Categoria: Cinema

  • Gosta de filme e da Lituânia? Blog História da Lituânia!

    Gosta de filme e da Lituânia? Blog História da Lituânia!

    Se você gosta de filme sobre a Lituânia você vai gostar desse post no meu blog História da Lituânia.

    Depois de algum tempo voltei a escrever um pequeno texto sobre História da Lituânia lá no blog dedicado a Lituânia sobre um belo filme que tive a oportunidade de ver a estréia na AABS 2018 na Universidade de Stanford.

    Dá uma olhada lá no BlogHistória da Lituânia

    eValeu!

    Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Para Twitter e Instagram @erickrgzen

  • A Noite dos Generais: Um Comentário 

    A Noite dos Generais: Um Comentário 

    • Sobre o filme A Noite dos Generais
    • O nazismo na Segunda Guerra Mundial
    • A perversa moral

    A noite dos generais: um comentário. Mania de ver filme antigo! Não tão antigo, esse é de 1967. Vi quase por acaso! Estava procurando outra coisa na internet, quando me deparei com A Noite dos Generais (The Night of the Generals). Um filme dirigido por Anatole Litvak, conhecidos por filmes como: Crepúsculo Vermelho, Anastacia, a Princesa Esquecida e A Cova da Serpente. No elenco, o filme conta com Omar Sharif, Peter O’Toole e Tom Courtenay.

    Não me lembro quando o assisti pela primeira vez, mas sei que me marcou… Não pela ação, elaboração ou mesmo pelo brilhantismo da narrativa. O filme fica longe de ter tudo isso e, se não fossem por algumas cenas psicológicas intensas, e uma das análises mais extraordinárias sobre um criminoso de guerra apresentado no cinema, seria simplesmente enfadonho. Tem uma característica bem típica do cinema da década de 1960: é longo e tem imagens e tomadas lentas.

    Inicialmente a história parece simples e estranha. Durante a Segunda Guerra Mundial, um general nazista de elevada patente era também um frequentador de bordeis e assassino de prostitutas. A primeira prostituta foi assassinada em Varsóvia e um investigador alemão foi designado para investigar o brutal assassinato. O criminoso foi transferido para Paris, então sob ocupação nazista, e ali assassina mais uma prostituta. O investigador alemão se junta a um policial francês, simpático à resistência, e toma como missão investigar os crimes contra as prostitutas. Mas afinal, para quê?

    Quem se importa?

    Quem se importa com a morte de prostitutas durante uma Guerra que provoca o assassinato de milhões de outras pessoas? Pior! Prostitutas que aceitavam se deitar com militares de uma força militar de ocupação!

    Em meio à investigação e às atividades de repressão e comando das tropas de ocupação, o filme constrói uma sequência de cenas brilhantes, recuperando os aspectos nefastos deste período da história da França ocupada, perdida entre colaboracionistas e a resistência.

    Entre as cenas, merece destaque, a que se passa no museu do Louvre. Os nazistas classificavam as obras que não obedeciam a sua estética, uma cópia da arte clássica, como “arte degenerada”, entre estas estavam as obras realizadas por judeus. Durante o regime Nazista foram organizadas várias exposições sobre a chamada arte “degenerada”. Nos países, ocupados pelos nazistas, os museus eram também reorganizados (pilhados em grande parte) e elaboradas galerias de obras “degeneradas”.

    A visita ao museu

    O General visita uma dessas galerias dedicadas à “arte degenerada” e encontra a obra de Vicente van Gogh considerado degenerado tanto pela sua estética pós-impressionista como pela sua biografia e seu processo de loucura. Foi justamente diante do quadro Auto Retrato que o General se depara com a própria loucura. E olha a orelha defeituosa representada no quadro. A lenda é que o pintor cortou a sua própria orelha para se parecer com a da representação já que não conseguia pintar uma orelha como a sua. Diante desse símbolo estético da loucura, o General, entra em crise.

    Observa o quadro com olhos arregalados! Fixa seu olhar na orelha cortada! Transpira! Seus olhos se tornam olhos de psicopata revelando o que a sobriedade da sua farda e de seus luxos escondia. Colocado diante da representação da loucura, ele encontra a sua própria loucura, e entra em pânico com ela. Perde o seu autocontrole e corre da galeria em um ato de fúria e medo.

