A Chechênia pode se transformar no novo problema de Putin?
A possibilidade de agravamento dos problemas de saúde de Ramzan Kadyrov voltou a chamar a atenção para uma das regiões mais sensíveis da Federação Russa: a Chechênia. A discussão sobre sua sucessão revela fragilidades importantes do modelo político construído por Vladimir Putin ao longo das últimas duas décadas.
A Chechênia é uma república localizada no Cáucaso Norte, região situada entre o Mar Negro e o Mar Cáspio. Trata-se de uma área estratégica que conecta a Rússia ao sul do Cáucaso e influencia diretamente espaços geopolíticos próximos à Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Turquia e Irã.
A Segunda Guerra da Chechênia, iniciada em 1999, foi decisiva para a ascensão do então pouco conhecido ex-oficial da KGB ao poder. A campanha militar foi apresentada como uma demonstração da recuperação da autoridade do Estado russo após o caos dos anos 1990. A construção da imagem de Putin como líder forte começou na Chechênia.
Após anos de guerra, Moscou consolidou um acordo político baseado na família Kadyrov. O Kremlin concedeu recursos financeiros, autonomia e proteção política. Em troca, Ramzan Kadyrov garantiu estabilidade, lealdade e controle da região. Esse modelo permitiu que Moscou.
O problema é que se trata de um sistema profundamente personalista. Caso Kadyrov deixe, o Kremlin poderá enfrentar disputas sucessórias, rivalidades entre clãs locais e dificuldades para manter o mesmo nível de controle político.
Nesse contexto, surgem especulações sobre um possível interesse ucraniano em explorar eventuais instabilidades no Cáucaso. Existem batalhões chechenos lutando ao lado das forças ucranianas, compostos por opositores de Kadyrov e por grupos que defendem a independência da antiga República da Ichkéria. Entretanto, até o momento, não há evidências públicas de que Kyiv esteja organizando uma nova frente de conflito dentro da Chechênia.
O risco para Moscou é perceber que a estabilidade construída após os anos 2000 depende excessivamente de um único líder regional. Caso a sucessão seja mal administrada, o Kremlin poderá enfrentar uma crise política em uma região que possui enorme peso estratégico e simbólico.
Para Putin, a Chechênia não é apenas uma república da Federação Russa. Ela representa uma das principais vitrines do modelo de poder construído desde sua chegada ao Kremlin. Por isso, qualquer instabilidade em Grozny teria repercussões muito maiores do que seu tamanho territorial sugeriria. Em um momento em que a Rússia já enfrenta pressões militares e econômicas decorrentes da guerra na Ucrânia, a abertura de um novo foco de tensão interna seria uma notícia desastrosa para Moscou.
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A Chechênia pode abrir uma nova frente contra Putin?
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Belarus está mudando de posição ou apenas tentando sobreviver?
A recente tensão entre Ucrânia e Belarus indica uma possível mudança tática em Minsk, mas ainda não representa uma ruptura estratégica com Moscou.
Para entender o movimento, é preciso explicar quem é Alexander Lukashenko. Ele governa Belarus desde 1994 e consolidou um dos regimes mais autoritários da Europa. Controla eleições, imprensa, oposição, Judiciário e forças de segurança. Por isso, é frequentemente chamado de “último ditador da Europa”.
Sua dependência da Rússia aumentou de forma decisiva após os protestos de 2020, quando centenas de milhares de belarussos foram às ruas contra a fraude eleitoral. A repressão foi brutal: prisões em massa, exílio de opositores, perseguição a jornalistas, ONGs e ativistas. O regime sobreviveu pela violência interna e pelo apoio externo de Vladimir Putin.
Desde então, Belarus tornou-se uma peça central da arquitetura militar russa. O país integra o chamado Estado da União Rússia-Belarus, abriga exercícios militares, infraestrutura russa e armas nucleares táticas. Em 2022, seu território foi usado como uma das bases da invasão contra a Ucrânia, inclusive na ofensiva em direção a Kyiv.
O novo elemento é a pressão direta de Zelensky. A Ucrânia acusa Belarus de permitir equipamentos russos de retransmissão usados em ataques de drones contra território ucraniano. Kyiv deu prazo de uma semana para Minsk remover essas estruturas, afirmando que, se isso não ocorrer, poderá agir militarmente.
Se Lukashenko está limitando parte do uso russo do território belarusso, isso não deve ser lido como uma aproximação com a Ucrânia. Trata-se de uma tentativa de gestão de risco. Ele quer continuar dependente de Moscou, mas evitando que Belarus seja transformada em alvo direto da retaliação ucraniana.
