de que, como  homem de mídia, ele conseguiu recriar a sua imagem e se colocar à frente do processo, fragilizando o discurso russo com relação à Ucrânia. Se Zelensky está longe de ser o herói propagado pela mídia ocidental é necessário reconhecer que  ele ganhou a mídia, gerou mobilização, se  apresentou como resistência. Em outras palavras, ao contrário da esperada fuga, ele se apresentou como resistência. 

    Diante de tantos erros, restou a Rússia a se tornar auxiliar em regiões já  em disputa e usar da chantagem nuclear para não reconhecer a vexaminosa derrota.

  • OTAN e a Soberania: os Tuites do Lula

    OTAN e a Soberania: os Tuites do Lula

    Logo no início da invasão da Ucrânia pela Rússia, o Presidente Lula foi ao twitter se posicionar sobre o conflito. Desde o início, Lula defendeu a paz e a busca por ela, em uma postura correta e digna de estadista que não deixa dúvidas ou meias palavras sobre o seu posicionamento. Apesar da postura adequada, quando Lula foi ao twitter, no dia 03 de março ele deixou uma incomoda observação que aqui gostaria de explorar, sobre a presença da OTAN na região.

    O Presidente Lula afirmou: “É inadmissível que um país se julgue no direito de instalar bases militares em torno de outro país. E é absolutamente inadmissível que um país reaja invadindo outro país.”

    Na sua soberania, um país pode aderir a aliança, união e tratado que julgar pertinente para a sua manutenção e desenvolvimento. Essa adesão é ainda mais legítima, quando são realizadas por países democráticos e no Estado de Direito. Esse foi o caso dos três membros da OTAN que fazem fronteira com a Rússia, os países bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia.

    A adesão da Lituânia, por exemplo, a OTAN e a União Europeia foi realizada por meio de um legítimo plebiscito, após amplo debate público. Comparar a adesão a uma aliança militar a uma agressão a soberania é de uma lamentável estupidez. 

    Vale ainda acrescentar que os países bálticos convivem com sistemáticas agressão por parte da Rússia. A própria imprensa russa, como a RT e Sputnik tinha até a pouco tempo o orgulho de vincular imagem de aviões de bombardeio passando sobre os países bálticos até ser interceptado pelos aviões da OTAN, como propaganda militar. Ainda no plano militar, exercícios de guerra próximos a fronteira na terra e no mar também foram sistemáticos, bem como a instalação de bases permanentes na Belarus. 

    Além dessa forma de ataque, invasões de hacker, atribuídos a Rússia, são tão sistêmicos nos países bálticos que estes se tornaram especialistas em lidar com eles (empresas e startups de tecnologia se instalaram na região). 

    Durante a pandemia, a imprensa em idioma russo nos países bálticos fez aberta campanha contra as vacinas produzidas no ocidente criando dificuldades para a vacinação coletiva. Outros ataques de sabotagem foram realizados em empresas de transporte, como na construção do trem que liga Tallinn (Estônia) a Vilnius (Lituânia). Além das várias tentativas de intervenção em processo eleitoral, conforme acusações que circulam na imprensa dos três países.

    A postura agressiva de Putin aos seus vizinhos no ocidente é amplamente documentada e verificável. Agressividade essa a ponto de Finlândia e Suécia começarem a debater sobre a sua posição de neutralidade, mantida mesmo durante a Guerra Fria.  Lamentável, os tuites do senhor Lula sobre a Guerra na Ucrânia.

    Mesmo com a presença da OTAN, frases como: “primeiro a Ucrânia, depois o Báltico” começaram a circular. Essa tensão passou a ser tão forte a ponto dos três países terem que começarem a rejeitar a afirmativa, com medo de perder investimentos. E qual a garantia que se pode dar que eles permanecerão em paz e sem guerra? O principal argumento tem sido justamente a presença da OTAN e a integração a União Europeia. Não por acaso, o mesmo objetivo da Ucrânia.

