Categoria: Artigo

  • Cúpula EUA e Rússia no Alasca: passos para o impasse

    Cúpula EUA e Rússia no Alasca: passos para o impasse


    O encontro marcado para 15 de agosto, em Anchorage, no Alasca, reunirá o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em um momento tenso da guerra na Ucrânia.

    Embora apresentado como uma tentativa de abrir canais para a paz, o evento reflete mais uma disputa por narrativas e posições estratégicas do que uma convergência de objetivos. A única coisa certa desse encontro é que não sairá uma proposta de paz razoável.

    Continuidade da postura russa

    O Kremlin reafirmou que seus objetivos militares e políticos na Ucrânia permanecem inalterados, ou seja ocupação. Essa posição demonstra que Moscou não está disposta a abrir mão de ganhos territoriais duramente obtidos, utilizando a cúpula como palco para sua propaganda, colocando a Rússia como potência equivalente aos Estados Unidos.

    Putin deve insistir na sua falsa narrativa histórica e com ela buscar deslegitimar a Ucrânia, enquanto Estado e o povo ucraniano, como nação.

    Essa narrativa reforça a linha dura interna e envia um sinal claro de que não há concessões à vista. Afinal, Putin pediu aos russos sacrifício e  prometeu um Império. Ele já sacrificou mais de uma geração, com essa ilusão, e voltar como derrotado colocaria o seu regime em risco.

    Nesse momento, a Rússia parece estar em vantagem. Conquistou territórios, reorganizou a sua indústria bélica, em particular, a fabricação de drones, e dispõe de mercenários e dos norte coreanos para sacrificar.

    Enquanto a diplomacia se arrasta, a Rússia prepara novas operações no sul da Ucrânia, em Kherson, e mantém ataques com drones de longo alcance contra as principais cidades aumentando o risco de vítimas civis. Além das Infiltrações recentes em Dobropillya. Com a proximidade da cúpula, o risco é que esses movimentos militares sejam usados para reforçar a posição de Moscou à mesa de negociação.

    Condições impostas por Washington

    A Casa Branca, estabeleceu limites explícitos: não haverá qualquer acordo sem um cessar-fogo imediato e sem a participação formal da Ucrânia nas negociações. Trump acrescentou que, caso Putin se recuse a avançar em conversas, a Rússia enfrentará “consequências muito graves”. O que isso significa exatamente e se haverá recuos, não é possível saber. O certo é que o presidente não pode sair da negociação com a imagem de perdedor.

    Por isso, Trump mantém aberta a possibilidade de um segundo encontro, desta vez com a presença do presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, se houver avanços concretos e já jogando qualquer solução para um futuro indefinido.

    Reações da Europa e de Kiev

    A União Europeia rejeitou a exclusão de Kiev, afirmando que a integridade territorial da Ucrânia é inegociável.

    Em Londres, Zelenskyy reforçou que não aceitará concessões territoriais e obteve novas promessas de apoio militar.

    A Alemanha anunciou um pacote de US$ 500 milhões para reforço da defesa aérea, complementado por contribuições da Holanda e da Suécia. Esses movimentos indicam que, mesmo diante de conversas bilaterais entre EUA e Rússia, o eixo europeu continuará a sustentar a resistência ucraniana, pois uma derrota, ou mesmo a imagem de derrotados, traria graves consequências políticas, já que a popularidade dos seus líderes, principalmente na França e na Alemanha, não anda nada bem.

    A cúpula no Alasca se anuncia como um momento de alta visibilidade internacional, mas com poucas garantias de avanços concretos.

    Entre exigências e resistência e  inflexibilidade, cresce a percepção de que o encontro pode servir mais para a construção de imagem política do que para uma solução efetiva do conflito. Mesmo porque, como seria possível sair de uma negociação na qual ninguém pode sair com a aparência de perdedor?

    Referências:
    Reuters
    The Guardian
    Time
    Kyiv Post

  • Sul Global ou Leste Global?  Uma questão russa.

    Sul Global ou Leste Global?  Uma questão russa.


