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  • Belarus: eleição e crise na última ditadura da Europa

    Belarus: eleição e crise na última ditadura da Europa

    • Crise na Belarus
    • História da Belarus
    • Relação com a União Europeia e a Rússia

    As eleições na Belarus provocaram uma onda de protestos jamais vista naquele país. Manifestações essa que colocam contra a parede o regime que é considerado como a última ditadura da Europa. Neste texto vamos abordar brevemente a História da Belarus e o processo político atual.

    A República da Belarus

    A Belarus teve breve períodos de independência como Estado nacional moderno. Durante a Revolução Russa de 1917, a Belarus teve um breve momento de independência, quando se formou um Congresso que declarou a independência da Republica Popular da Bielorrússia, em março de 1918. No entanto, ela foi ocupada pelas tropas alemãs, mais tarde foi tomada pelo Exército Vermelho e integrada a União Soviética, como uma de suas repúblicas.

    Em março de 1990, com a crise da União Soviética, a oposição começou a ganhar espaço com a formação do Front Popular. Em 27 de julho de 1990 a Belarus declarou a sua soberania. Ao contrário do que ocorreu nos países Bálticos, o Partido Comunista, ou seja, a elite burocrática do país continuou comandando o processo político e dominando a economia.

    Com a Rússia e a Ucrânia, a Belarus participou do evento 8 de dezembro de 1991 que colocou fim a União Soviética e formou a Comunidade dos Estados Independentes. Assim, ao contrário dos países Bálticos que saíram da esfera de influência da Rússia, em direção ao ocidente, a Belarus e a Ucrânia permanecem unidas a Moscou.

    Portanto, observe uma questão importante: somente com o fim da União Soviética é que a Belarus teve a experiência de um Estado moderno soberano. Assim, a construção de um Estado nação se deu baixo a ditadura de Lukashenko. Esse fato levou-se até o questionamento se haveria uma identidade nacional Belarus e uma sociedade civil que poderia atuar.

    O governo de Alexandre Lukashenko

    Alexandre Lukashenko chegou o poder em 1994 e foi reeleito, 2001, 2006, 2010, 2015, formando um governo autoritário. Não faltam denúncias de violação aos Direitos Humanos no país. Através da violência, censura e mão de ferro, ele estabilizou o país formando uma classe de privilegiados, uma verdadeira oligarquia, sustentada pelas riquezas do país e em uma relação privilegiada com a Rússia.

    Apesar da aparente estabilidade, o regime começou a dar sinais de fragilidade. Um desses sinais, o mais evidente, se deu quando a Rússia ocupou parte da Ucrânia e tomou toda a Crimeia. A ideia de uma expansão russa continuada se tornou um pesadelo para a Belarus, como para todos os demais países que fazem fronteira com a Rússia.

    A invasão da Crimeia e a Reação da Belarus

    Após a anexação da Crimeia, Lukashenko pela primeira vez começou a discursar no idioma local. Seus discursos eram somente em russo, até então. O regime começou a apelar aos belarussos como uma nação e defender a sua soberania.

    Esse movimento fez com que o país se aproximasse dos países ocidentais, em particular dos países Bálticos e da Polônia. Acordos comerciais, educacionais e culturais foram estabelecidos no que parecia uma virada para o Ocidente.

    A virada para o Ocidente foi interrompida. Por um lado, a Rússia ofereceu certas vantagens comerciais. Além disso, diversos acordos militares com a Rússia, mas ainda com uma certa tensão, pois a ideia de instalar uma base aérea russa sofreu resistência. Em 2019, em um encontro com Putin, Lukashenko, em discurso coloca a ideia de união entre os dois países, ou seja, parecendo uma volta ao lado russo. Por outro lado, a União Europeia manteve restrições ao comércio com o país e criticas ao regime autoritário e as sistemáticas violações dos Direitos Humanos. Assim, o regime pareceu novamente pender para a Rússia.

    Resumindo, nos últimos anos Lukashenko tentou jogar dos dois lados observando de qual deles poderia conseguir maiores vantagens. Um jogo perigoso, pois seu autoritarismo nunca foi aceito pelos europeus e a sua relação com Putin não era das melhores, pessoalmente, ao que se sabe, Putin nunca teve apreço por Lukashenko.

    A Crise na eleição de 2020

    Essa situação piorou em 2020, com a pandemia, pois Lukashenko foi um dos líderes mundiais que entraram no negacionismo. Ele recomentou aos seus cidadãos: vodka, sauna e trator, como remédio para a Covid 19. O resultado, além de virar uma piada mundial, foi que sua credibilidade, já abalada, sofreu ainda mais ao se aproximar da eleição.

    O início do processo eleitoral se deu como sempre. Era para ser novamente uma eleição controlada. Em outras palavras, os candidatos seriam escolhidos a dedo, apenas com formalidade, e para dar ar de legitimidade. Os oposicionistas foram presos e exilados. Restou uma candidata que deveria ser a figurante nesse processo.

    A candidatura de Svetlana Tikhanovskaya era tida como um arranjo. Os demais líderes oposicionistas ou foram presos ou tiveram que escapar para outros países. .

    Assim, Svetlana Tikhanovskaya não faz parte de uma oposição histórica organizada contra o regime, pelo contrário. De toda forma, como ela era a única candidata houve uma união ao seu entorno já como uma forma de protesto contra ao regime. Na eleição, ela, que faz parte da elite educada, deveria apenas fazer a figuração para que se criasse a imagem de uma disputa legitima

    A propaganda eleitoral foi limitada, bem como as manifestações públicas. Cenas de manifestantes e de opositores ao regime sendo presos nas ruas vazaram para o ocidente e foram divulgados pelas mídias sociais.

    A Repressão e os Movimentos Grevistas

    Mesmo com a repressão e as limitações, a candidatura Tikhanovskaya encampou a contrariedade contra ao regime e houve uma união silenciosa para votar contra o regime. Esse movimento cresceu ao ponto de ser percebido pelo conjunto da população. Assim, no dia da eleição, ao fim da tarde, quando os primeiros dados eleitorais foram divulgados a desproporção dando a vitória ao ditador chamou a atenção. Era o indício da fraude que despertou os primeiros movimentos de protestos naquela mesma noite, sobretudo na capital Minsk.

    Nos dias que se seguiram, vimos emergir manifestações públicas cada vez maiores, reunindo milhares de pessoas em um fenômeno sem precedentes para o país. Essa movimentação foi seguida pela greve dos trabalhadores dos principais setores do país.