    A paz, conforme almejada por Lula e as pessoas de bom senso, deve ser buscada, mas ela se torna difícil, quando se está em um ambiente de intranquilidade e com tantas história traumáticas de guerras e ocupações.

  • Putin e a Esquerda: Tirando o Urso da Sala

    Putin e a Esquerda: Tirando o Urso da Sala

    Nos últimos dias, com a invasão da Ucrânia ordenada por Putin, uma série de debates tem ocorrido pela mídia e pelas redes sociais. Nelas, influenciadores da esquerda tem diretamente defendido a Putin, ou usando um frágil “doisladismos”, para criticar a Otan e Putin, ao mesmo tempo. Em meio a guerra, Putin se tornou um urso na sala. Como isso pode ter acontecido?

    No final da década de 1990 e início de 2000, o desespero com o avanço do neoliberalismo chegava ao desespero. O Brasil fez a maior dívida da história do capitalismo (até então) para não quebrar, a Argentina quebrou! 

    Tínhamos medo de mais um governo neoliberal, da ALCA, quem não gritou “Alcaralho” com o FMI, não era gente! A ideia de um mercado único é devastador para as economias da A.L era uma ameaça e sentíamos o seu efeito devastador. 

    Com isso, a esquerda se aliou a qualquer coisa que se opusesse ao neoliberalismo. Foi assim que a esquerda se aproximou do militar Chávez, dos Kirchners, da China e de Putin e esse PT (meia bomba) da Carta ao povo Brasileiro. 

    Era a ideia de um movimento contra hegemônico, absolutamente necessário. Fechamos os olhos para os defeitos e problemas como uma aliança  contra uma desgraça que era (é) cotidiana. E não estava errado! Aqui não é exercício de meia culpa. Era o que tinha que ser feito e pronto! 

    O problema é que a história não fica parada e logo os defeitos, para os quais fechamos os olhos, porque já estavam lá, nos jogaram no pesadelo que vivemos. Uma China dominante, uma ditadura do Maduro, o personalismo e fracionamos do Peronismo, um Putin autoritário, homofóbico, expansionista. Agora temos que fazer a pergunta preferida da direta: E o PT hein?

    Bom, depois de três mandatos e poucos, com todas as políticas sociais e um momento de crescimento econômico, o PT não foi capaz de superar a lógica neoliberal. Ele foi uma espécie de tampa de bueiro. Quando tiraram a tampa, a sujeira e as baratas saíram para festa. Enfim, o PT continua meia bomba, agora propõem voltar ao poder com Alckmin e tudo…

    Daí temos duas possibilidades: brigar e fechar os olhos com o que está na nossa cara ou entender o processo e pensar outros caminhos. Esses caminhos podem demorar para aparecer, por agora seguimos tentando evitar o pior. Nesta busca por tentar evitar o pior, deveríamos ter aprendido as lições do começo do século e não pretender defender o indefensável.

  • Ucrânia: respondendo as perguntas que já me fizeram.

    Ucrânia: respondendo as perguntas que já me fizeram.

    Ucrânia, respondendo as pergunta que mais tenho recebido.

    Os Ucranianos não precisam ser perfeitos para terem direito a um Estado nacional independente.

    • Existem grupos fascistas na Ucrânia?

    Sim! E são perigosos para cacete! Eles chegaram a formar milícias armadas para lutar nas regiões ocupadas pela Rússia.

    • Eles representam a sociedade ucraniana?

    Não, inclusive nas últimas eleições a extrema direita não elegeu parlamentares. Partido de extrema direita não tem voto na Ucrânia, ao contrário de todos os países da Europa Ocidental.

    • O governo Ucraniano é fascista ou nazista?

    Não! E é curioso que o único governo no mundo (fora Israel) que tem Presidente e Primeiro Ministro judeus seja chamado de nazista.

    • Mas o governo da Ucrânia não deveria ter combatido os grupos extremistas?

    Sim, o problema é que como eles enfrentaram os separatistas russos (financiadora e apoiados pelo Kremlin) e a entrada do exército da Ucrânia poderia começar uma guerra com a Rússia. As milícias extremistas foram frente nos combate, o que significou sim produzir vítimas civis nas regiões ocupadas pela Rússia.