    • As origens históricas do Sul Global
    • Por que a Rússia prefere o termo Leste Global ?
    • Como diferentes países utilizam o Sul Global em sua diplomacia
    • As contradições e conflitos potenciais no uso político desses conceitos

    O que é o Sul Global?

    O conceito de Sul Global é uma construção político e geográfica que ganhou força no final do século XX na busca por alinhar  países em desenvolvimento, concentrados no hemisfério Sul.

    Ele substituiu expressões como “Terceiro Mundo” e “países subdesenvolvidos”, usados durante a Guerra Fria (1945 – 1991). Durante a  Guerra Fria,  o “Norte” reunia potências industrializadas, enquanto o “Sul” representava economias periféricas ou emergentes. Essa perspectiva se consolidou na Conferência de Bandung, em 1955, e no Movimento dos Não Alinhados, que buscavam maior autonomia frente à disputa entre Estados Unidos e União Soviética.

    Assim, o conceito passou a simbolizar solidariedade política, defesa de reformas na governança global e a promoção de cooperação econômica entre países em desenvolvimento.

    Mas se a Rússia, ou URSS, era parte no conflito global durante a Guerra Fria, como ela poderia fazer parte do Sul Global no século seguinte?

    A questão russa e o Leste Global

    A Rússia evita ser enquadrar no Sul Global e prefere empregar expressões como Leste Global ou “países amigos”.

    Essa escolha está ligada à estratégia de se apresentar como potência euroasiática equivalente a Estados Unidos e China, e não como parte de um bloco de países em desenvolvimento.


    Propagandistas do Kremlin associa o Leste Global à construção de um bloco civilizacional alternativo ao “Ocidente Coletivo”, formado por potências militares e industriais com interesses convergentes na Eurásia. Essa visão está conectada  com a ideologia  geopolítica do eurasianismo, que coloca Moscou como centro de um espaço integrado entre Europa Oriental e Ásia.

    Ao adotar esse enquadramento, o regime de Putin se afasta do peso histórico colonial implícito no termo Sul Global e reforça sua imagem de liderança no espaço pós-soviético.

    Ao contrário dos paises do Sul Global a Rússia não passou pela experiência histórica do colonialismo, pelo contrário, no século XIX, junto com os paises europeus, o Império Russo era uma potência imperialista.

    O Imperio Russo avançou para o Cáucaso, absorvendo territórios como a Geórgia, o Azerbaijão e o Armênia, além de incorporar vastas áreas da Ásia Central, incluindo o atual Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão, Cazaquistão e Tadjiquistão. Na Europa, dominou a região do Báltico e as Finlândia, além de partilhar a Polônia.

    Esse movimento foi impulsionado tanto por objetivos estratégicos, como o controle de rotas comerciais e a contenção de influências britânicas e otomanas, quanto por motivações ideológicas ligadas à missão civilizatória e religiosa do czarismo ortodoxo.

    No extremo Oriente, a Rússia expandiu-se para a Sibéria e estabeleceu presença no Pacífico, consolidando sua posição como um império transcontinental com interesses simultâneos na Europa e na Ásia.

    Nesse sentido, o regime de Putin que se apropria, tanto da imagem de grandiosidade do Império Russo, quanto da União Soviética, joga para o seu público interno a leitura euroasiatica de leste Global. Já a sua diplomacia, por estratégia aceita a ideia de Sul global por conveniência geopolítica.


    Como os países utilizam o Sul Global

    Apesar da posição russa, outros países do BRICS utilizam o conceito de Sul Global de formas distintas. A China se apresenta como líder do mundo em desenvolvimento, fortalecendo sua posição em fóruns multilaterais e ampliando sua influência na Ásia, África e América Latina.

    A Índia mantém a identidade de porta-voz dos não alinhados e organiza encontros específicos do Sul Global para reafirmar seu papel diplomático.

    Já África do Sul, emprega o conceito para sustentar sua liderança continental e propor reformas na ordem internacional.

    O Brasil, nos governos Lula e Dilma, usa o Sul Global como narrativa de mediação e protagonismo, buscando reformas multilaterais e intensificando a cooperação com países do Sul Global e Rússia.

    Contradições e conflitos potenciais

    O uso político do Sul Global cria uma base retórica de unidade, mas esconde contradições relevantes. Potências emergentes que defendem o conceito nem sempre compartilham os mesmos interesses econômicos ou estratégicos.