    As declarações públicas de Lukashenko geraram ainda mais protestos e sua aparição pública diante dos trabalhadores resultou em protestos e vaiais. Algo que ele não está acostumado a receber. A situação chegou ao patético do ditador apelar a Putin para uma eventual ajuda. Ou seja, a ameaça de intervenção russa voltou a circular.

    A Influência Russa na Belarus.

    A Belarus de Lukashenko sempre atuou na espera de influência da Rússia, sobretudo com Putin no poder. Por essa razão, vimos a cena patética de um presidente dizer que recorreria a outro para ajudar com o levante popular.

    No entanto, a Rússia tem os seus próprios problemas. Uma intervenção russa, como na Crimeia (ou mesmo na Síria), poderia resultar em reações tanto externa, como mais sanções econômicas. Lembrando que esse é um momento em que a economia russa passa por dificuldades, devido a queda no preço do petróleo e a pandemia. Além disso, a Rússia está lutando para uma presença de influência no cenário geopolítico, como pode ser observado com a questão da vacina, não por acaso denominada de Sputnik 5.

    Será que Putin estaria disposto a se colocar em risco para contribuir com Lukashenko? Ainda que Putin seja um estrategista repleto de surpresas e movimentos inesperados, uma ajuda a Belarus é um cálculo complicado não só pelas reações externas, mas principalmente pelas questões internas.

    O presidente Putin acabou de aprovar uma controversa reforma constitucional que o garante no poder perpetuamente. Esse referendo, suspeito, já provocou uma série de tensões no país. Recentemente protestos contra o seu poder foram registrados no extremo oriente da Rússia, na divisa com a China. Portanto, o cálculo envolve a seguinte questão: uma intervenção pode reforçar a imagem de autoritário e ditador, mas uma não intervenção pode significar que movimentos sociais como aqueles que agora parecem colocar fim ao regime de Lukashenko possa se espalhar pela Rússia.

    Nesse quadro, Putin terá que sentir a temperatura externa e interna para tomar a melhor decisão com relação ao regime. Não está descartado apenas trocar de figura no poder, mas que mantenha a política pró-Rússia que é, no fim das contas, o que realmente o interessa.

    Imprensa Russa

    Mesmo a imprensa russa, como a RT, já colocou a ditadura de Lukashenko como em um estágio final, ainda que observe que a sua última esperança esteja na proteção de Moscou e na vontade de Putin de que ele continue no poder.

    Putin, de acordo com a própria RT, ofereceu uma “vaga necessária assistência”. No discurso, a imprensa Russa coloca como ameaça a soberania da Belarus a influência de Varsóvia. Assim teríamos uma disputa entre Moscou e Varsóvia. Um discurso que tem por objetivo convencer o publico russo, pois o regime na Belarus parece estar chegando ao fim

    É o fim?

    Nesse momento, o ditador parece que conta apenas com as forças repressivas para conter a população. Será que isso será suficiente para manter a ditadura? As manifestações continuam crescendo a cada dia, bem como a violência. Nem mesmo a censura e os cortes na internet tem evitado a difusão de imagens da repressão para o mundo. A União Europeia, com protagonismo da Lituânia e da Polônia tem elevado o tom das críticas. Os próximos dias serão decisivos.

  • O Basquete na Lituânia e a Identidade Nacional.

    O Basquete na Lituânia e a Identidade Nacional.

    • O basquete na Lituânia
    • A história do basquete no Báltico
    • Basquete e o sentimento nacional

    O Basquete na Lituânia é mais do que um exporte! É a expressão da identidade nacional. O esporte e o sentimento de comunidade sempre andaram juntos. Em situações sociais ele representar o grupo, tribo, cidade estado, bairro, clube, fábrica. Formar grupos, desenvolver sentimento por ele e enfrentar o oponente está na essência do sentimento de tantos que se movem pela paixão por algum esporte. Na contemporaneidade, o esporte mobilizou, também, os sentimentos nacionais e alguns casos o sentimento de países ou grupos nacionais para os quais o direito a um Estado foi negado.


    Esse era o caso do basquete na Lituânia durante o período em que esteve ocupada pela União Soviética. Jogadores e times moveram os mais profundos sentimentos nacionais com as suas vitórias, fazendo lembrar um tempo em que a Lituânia era livre e podia ser representada com a sua seleção nacional.


    Quando a Lituânia conquistou novamente a sua independência, a seleção Lituânia pode disputar um jogo internacional carregando a sua bandeira. A explosão de sentimentos nacionais com o terceiro lugar em Barcelona em 1992 deu uma mostra de um sentimento que por décadas estava reprimido.
    Para entendermos um pouco da paixão dos lituanos pelo basquete vamos aqui recuperar alguns aspectos da história deste esporte naquele país. Focaremos neste texto na seleção nacional e suas rivalidades e deixaremos para um próximo a história dos clubes e como esses se desenvolveram e a biografia dos jogadores.


    A história do basquete lituano é muito significativa, pois o país é uma potência no esporte, mesmo com uma população diminuta. Se fizéssemos uma analogia, a Lituânia representa para o basquete mundial o que o Uruguai representa para o futebol. São pequenas potências! Entender o que a Lituânia significa para o basquete é aprender sobre a própria história do basquete.

    O basquete na Lituânia as primeiras cestas na independente.

    A história do basquete na Lituânia tem início com a primeira independência do país, em 1918, como um desdobramento da Primeira Guerra Mundial (1914 -1918) e o fim do Império Russo (1917). Já na década seguinte o esporte começou a se consolidou como prática nacional e se tornou vitorioso na década de 1930. Inicialmente, os lituanos jogavam uma variação do chamado netball que é jogado com uma bola menor e sem a tabela atrás da cesta. O esporte era praticado pelos alemães que ocuparam a região durante a Primeira Guerra Mundial. Os primeiros times formados no país eram femininos e foi naquele momento considerado um “jogo de mulheres”, já que não envolvia contato físico, como nas lutas.


    Na década de 1920, o basquete masculino, já com as regras parecidas com as atuais, começou a ser praticado pelos homens e o primeiro jogo oficial na Lituânia ocorreu em 1922. Embora tenha atraído a atenção e fosse jogado regularmente, o basquete profissional não prosperou rapidamente, pois perdia em popularidade para o futebol.