    • Isso deu certo?

    Como você está vendo, deu muito errado!

    • O governo da Ucrânia tomou medidas contra a população russa, praticou extermínio de russos?

    Não! Embora tenha reforçado o ensino e as escolas Ucranianas e colocado idioma ucraniano como centro das suas políticas, pois os governo anteriores, por serem fantoches da Rússia, deixavam a russificação do país comer solta. Lembrando. O presidente da Ucrânia é da comunidade russa e o ucraniano é o seu segundo idioma. Ele teve que melhorar o ucraniano para disputar eleições. Seu último apelo para o Putin foi em russo em rede nacional.

    • Por que Putin fala em defesa dos russos?

    Putin faz questão de confundir interesses do Kremlin com o da população russa. Quando Ucrânia, Letônia e Estônia, combatem a influência do Kremlin, Putin faz o discurso de que a população russa nesses países estão ameaçadas.

    • A guerra é para combater o fascismo?

    Não! A guerra se dá pelo expansionismo do imperialismo russo e por estratégia de disputa geopolítica.

    • Então, por que se fala tanto em Fascismo?

    Propaganda Russa, oportunismo e saudosismo soviético. Vale lembrar que taxar de nazista qualquer manifestação política e / ou cultural era parte da técnica de propaganda soviética, para justificar a eliminação.

    Gostaria de lembrar que o fascismo, o nazismo e o antissemitismo são forças políticas atuantes e perigosas em todo o continente europeu. Basta você olhar as eleições na França, por exemplo, que tem dois candidatos de extrema direita disputando (um perdeu apoio por nomeações estranhas no seu gabinete). Mas a Le Pen tá lá… E temos que torcer para o Mácron vencê-la.

    Portanto, a extrema direita é sim um problema europeu e muito perigoso, mas não é “A” grande questão para entender a invasão da Ucrânia, pela Rússia.

    • Devemos considerar o presidente da Ucrânia um herói?

    Não! Esse papo de herói na política nem deveria existir. Ele sim surpreendeu pelas posturas que tomou e soube muito bem lidar com a comunicação, o que é um fator importante. Ele teve a habilidade de criar uma momentânea unidade nacional, o que sim é um mérito. No entanto, é preciso tomar cuidado com diversas decisões que tomou, como, por exemplo, usar milícias e liberar criminosos. Ainda que seja guerra e sobrevivência, não é qualquer coisa que passa a ser aceitável.

    • Por que os reacionários no Brasil falam em “ucranizar” o Brasil?

    Porque os reacionários são burros. Eles pegaram os grupos fascistas na Ucrânia e sua simbologia e copiaram como se fosse a realidade do país e não de grupos políticos milicianos.

    • Por que o Sérgio Moro falou em tribunal como na Ucrânia?

    Sei lá! Eu tenho dificuldades e pouca paciência para entender as lógicas e não lógicas deste senhor e também pouca paciência com as suas exposições e entrevistas.

    Sobre o judiciário na Ucrânia, podemos dizer o seguinte de forma bem simplificada. Como os governos anteriores na Ucrânia eram ligados à oligarquia russa (incluindo o judiciário) e envolvidos nos processos de privatização e em esquemas de corrupção, o governo da Ucrânia teve que refazer as suas instituições (inclusive o judiciário) para poder diminuir o poder da oligarquia russa e poder assim punir aqueles que estavam controlando na base dá corrupção a economia e a sociedade da Ucrânia. Como você percebe não é possível tirar disso analogias com o Brasil, ao menos no meu entender.

    Por fim, mas não menos importante, o Brasil vive um momento político complicado, mas isso não significa que o universo gire em torno da nossa disputa eleitoral, portanto não tente encaixar a Ucrânia na lógica da política brasileira, ou a lógica da política brasileira na Ucrânia.

  • Ucrânia x Putin: E Os Russos?

    Ucrânia x Putin: E Os Russos?