    Um exemplo é a China que se tornou credora de diversos países africanos e asiáticos, os colocando em relação de dependência.

    O Brasil, embora invoque o Sul Global, não superou a sua dependência econômica das potências do Norte e se tornou dependente do mercado Chinês, o que apontou para fragilidades importantes, nas crises mais recentes.


    A própria existência da narrativa russa do Leste Global demonstra que o termo não é neutro. Sua aceitação ou rejeição revela alinhamentos geopolíticos específicos.

    Diante das crises atuais, com os EUA e a guerra na Ucrânia, será importante perceber se de fato existe a  capacidade do Sul Global de articular uma política unificada, como sonha o Brasil, ou se a retórica acabara se esfacelado diante de interesses específicos.

    Para além, retomado o sonho expansionista imperialista russo, como ficou explícito com a invasão da Ucrânia, é de se perguntar: a Rússia deve ser de fato considerada como uma aliada no Sul Global? Ou para ela os BRICS e o Sul Global são apenas estratégias dentro de uma perspectiva de reconstrução de áreas de domínio e influência que remontam ao Império Russo e a União Soviética?

    É preciso repetir, a Rússia não passou pela experiência colonial, ela foi (e é) uma potência colonizadora e se o Sul global tivesse essa compreensão, para além da propaganda do regime Putin, as estratégias e expectativas de aliança seriam melhor dimensionadas.

  • Fronteiras Invioláveis: A Posição do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia

    Fronteiras Invioláveis: A Posição do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia


    Contexto da declaração conjunta

    O que é o Northern-Baltic Eight?

    Relação do grupo com a OTAN e a segurança europeia

    Consequências geopolíticas da posição adotada


    O Northern-Baltic Eight (NB8) reúne Dinamarca, Estônia, Finlândia, Islândia, Letônia, Lituânia, Noruega e Suécia. Trata-se de um fórum regional de cooperação política e econômica que, embora não seja uma organização formal com tratado constitutivo, atua de forma coordenada em questões de segurança, diplomacia e integração europeia.

    O grupo é formado por países nórdicos e bálticos que compartilham interesses estratégicos no Mar Báltico e no Ártico, áreas de crescente importância geopolítica.

    A declaração recente do NB8 reafirma que as fronteiras internacionalmente reconhecidas da Ucrânia são invioláveis e não podem ser alteradas pela força.

    O texto defende que a paz só será possível por meio de diplomacia firme, apoio militar e econômico contínuo à Ucrânia e pressão constante sobre a Rússia para interromper sua ofensiva.

    Os líderes ressaltam que qualquer negociação só deve ocorrer após a implementação de um cessar-fogo efetivo, de forma a preservar os interesses de segurança da Ucrânia e da Europa.

    O posicionamento do NB8 também reflete o alinhamento estratégico da maioria de seus membros com a OTAN. Atualmente, todos os oito países integram a Aliança Atlântica, com a Islândia, Dinamarca e Noruega como membros históricos, enquanto Estônia, Letônia e Lituânia aderiram em 2004, e Finlândia e Suécia se tornaram membros recentemente, em 2023 e 2024. Essa integração fortalece a capacidade de defesa coletiva e a interoperabilidade militar, permitindo respostas coordenadas diante de ameaças como a guerra na Ucrânia.

    A posição do grupo é um sinal político claro para Moscou e para a comunidade internacional de que qualquer tentativa de legitimar a ocupação de territórios ucranianos seria inaceitável, violaria o direito internacional e criaria precedentes perigosos. Aceitar a anexação de territórios obtidos pela força poderia encorajar novos conflitos e minar a estabilidade do sistema internacional.

    O fortalecimento da atuação do NB8 ocorre em paralelo à intensificação da presença militar da OTAN no flanco norte e leste da Europa. O Mar Báltico, agora cercado quase totalmente por países da Aliança, tornou-se um ponto crítico de dissuasão contra avanços militares russos.

    Além disso, a cooperação entre NB8 e OTAN vai além do campo militar, abrangendo cibersegurança, proteção de infraestruturas críticas e vigilância no Ártico.