    O ponto de virada se deu em 1935. Naquele ano, ocorreu o Congresso Mundial dos Lituanos na então capital Kaunas, com o objetivo de reunir representantes das organizações dos emigrados lituanos. Para o congresso, a Comunidade Lituana de Chicago enviou diversos atletas incluindo um time de basquete com jovens jogadores que despontavam nos campeonatos do College. Com os jogos e demonstrações, o interesse dos lituanos pelo esporte começou a crescer. Os americanos-lituanos Juozas Žukas e Konstantinas Savickas decidiram permanecer na Lituânia para jogar e treinar os times do país.

    As Primeira Vitórias


    Em 1936, a Lituânia entrou para a FIBA e começou a disputar os seus campeonatos sofrendo grandes derrotas sobretudo para a Letônia, o seu maior rival. Os letões bateram os lituanos por placares como 123 a 10 e 31 a 10. Essas derrotas acabaram por produzir grandes mudanças no basquete lituano. A primeira delas foi não participar da Olimpíadas de Berlim em 1936, o primeiro ano em que o basquete se tornou um esporte olímpico.


    Na Letônia, o basquete também começou a se desenvolver na década de 1920 e com maior sucesso do que na Lituânia. Durante as décadas de 1920 e 1930, a Letônia teve um time com muitas vitórias no cenário internacional. A Federação Letã de Basquete foi fundada em 26 de novembro de 1923.


    Em 1932, foi uma das fundadoras da FIBA (Federação Internacional de Basquetebol), junto com a Suíça, Tchecoslováquia, Grécia, Itália, Portugal e Argentina. O primeiro campeonato nacional masculino foi disputado em 1924 e o feminino em 1933. Assim como na Lituânia, o desenvolvimento do basquete se deu em conexão com os Estados Unidos, pois os primeiros treinadores eram da YMCA (Young Men’s Christian Association) dos Estados Unidos.

    Seleção de Basquete Lituana, 1937


    A Letônia venceu o primeiro Campeonato Europeu de basquete em 1935 organizado pela FIBA. Como campeã, Riga sediou o campeonato europeu seguinte. Embora fosse a favorita nas Olímpiadas de Berlim, o time não conseguiu chegar às finais. O representante do Báltico que mais avançou foi a Estônia que competia internacionalmente pela primeira vez.


    Para disputar o torneio em Riga, o time lituano decidiu não contar com jogadores “americanos”, mas uma publicação na Letônia criticando o time lituano e o colocando como o pior do torneio fez com que os lituanos mudassem de ideia. Dois jogadores foram trazidos para a Lituânia: Pranas Talzūnas e Feliksas Kriaučiūnas, o último foi designado também como técnico. A manobra junto com a intensa preparação deu certo e a Lituânia venceu pela primeira vez um título europeu batendo a Itália na final.

    Como vencedora, a Lituânia organizou o torneio em Kaunas e para ele contou com jogadores descendentes de lituanos nascidos nos Estados Unidos o que gerou protestos por parte das demais delegações. A Lituânia venceu o segundo torneio derrotando a Letônia na final e o basquete se tornou o esporte nacional.


    O sonho dos lituanos era o de vencer a Olimpíadas de 1940, mas a Segunda Guerra Mundial e a invasão do país pela União Soviética adiaram esse sonho. Um sonho que só foi retomado com a segunda independência, em 1991.

    Os jogadores Lituanos no período soviético

    Com a ocupação soviética da Lituânia que passou a fazer parte da União Soviética, o time de basquete nacional foi eliminado e os principais jogadores passaram a fazer parte da seleção da União Soviética.

    Os jogadores lituanos passaram a fazer parte do time soviético a partir da olimpíada de 1952, já que a URSS não participou da de 1948, e tiveram como resultado um segundo lugar, perdendo apenas dois jogos para os Estados Unidos. Nesse time jogaram os lituanos Stepas Butautas, Kazimieras Petkevičius, Justinas Lagunavičius e Stanislovas Stonkus.

    A partir de 1969, o lituano Modestas Paulauskas se tornou o principal jogador e o capitão da União Soviética. Na Olimpíada de 1972, disputada em Munique na Alemanha, a União Soviética superou os Estados Unidos, que até então haviam vencido todas as olimpíadas, e ficaram em segundo lugar, quebrando uma hegemonia que vinha desde 1936.

    A outra derrota dos Estados Unidos para a URSS viria em Seul (1988) lembrando que os Estados Unidos boicotaram a Olimpíada de Moscou (1980) e a URSS boicotou a Olimpíada de Los Angeles (1984).

    Em 1988, a seleção da União Soviética tinha como principais jogadores de basquete os lituanos: Arvydas Sabonis e Šarūnas Marčiulionis. Eles lideraram o melhor time da União Soviética, que ainda contava com Rimas Kurtinaitis, Valdemaras Chomičius. A seleção soviética derrotou os Estados Unidos na semifinal e ganhou a medalha de ouro.

    O basquete dos Estados Unidos entrou em crise, pois apenas um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil, liderado por Oscar e Pipoca.

    Diante das derrotas, os americanos decidiram que para as próximas Olimpíadas passariam a enviar os jogadores da NBA.Era o início do Dream team, liderado por Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird.

    A União Soviética não sobreviveu até a Olimpíada de Barcelona, disputada em 1992, mas os principais jogadores daquele time soviético poderiam defender pela primeira vez a sua seleção nacional. A Lituânia enfrentou os Estados Unidos e seu Dream Team.

    O Basquete na Lituânia: De Volta ao Jogo!

    As Olimpíadas de Barcelona foram um momento marcante para a história dos países bálticos. Depois de quarenta anos, eles voltavam a disputar uma Olimpíada carregando as suas próprias bandeiras.


    Ao contrário dos demais países que faziam parte da União Soviética, Estônia, Letônia e Lituânia se recusaram a integrar a CEI (Comunidade dos Estados Independentes). As suas delegações não eram grandes, mas eram representativas de um sentimento nacional e de uma esperança de independência que por décadas foram suprimidas.


    Entre as atrações principais dos países bálticos estava a seleção de basquete da Lituânia. Seus principais jogadores, Arvydas Sabonis e Sarunas Marciulionis, lideraram o melhor time da União Soviética, campeão da Olimpíadas de Seul. Agora, o time soviético estava dividido, mas as suas estrelas principais comandavam a Lituânia. A Lituâniavenceu todos os seus jogos até enfrentar os Estados Unidos nas semifinais, quando perdeu de 127 a 76. Para entendermos o que aconteceu naquele jogo temos que voltar um pouco no tempo e recuperar uma história que também envolve o basquete brasileiro.