    Após a Guerra

    Com o terminar da Segunda Guerra Mundial, o General foi preso e julgado pelos seus crimes de Guerra. Passou alguns anos na prisão e foi liberado.

    Ao reencontrar a liberdade passou a ostentar, ainda que mais velho, sua postura militar, seus trejeitos nazistas. Encontra também seguidores do velho nazismo, que mesmo derrotado é capaz de mobilizar os insanos e dementes. Uma centena de seguidores para os quais defendia seu legado e sua ideologia.

    Em uma das conferências que proferia, difundindo a sua ideologia de ódio e assassinato, ele, diante dos seus admiradores, encontra o detetive que guardara as provas necessárias para incriminá-lo como assassino comum. O detetive o enfrenta, não mais como general, ou o propagandista de uma ideologia, mas como assassino comum!

    Restava-lhe enfrentar a sua verdade e revelá-la a público. Desmascarar sua ideologia e assumir a sua psicopatia. Ninguém segue um psicopata se reconhecer nele um psicopata! Restava-lhe a perpétua humilhação de assassino comum de pessoas que não teriam condições de se defender.

    Ali, ele já estava morto. Restava-lhe somente realizar o gesto final…

    A Noite dos generais e a Perversa Moral 

    Movidos por ideologias somos capazes de aceitar a justificativa pela morte de milhões!

    No entanto, o assassinato de prostitutas é apenas um ato insano! Psicopata…  Se o assassino de milhões é descoberto como o assassino de prostitutas, a sua psicopatia é revelada. A loucura escondida por trás do discurso contundentes e moralista, do seu uniforme, da sua patente… Se revela e se autodestrói.

    O psicopata travestido de autoridade, que quer seguidores não pode se deixar revelar, enquanto psicopata.

    Ele tem que usar uma máscara permanente de homem moral, de defensor “dos grandes ideais”, de promessa de um grande futuro glorioso. As suas ações têm que ser percebidas como um sacrifício, como gesto heroico, mas na noite são apenas doentes psicopatas que se escondem na perversão do poder pela sua investidura.

    Depois de ver o filme fiquei refletindo sobre os defensores das ditaduras.

    Os homens de bem!

    Saudosistas dos grupos de extermínio!

    Da ordem construída sobre a tortura!

    Aqueles que argumentam que não se percebia o regime autoritário!

    São eles os que seguem, como inocentes úteis, como massa, os psicopatas vestidos de autoridade? São eles os que foram cúmplices e preferem o silêncio complacente para que sua face mais cruel permaneça nas penumbras da história.

    Aqui e lá, os heróis da segurança nacional eram eles assassinos de prostitutas, homossexuais e “bandidos” nas noites. Os nossos repressores matavam por dinheiro e torturavam por sadismo. Eram psicopatas úteis de um projeto de poder que nem mesmo tinham capacidade para entender. Saíam dia e noite na busca de fama, dinheiro e aventura… Essa era a noite dos nossos Generais e dos seus cúmplices.

    Nós e a Noite dos Generais?

    No nosso eterno medo da liberdade, diante de um futuro incerto e da nossa imaturidade preferimos deixar para que o outro organize esse mundo e nos deixamos ser guiados.

  • O Clima no Subterrâneo

    O Clima no Subterrâneo

     
     Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
    Twitter: @erickrgzen 
     
    • O radicalismo político na década de 1970
    • A formação do grupo armado
    • A clandestinidade
    • A mudança no clima

    O Clima do Subterrâneo… Normalmente quando pensamos nos movimentos sociais nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970 sempre tomamos como referência os movimentos pacifistas, como o hippie, o movimento negro liderado por Martin Luther King ou os demais movimentos de contra cultura. Assim, pouco refletimos sobre os movimentos que passaram à luta armada, como os Panteras Negras ou aquele que é o menos conhecido: o Weather Underground. Um grupo reduzido, mas que produziu diversos atentados a bomba ao longo da década de 1970.