Esse movimento também precisa ser lido à luz da fragilidade atual de Putin. A Rússia enfrenta desgaste militar, ataques ucranianos contra infraestrutura energética, dificuldades econômicas e crescente dependência de parceiros autoritários. Nesse cenário, Lukashenko percebe que seguir Moscou sem limites pode custar caro.
Belarus continua sendo estratégica para a Rússia: aproxima Moscou da Polônia, da Lituânia, da Ucrânia e do corredor de Suwałki. Para Kyiv, permanece uma ameaça ao norte. Para a OTAN, é uma peça central na pressão russa sobre a Europa Oriental.
A síntese é simples: Belarus não mudou de lado. Lukashenko não se tornou pró-Ucrânia. O que parece ocorrer é uma tentativa de limitar os custos da aliança com Putin em um momento em que a força russa já não parece tão garantida quanto antes. Isso não é ruptura. É sobrevivência política. -

Por que Polônia e Ucrânia entraram em crise diplomática?
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A atual crise diplomática entre Polônia e Ucrânia é frequentemente apresentada como uma disputa sobre a Segunda Guerra Mundial. Embora isso seja verdade, a realidade é mais complexa.
O estopim ocorreu quando o governo ucraniano homenageou uma unidade associada à tradição da UPA (Exército Insurgente Ucraniano). Para muitos ucranianos, a UPA representa a luta pela independência nacional contra diferentes ocupações estrangeiras. Para a Polônia, entretanto, a organização está associada aos massacres da Volínia e da Galícia Oriental, que resultaram na morte de milhares de civis poloneses entre 1943 e 1945.
A reação do presidente polonês Karol Nawrocki foi retirar de Volodymyr Zelensky a Ordem da Águia Branca, a mais alta honraria da Polônia. Kiev respondeu devolvendo condecorações e criticando a postura polonesa. O episódio tornou-se a maior crise bilateral desde o início da invasão russa em larga escala.
Existe uma dimensão ainda mais profunda. Durante décadas, os regimes comunistas da Europa Oriental procuraram substituir identidades nacionais por narrativas ideológicas oficiais. Debates sobre massacres, deslocamentos populacionais, conflitos étnicos e responsabilidades históricas foram frequentemente reprimidos ou subordinados aos interesses políticos dos Estados socialistas.
Grande parte da Europa Oriental saiu da Guerra Fria carregando feridas que nunca foram plenamente discutidas ou resolvidas.
Quando o sistema soviético entrou em colapso, essas memórias retornaram ao espaço político. A disputa atual entre Varsóvia e Kyiv é, em parte, consequência desse processo.
Mas limitar a análise à questão histórica seria insuficiente. A política interna polonesa desempenha papel relevante, assim como as disputas econômicas envolvendo o acesso de produtos agrícolas ucranianos ao mercado europeu e as consequências da futura adesão da Ucrânia à União Europeia.
Apesar da deterioração diplomática, os interesses estratégicos permanecem alinhados. A Polônia continua sendo uma das principais rotas de apoio militar e logístico para a Ucrânia. Ambos os países seguem considerando a Rússia a principal ameaça à segurança da região. -

Crise do modelo nórdico: Suécia e Finlândia diante do fim do Estado de bem-estar social
O modelo nórdico de bem-estar social sempre foi visto como referência mundial em igualdade e qualidade de vida. No entanto, as crises recentes na Suécia e na Finlândia levantam dúvidas sobre sua sustentabilidade. Esses países enfrentam não apenas dificuldades conjunturais, mas um desafio estrutural que pode marcar o fim do Estado de bem-estar social. A questão central é: Será que é possível conciliar justiça social, equilíbrio fiscal e competitividade econômica na atual dinâmica do capitalismo?
Histórico do modelo nórdico
Construído no pós-guerra, o modelo nórdico baseou-se em altos impostos, redistribuição de renda e serviços públicos universais.Suécia e Finlândia transformaram-se em símbolos globais de saúde gratuita, educação de excelência e baixa desigualdade.
Durante décadas, prosperidade industrial e inovação tecnológica garantiram recursos para sustentar esse arranjo. O consenso era de que o modelo nórdico seria replicável e sustentável, mas os sinais de fragilidade começaram a aparecer nas últimas duas décadas.
Motivos das crises atuais
A globalização expôs vulnerabilidades ao reduzir empregos estáveis e pressionar salários. O envelhecimento populacional elevou custos de saúde e aposentadorias.Na Suécia, o endividamento das famílias e a bolha imobiliária colocaram a economia em recessão.
Já na Finlândia enfrenta déficits persistentes e dívida crescente, respondendo com austeridade: cortes em benefícios sociais, aumento de impostos e redirecionamento de recursos para defesa.