    Os Estados Unidos vinham de duas derrotas humilhantes no basquete. Em1988, na Olimpíadas de Seul, eles perderam nas semifinais para a União Soviética. Um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil liderado por Oscar e Pipoca. Além do talento dos jogadores que venceram os Estados Unidos, outra questão importante que explica essas duas derrotas foi a mudança no sistema de pontuação.


    A FIBA introduziu a cesta de três pontos, enquanto os campeonatos nos Estados Unidos mantiveram o sistema de pontuação antigo. Como resultado, das duas derrotas, mudanças foram realizadas no basquete americano. Eles passaram a incluir a cesta de três pontos no College e na NBA (National Basketball Association). Pressionaram o comitê olímpico para aceitar a inscrição dos jogadores da NBA no time olímpico. Em resumo, Brasil e os jogadores lituanos atuando pela União Soviética mudaram a história do basquetebol.

    O Outro “Dream Team” De Volta ao Pódio

    Em 1992, a Lituânia passava por enormes dificuldades financeiras e o recurso para levar o time para Barcelona eram poucos. O drama dos lituanos se espalhou pelo mundo. Comovidos, a banda de rock americana Grateful Dead resolveu financiar as passagens de todo o time lituano para as Olimpíadas.


    Para Barcelona, os americanos formaram o chamado “time dos sonhos”, Dream Team, com Michel Jordan, Magic Johnson e Larry Bird. Para muitos especialistas, este foi o melhor time de basquete de todos os tempos. A superioridade era tão grande que a audiência dos jogos se dava pelos astros, pelo show, para saber quem perderia por menos pontos ou qual jogador americano faria mais cestas. Com esse time os EUA derrotaram a Lituânia na semifinal.

    Time Lituano, Barcelona, 1992.


    Para completar a história, a disputa da medalha de bronze foi conquistada contra a CEI, sendo muitos jogadores ex-companheiros de seleção e de clubes. Não importava em que lugar ficasse a bandeira nacional. Os hinos da Estônia, Letônia e Lituânia, proibidos até dois anos antes, foram tocados e os jogadores subiam ao pódio também para celebrar as independências nacionais.


    O terceiro lugar não deixou nenhum lituano triste. Ver a bandeira no pódio, a sua camiseta e a suas cores foi de uma alegria enorme para os lituanos e seus descendentes. Outro aspecto que chamou a atenção foi a camiseta utilizada no pódio.


    O artista psicodélico americano Greg Speirs presenteou o time com uma camiseta com uma caveira “enterrando” uma bola entre raios coloridos com as cores da bandeira da Lituânia. A arte foi adotada como um símbolo do basquete lituano e foi a camiseta mais vendida na Olimpíadas seguinte disputada em Atlanta nos EUA.

    Sugestão sobre o basquete na Lituânia

    O Documentário The Other Dream Team (2012) do diretor Marius Markevicius de 2012 é uma excelente obre sobre o time lituano na Olimpíada de Barcelona. Vale investir, mesmo se você não encontrar uma versão em português.

  • Brexit: considerações e palpites.

    Brexit: considerações e palpites.

    Por que o Brexit? 

    • Os motivos do Brexit
    • A União Europeia e o Brexit: história
    • Imigração e o Brexit

    Já que estão todos dando palpites e pitacos sobre o Brexit, aqui vão os meus.Toda a campanha Brexit foi conduzida pela direita xenófoba e com um discurso saudosista e nacionalista.

    No entanto, é importante lembrar que uma parte da esquerda sempre foi crítica à União Europeia e, mesmo o líder do Partido Trabalhista, não é lá um grande entusiasta (ou não foi durante muito tempo). Para além disso, a esquerda radical apoiou a saída e uma grande parte da classe trabalhadora também. Acrescentamos que uma grande parte da classe trabalhadora é contra as políticas migratórias.

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    Com o colapso da União Soviética em 1991, ao invés da União Europeia providenciar uma espécie de Plano Marshall que pudesse desenvolver, ou colocar a Europa Oriental nos trilhos, (como a Alemanha fez com a sua parte oriental), ela optou, baseada na teoria neoliberal, por abrir as portas do mercado para o Oriente, terminando de quebrar as empresas orientais recém ingressas no capitalismo, e permitir o fluxo da mão de obra (imigração).

    O ingresso da Polônia, principalmente, e dos países do Báltico (Lituânia, Letônia e Estônia), na União Europeia provocou uma onda interna de imigração na União Europeia. Esse fluxo se somou aos fluxos imigratórios das ex-colônias da Grã-Bretanha, já “tradicionais”, e aos refugiados dos conflitos no Oriente Médio.

    Essa imigração do leste europeu foi tão grande que na Lituânia é costume dizer que “os lituanos não estão emigrando, mas estão evacuando o país”. Assim como no caso polonês, um dos principais destinos é a Grã-Bretanha.  (sobre a Lituânia e a União Europeia ler AQUI)

    E qual é o problema do Brexit?

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    Bandeiras

    A imigração em massa foi uma estratégia do capital para depreciar o custo da mão de obra na Europa Ocidental. Na Inglaterra, a conservadora Margaret Thatcher (1925 – 2013), que governou entre 1975 e 1990, foi eliminando praticamente todos os direitos trabalhistas e os sindicatos. Seu conservadorismo social e seu neoliberalismo na condução econômica eliminaram o estado de bem estar social e privatizando todos os serviços públicos.

    A partir da década de 1990, com a imigração em massa do Leste Europeu, a mais uma abundante mão de obra, disposta a trabalhar por qualquer coisa, se acomodou a ausência de direitos trabalhistas. O resultado foi o empobrecimento da classe trabalhadora e a ampliação da desigualdade em níveis que só têm paralelos na Revolução Industrial do século XIX. Com a crise de 2008, a situação se agravou ainda mais. Vale lembrar, que a Grã-Bretanha que ainda segue a cartilha neoliberal como dogma é o único país desenvolvido que ainda não superou a crise de 2008, ao contrário da Alemanha, da França e dos Estados Unidos, por exemplo.

    As possibilidades do Brexit

    Diante desse quadro temos duas saídas possíveis:

    À direita: nacionalismo, saudosismo e xenofobia. Esses sentimentos dão a ilusão de que a mera remoção dos imigrantes resolverá o problema social, com a retomada do emprego. É uma ideia falsa! Pois removidos os direitos trabalhistas a desigualdade permanece! Ou seja, enquanto as práticas neoliberais persistirem persiste a desigualdade.