    Compreender o comportamento da sociedade civil na Rússia, diante da invasão da Ucrânia, é uma tarefa difícil. O controle estatal russo da comunicação e a repressão do Kremlin a qualquer manifestação dificulta o acesso a informação. Ainda assim, mesmo com o controle da mídia e o bloqueio das redes sociais, as imagens de manifestações, as declarações de intelectuais, atletas e personalidades, mostram como a sociedade civil não é homogênea com relação a invasão da Ucrânia e existe oposição e resistência ao governo de Putin.

    Resistir ao governo Putin é um ato de coragem, pois as prisões de opositores e manifestantes são recorrentes na Rússia. Ao que se sabe mais de dois mil manifestantes foram presos, nos últimos dias. No momento em que eu escrevo esse texto, é possível ver manifestações na contra o presidente, até mesmo em Moscou. Cenas de prisões estão vazando pela internet. Tem manifestação na praça Pushkin, nesse momento.

    A guerra não é popular entre os russos, principalmente entre os jovens. Eles estão mais preocupados com a crise econômica, desemprego, Covid, ausência de liberdade e democracia. Observe que na TV russa, o presidente Putin, só falou sobre guerra na última hora, nos últimos dias, e teve que recorrer a um passado quase mítico para justificá-la. Ele sabia que no presente não encontraria apelos, nem mesmo com as teorias da conspiração que circulam por aqui. Na realidade, foi proibida a palavra guerra e passaram a utilizar eufemismos para se referir a ocupação da Ucrânia.

    Essa observação, e apoio aos opositores russo, é importante, pois precisamos urgente acabar com esses estereótipos construídos na Segunda Guerra Mundial e na propaganda antissoviética da Guerra Fria de que russos gostam de guerra, são guerreiros natos e destruidores.

    O que é mais estranho é ver essa imagem da propaganda americana da guerra fria sobre a Rússia, sendo cultuada como se fosse a realidade de um povo. Como se os russos fossem guerreiros bárbaros vindos do oriente para afrontar o ocidente. Essa imagem, reforça um sentimento de russofobia que confunde governo, com povo, com cultura.

    Existe um processo de essencialização da identidade, como se a política adotada por Putin fosse uma expressão da cultura russa, e não o resultado de interesses governamentais e geopolíticos. Basta um conhecimento mínimo das expressões artísticas e da cultura da Rússia para perceber o quanto essa está distante da imagem da Rússia que se construiu nos países ocidentais, principalmente no que diz respeito a guerra.

    Tirando os jogadores de War, CS, Airsoft, etc. ninguém gosta de guerra. Esse bando de playboy com caras armas de mentira para se fingirem de soldado nunca vão lutar em um exército de fato. Quando muito, o airsoft serve apenas para lidarem com seus problemas de afirmação da masculinidade.

    O que as guerras produziram na Rússia foram traumas, dor, memórias que até hoje são difíceis de lidar. A dor da tragédia vivida pela Rússia nas guerras foi tão intensa que a se romantizou o sofrimento para conseguir lidar com ele e não para cultuar a morte e a destruição. O culto a guerra, obedece aos interesses de um governo autoritário, com vocação imperialista.

    Nesse momento, os boicotes a participação da Rússia em eventos culturais internacionais são legítimos, para demonstrar o repúdio a agressão violenta do governo. No entanto, é preciso tomar cuidado para que essas ações não se generalizem e se perpetuem, provocando um “cancelamento” do que a Rússia tem de melhor e ainda correr o risco silenciar justamente as manifestações culturais que se opõem ao governo Putin e a sua visão reacionária de mundo.

    Se você está do lado dos senhores da guerra, você está do lado dos interesses econômicos e geopolíticos, mas está distante do povo russo e distante do que é a Rússia. As vozes de oposição ao Putin precisam ser escutadas. Vamos combater estereótipos! Pois eles são apenas propaganda. O que os russos e ucranianos desejam é paz.

    PAZ!