Nos dois casos, o modelo de proteção universal está sob tensão.
Em 2025, o PIB sueco recuou, prolongando a recessão. O setor de construção e o consumo doméstico caíram, enquanto sindicatos denunciam deterioração de hospitais, escolas e lares de idosos.Na Finlândia, o Banco Central prevê crescimento de apenas 0,5% em 2025 e dívida pública chegando a 87,5% em 2026. O déficit permanece próximo de –3,7% do PIB, mesmo com cortes.
Politicamente, a Suécia busca ajustes graduais, enquanto a Finlândia vive polarização: partidos de esquerda ganharam espaço e populistas de direita perderam apoio.
Perspectivas para o futuro
O modelo nórdico enfrenta dilemas profundos. Se ainda garante sociedades mais igualitárias do que a média europeia, já mostra sinais de erosão.A longo prazo, ou será capaz de inovar em formas de financiamento, preservando sua essência, ou caminhará para uma versão reduzida, seletiva e menos universal.
A crise em Suécia e Finlândia funciona como um alerta: até mesmo os países mais bem avaliados em desenvolvimento humano não estão imunes às pressões fiscais e geopolíticas que desafiam o Estado de bem-estar social no nosso século.
Referências
Le Monde. Sweden’s social model is on its last legs. 2024.
OECD. Economic Survey Sweden 2025.
Reuters. Finland’s Thatcher tests limits of local frugality. 2024.
The Guardian. The left is rising, and the far right is reeling in Finland. 2025.
European Commission. Economic Forecast Finland 2025. -

Como a França fracassou?
A França se encontra no epicentro de uma crise política e econômica que já ultrapassa suas fronteiras. O país parece ter entrado em um ciclo vicioso de crises econômicas e políticas, com potencial de colocar em risco a França que conhecemos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ou seja, a França do Estado de bem-estar social.
Os números da economia francesa são dignos de um país que, se não fosse essencial para o equilíbrio europeu e uma potência nuclear, já estaria sob intervenção do FMI e das instituições da União Europeia.
A dívida pública supera €3,3 trilhões, equivalente a quase 114% do PIB, enquanto o déficit projetado se mantém em torno de 5,8%, muito acima dos parâmetros de Maastricht.
No mercado financeiro, os títulos de dez anos atingem rendimento de 3,53% e o diferencial em relação à Alemanha chega a 80 pontos base, sinal claro de perda de confiança.
O governo minoritário do Primeiro Ministro François Bayrou apresentou um plano de de austeridade de €44 bilhões enfrenta ampla rejeição social e política, mas enfrenta rejeições da direita fascista populistas e da esquerda institucionalizada no bem-estar social.
Com isso, o governo deve encarar um voto de confiança decisivo em setembro e seu plano. Se o governo cair, o país pode mergulhar em paralisia legislativa. Nesse caso, para fechar as contas, talvez tenha que recorrer a apoio internacional.
O próprio ministro das Finanças já admitiu que, em caso de colapso político, a França poderia solicitar ajuda ao Fundo Monetário Internacional. O FMI defende cortes equivalentes a 1,1% do PIB em 2026 e ajustes subsequentes de quase 1% ao ano.Já o Banco Central Europeu dispõe de mecanismos emergenciais para conter crises de dívida, mas a atuação exigiria compromissos firmes que parecem improváveis em meio à fragmentação política atual.
Por isso, a instabilidade francesa deixou de ser um problema doméstico para se transformar em ameaça à estabilidade de todo o euro.
Uma eventual crise do euro colocaria o mundo em uma situação curiosa: as duas principais moedas ocidentais, euro e dolar, estariam ao mesmo tempo enfrentando crise de desconfiança.
A crise para além da economia.
A crise finqnceira francesa e a expansão dos extremismos não podem ser explicados apenas pelos últimos resultados economicos. Ela traduz um longo desgaste social dentro da crise donestado de bem-estar social e da imigração em massa m.Desde os anos 1980, a França recebeu fluxos expressivos de imigrantes do Magrebe, da África subsaariana e do Oriente Médio. Esse processo diversificou culturalmente o país, mas também expôs falhas de inclusão.
Bairros periféricos marcados por desigualdade se tornaram símbolos de exclusão e alimentaram ressentimento. A crise dos refugiados em 2015 e atentados terroristas posteriores intensificaram a sensação de insegurança.
Esse ambiente abriu espaço para a ascensão da extrema-direita. O Rassemblement National, de Marine Le Pen, passou a associar imigração a desemprego, perda de identidade e crise econômica.O discurso produziu efeitos em uma população já cansada de estagnação e de reformas impopulares.