    À Esquerda: a do papel do Estado na promoção da equidade social. Aí temos um problema, pois a esquerda não sabe o que fazer com os imigrantes. De um lado, ela defende os direitos individuais e o de imigrar e o multiculturalismo (no que está certa!), mas o que fazer com essa mão de obra (imigrantes) trazida estrategicamente?

    Um problema sensível da esquerda é que ela, de uma forma ou de outra, sempre conseguiu atuar no âmbito nacional, mas não conseguiu efetivamente se organizar no âmbito internacional e menos ainda dentro da União Europeia. Jamais foi capaz de propor uma reforma igualando os direitos dos trabalhadores e a legislação trabalhista, por exemplo. Pelo contrário, como no vergonhoso caso francês é a tradicional esquerda que propôs a reforma trabalhista. O resultado final, salvo o cosmopolitismo londrino e de jovens que já nem mais conseguem se ver como parte dos “trabalhadores”: a saída foi vitoriosa.

    Depois da Euforia

    Apesar da euforia da extrema direita francesa, alemã e holandesa, o brexit não é necessariamente um indicativo da vitória da direita, ao menos na Inglaterra. A situação ali parece ser bem mais complexa. Por um lado, temos a popularidade do líder trabalhista inglês, Jeremy Corbyn. Por outro, é necessário saber se os conservadores vão conseguir se manter no poder e por quanto tempo.

    Em outras palavras quem fará a transição? Em que termos ela será feita? Quais os efeitos para a economia nos próximos meses? Nesse momento, qualquer tentativa de resposta para essa questão é apenas um chute!

    Aquele que conseguir intermediar as insatisfações sairá na frente neste processo.

    Com relação ao futuro da União Europeia, ao menos nos parâmetros em que a União está dada, será difícil se manter. É de fundamental importância lembrarmos que a estrutura de poder da União Europeia foi desenvolvida a partir de múltiplos acordos. A União Europeia foi articulada através da construção de consensos e não para a solução de crises. Na verdade, a União Europeia não tem mecanismos de solução de crises! Por isso sua movimentação e as respostas às crises são muito lentas…

    Por fim, será necessário acompanhar com muita atenção como a Grã-Bretanha vai lidar com a questão dos imigrantes. Uma política restritiva terá consequências desastrosas para outros países da União Europeia, notadamente, a Polônia e os países do Báltico.

  • Porto Rico em Crise: soluções?

    Porto Rico em Crise: soluções?

    • Crise em Porto Rico
    • Eleição Americana, 2016
    • A Proposta do Senador Sanders

    A crise em Porto Rico é um anúncio da crise americana? É uma pergunta apenas provocativa! Mas que chama a atenção para a precária situação institucional e financeira deste que é um “Estado livre associado” aos Estados Unidos da América (EUA). Com uma dívida de aproximadamente 73 bilhões de dólares, a pequena ilha caribenha não parece ter forças para arcar com sua dívida, sem causar um caos social.

    História de Porto Rico 

    A situação de Porto Rico é bastante intrigante, pois a ilha é parte dos Estados Unidos como um “estado livre associado”. Ou seja, juridicamente é parte dos Estados Unidos, mas não tem a mesma autonomia e direitos dos outros Estados que compõem os Estados Unidos da América.

    Porto Rico era parte do Império Espanhol na América até o fim do século XIX. Com a intervenção dos Estados Unidos na Guerra de independência de Cuba, deu-se início a Guerra Hispano-Americana que terminou com o tratado de Paris de 1898. Nesse tratado, a Espanha repassou por período indeterminado a autoridade colonial sobre Porto Rico.

    Em 1917, os Estados Unidos estenderam o direito de cidadania aos nascidos em Porto Rico. No entanto, alguns direitos lhes foram negados, como o de votar para a Presidência da República (embora possam votar nas primárias atualmente).

    É bem verdade que sempre houve grupos pró-independência em Porto Rico. Alguns com ações violentas, mas nas duas vezes em que a questão da autonomia foi levada a referendum a população optou por outro caminho. No referendum de 1998, foi decidido pela não independência e pela manutenção de Estado Associado.

    Em dezembro de 2012, um referendo na Ilha expressou, por 65%, a vontade de Porto Rico em se tornar um estado dos EUA. No entanto, para alcançar esse status é necessária a aprovação do Congresso Americano, o que ainda não aconteceu. Se é que vai acontecer! Assim, Porto Rico tem o direito de eleger o seu próprio governador e sua língua oficial é tanto o inglês quanto o espanhol. O espanhol é mais utilizado.

     A Crise em Porto Rico

    Atualmente, Porto Rico detém uma dívida de aproximadamente 73 bilhões de dólares. Ela foi adquirida através de empréstimos com diversos fundos e o atual governador Alejandro Garcia Padilha declarou que a dívida é simplesmente “impagável”. A ilha já deixou de realizar pagamentos, o que levou a uma situação de desgoverno.

    A situação chegou ao Congresso Americano que deveria apontar soluções para o problema. Depois de meses de inação, aprovou uma medida intitulada PROMESA (Oversight Management and Economic Stability Act), em um acordo entre os dois partidos Republicanos e Democratas. De acordo com o ato seriam escolhidos pelos líderes do Congresso sete membros fiscais com amplos poderes de negociação. Eles também poderiam realizar cortes no orçamento poderiam suspender leis locais e congelar pagamentos.

    Críticos a essa medida observam que uma comissão com tais poderes seria uma forma de recolonização de Porto Rico, mais do que isso. A comissão atuaria em favor dos credores e não da população local ampliando a crise na Ilha, que já acumula taxa de desemprego de 12%. Uma taxa muito maior do que a média dos outros Estados Americanos. Acrescenta-se a esse fator desestabilizador a enorme emigração, sobretudo entre os mais jovens.

    É preciso lembrar que muitos cidadãos de Porto Rico tem suas poupanças e aposentadorias investidas em títulos do governo, ou seja, a depender da negociação a ser realizada, o resultado pode ser a ampliação da pobreza principalmente na população mais vulnerável.

    Solução proposta por Sanders?

    Todas essas questões surgem, pois Porto Rico, como Estado Associado, não tem os mesmos direitos dos demais Estados. Por exemplo, o de utilizar a lei de falências que já foram utilizadas por cidades como Detroit. Neste sentido, desprotegido de uma lei que possa representar segurança e dar alguma margem de negociação para Porto Rico, seus credores têm poucos motivos para acelerar um processo de negociação ou reestruturar a dívida, já que não estão sujeitos às leis Americanas.