     

    Por ser o menos conhecido dos grupos é que o documentário de Weather Underground de Sam Green e Bill Sigel se tornou uma referência para pensarmos o que significou da passagem dos movimentos pacifistas de massa para a luta armada no habito da esquerda naquelas décadas. No caso norte- americano, abordar esse tema se faz ainda mais complicado devido aos traumas causados pelos atentados de 11 de Setembro e também, pelo mortífero atentado realizado por um extremista de direita em Oklahoma.

    O documentário combina documentos históricos, filmes, fotos, leitura de trechos de memórias com depoimentos de ex-integrantes do grupo, entre eles Mark Rudd, Brian Flanagan, David Gilbert, Bill Ayeres, Brian Flanagan. Os depoimentos funcionam tanto como fio condutor da história como inserem momentos de reflexão na busca por motivos, explicações e justificativas para as opções que tomaram naquele período. O documentário também apresenta, de forma competente, o contexto histórico em que o movimento se inseriu e a recuperação do “clima” da época é a melhor contribuição do documentário (e ao meu ver a melhor contribuição que qualquer documentário histórico pode oferecer).

    1. E qual contexto era esse?

    No final da década de 1960, os movimentos sociais pacifistas que lutavam contra a guerra do Vietnã e pelo movimento negro chegaram a um impasse! Por maior que fossem as suas manifestações de massa, as marchas e as outras formas de protestos a direita continuava a vencer as eleições e a ofensiva militar no Vietnã era cada vez maior e mais violenta.

    Esse impasse marcou o congresso organizado pelos Estudantes por uma Sociedade Democrática em 1969. A organização foi fundada entre os estudantes universitários e adotava táticas pacifistas de manifestação e por isso crescera rapidamente durante a luta contra a guerra do Vietnam. No congresso, a liderança da organização passou para as mãos de um pequeno grupo denominado Weathermen (O homem do Tempo) que pregava ações violentas e de enfrentamento contra o Estado. O nome Weathermen foi inspirado na letra de uma música de Bob Dylan: “Não é necessário um meteorologista para saber para qual direção sopra o vento”. E o vento, em 1969, soprava para a revolução em diversas partes do mundo que assistia às ações dos Panteras Negras, do Partido Comunista no Japão, em Angola (luta contra os portugueses). Revolução cultural chinesa, França, México, Vietnã, Congo, Alemanha…

    Bob Dylan, Subterranean Homesick Blues
     
    Maggie comes fleet foot
    Face full of black soot
    Talkin’ that the heat put
    Plants in the bed but
    The phone’s tapped anyway
    Maggie says that many say
    They must bust in early May
    Orders from the DA
    Look out kid
    Don’t matter what you did
    Walk on your tip toes
    Don’t try, ‘No Doz’
    Better stay away from those
    That carry around a fire hose
    Keep a clean nose
    Watch the plain clothes
    You don’t need a weather man
    To know which way the wind blows.
     

    2. A Radicalização Política

    Para completar o quadro, o ano de 1969 marcou o fim da esperança no movimento “paz e amor” e dois eventos se tornaram símbolo do fim de festa hippie: os assassinatos liderados por Charles Manson e sua seita “Família” e o assassinato cometido pela gangue de motociclistas, Hell Angels durante um show dos Rolling Stones no Altamont Speedway, na Califórnia.

    Sob a liderança dos Weathermen, a Sociedade Democrática chamou a manifestações com um discurso de enfrentamento, anunciando o início do chamado “Dias de Fúria”… Foi um fracasso! A manifestação em Chicago reuniu entre 150 e 200 pessoas e o conflito com a polícia se generalizou pelas ruas da cidade.

     

    Para além das manifestações, os estudantes deram início a um movimento de “sair do campus” e formar casas coletivas nos bairros operários. A ideia era abandonar a vida burguesa dos campus universitários e se juntar à luta dos trabalhadores. Era um movimento subversivo, pois a liberação do mundo burguês significava o abandono da sua moral e pela busca da liberdade sexual, abandonando a monogamia, do culto à heterossexualidade, do machismo, etc.

    O movimento buscava, assim, construir uma base operária e libertária, mas não teve êxisto, pois mesmo os Panteras Negras rejeitavam a proximidade com o movimento. Os Panteras os viam como brancos, pequeno burgueses, que utilizavam métodos infantis de enfrentamento. Mesmo sem o apoio o Weathermen buscou sempre a proximidade com o movimento negro e reagiu à extrema violência do Estado americano posta contra essa organização.

