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  • Inimigos: uma História do FBI

    Inimigos: uma História do FBI

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • Tim Weiner. Enemies. A History of the FBI.  New York, Random House, 2012.
    • sobre Tim Weiner
    • uma estimulante pesquisa
    • as polêmicas entorno de Edgar Hoover
    • Filme J Hoover de Clint Eastwood

    O livro Inimigos: Uma História do FBI, de Tim Weiner, é uma obra estimulante e instigante que busca traçar um amplo histórico do FBI, desde a sua fundação até o ataque  terrorista de 11 de setembro, além de apontar alguns dos problemas atuais da instituição e do sentimento de fracasso que se abateu sobre todos os órgão de inteligência americanos, após o ataque às Torres Gêmeas.

    O jornalista Tim Weiner é um autor reconhecido e premiado. Recebeu o Pulitzer (o principal prêmio nos EUA) pelo livro Legacy of Ashes, um livro dedicado a analisar a CIA. Durante anos, ele foUnknowni correspondente do jornal New York Times (entre outros) cobrindo a CIA e se tornou um especialista em temas relacionados a inteligência. Ao contrário dos jornalistas brasileiros, muitos jornalistas americanos, mesmo entre os conservadores, são capazes de realizar habilidosas e competentes pesquisas históricas e, eis aqui, um bom exemplo.

    Uma  característica importante do trabalho de pesquisa do autor foi a utilização somente de materiais, documentos, “desclassificados” e, portanto de acesso público. Isso permite que o leitor interessado, como eu, busque as fontes sem dificuldades. Claro, que essa forma de trabalhar só é possível quando há uma política de arquivos (que não é perfeita, mas é melhor do que a nossa). Esse procedimento evita, também, as especulações, o uso de fontes ocultas e inventadas, como muitas vezes já vimos por essas terras.

    A narrativa proposta por Weiner é organizada de forma cronológica e o livro é dividido de acordo com a administração, ou seja, o presidente que governava. Esse é um procedimento clássico na história e no jornalismo norte-americano. Essa característica reforça um dos pontos fortes do livro: como cada presidente americano lidou com os órgão de segurança? Assim, somos informados sobre os dilemas de Roosevelt, os usos e abusos de  Nixon, a desconfiança com relação aos democratas, em particular Kennedy, e Clinton que deixou o FBI à míngua em termos de recursos.

    Quem foi Edgar Hoover? 

    Nessa relação entre a instituição e os presidentes a principal figura, e não poderia ser diferente, é John Edgard Hoover, pois foi ele foi o primeiro diretor do FBI e permaneceu no cargo de 22 de março de 1935 até 2 de maio de 1972, quando faleceu.  Portanto, dirigiu o FBI por 48 anos! (vou concentrar este post neste aspecto). Interessante notar que em um país com alternância democrática na presidência, um dos cargos mais importantes dentro da segurança de Estado tenha experimentado tamanha estabilidade.

    John Edgar Hoover, nasceu em Washington D.C em janeiro de 1895 e quando entrou nas forças policiais, enfrentava sobretudo as “ameaças” internas, os anarquistas, que haviam realizado diversos atentados nos EUA, e posteriormente os comunistas. Sem esquecer do combate ao crime organizado, que foi o que levou Hoover a fama. Após a Segunda Guerra Mundial foi Hoover quem preparou o FBI para enfrentar a Guerra Fria e, claro, o crime organizado.

    A análise e caracterização de Hoover realizada por Weiner é muito intrigante. O autor demonstra que o diretor do FBI era capaz de odiar igualmente qualquer coisa que demonstrasse uma ideologia… Que demonstrasse rejeição ou que se diferenciasse do “sonho americano”, dos “valores americanos”. Assim, perseguiu violentamente, e muitas vezes usando recursos ilegais: anarquistas, comunistas, o movimento negro, hippies,  mas também os movimentos racistas como a Ku Klux Klan e os movimentos que pregavam (ainda pregam) a supremacia ariana. Alguns dos seus “inimigos” foram personalidades públicas, como Luther King… e por aí vai!