    Em um último esforço para aliviar a situação, o Senador e pré-candidato à Presidência Bernie Sanders propôs que o “Banco Central Americano”, o FED, use a mesma “imaginação” e engenharia financeira utilizada para resgatar empresas em dificuldades durante a crise de 2008. Na ocasião, o FED abriu os seus cofres e ofereceu bilhões em empréstimos e subsídios para salvá-las da falência.

    Por agora, ao que tudo indica, a voz de Sanders parece ecoar solitária. Os Olhos do público americano (ao menos aqueles que se preocupam com a coisa pública) está voltado para as próximas eleições.

    O debate 

    A discussão sobre Porto Rico tem ocupado um lugar bastante marginal na imprensa dos Estados Unidos. Ele também não foi tratado com a devida atenção por nenhum dos pré-candidatos (a exceção de Sanders dentro do Congresso). Parece que assim, a situação de Porto Rico, terá que ser tratada pelo próximo Presidente já que a dívida, que tem uma significativa parcela a vencer no dia Primeiro de Julho e, ao que parece, não será paga.

    Qual será o futuro de Porto Rico? E como os EUA vão lidar com os seus débitos? Perguntas que o próximo Presidente dos EUA terá que responder.

  • Sobre Sanders e a eleição americana 

    Sobre Sanders e a eleição americana 

    Caros amigos,

    Tive a oportunidade de publicar uma síntese das minhas reflexões sobre Bernie Sanders e a eleição americana no blog do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais IPPRI/UNESP

    O artigo sobre Bernie Sanders e a eleição americana tem o título: Um Socialista à Americana? Conheça Sanders, o democrata. Segue o link: http://neai-unesp.org/um-socialista-a-americana-conheca-o-democrata-bernie-sanders-por-erick-zen

  • Bernie Sanders e a Eleição Americana

    • Candidatura de Bernie Sanders
    • Ideias democratas socialistas
    • Socialismo nos Estados Unidos

    O Fenômeno Democrata Bernie Sanders

    Na imprensa brasileira, e mesmo nas publicações especializadas, fica evidente a dificuldade dos analistas em entenderem o fenômeno Democrata Bernie Sanders. Para muitos, um candidato à presidência dos Estados Unidos que se apresente como Democrata Socialista, é exótico! Para outros, ele não seria um “verdadeiro socialista” e, finalmente, a direita, já utilizou até mesmo a palavra populista para defini-lo.

    Neste pequeno texto vou esboçar (sim esboçar!) a resposta para duas perguntas: 1) Por que os analistas brasileiros têm dificuldade em lidar com os fenômenos da política interna dos Estados Unidos ? 2) O que o fenômeno Sanders nos diz sobre a sociedade americana? Esse texto completa o primeiro publicado AQUI

    O Brasil é o seu Eurocentrismo

    Uma das coisas mais impressionantes sobre as Ciências Humanas no Brasil é o seu eurocentrismo! Eurocentrismo tanto na elevada carga horária dos cursos de graduação como na visão europeia de mundo que coloniza a nossa percepção. Apenas aponte um único curso de História de Ciências Políticas, Relações Internacionais e Jornalismo que se dedique a História e a sociedade americana e eu mudo esse parágrafo. No geral, o que vi (e mais de uma vez) foi a História da América Latina e História dos EUA perderem espaço nas grades dos cursos substituídas, na maior parte das vezes, por um blá-blá-blá pseudo teórico ou por regionalismo provincianismo pseudo culturais.

    Com isso, o nosso conhecimento, e a produção do conhecimento, sobre Estados Unidos é muito limitado. No que se refere as questões temáticas, em geral, os estudos se limitam a política externa americana e sua influência no Brasil e muito pouco sobre a sociedade americana (a excessão são as comparações entre escravismo no Brasil e nos EUA).

    Nossos analistas.

    Como resultado, não dispomos de analistas que tenham instrumentos intelectuais adequados para interpretar a sociedade e a política americana e, quando a fazem, utilizam instrumentos e paradigmas europeus para a análise. Isso é realmente incrível! Afinal, qual foi o país mais influente no Brasil em termos culturais e políticos no último século? E justamente este é o que você, caro colega de humanas, não estuda!

    Diante deste quadro, o que resta são muitos chutes e desentendimentos. O fenômeno Sanders poderia servir como estudo de caso, nesse sentido. O primeiro erro é tentar analisar o que Sanders propõe como “socialismo” através da história da Europa. Assim, tentamos entender Sanders pela lente do Partido Social Democrata Alemão ou pelo Partido Socialista Francês, ambos utilizados como paradigma de social democracia. Ocorre que, em grande medida, o “socialismo”, tem um desenvolvimento histórico particular nos Estados Unidos.

    O Desenvolvimento do Socialismo nos EUA

    Se é verdade que o Partido Socialista e o Comunista Americano seguiram por longo tempo os caminhos da Segunda e da Terceira Internacional, no que se refere ao campo das ideias, muitas perspectivas socialistas e anarquistas nos EUA se combinaram com um liberalismo radical, em particular na virada do século XIX para o XX. Portanto, se não for considerado o desenvolvimento particular do socialismo nos EUA, a tendência que se tem é de considerar Sanders como um exótico, ou como um falso socialista. Na verdade, a dificuldade aqui são dos analistas e não do candidato.

    Um dos lugares mais profícuos do desenvolvimento socialista e anarquista nos EUA foi Nova York, em especial em dois bairros no Harlem e no Brooklyn. Bairros estes que são tradicionalmente de operários negros, mas também de imigrantes do leste Europeu, no início do século, e de imigrantes latinos, a partir da segunda metade do século XX.

    No Brooklyn, como filho de judeus imigrados da Polônia, que Sanders nasceu e foi criado, em uma família com ideias de esquerda. Em muito, esses imigrantes operários, como ele, se desenvolveram economicamente e chegaram ao sonho da classe média americana.

    O socialismo de Sanders

    Portanto, o socialismo que Sanders viveu e viu se desenvolver como princípio e ideal é histórico e não oportunista. O socialismo americano, no decorrer do século XX (e aqui precisaria de páginas e páginas para explicar como), toma bandeiras como da igualdade e equidade o que muito significou salário justo, direitos trabalhistas, direitos civis (sobretudo para inclusão do negro, indígena e das mulheres).