     

    O então presidente Nixon estava decidido a destruir os Panteras Negras e essa determinação levou a polícia a assassinar uma importante liderança revolucionária negra: Fred Hampton, um jovem que ficou conhecido pelos seus discursos eloquentes e organização de manifestações. Sob o pretexto de buscar armas em sua casa, a polícia o fuzilou, enquanto ele dormia. A resposta dos Panteras Negras foi abrir a casa de Hampton a visitação pública, mostrando a quem quisesse a quantidade de furos de bala na casa e o colchão repleto de sangue onde ele dormia no momento de seu assassinato.

    3. A Clandestinidade

     

    Diante da violência de Estado, o Weathermen decidiu responder com violência e adotou seu famoso lema: “Trazer a Guerra para Casa”. A ideia principal era promover uma série de eventos catastróficos que pudessem “despertar” o público americano para os horrores da guerra. O primeiro projeto fracassou, pois no momento em que um pequeno grupo montava uma bomba em uma casa na cidade de Nova York ela acidentalmente explodiu e matou os três integrantes.

     

    Com a explosão e a pressão do Estado o Weathermen teve que passar para a clandestinidade, formou-se assim o Weather Underground (O Clima no Subterrâneo). A explosão também levou a uma reflexão sobre a tática a ser utilizada, por um lado havia um entendimento de que “não havia inocentes” nos EUA, por outro não se desejavam ataques que pudessem matar civis. Assim, os alvos do grupo tinham objetivos simbólicos e não pessoas.

    O primeiro atentado, por exemplo, teve como alvo o edifício sede da administração penitenciária em resposta à morte de George Jackson, um importante líder do movimento negro dentro dos presídios, morto em uma suspeita tentativa de fuga. A partir daí uma série de atentados, nenhum deles causando mortes, foram realizados até o ano de 1975, incluindo o Capitólio, a Universidade de Harvard, a sede da polícia de Nova York…

     

    Uma das ações mais espetaculares do grupo foi planejar e executar a fuga de Timothy Leary da penitenciária da Califórnia. Leary era conhecido por pregar o uso do LSD como forma de “abrir as portas da percepção” e suas ideias tiveram ampla influência nos movimentos de contra cultura (inspirou o nome do grupo The Doors). Depois de fugir Leary se dirigiu à Argélia onde se juntou a Eldridge Cleaver, líder dos Panteras Negras e ali lutaram pela libertação do país do domínio francês.

    4. A Mudança no Clima.

     

    No meio da década de 1970, o clima no subterrâneo começava a fechar e o vento da revolução já não soprava com a mesma intensidade. A Guerra do Vietnam chegara ao fim, com a humilhante derrota americana. Os Estados Unidos entraram em uma forte recessão e a sociedade em um clima de desesperança, com as sucessivas vitórias de presidentes conservadores. Mesmo na esquerda, o clima não era favorável. Houve um processo de fragmentação, no qual ganhou força o movimento feminista, ecologista, etc. Para piorar a situação, o FBI havia se infiltrado no grupo com uma unidade especial, provocando conflitos, desinformação e desconfianças, colocando todo o grupo em crise.

     

    Como acontece com os grupos clandestinos, quando chegam ao ponto da irrelevância, o Weather Underground começou a se devorar e se autodestruir. Perdera o sentido de sua existência e ficou reduzido a poucas pessoas, cerca de 30 na década de 1980. Como resultado, a maior parte do grupo se apresentou à justiça e se entregou. No entanto, a justiça americana não conseguiu condená-los, pois ao longo do processo de investigação a polícia cometeu tantas irregularidades que os processos não puderam ter sequência.

     

    O documentário, muito bem elaborado, e sem se perder em discursos morais, nos coloca, através da análise de um grupo específico, diante das esperanças e tragédias vivenciadas pela esquerda, em escala global, entre o final da década de 1960 e a metade da década de 1970: movimentos de massas exigindo democracia direta, o enfrentamento de um processo repressivo, a radicalização e a luta armada, por um lado, a fragmentação por outro. A derrota de ambas perspectivas pela derrocada do socialismo real e a vitória do neoliberalismo… Até que o vento mudasse novamente de direção.