    Outra característica de Hoover era o seu personalismo. Em muitos casos tratava pessoalmente das operações e mantinha um arquivo próprio de informações. Em muitos documentos as instruções e as comunicações eram realizadas com um E. H., na borda, indicação clara de quem dera a instrução e como deveria ser seguida.

    Hoover homossexual?

    Um ponto polêmico do livro é a análise da relação entre Hoover e seu principal assistente: Clyde Tolson. Na literatura recente sobre Hoover encontramos de forma explicita e / ou  sugerida a homossexualidade de Hoover e os dois são frequentemente descritos como amantes. Esse aspecto foi explorado em algumas biografias e até no cinema. Tim Weiner descarta essa ideia, para o autor, Hoover não manteve relações sexuais com Tolson ou com “qualquer outro ser vivo”. Assim, para ele, Hoover era “assexuado” (palavra minha e não do autor). Parece um argumento estranho, para dizer o mínimo, porém a visão de Weiner sobre o contexto da sociedade americana é mais interessante do que qualquer argumento sobre esse aspecto. Afinal, cabe questionar: Qual é a relevância desse fato (se foi um fato)?  Qual a relevância em se saber se o diretor do FBI era ou não homossexual? Não seria esta uma questão secundária? Uma questão privada para além das ações públicas de Hoover?

    Seria! Ocorre que entre as páginas mais obscuras da história do FBI está a de uma ampla perseguição aos considerados “desviados” sexualmente. Neste “desvio”, os principais “inimigos” foram os homossexuais e as prostitutas. Assim, o debate (se é que é um debate) seria até que ponto a orientação sexual de Hoover teria influenciado nas ações persecutórias?  Como dissemos, Weiner descarta essa questão, como fantasia.

    Do meu ponto de vista creio que o debate se perdeu entre as caricaturas formadas sobre Hoover. As perseguições políticas ou motivadas por questões morais não são parte de uma escolha individual de quem ocupe um lugar de poder (e no caso de Hoover um destacado lugar de poder!). As medidas tomadas pelo Estado contra um grupo social devem ser explicadas pelo contexto social, muito mais do que por uma “pseudo psicologia de boteco”! Aqui, pontos para o autor, por saber inserir a figura pública no contexto histórico (o que é sempre muito complicado!)

    Por fim! 

    O livro começa com um dilema clássico nas Ciências Políticas: liberdade individual x segurança coletiva. Um dilema que perseguiu todos os pensadores políticos e todos aqueles que ocuparam lugar de poder no Estado. Um dilema que sempre se coloca quando o Estado precisa de órgãos de segurança e inteligência, como FBI. Quais são os limites do poder de vigilância? O que é legítimo em nome da segurança? A leitura do livro nos coloca o tempo todo, essa questão. Obviamente que o autor, claramente um liberal, não resolve, mas conhecer a trajetória do FBI, e em particular os dilemas de Hoover, nos ajuda a refletir, principalmente neste tempo em que temos a invasão do privado e dos escândalos de  espionagem, por um lado, e por outro o trauma dos atentados terroristas. Eis os desafios para a sociedade americana e para o próprio FBI.

    J. Edgar Hoover no Cinema.

    Interessante observar a diferença, sobre a questão da homosexualidade, abordada no filme J Edgar, dirigido por Clint Eastwood e com Leonardo DiCaprio no papel principal. O filme assume a versão de que Hoover era homosexual, embora não coloque cenas explícitas do relacionamento.

    Uma cena que nos chama a atenção é a que os dois vestidos em roupão entram em uma briga violenta em um hotel. Este episódio é relatada em diferentes biografias de Hoover, mas Weiner a descarta como verídica. No filme a parte mais explícita do suposto relacionamento de Hoover com seus principal assistente.

    Novamente é preciso dizer que se Hoover era homosexual ou não seria uma questão privada do que pública! Se não fosse o fato de o FBI nas primeiras décadas de atividade não tivesse articulado uma perseguição sistêmica aos homosexuais.

    De toda forma, vale conferir o filme também. Eu assisti pela Netflix.

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  • Desconhecia Mario Benedetti!

    Desconhecia Mario Benedetti!