  • Países Bálticos: os desafios de 2022

    Países Bálticos: os desafios de 2022

    Nos últimos anos, a região dos países Bálticos ganhou apenas algumas poucas linhas na imprensa nacional. No entanto, diversos aspectos que envolvem esses países são importantes para geopolítica da Europa e da Rússia e, em alguns aspectos, globais. 

    Aqui vou apontar alguns aspectos para os quais devemos prestar atenção esse ano e que pretendemos acompanhar e analisar por aqui. 

    1 –  A relação entre os países Bálticos e a Rússia. Novamente um ponto de tensão, sobretudo, porque junto com a Polônia são os países que têm trabalhado junto a oposição da Belarus e também da Ucrânia, duas áreas de interesse da Rússia. 

    2 –  A questão dos imigrantes e refugiados na  fronteira da Belarus. Por um lado, a Belarus está usando a imigração em massa como forma de pressionar os países Bálticos e a Polônia, por outro uma questão humanitária se abre na fronteira com os refugiados do  oriente  médio (na maioria curdos) que  buscam por refúgio. 

    3 – A relação entre os países bálticos, em especial a Lituânia, no conflito que se estabelece entre  Rússia e  Ucrânia, pois a Lituânia tem sido um apoio, inclusive militar, para a Ucrânia. 

    4 – A relação com o governo polonês. A Polônia tem suas políticas extremistas cada vez mais criticadas pela União Europeia. No entanto, é a principal aliada, em questões geopolíticas, aos países Báltico e todos eles dependem da União Europeia. 

    5 – A Lituânia diante das pressões chinesas e o estabelecimento de  relações comerciais e diplomáticas com Taiwan. Como a Estônia e a Letônia vão se posicionar nesse embate e eles com a  União Europeia? 

    6 – Eleições parlamentares na  Letônia. Como sempre, a tensão está na presença de uma crescente extrema direita e na influência russa. 

    7 – Novo governo alemão e a relação entre os países Bálticos, sobretudo na relação com a Rússia, entre as questões o gasoduto que passa pelo mar Báltico. 

    8 –  A integração entre os países Bálticos, tanto na área militar, quanto nos esforços para a melhoria de transporte e infraestrutura. 

    9 – O crescimento dos casos de Covid, como lidar com a pandemia e ao mesmo tempo buscar a integração e recuperação econômica.

    10 –  A relação entre os países Bálticos e os Estados Unidos, a política do presidente Biden para a OTAN, Ucrânia, Belarus e China e como essas vão afetar os Bálticos.

  • Vilnius. Uma cidade memorável

    Vilnius. Uma cidade memorável

    VILNIUS é uma cidade memorável. Depois de sobrevoar parte da Lituânia vindo da Alemanha, finalmente o avião da Lufthansa pousou no Aeroporto de Vilnius. Um aeroporto pequeno e charmoso que, ao contrário da maioria dos aeroportos do mundo, não fica distante da cidade. Na primeira vez que lá estive, fazia muito calor e na segunda muito frio. Talvez porque a própria cidade de Vilnius consiga ser quente e fria, não raramente ao mesmo tempo.

    Uma olhada pela janela, um caminhar pelas ruas e as muitas faces da intricada história desta cidade começam a ser reveladas nos detalhes da sua arquitetura. Na parte antiga da cidade, velhos prédios, muitos deles reconstituídos depois de serem devastados pelas guerras que ali foram travadas. Nas tortuosas ruas de paralelepípedo, subimos e descemos leves declives, ruas como muitas histórias para contar. Mas, muitas destas histórias, mesmo os que ali vivem, prefeririam não lembrar.

    Chegando em Vilnius

    Quando saímos abruptamente de construções antigas, ou reconstruídas como antigas, caímos na arquitetura da União Soviética. Uma arquitetura marcada pela ideia de funcionalidade, racionalidade, grandeza e modernidade. Avenidas largas e asfaltadas para uma cidade que nem tem tanto trânsito assim. Prédios quadrados, frios, brancos e cinzas de concreto sobreposto à velha arquitetura. Praças gramadas e arborizadas no verão que se convertem em um branco desolador no inverno. Com um olhar atento, vemos as marcas dos antigos mosaicos que decoravam os prédios soviéticos. Alguns deles foram substituídos por placas de propaganda, o contraste entre a velha revolução e o novo capitalismo que enfeia a cidade com seus letreiros de luz brega.