Nas eleições legislativas de 2024 o RN conquistou 33,2% dos votos e 142 cadeiras, superando partidos tradicionais. Pesquisas de 2025 mostram o partido novamente na liderança, com entre 31% e 35% das intenções de voto, consolidando-se como a maior força política do país.
A esquerda populista também cresceu, mas a polarização beneficiou sobretudo os nacionalistas.
Ao mesmo tempo, movimentos como os coletes amarelos mostraram o abismo entre governo e sociedade. Embora não tivessem a imigração como pauta principal, as manifestações revelaram ressentimento profundo contra impostos altos e políticas que pareciam privilegiar uma acomodada elite burocrarica.A pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia agravaram esse quadro ao aumentar custos, pressionar serviços públicos e corroer salários, elementos que fortaleceram ainda mais os discursos radicais.
A França precisa de mudanças, mas qualquer movimento ameaça sua estabilidade política e é dificil qualquer governabilidade, quando os dois lados do populismo, a extrema direita e a extrema esquerda, acreditam que a instabilidade pode levá-las ao poder.Cortar gastos pode derrubar o governo e recusar reformas pode… Derrubar o governo. No meio desseĺ cresce a perspectiva de que forças populistas assumam o poder. A França, que já foi motor da integração europeia, ameaça hoje a própria sobrevivência do projeto europeu, ainda que Macron queira brincar de lider global, somente ele acredita na sua capacidade de estadista e convenhamos que depois de um tapa na cara em público e de ficar sentadinho junto com lideres europeus na porta do gabinete de Trunp, não ajudou muito com a sua imagem.
Ainda assim, por mais fraco que seja o atual governo, o fracasso francês não é feuto de um erro isolado, mas de décadas de tensões acumuladas entre ambições sociais, disciplina fiscal europeia, pressões migratórias e transformações globais.A ascensão da extrema-direita e do populismo refletem uma longa decadência. O país que simbolizou a força do continente agora representa o maior risco para sua estabilidade e segurança.
Referências
Reuters. French finance minister sees risk of IMF intervention if government falls. 26 ago. 2025. Disponível em: reuters.com
Financial Times. French assets hit by prospect of government collapse. 2025. Disponível em: ft.com
Wall Street Journal. With another government on the brink of collapse, is France the new Italy?. 2025. Disponível em: wsj.com
Reuters. Could ECB help France if borrowing costs surge further?. 28 nov. 2024. Disponível em: reuters.com
Reuters. IMF urges sustained French budget squeeze to rein in deficit. 22 mai. 2025. Disponível em: reuters.com
Le Monde. Is France’s debt situation as worrying as PM François Bayrou claims?. 29 ago. 2025. Disponível em: lemonde.fr
Natixis. On the brink: exploring the implications of the upcoming confidence vote on 8th September. 2025. Disponível em: home.cib.natixis.com
Chat Europe. France’s far right vote in figures. 2025. Disponível em: chateurope.eu -

Cúpula da SCO em Tianjin: Xi, Putin e Modi…
A cidade chinesa de Tianjin sediará, nos dias 31 de agosto e 1º de setembro a próxima cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO). O encontro promete ser um dos mais relevantes do ano no cenário geopolítico, reunindo mais de vinte líderes de diferentes continentes.
Entre as presenças confirmadas estão o presidente da China, Xi Jinping, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o Primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.A participação de Modi ganha destaque por ser a sua primeira visita à China em mais de sete anos, em meio a um histórico de tensões fronteiriças e rivalidades estratégicas.
A SCO, criada em 2001, consolidou-se como um dos principais fóruns multilaterais fora do eixo ocidental, reunindo países da Ásia Central, além de China, Rússia, Índia e Paquistão. Com debates que vão da segurança regional ao comércio, a cúpula em Tianjin representa não apenas um esforço para amenizar as relações entre Pequim e Nova Délhi, mas também uma demonstração de alinhamento entre os países emergentes.
Um dos principais temas da agenda será a política tarifária dos Estados Unidos sob Donald Trump, que tem elevado impostos sobre importações de produtos chineses, indianos e de outros países da região.Para Pequim, as tarifas representam um desafio direto ao crescimento industrial e um enfrentamento aberto pelo comércio global. Se as tensões entre EUA e China vinham se desenhando a tempos, com Trump ela passou a ser direta.
Já para Nova Délhi, as tarifas foram uma decepção e uma quebra de expectativas. Modi fez política de aproximação com Trump. Recusou a moeda dos Brics publicamente, visitou os Estados Unidos, afagou o ego do presidente. Para analistas apressados e políticos desavisados no Brasil foi um modelo que Lula deveria seguir. Nada adiantou. A Índia foi taxada.