    Ao mesmo tempo, também apresentou uma crítica aguda ao domínio do Estado por uma plutocracia financeira, ao segredo de Estado, as guerras não justificadas, a crítica ao crescente poder do complexo militar e industrial sobre democracia. Não foi atoa que a primeira aparição de Sanders como ativista político se deu na luta por direitos civis e contra a Guerra do Vietnam.

    A essas bandeiras, a esquerda socialista americana acrescentou uma defesa dos direitos humanos e aos direitos constitucionais e principalmente, (principalmente!) nos direitos dos trabalhadores! E a defesa do poder local como fundamental para a democracia.

    Bernie Sanders Carregou Essas Bandeiras

    Desde que se iniciou na atividade política, Sanders carregou todas essas bandeiras, mesmo quando isso significou enormes contradições. Por exemplo, sua defesa radical da constituição americana, o que inclui a Segunda Emenda, fez com que ele nunca defendesse a restrição ao uso das armas de fogo! Quando foi eleito como Governador do Estado de Vermont recebeu doações da NRA (Associação Nacional do Rifle), principal lobista dos fabricantes de arma.

    Por outro lado, sua coerência fez com que ele fosse um dos poucos Senadores a votar contra a intervenção militar no Iraque e ser um forte crítico das guerras recentes que os EUA se envolveu. Incluindo ai a guerra ao terror e ao excessivo poder das agências de informação para espiar os cidadãos americanos.

    Isso não significa que não tenha posições duras com relação a política externa, pelo contrário. Sanders é um grande defensor, por exemplo, do Estado de Israel. Em um comício de sua campanha um militante pró-palestina que o criticava foi retirado a força do evento.

    Bernie Sanders e suas ideias

    Se as ideias de Sanders não são novas, o que o levou a crescer politicamente a ponto dos democratas preferirem a ele e não a Clinton? A reposta está na defesa dos direitos trabalhistas! Esse é o ponto central!

    Desde a crise de 2008 os EUA passaram por uma enorme onda de desemprego que vai até 2010 (2011). Atualmente, a maioria dos americanos já recuperou o emprego (o desemprego está por volta de 5%). No entanto, nesse dado tem uma “pegadinha”.

    Se o emprego aumentou o salário diminuiu! Ou seja, os americanos que já estiveram próximos a classe média tem dificuldade em pagar as suas contas. Quem recebe o salário mínimo ($7 dólares por hora) não consegue pagar por aluguel ou hipoteca, ter um plano de saúde. Vale lembrar que nos EUA não há saúde pública universal e é preciso comprar um plano privado ou agora Estatal). Pagar educação (College) para os filhos também é proibitivo.

    É para essa população e para a classe média, que perdeu o seu poder de consumo, que as propostas de Sanders soam como música. Propostas tais como: elevação do pagamento mínimo, saúde universal, acesso a educação entre outras.

    O Papel dos jovens

    Ainda é preciso acrescentar o papel dos jovens que aderiram a campanha. Atualmente, as possibilidades de um recém formado em uma faculdade entrar ou de se manter na classe média, na atual situação americana, é bastante limitada. Com as enormes dívidas que os jovens acumulam para estudar, somadas as dificuldade para se conseguir um emprego, com benefícios ou contrato longo, a ascensão social é limitada.

    No mesmo sentido, as críticas ao poder dos financistas e ao complexo militar na democracia americana, e a proposta regulamentar essa participação, revelam que a maior parte dos americanos entendem que a sua democracia corre risco, quando o poder financeiro é maior do que participação popular.

    O candidato Bernie Sanders, portanto, não é um exótico, oportunista, populista. Pelo contrário, ele faz parte das lutas políticas e das crises recentes pelas quais os Estados Unidos passaram nas últimas décadas. A luta é histórica e ganhou força diante de uma conjuntura em parte estrutural e em parte específicas. Se tudo isso será suficiente para conseguir a vitória sobre Hillary Clinton e sobre o candidato Republicano ainda é cedo para saber. O que certo é que tentar entender Sanders e suas ideias a partir de uma referência europeia ou latino-americano não vai facilitar o nosso entendimento do processo eleitoral americano.

  • Bernie Sanders Um “Socialista” na Casa Branca?

    Bernie Sanders Um “Socialista” na Casa Branca?

    • A pré-candidatura de Bernie Sanders
    • Uma análise da trajetória
    • Sobre as suas ideias

    A mídia tem destacado recentemente a candidatura do midiático, machista, anti-imigrantes, anti-latinos, anti-China e anti-etc. Donald Trump. Com seu jeito espalhafatoso, cabelo engraçado e sem nenhuma educação – em recente debate chegou a perguntar a uma mulher que o questionava se ela estava “no seu período” (TPM) – o candidato tem chamado a atenção de todo o mundo, mais pelas suas bobagens do que pelas suas propostas. Contudo, o fato mais relevante dessas eleições primárias – período de definições dos candidatos nos dois partidos – está do lado Democrata, com o crescimento de Bernie Sanders.

    Em sua página, Bernie Sanders se define como um “democrata socialista”. Seu programa de governo é uma ruptura tanto com as plataformas do atual presidente Obama, como com as tradicionais plataformas apresentados pelos candidatos Democratas. Sua trajetória política não deixa dúvidas sobre o seu desejo de mudar os Estados Unidos. Ao longo de muitos anos como congressista, a maior parte das vezes eleito de forma independente, sem vínculos com Democratas ou Republicamos, ele defendeu as posições mais progressistas. Entre elas: sistema de saúde universal, direito LGBT, igualdade de pagamento para homens e mulheres, igualdade racial, etc.

    Bernie Sanders uma trajetória pelos Direitos Civis

    No Congresso foi um dos poucos a votar contra a Guerra no Iraque durante o governo Bush. Criticou ainda ferrenhamente o corte de impostos para os ricos feitas por este presidente. Posicionou-se contra o USA Patriotic Act, adotado após o atentado terrorista de 11 de setembro, que deu enormes poderes de espionagem e retirou direitos civis. Mais recentemente se tornou um dos críticos dos programas de espionagem defendendo, como sempre, os direitos civis.

    Sua paixão pelos direitos civis tem uma longa trajetória e um acúmulo de experiência que deixam claro não se tratar de um oportunista. Ele é um militante histórico em prol das causas em que acredita. Iniciou sua carreira na juventude da Liga Popular Socialista, participou ativamente da luta pelos Direitos Civis na década de 1960, do histórico Congresso pela Igualdade Racial, bem como diretamente se envolveu no movimento estudantil pacifista contra a Guerra do Vietnã. Em 1963, ele participou da Marcha de Washington por Emprego e Paz.