    Vilnius por Erick R. G. Zen

    Em outros espaços, principalmente nas praças e áreas públicas, há também as marcas de onde ficavam as velhas estátuas soviéticas. Lenin, Stalin, Marx, em bronze já habitaram aqueles espaços. Aos poucos, foram substituídos por heróis nacionais ou por espaços vazios. Sempre achei que os espaços vazios na arquitetura também, de alguma forma, marcam certos vazios na memória. E a memória de Vilnius é muito intricada. Possivelmente, para cada pessoa que você pergunte e, a depender da sua nacionalidade, lituana, polonesa, russa, bielorrussa vão ter uma forma diferente de contar a história desta cidade.

    As Muitas Cidades de Vilnius

    A cidade de Vilnius sofre com as muitas modernidades que buscou. Bairros novos de vidro e metal imitam a arquitetura de Nova York no seu estilo Donald Trump – mescla de vidro e metal que formam enormes caixas de sapato vertical. Vidro e metal, a marca do maior do pop-capitalismo selvagem e antiestético. Nos bairros distantes e em velhos palácios sobressaem as construções soviéticas, negadas, descuidadas e quase inteiramente decadentes. A arquitetura, que tentava de alguma forma expressar o socialismo, é vista como feia, como algo que deveria acabar… Ser esquecida até cair completamente. Não merece cuidados. Não raramente é apontada como marca de uma vergonha.

    Em meio a estas sobreposições, velhas igrejas católicas e ortodoxas e os vestígios de sinagogas. Tudo isso pode se mesclar em um único quarteirão. Da praça “soviética” onde estava um grande Lenin se pode ver uma aberração de inspiração Donald Trump por trás de uma velha igreja de séculos anteriores. Alguém que consiga fazer uma observação por Vilnius descobre os seus vários tempos históricos, sobrepostos desorganizadamente como se um quisesse se sobrepor e, desesperadamente, cobrir com urgência ao outro.

    Vilnius de Noite

    As noites de Vilnius nos seus restaurantes, nos seus bares e casas noturnas revelam os aspectos sombrios que ainda recortam a cidade. Vilnius não é uma cidade receptiva. A cidade é separada por divisas invisíveis que, não raramente, através da truculência, afrontam aqueles que ainda não conhecem seus espaços. Seus códigos. Seus símbolos.

    Vilnius por Erick R G Zen

    Existem já os espaços que esperam por turistas. São muitos! Mas saindo dos lugares destinados a estes encontramos uma Vilnius que pode te barrar na porta, de um restaurante ou bar, se você não for lituano. Que pode te rejeitar se por engano você pedir, em inglês ou lituano, para entrar em um bar frequentado por russos ou poloneses. Não, você não é bem vindo e é bom aprender isso rápido antes que acabe em alguma confusão e sem entender o motivo. Além desses grupos mais visíveis, outros descobrimos aos poucos.

    Nações e Idiomas em Vilnius

    Conto que uma vez, sentado na rodoviária esperava meu ônibus para voltar para Kaunas, onde estava hospedado. Frio, tomava um café sentado no banco de frente para a plataforma olhando os ônibus chegarem e saírem. Noto que uma das plataformas começa a ficar cheia de tralhas e sacolas e muitas mulheres que carregam cada vez mais coisas: cadeiras, pequenos móveis, caixas, comida, etc. Para onde iria tanta gente? Encosta um ônibus velho e feio cujo destino era Minsk. Os bielorrussos que conseguem sair de seu país se dirigem a Vilnius para comprar tudo o que é possível para levar para os recantos do país mais fechado da Europa. Outra comunidade ainda menos visível é a dos judeus ou descendentes que ainda preservam algo da cultura iídiche.