Essa taxação é um obstáculo às exportações de tecnologia e farmacêuticos e abalam o crescimento do país. A resposta de Modi foi, até o momento, virar a política indiana de volta para o Sul Global e a SCO, pode marcar uma reaproximação definitiva com a China e com a Rússia.
Para Moscou, um agravamento das barreiras comerciais já impostas pelo Ocidente em função da guerra na Ucrânia, os EUA pressionam os aliados comerciais da Rússia, como a Índia, a deixar de comprar petróleo o que seria um desastre para a cambaleante economia russa e para o financiamento do do desastre da invasão da Ucrania.
Assim, encontro busca reforçar a a solidariedade do chamado Sul Global e a negociação por alternativas às instituições tradicionais dominadas pelo Ocidente, ou melhor, pelos EUA. A cúpula discutirá respostas conjuntas às tarifas norte-americanas, fortalecendo mecanismos internos de comércio e cooperação econômica, para amenizar o impacto Trump nas suas economias.
A expectativa é que, além dos gestos simbólicos de cooperação, os líderes anunciem medidas concretas em áreas como energia, infraestrutura e comércio, buscando reduzir a dependência das cadeias controladas por Washington.A atenção global estará voltada para Tianjin, onde se desenha mais um capítulo da redefinição do equilíbrio de poder no século XXI.
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As crises de Milei: corrupção, vigilância e economia sob pressão
Com as eleições provinciais marcadas para 7 de setembro e a campanha nacional prestes a começar, o governo de Javier Milei atravessa um momento crítico. Enquanto no Brasil, Milei é apresentado como um herói do ajuste fiscal e seu liberalismo de frases libertárias encantam tanto operadores do mercado, quanto influenciadores desavisados, a realidade do país vizinho é outra.Denúncias de corrupção, acusações de espionagem política e uma economia com sinais contraditórios colocam em xeque a estabilidade do projeto “libertário” que levou Milei à Casa Rosada.
Propinas e pressões políticas
Ao que parece a direira latino americana está se especializando em escandalos por áudio e em casos de família. No caso argentino, os áudios foram divulgados pelo ex-diretor da Agência Nacional de Discapacidade, Diego Spagnuolo, que, digamos, sugerem que a secretária-geral da Presidência, Karina Milei, e o assessor Eduardo “Lule” Menem estariam ligados a um esquema de propinas na compra de medicamentos. Segundo o jornal El País, as cifras poderiam chegar a 800 mil dólares mensais. A Justiça federal, determinou buscas em imóveis e escritórios ligados ao caso, como informou a AP News.
Foram realizadas 14 operações em Buenos Aires e em uma importante distribuidora farmacêutica, com apreensão de celulares, dinheiro e documentos, de acordo com o jornal Página/12. A crise levou um interventor a assumiu a agência por 180 dias para garantir transparência durante as investigações.
Embora o caso tenha repercussão política imediata, é importante destacar que as acusações ainda estão em fase de investigação e os envolvidos negam irregularidades ou não se pronunciaram publicamente até o momento.O problema é que escândalos como esses acabam por minar o discurso de Milei que prometeu um choque de gestão, transparência e honestidade e sempre apontou para a “currupção dos Peronistas” e do que chama de ” a casta”. Seu discurso moralista, agora enfrenta as acusações de desvio na sua gestão que diretamente envolve a sua irmã que é também a sua principal conselheira.
Vigilância ilegal e clima de autoritarismo
Outro foco de crise veio à tona quando a imprensa revelou que a SIDE, agência de inteligência, reativada por Milei em 2024, teria monitorado opositores, sindicatos e grupos civis. Segundo o jornal britânico The Times, lideranças peronistas, como Máximo Kirchner, Sergio Massa e Axel Kicillof estariam entre os alvos. A denúncia foi levada ao Judiciário e gerou reações duras da oposição.
A Comissão Bicameral de Inteligência do Congresso manifestou preocupação e exigiu explicações oficiais do Executivo, informou o jornal La Nación. A acusação reforça a percepção de que o governo enfrenta crescentes questionamentos institucionais.
Economia: sinais de empobrecimento e incerteza
No campo econômico, a queda da inflação para 1,9% em julho foi comemorada como a principal conquista e realização e de fato, trata-se de um feito histórico em um país marcado por décadas de alta crônica de preços. O problema é como e as consequências dessa queda rápida.