    No seu Estado, Vermont, foi eleito Mayor por três vezes prefeito de Burlington, a principal cidade. Serviu como Congressista deste Estado por dezesseis anos e foi eleito Senador em 2006 e reeleito em 2012 com 71% dos votos.

    Desta forma, Sanders reúne duas características muito importantes: uma ampla trajetória e larga experiência na administração pública, além de uma incondicional luta pelos direitos das minorias. Sua visão de economia também é bastante diferente da dos demais candidatos. Ele não defende uma forma de liberalismo, mas a de ver nos países nórdicos um possível horizonte. Assim, propõe que os mais ricos paguem mais impostos e que o Estado seja provedor de melhores e universais serviços públicos, como saúde, educação, etc.

    Bernie Sanders é um candidato de esquerda?

    Não há dúvida de que Sanders é o candidato mais à esquerda que os Estados Unidos tiveram na sua história recente. Ao menos com chances reais de vitória. No entanto, o seu radicalismo político está longe da esquerda radical europeia ou latino-americana. Sua visão de transformação está mais próxima a uma humanização do sistema econômico, através de garantias de direitos universais através do Estado

    Se Sanders vai superar Clinton ainda é cedo para saber. Nas últimas pesquisas ele já aparece muito bem posicionado. Mesmo diante dos possíveis candidatos Republicanos, o que tem aumentado significativamente as suas chances de vitória nas primárias.

    Analisando o conjunto, o comportamento do eleitorado americano, ao que parece, está buscando, por um lado ou pelo outro, um candidato fora do status quo da política atual. Assim, o esperado e quase dado como certo, embate entre em os clãs Clinton e Bush está ficando para trás.

    E nós?

    O que é surpreendente, ou nem tanto, é que a mídia brasileira esteja dando tamanho espaço para Donald Trump. Ela nem mesmo olhe para as outras possibilidades. Ela parece preferir alguém que seja machista, anti-imigrantes, liberal e veja todo o resto do mundo como uma ameaça. Talvez a mídia brasileira veja no candidato midiático seu próprio reflexo e desejo. Por sorte a sociedade americana é bem mais complexa do que os jogos televisivos de humilhação coletiva.

  • Um Crime político na década 1940

    Um Crime político na década 1940

    • Um Crime Político
    • Mataram Alfonsas Marma
    • Imigração Lituana
    Apresentação do Livro!

    Na narrativa oficial da história da nossa República o fim do período de governo de Getúlio Vargas (1930 – 1945) é denominado democrático. No entanto, um olhar mais acurado sobre o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946 – 1951) nos revela que, apesar da aprovação de uma nova carta constitucional em 1946, esteve longe de ser plenamente democrático, pelo contrário, a repressão política e os crimes políticos foram uma constante. Nesse livro analisamos um crime político: o massacre de Tupã, no qual morreu Alfonsas Marma.

    Capa. Mataram Alfonsas Marma.
    Capa. Mataram Alfonsas Marma.

    Durante o período Dutra estima-se que aproximadamente 50 militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) tenham sido assassinados pelas forças repressivas do Estado. Muitas dessas histórias e desses personagens permanecem desconhecidos da nossa sociedade, longe tanto da nossa história, como da nossa memória política. Memória essa que ficou ainda mais distante quando a Comissão da Verdade, decidiu, após receber pressão de organizações sociais e intelectuais, que seriam investigados os crimes políticos cometidos somente durante o Regime Militar.

    Não quero aqui reacender esse debate! Mas vale lembrar que o principal argumento era que não se deveria misturar o que ocorreu em um período de exceção, autoritário, com um período de liberdade democrática. Bom, considerando o período Dutra essa distinção é uma bobagem. Para além, na nossa história republicana, o assassinato político, sempre foi mais uma regra do que uma exceção. No mais, no Brasil sabemos que é possível reunir regra e exceção, democracia e autoritarismo ao mesmo tempo.

    Um crime político no governo Dutra

    O governo Dutra foi em tese pautado pela aprovação de uma nova constituição e de um processo eleitoral que não só deu legalidade ao Partido Comunista Brasileiro como fez de Luís Carlos Prestes um vitorioso nas urnas. Eis que uma armação política realizada pelo PTB recolocou o PCB na ilegalidade e todos os representantes legitimamente eleitos foram caçados. A partir desse momento o que se viu foi que a polícia política, como o Deops em São Paulo, deu início a uma implacável perseguição aos militantes políticos do PCB.

    Esse é um ponto a ser notado. A ruptura de regime do Estado Novo (1937 – 1945) para a democracia não significou uma mudança nas estruturas das instituições. Ou seja, as mesmas práticas, e os mesmos indivíduos, que atuavam na repressão durante o varguismo continuaram a atuar no governo Dutra. Essa manutenção das instituições repressivas e até mesmo o seu aprimoramento é que permitiram uma repressão tão feroz.

    Especificamente no caso de São Paulo, durante o governo de Adhemar de Barros o Deops, passou por mudanças estruturais sendo mesmo criada uma Delegacia de Expulsandos, mais tarde renomeada para que o propósito de deter e expulsar estrangeiros não ficasse tão evidente.

    Mataram Alfonsas Marma

    Se a Comissão da Verdade não fez o processo de investigação dos crimes políticos no pós-Varguismo cabe a nós historiadores fazermos. Eis, portanto, a pequena contribuição que quis oferecer com a história de um dos assassinatos cometidos pela polícia durante o processo repressivo de 1948-1949. Procurei traçar na forma biográfica a trajetória do imigrante lituano Alfonsas Marma que desde jovem participou das atividades políticas e sociais entre os lituanos na cidade de São Paulo.

    Aprendeu a função de gráfico ao trabalhar em diversos jornais. Foi preso e expulso do Brasil em 1930. No Uruguai, onde se estabeleceu, ajudou na formação dos principais jornais em idioma lituano naquele país. Retornou clandestinamente e voltou a atuar nas principais organizações e jornais lituanos até ser novamente preso e, após ser libertado, assassinado pela polícia.

    Essa é apenas uma das mais de 50 histórias que ainda devem ser recuperadas para que possamos entender melhor a nossa República, a nossa história política e o lugar que a violência e os crimes de Estado ocupam nessa.

    Referência:

    E.R.G. ZEN. Mataram Alfonsas Marma. Imigração, Comunismo e Repressão. Rio de Janeiro: Aped, 2015.

    Para Adquirir

    O livro pode ser adquirido AQUI