    Tantos idiomas que dividem as ruas da cidade aparecem nos momentos mais inusitados do dia-a-dia. Encontrei um restaurante. Entrei para comer algo com cerveja. A garçonete aparece na frente da mesa, sem sorrir, e pergunta em lituano de forma tão rápida que devo ter feito cara de assustado sem saber o que dizer. Olhou-me por um segundo e perguntou em russo. Não reagi. Ela me olha de novo e me perguntou algo em polonês. Fiquei estático olhando para ela. Finalmente, em um inglês bem arrastado me perguntou o que eu queria comer. Fico pensando em quantos lugares do mundo a garçonete de um bar fala naturalmente e espontaneamente tantos idiomas.

    Visite Mais de Uma Vez

    Vilnius tem lá seus mistérios e entender a história e os conflitos desta cidade é um desafio. Surgida miticamente do sonho de um rei. Centro dos desejos de formar o centro da União Polonesa-Lituana. Invadida a força por Napoleão, que dali quis até levar uma igreja para Paris. Centro cultural subversivo do Império Russo, ocupada por forças polonesas. Destruída pelas forças nazistas, que aniquilou a população judaica. Reinventada como capital da República da Lituânia Soviética. Hoje a cidade se esforça para se “unir” novamente à modernidade europeia.

  • Refugiados: Uma Questão Global.

    Refugiados: Uma Questão Global.

    A imigração é um direito humano! E a necessidade de buscar uma nova vida, ou simplesmente sobreviver, deve ser entendida como parte da liberdade a ser protegida. As razões para que um indivíduo busque outro país ou território para viver variam de acordo com o contexto histórico e situações locais específicas. 

    Podem ter relação com problemas econômicos, sociais, violência, guerra, invasões, entre outros. Na lista de questões que existem, ainda devemos incluir as mudanças climáticas. Essas situações levam à violação sistemática dos direitos humanos e a busca, mais do que legítima, e necessária, de refúgio. O direito ao refúgio é o direito à vida.

    Com a pandemia, houve no ano passado, um apelo global para o cessar fogo! Ou seja, uma apelo à paz, para que, em meio a emergência sanitária para tentar reduzir os problemas existentes. Contudo, o apelo não foi capaz de diminuir o número de refugiados, pelo contrário, ele cresceu em 4%.  

    Os Refugiados em Números.

    Ao contrário do que poderia ser imaginado, a pandemia provocado pela Covid-19 não reduziu o número de pessoas que buscam refúgio, pelo contrário, atualmente contamos com 82, 4 milhões de pessoas de acordo com a ACNUR, A Agência da ONU para os Refugiados no relatório Tendências Globais. 

    No final de 2020, a ACNUR tinha sob a sua tutela 20,7 milhões de refugiados. A origem e razão dos que se encontram nessa condição variam. Entre os grupos mais numerosos vale chamar a atenção para os 5,7 milhões de refugiados palestino, encontramos o resultado das políticas de Israel e os 3,9 milhões de venezuelanos, provocados pelo (des) governo de Maduro. 

    A grande maioria dos refugiados, 86%, se encontram em países vizinhos, tanto devido à facilidade de escapar, mas também pela expectativa de retorno. Os países que mais recebem refugiados são: a Turquia (pela sétima vez), Colômbia, Paquistão, Uganda e Alemanha.

    Considerando os números atuais, chama a atenção o número de menores de idade entre os refugiados, pois eles compõem 42% do total de refugiados. Como refugiados, quase um milhão de crianças nasceram entre 2018 e 2020. São crianças que podem passar anos até ganharem um novo lugar ou poderem voltar ao local de origem dos seus pais. 

    Instabilidade e refugio.

    Em sua maioria, podemos observar, que governos não democráticos e situações de autoritarismo e conflito, são os responsáveis pelo grande número de refugiados. Dos deslocados, dois terços são de apenas cinco países: Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Miammar. Países que passam por situação de guerra, conflito interno, crise e golpe de Estado. O autoritarismo e os conflitos levou a que 4,1 milhões de pessoas pedissem asilo

    A falência do Estado, como no caso da Venezuela, também chama atenção, pois muitos países não reconhecem a condição de refugiado dos venezuelanos e esses números devem ser ainda maiores. Além disso, há o caso já duradouro dos palestinos que há décadas figuram entre o maior número de refugiados e, lamentavelmente, não parece haver uma melhoria de condições no horizonte próximo. 

