A recente tensão entre Ucrânia e Belarus indica uma possível mudança tática em Minsk, mas ainda não representa uma ruptura estratégica com Moscou.
Para entender o movimento, é preciso explicar quem é Alexander Lukashenko. Ele governa Belarus desde 1994 e consolidou um dos regimes mais autoritários da Europa. Controla eleições, imprensa, oposição, Judiciário e forças de segurança. Por isso, é frequentemente chamado de “último ditador da Europa”.
Sua dependência da Rússia aumentou de forma decisiva após os protestos de 2020, quando centenas de milhares de belarussos foram às ruas contra a fraude eleitoral. A repressão foi brutal: prisões em massa, exílio de opositores, perseguição a jornalistas, ONGs e ativistas. O regime sobreviveu pela violência interna e pelo apoio externo de Vladimir Putin.
Desde então, Belarus tornou-se uma peça central da arquitetura militar russa. O país integra o chamado Estado da União Rússia-Belarus, abriga exercícios militares, infraestrutura russa e armas nucleares táticas. Em 2022, seu território foi usado como uma das bases da invasão contra a Ucrânia, inclusive na ofensiva em direção a Kyiv.
O novo elemento é a pressão direta de Zelensky. A Ucrânia acusa Belarus de permitir equipamentos russos de retransmissão usados em ataques de drones contra território ucraniano. Kyiv deu prazo de uma semana para Minsk remover essas estruturas, afirmando que, se isso não ocorrer, poderá agir militarmente.
Se Lukashenko está limitando parte do uso russo do território belarusso, isso não deve ser lido como uma aproximação com a Ucrânia. Trata-se de uma tentativa de gestão de risco. Ele quer continuar dependente de Moscou, mas evitando que Belarus seja transformada em alvo direto da retaliação ucraniana.
Esse movimento também precisa ser lido à luz da fragilidade atual de Putin. A Rússia enfrenta desgaste militar, ataques ucranianos contra infraestrutura energética, dificuldades econômicas e crescente dependência de parceiros autoritários. Nesse cenário, Lukashenko percebe que seguir Moscou sem limites pode custar caro.
Belarus continua sendo estratégica para a Rússia: aproxima Moscou da Polônia, da Lituânia, da Ucrânia e do corredor de Suwałki. Para Kyiv, permanece uma ameaça ao norte. Para a OTAN, é uma peça central na pressão russa sobre a Europa Oriental.
A síntese é simples: Belarus não mudou de lado. Lukashenko não se tornou pró-Ucrânia. O que parece ocorrer é uma tentativa de limitar os custos da aliança com Putin em um momento em que a força russa já não parece tão garantida quanto antes. Isso não é ruptura. É sobrevivência política.

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