A atividade econômica medida pelo EMAE recuou 0,7% em junho, segundo o INDEC, e analistas consultados pelo Clarín alertam para uma desaceleração mais ampla. O desemprego também subiu: de 6,4% em 2024 para 7,9% no primeiro trimestre de 2025, conforme números do Infobae.
A pobreza, medida oficialmente em 31,7% no primeiro trimestre, permanece em patamar elevado. Um estudo da Universidade Torcuato Di Tella chegou a estimar índices semelhantes, mostrando que os anunciados avanços econômicos não atinge grande parte da população.Além disso, e mais preocupante para os mercados, são as quedas nas reservas internacionais, após pagamentos ao FMI que preocupa os mercados. Vale lembrar que a Argentina é o país com a maior dívida com o FMI e está sujeita as constantes fiscalizações do Fundo para conseguir renegociar os volumosos empréstimos.
O caso YPF e a incerteza jurídica
Somando-se às pressões internas, a Justiça dos Estados Unidos decidiu que a Argentina deverá transferir sua fatia de 51% na petroleira YPF a investidores minoritários, devidon a uma indenização bilionária. Segundo o La Nación, o país ainda pode recorrer, mas os juros da condenação já aumentam o valor final da disputa, que ultrapassa 16 bilhões de dólares.A imagem de Milei diante da negociação é de fragilidade, já que demonstrou inúmeras vezes subserviência ao presidente Donald Trunp.
O fato de a Argentina ter conseguido isentar produtos argentinos da taxação foi alardeado como uma conquista pessoal de Milei. Mas será que a suposta proximidade com o presidente americano pode salvar a petroleira Argentina?
Eleições de setembro e outubro
As tensões políticas se intensificam, porque setembro marca o início do ciclo eleitoral. A província de Buenos Aires vota em 7 de setembro e Corrientes já vai às urnas em 31 de agosto.A campanha nacional na TV e no rádio começa em 21 de setembro, com as legislativas previstas para 26 de outubro e estarão em disputa 127 cadeiras da Câmara e 24 do Senado.
O resultado definirá a real capacidade de Milei em sustentar seu programa no Congresso. Uma eventual derrota, pode levar o governo a paralisia do governo.
A poucos dias das eleições, Javier Milei enfrenta um triplo desafio: conter os efeitos políticos das denúncias de corrupção, responder às acusações de vigilância ilegal e administrar uma economia que, embora mostre alívio inflacionário, segue marcada por pobreza, desemprego e queda na atividade. O desempenho nessas frentes poderá definir não apenas os resultados de setembro e outubro, mas também o futuro do governo.
Referências
El País – “Audios, allanamientos y un alto cargo despedido: un caso de corrupción acecha a Milei y su hermana” (22/08/2025).
AP News – “Argentina investigates alleged kickback scheme entangling President Milei’s inner circle” (23/08/2025).
Página/12 – “Allanamientos en la causa por corrupción en la ANDIS” (23/08/2025).
Ámbito – “Designan interventor en la ANDIS tras las denuncias” (23/08/2025).
The Times – “Javier Milei’s government accused of spying on rivals in Argentina” (07/2025).
La Nación – “La Bicameral de Inteligencia pide explicaciones al Gobierno por las filtraciones” (08/2025).
Infobae – “La inflación de julio fue del 1,9%” (08/2025).
Clarín – “Actividad económica cayó 0,7% en junio según el INDEC” (07/2025).
Infobae – “El desempleo sube al 7,9% en el primer trimestre” (06/2025).
Infobae – “La pobreza alcanzó el 31,7% en el primer trimestre” (06/2025).
Ámbito – “Reservas del BCRA caen tras pagos al FMI” (08/2025).
La Nación – “Calendario electoral: elecciones provinciales y legislativas nacionales” (08/2025).
Chequeado – “Qué se vota en las legislativas 2025” (08/2025).
La Nación – “YPF: la Justicia de EE.UU. permite a Argentina apelar sin entregar acciones” (08/2025). -

Alerta no Caribe. As novas disputas geopolíticas.
O Caribe como prioridade estratégica
Desde o início de 2025, o governo Trump voltou a colocar a América Latina e Caribe no centro de sua política externa. A região, considerada uma extensão natural da segurança norte-americana, é hoje apresentada pela Casa Branca como a “primeira linha de defesa” contra cartéis de drogas e fluxos migratórios. Trump marca, assim, uma volta ao continente que recebeu menos atenção, desde o governo Bush.
A decisão de enviar destróieres, submarinos e cerca de 4.000 militares para patrulhar águas caribenhas representa o maior movimento naval dos EUA na região desde a Guerra Fria. Oficialmente, trata-se de uma operação antidrogas, mas na prática, ela é o retorno da projeção militar americana.Para entendermos esse movimento, vamos analisar as tensões com a Venezuela e Cuba, a crise imigratório com o Haiti, bem como as novas alianças.