    As guerras civis, declaradas ou mascaradas, ainda causam o problema dos refugiados internos, pessoas que se veem obrigadas a abandonar as suas regiões dentro de um país. No total, esses somaram em 2020,  3,2 milhões de pessoas, sendo os principais países: Etiópia, Sudão, Moçambique, países do Sahel, Iêmen, Afeganistão e Colômbia.

    Um problema global. 

    Atualmente 1% da humanidade se encontra na condição de refugiado. Esse é um problema que, infelizmente, tende a permanecer e ainda ganhar outros motivos para além dos políticos, como será o caso dos refugiados climáticos, sobretudo, porque ainda precisam ser reconhecidos como tal. 

    Nesse momento, relembrando os 70 anos da Convenção de 16 de junho de 1951, é necessário repensar essas questões. Tanto para defendermos a dignidade humana e atuar contra a sua violação sistemática, quanto para pensarmos que na atualidade será necessário uma redefinição de refugiados, incluindo novos problemas que a humanidade enfrenta. 

    Fonte: https://www.acnur.org/portugues/2020/06/18/relatorio-global-do-acnur-revela-deslocamento-forcado-de-1-da-humanidade/

  • Os lituanos na Guerra Civil Espanhola

    Os lituanos na Guerra Civil Espanhola

    Os lituanos na Guerra Civil Espanhola lutaram contra o fascismo . Em julho de 1936, a Espanha entrou em Guerra Civil, quando o General Franco articulou um golpe de Estado derrubando o governo democraticamente eleito, dando início a uma ditadura. Os republicanos resistiram e, junto com as forças de esquerda, reunindo os anarquistas e comunistas, passaram a enfrentar o ditador.

    O ditador Franco buscou ajuda militar na Alemanha nazista e na Itália fascista. Os ditadores enviaram tropas “voluntárias”, assim como forneceram aviões e submarinos reforçando as forças franquistas. A ajuda militar resultou em tragédia, como o bombardeio da cidade de Guernica e Madrid.

    Do lado Republicano, a ajuda internacional também foi grande. Os movimentos antifascistas prestaram solidariedade aos combatentes republicanos. Em diversos países do mundo, notadamente na América Latina como na Argentina e em Cuba, voluntários foram mobilizadas. Desta solidariedade, grupos de esquerda se dirigiram para a Espanha e se engajaram no conflito.

    Dentre os grupos de esquerda, o mais numeroso foi organizado pelos comunistas, com o apoio da União Soviética e da Internacional Comunista. Os comunistas formaram as chamadas Brigadas Internacionais, em outubro de 1936, que chegaram a contar com quarenta mil membros.

    Os Imigrantes Lituanos na Guerra Civil

    Os imigrantes lituanos na América, que já participavam de organizações antifascistas, pois consideravam como fascista o governo lituano de Antanas Smetona, se engajaram no movimento. Os lituanos começaram a difundir a propaganda pela mobilização antifascista primeiro na América do Norte e posteriormente na América do Sul.

    A mobilização entre os lituanos reuniu voluntários para lutar na Espanha. Da Argentina, vinte e três lituanos foram combater na Espanha. Outros três da América do Sul se juntaram a eles, sendo dois do Uruguai e um do Brasil.

    Entre os lituanos radicados no Brasil, a mobilização foi menor, principalmente porque o Partido Comunista Brasileiro (PCB) estava na ilegalidade devido ao movimento (Intentona) de 1935. Assim, a difusão e mobilização de voluntários era bastante difícil, pois muitos lituanos comunistas estavam nos calabouços de Getúlio Vargas naqueles anos.

    Meu livro

    No meu livro Identidade em Conflito em dediquei um capítulo inteiro a mobilização antifascista dos lituanos na América do Sul. Vale você conhecer essa atuação dos lituanos. Aqui