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    • Sobre radicalismo político nos anos 1970 (Aqui)
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  • Inimigos: uma História do FBI

    Inimigos: uma História do FBI

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • Tim Weiner. Enemies. A History of the FBI.  New York, Random House, 2012.
    • sobre Tim Weiner
    • uma estimulante pesquisa
    • as polêmicas entorno de Edgar Hoover
    • Filme J Hoover de Clint Eastwood

    O livro Inimigos: Uma História do FBI, de Tim Weiner, é uma obra estimulante e instigante que busca traçar um amplo histórico do FBI, desde a sua fundação até o ataque  terrorista de 11 de setembro, além de apontar alguns dos problemas atuais da instituição e do sentimento de fracasso que se abateu sobre todos os órgão de inteligência americanos, após o ataque às Torres Gêmeas.

    O jornalista Tim Weiner é um autor reconhecido e premiado. Recebeu o Pulitzer (o principal prêmio nos EUA) pelo livro Legacy of Ashes, um livro dedicado a analisar a CIA. Durante anos, ele foUnknowni correspondente do jornal New York Times (entre outros) cobrindo a CIA e se tornou um especialista em temas relacionados a inteligência. Ao contrário dos jornalistas brasileiros, muitos jornalistas americanos, mesmo entre os conservadores, são capazes de realizar habilidosas e competentes pesquisas históricas e, eis aqui, um bom exemplo.

    Uma  característica importante do trabalho de pesquisa do autor foi a utilização somente de materiais, documentos, “desclassificados” e, portanto de acesso público. Isso permite que o leitor interessado, como eu, busque as fontes sem dificuldades. Claro, que essa forma de trabalhar só é possível quando há uma política de arquivos (que não é perfeita, mas é melhor do que a nossa). Esse procedimento evita, também, as especulações, o uso de fontes ocultas e inventadas, como muitas vezes já vimos por essas terras.

    A narrativa proposta por Weiner é organizada de forma cronológica e o livro é dividido de acordo com a administração, ou seja, o presidente que governava. Esse é um procedimento clássico na história e no jornalismo norte-americano. Essa característica reforça um dos pontos fortes do livro: como cada presidente americano lidou com os órgão de segurança? Assim, somos informados sobre os dilemas de Roosevelt, os usos e abusos de  Nixon, a desconfiança com relação aos democratas, em particular Kennedy, e Clinton que deixou o FBI à míngua em termos de recursos.

    Quem foi Edgar Hoover? 

    Nessa relação entre a instituição e os presidentes a principal figura, e não poderia ser diferente, é John Edgard Hoover, pois foi ele foi o primeiro diretor do FBI e permaneceu no cargo de 22 de março de 1935 até 2 de maio de 1972, quando faleceu.  Portanto, dirigiu o FBI por 48 anos! (vou concentrar este post neste aspecto). Interessante notar que em um país com alternância democrática na presidência, um dos cargos mais importantes dentro da segurança de Estado tenha experimentado tamanha estabilidade.

    John Edgar Hoover, nasceu em Washington D.C em janeiro de 1895 e quando entrou nas forças policiais, enfrentava sobretudo as “ameaças” internas, os anarquistas, que haviam realizado diversos atentados nos EUA, e posteriormente os comunistas. Sem esquecer do combate ao crime organizado, que foi o que levou Hoover a fama. Após a Segunda Guerra Mundial foi Hoover quem preparou o FBI para enfrentar a Guerra Fria e, claro, o crime organizado.

    A análise e caracterização de Hoover realizada por Weiner é muito intrigante. O autor demonstra que o diretor do FBI era capaz de odiar igualmente qualquer coisa que demonstrasse uma ideologia… Que demonstrasse rejeição ou que se diferenciasse do “sonho americano”, dos “valores americanos”. Assim, perseguiu violentamente, e muitas vezes usando recursos ilegais: anarquistas, comunistas, o movimento negro, hippies,  mas também os movimentos racistas como a Ku Klux Klan e os movimentos que pregavam (ainda pregam) a supremacia ariana. Alguns dos seus “inimigos” foram personalidades públicas, como Luther King… e por aí vai!