Venezuela, narcotráfico e Petróleo.
O alvo principal é a Venezuela. Washington acusa Nicolás Maduro e altos oficiais de chefiar o chamado “Cartel de los Soles”, supostamente responsável por canalizar cocaína colombiana por meio da Venezuela até rotas marítimas do Caribe, com destino aos Estados Unidos e Europa.
Trump elevou a pressão oferecendo US$ 50 milhões de recompensa pela captura de Maduro e ampliando sanções. Caracas reagiu mobilizando 4,5 milhões de milicianos e denunciando uma “campanha de guerra híbrida” norte-americana.
A geopolítica da acusação vai além das drogas: enfraquecer a influência venezuelana significa também atacar o Petrocaribe, mecanismo que durante duas décadas garantiu petróleo subsidiado a vários países da região, ampliando a influência de Caracas no Caribe.A presença de viar destróieres e submarinos nas proximidades da costa do país, aumentaram as especulações sobre uma possibilidade de intervenção direta. O fato é que Maduro nunca esteve tão pressionado e cercado. Essa pressão pode ter efeitos internos e fragilizar ainda mais o seu governo. A queda de Maduro é inegavelmente o maior propósito de Washington, resta saber como e quando ela se dará.
As recentes descobertas de grandes reservas de petróleo na Guiana, lideradas pela ExxonMobil, transformaram o pequeno país caribenho em um novo polo energético global. Os EUA veem a Guiana como uma alternativa estratégica ao petróleo venezuelano, fortalecendo investimentos e parcerias para garantir acesso preferencial à produção futura. Essa guinada energética também reposiciona o Caribe no mapa da geopolítica global, com Washington atuando para consolidar sua presença diante da crescente importância do Atlântico Norte e da Bacia do Caribe.
Em paralelo, a Venezuela mantém sua reivindicação histórica sobre a região de Essequibo, rica em petróleo e atualmente sob jurisdição guianense. A disputa territorial, intensificada pelas novas descobertas, gera tensões diplomáticas e militares entre Caracas e Georgetown.Para os EUA, a questão é dupla: enfraquecer a posição de Maduro e, ao mesmo tempo, consolidar um aliado energético confiável no Caribe. Assim, o petróleo se converte em mais um campo de disputa pela influência norte-americana na região.
Nos últimos meses, Nicolás Maduro intensificou sua retórica sobre o Essequibo, chegando a ameaçar a anexação da região e a realização de exercícios militares próximos à fronteira. Essa postura não apenas eleva o risco de confronto direto com a Guiana, mas também gera preocupação no Brasil, que compartilha fronteira tanto com a Venezuela quanto com a área disputada.
Brasília teme o impacto de uma escalada militar, particularmente, em Roraima e no norte amazônico, ao mesmo tempo em que observa com atenção a exploração do petróleo da margem equatorial, vista como o próximo grande ativo energético brasileiro.
A sobreposição dessas tensões coloca o Brasil em posição ainda mais delicada, entre a defesa da estabilidade regional e a proteção de seus próprios interesses estratégicos no setor de energia, com mais uma potencial crise com o governo Trump a vista.
Cuba e o retorno do isolamento
Cuba voltou a ser classificada por Washington como Estado patrocinador do terrorismo. Além do embargo renovado, Trump planeja transformar Guantánamo, a base militar / prisão que detinha pessoas acusadas de terrorismo e de serem membros de grupos radicais islâmicos, em um grande centro de deportação de migrantes, com capacidade para até 30 mil pessoas.
As medidas afetam diretamente o equilíbrio caribenho, pois muitos deportados são haitianos e centro-americanos enviados para Cuba contra a sua vontade. A política gera críticas de organizações internacionais e aumenta as tensões entre Havana e Washington.Cuba tem sofrido por mais de uma década com a escasses de recursos e o empobrecimento. Notícias de descontentamentos populares por falta de itens básicos e as crescentes quedas de energia, mostram que o regime atravessa enormes dificuldades que, mesmo com apoio de aliados, como Rússia e China, a ilha não tem conseguido superar.
O Haiti e a crise migratória
O Haiti, já fragilizado por instabilidade política e violência há decadas, sofre forte impacto com a nova política migratória dos EUA. Deportações em massa pressionam um país sem capacidade de absorver o retorno de milhares de cidadãos, agravando a crise humanitária.