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • Escrito em:  4 de junho de 2009, Montevidéu
    • Falecimento do poeta uruguaio
    • Mario Benedetti

    Desconhecia Mario Benedetti! Sinto-me obrigado a confessar minha ignorância e, somente na circunstância de seu velório, pude encontrá-lo. Seu rosto foi estampado em todos os jornais. Eu, atônito, me deparava com um dos personagens mais importantes da literatura e da política uruguaia. Era um feriado cívico chocho e frio. Dia preparado para grandes e eloqüentes discursos, mas o silêncio tomou Montevidéu. A Batalla de las Piedras vencida por Artigas e determinante para a independência daquele país, não tinha qualquer importância. O luto se abateu. Foi um feriado em homenagem a Mario Benedetti.

    Sempre fui um leitor compulsivo. Desde que a minha dislexia foi sendo contornada. O que era uma dificuldade se tornou um dos meus maiores prazeres. Na escola me encontrei com a literatura brasileira e portuguesa. Mas essas logo se transformaram em livros para o vestibular. As aulas de literatura, que deveriam ser uma porta de entrada para humanização, foram prostituídas em enfadonhos preparos para a fuvest.

    Não nego o esforço de alguns mestres para que fosse um pouco mais que isso. Contudo, os livros selecionados eram os da lista das provas e não constava literatura em língua espanhola. Em casa, talvez por minha ascendência, era mais fácil encontrar a literatura européia, particularmente da Europa Oriental. Considerando que a Rússia faz parte da Europa. Desde cedo os clássicos russos, Dostoievski, Tchekov, Tolstoi e assim por diante começaram a fazer parte do meu repertório. Mas os escritores latino-americanos eu fui conhecer no fim da faculdade com mais de vinte e cinco anos de idade.

    Não me lembro exatamente como, ou porque, resolvi ler Cien Años de Soledad, talvez pelo prêmio Nobel de Gabriel García Márquez. Desgraçadamente, o reconhecimento europeu, muitas vezes, ainda é o caminho para valorizar e conhecermos nossos vizinhos, também latinos. Pouco depois, me chegou Borges pelas mãos de uma ex-futura namorada. Na minha primeira viagem para a Argentina, me encantei com Cortázar. Nosso encontro se deu em uma promoção da livraria Ateneu por ocasião de uma data comemorativa qualquer. Li seus livros um após o outro.

    Digo, ainda que em voz baixa, que prefiro Cortázar a Borges. Mas sei que posso apanhar por esse comentário. Uma amiga da minha mãe, chilena, ao arrumar o armário para se mudar me regalouvelhos e usados livro de Neruda. Outros de Isabel Allende, mas essa eu deixei de lado. Assim, ocasionalmente, sem projeto ou propósito, fui conhecendo pouco a pouco os escritores de língua hispânica, ou castelhana, como queiram. Claro que meu interesse pela língua ajudou a acelerar as leituras. Assumir o idioma de um autor é tão difícil quanto revelador de novas descobertas e prazeres.

    Lástima que só me encontrei com Benedetti naquele dia fatídico. A comoção profunda causada pelo seu falecimento e as manifestações que se seguiram expunham algo que envolvia sua literatura. A capacidade de sua pluma em desvelar a sociedade uruguaia. Sua percepção crítica o levou a ser chamado de “cronista de Montevidéu”. A postura política era clara: estava à esquerda. Sua trajetória o fez ser adotado como símbolo da luta pela transformação social. Apoiou a Frente Ampla,que agora está no poder.

    Como comentou Constanza Moreira, o seu legado foi o de “haber descrito com uma pluma sin igual, al país de las clases medias: conservadoras, resignadas, desapasionadas, oficinescas”. Talvez seja justamente por isso que eu, afogado nesta classe média latino-americana, pude tão rapidamente me identificar com seus escritos. Assim, estamos nos tornando cada vez mais íntimos. Logo vou retirar os Ud. de nossas conversas. Usarei o “vos”, para ficarmos mais próximos. Quem sabe, até mesmo, ousar chamá-lo de Mario. Assim, Gracias Por El Fuego.

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