    Outra característica de Hoover era o seu personalismo. Em muitos casos tratava pessoalmente das operações e mantinha um arquivo próprio de informações. Em muitos documentos as instruções e as comunicações eram realizadas com um E. H., na borda, indicação clara de quem dera a instrução e como deveria ser seguida.

    Hoover homossexual?

    Um ponto polêmico do livro é a análise da relação entre Hoover e seu principal assistente: Clyde Tolson. Na literatura recente sobre Hoover encontramos de forma explicita e / ou  sugerida a homossexualidade de Hoover e os dois são frequentemente descritos como amantes. Esse aspecto foi explorado em algumas biografias e até no cinema. Tim Weiner descarta essa ideia, para o autor, Hoover não manteve relações sexuais com Tolson ou com “qualquer outro ser vivo”. Assim, para ele, Hoover era “assexuado” (palavra minha e não do autor). Parece um argumento estranho, para dizer o mínimo, porém a visão de Weiner sobre o contexto da sociedade americana é mais interessante do que qualquer argumento sobre esse aspecto. Afinal, cabe questionar: Qual é a relevância desse fato (se foi um fato)?  Qual a relevância em se saber se o diretor do FBI era ou não homossexual? Não seria esta uma questão secundária? Uma questão privada para além das ações públicas de Hoover?

    Seria! Ocorre que entre as páginas mais obscuras da história do FBI está a de uma ampla perseguição aos considerados “desviados” sexualmente. Neste “desvio”, os principais “inimigos” foram os homossexuais e as prostitutas. Assim, o debate (se é que é um debate) seria até que ponto a orientação sexual de Hoover teria influenciado nas ações persecutórias?  Como dissemos, Weiner descarta essa questão, como fantasia.

    Do meu ponto de vista creio que o debate se perdeu entre as caricaturas formadas sobre Hoover. As perseguições políticas ou motivadas por questões morais não são parte de uma escolha individual de quem ocupe um lugar de poder (e no caso de Hoover um destacado lugar de poder!). As medidas tomadas pelo Estado contra um grupo social devem ser explicadas pelo contexto social, muito mais do que por uma “pseudo psicologia de boteco”! Aqui, pontos para o autor, por saber inserir a figura pública no contexto histórico (o que é sempre muito complicado!)

    Por fim! 

    O livro começa com um dilema clássico nas Ciências Políticas: liberdade individual x segurança coletiva. Um dilema que perseguiu todos os pensadores políticos e todos aqueles que ocuparam lugar de poder no Estado. Um dilema que sempre se coloca quando o Estado precisa de órgãos de segurança e inteligência, como FBI. Quais são os limites do poder de vigilância? O que é legítimo em nome da segurança? A leitura do livro nos coloca o tempo todo, essa questão. Obviamente que o autor, claramente um liberal, não resolve, mas conhecer a trajetória do FBI, e em particular os dilemas de Hoover, nos ajuda a refletir, principalmente neste tempo em que temos a invasão do privado e dos escândalos de  espionagem, por um lado, e por outro o trauma dos atentados terroristas. Eis os desafios para a sociedade americana e para o próprio FBI.

    J. Edgar Hoover no Cinema.

    Interessante observar a diferença, sobre a questão da homosexualidade, abordada no filme J Edgar, dirigido por Clint Eastwood e com Leonardo DiCaprio no papel principal. O filme assume a versão de que Hoover era homosexual, embora não coloque cenas explícitas do relacionamento.

    Uma cena que nos chama a atenção é a que os dois vestidos em roupão entram em uma briga violenta em um hotel. Este episódio é relatada em diferentes biografias de Hoover, mas Weiner a descarta como verídica. No filme a parte mais explícita do suposto relacionamento de Hoover com seus principal assistente.

    Novamente é preciso dizer que se Hoover era homosexual ou não seria uma questão privada do que pública! Se não fosse o fato de o FBI nas primeiras décadas de atividade não tivesse articulado uma perseguição sistêmica aos homosexuais.

    De toda forma, vale conferir o filme também. Eu assisti pela Netflix.

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