Esse movimento reforça a dimensão geopolítica da migração. Washington projeta sua influência não apenas por meio de operações militares, mas também pelo controle sobre fluxos populacionais no Caribe.Esse controle populacional provoca crises econômicas e políticas nos paises de origem. Vale lembrar que os recursos enviados por emigrados são parte importante da economia destes países e que a imigração servia como uma válvula de escape para as tensões econômicas e sociais.
Novas alianças no Caribe
Apesar das tensões, alguns governos caribenhos, como República Dominicana e Jamaica, reforçam a cooperação com os EUA em segurança marítima e antidrogas. A maior presença da Guarda Costeira norte-americana é vista como forma de proteção, mas também aumenta a dependência da região em relação a Washington.
Ao mesmo tempo, países como Trinidad e Tobago mostram cautela, temendo perder acesso ao petróleo venezuelano. O Caribe encontra-se, assim, dividido entre alianças pragmáticas com os EUA e preocupações com o risco de desestabilização regional.
O Caribe volta a ser palco de uma disputa geopolítica clássica. A estratégia de Trump combina pressão militar, isolamento diplomático e reconfiguração migratória, buscando restabelecer a hegemonia norte-americana na região.
Entre alianças pragmáticas e tensões abertas, os pequenos Estados caribenhos enfrentam um dilema: alinhar-se ao poder dos EUA ou tentar preservar margens de autonomia frente a um cenário de crescente rivalidade. As tensões se ampliaram em 2025 e tendem a moldar o futuro dos países nos próximos anos. Entre regimes cambaleantes e crises humanitárias o caribe é uma parte importante da reconfiguração geopolítica do governo Trump.
Referências
AP News, US destroyers head toward waters off Venezuela as Trump aims to pressure drug cartels
El País, EE UU despliega 4.000 militares en aguas de América Latina y el Caribe para perseguir a los carteles
El País, Maduro moviliza a cuatro millones de milicianos como respuesta a los destructores enviados por Estados Unidos
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Dia Mundial Humanitário
Em 19 de agosto, celebramos o Dia Mundial Humanitário, uma data dedicada a homenagear aqueles que atuam em crises globais e a lembrar das vidas perdidas no cumprimento desse dever.O trabalho humanitário é o conjunto de ações voltadas a salvar vidas, reduzir o sofrimento humano e garantir a dignidade de pessoas atingidas por guerras, desastres naturais, fome, epidemias e outras crises. Seu foco não é político, mas sim atender às necessidades mais urgentes de sobrevivência, como acesso a água potável, alimentos, saúde, abrigo e proteção.
Quem realiza esse trabalho?
A ação humanitária envolve uma rede global de esforços. Ela é conduzida por agências da ONU como ACNUR, UNICEF e PMA, por organizações não governamentais como Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras, e também por organizações locais, muitas vezes na linha de frente. Milhares de profissionais e voluntários arriscam suas vidas diariamente para levar socorro a quem mais precisa.
Os princípios humanitários
Para garantir confiança, neutralidade e eficácia, o trabalho humanitário é guiado por quatro princípios.
Humanidade: proteger a vida e a dignidade das pessoas em sofrimento.
Imparcialidade: prestar ajuda apenas com base na necessidade, sem discriminação.
Neutralidade: não tomar partido em conflitos ou controvérsias.
Independência operacional: atuar de forma autônoma, livre de interesses políticos, militares ou econômicos.
Esses princípios são o alicerce que permite às organizações alcançar populações em risco, mesmo em contextos de guerra.
O atentado de Bagdá e o Dia Mundial Humanitário
Em 19 de agosto de 2003, a sede da ONU em Bagdá, no Iraque, foi alvo de um ataque a bomba que matou 22 funcionários, incluindo o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, então Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos.A tragédia marcou a história da ONU e revelou a vulnerabilidade dos trabalhadores humanitários em zonas de conflito.
Como resposta, a Assembleia Geral da ONU estabeleceu, em 2009, o Dia Mundial Humanitário, celebrado anualmente nessa data. O objetivo é não apenas homenagear as vítimas do atentado de Bagdá, mas também reconhecer o trabalho das pessoas que atuam em crises humanitárias em todo o mundo.
Comemorar o Dia Mundial Humanitário é reafirmar a importância da solidariedade internacional e a necessidade de proteger quem leva ajuda onde mais se precisa.Relembrar Bagdá significa também valorizar a coragem de todos aqueles que atuam em defesa da vida, da dignidade e dos direitos humanos.
Referências
United Nations, History of World Humanitarian Day
International Committee of the Red Cross
BBC News, Baghdad UN headquarters bombing (2003)
O Globo, A trajetória de Sérgio Vieira de Mello