    Essa sinergia amplia o alcance político e militar do grupo e demonstra que, no atual cenário internacional, alianças regionais funcionam como multiplicadores de poder dentro de estruturas multilaterais maiores.

    Referências

    Ministério das Relações Exteriores da Estônia. Declaração conjunta do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia. [Disponível em: https://vm.ee%5D

    Organização do Tratado do Atlântico Norte. Membros e datas de adesão. [Disponível em: https://nato.int%5D

    Conselho Nórdico de Ministros. Cooperação NB8. [Disponível em: https://www.norden.org%5D

  • Áustria repensa neutralidade militar diante da guerra na Ucrânia e debate sobre OTAN

    Áustria repensa neutralidade militar diante da guerra na Ucrânia e debate sobre OTAN

    Como a guerra na Ucrânia pressiona a revisão da neutralidade austríaca?

    Declarações da ministra Beate Meinl-Reisinger e o impacto político

    Reações internas e resistência de setores contrários à OTAN

    Perspectivas para a segurança austríaca no cenário europeu

    Desde 1955, a Áustria mantém uma posição constitucional de neutralidade permanente, evitando alianças militares e equilibrando relações com o Leste e o Oeste. A invasão russa da Ucrânia e o agravamento do ambiente estratégico europeu estão colocando essa postura histórica em debate. A recente fala da ministra das Relações Exteriores, Beate Meinl-Reisinger, afirmando que “a neutralidade por si só não nos protege”, trouxe o tema para o centro das discussões políticas e midiáticas do país.

    A neutralidade austríaca foi estabelecida após a retirada das forças aliadas no pós-guerra e tornou-se parte fundamental da identidade política do país. Neste texto, vamos examinar o contexto histórico dessa neutralidade, as declarações recentes do governo, as reações políticas internas e como a guerra na Ucrânia está influenciando o reposicionamento estratégico da Áustria. Pesquisas mostram que a maioria da população ainda defende a neutralidade, mas o clima geopolítico europeu mudou, com a Finlândia e a Suécia abandonando essa condição e ingressando na OTAN.

    Em entrevista ao jornal alemão Die Welt, Beate Meinl-Reisinger afirmou que “a neutralidade por si só não nos protege” e defendeu um debate público sobre a política de segurança da Áustria. Ela reconheceu que não existe maioria no Parlamento ou na sociedade para mudar a postura atual, mas sustentou que a discussão é necessária diante das ameaças russas e da instabilidade regional.

    A abertura para discutir a OTAN gerou forte reação de setores políticos, especialmente do Partido da Liberdade, que acusa o governo de seguir a agenda de armamento da União Europeia. Organizações e movimentos civis também anunciaram manifestações em defesa da neutralidade.

    Partidos de centro e liberais, por outro lado, defendem que a Áustria aumente seus gastos militares. A meta oficial é elevar o orçamento de defesa de cerca de 1% para 2% do PIB até 2032. A participação no programa europeu de defesa antiaérea European Sky Shield é vista como um passo relevante nesse sentido.

    O prolongamento da guerra na Ucrânia é o principal fator que está mudando a percepção sobre segurança na Áustria. A possibilidade de expansão do conflito para outras regiões da Europa aumentou a sensação de vulnerabilidade. A pressão diplomática dentro da União Europeia para que todos os membros fortaleçam sua defesa coletiva coloca a Áustria diante de escolhas estratégicas inéditas desde a Guerra Fria.

    A comparação com a Finlândia e a Suécia serve como alerta para Viena. Embora o contexto austríaco seja diferente, a experiência desses países mostra que alianças militares podem oferecer garantias de segurança que a neutralidade isolada já não consegue assegurar. O desfecho dependerá tanto do curso da guerra na Ucrânia quanto da capacidade de Viena de equilibrar sua tradição histórica com as novas demandas estratégicas.

    Referências

    Die Welt, Entrevista com Beate Meinl-Reisinger
    Daily News Hungary, Austria considers move from neutrality to NATO
    Central European Times, Austria should consider NATO membership
    Defense News, Austria is torn over age-old question of neutrality and NATO
    TVP World, Austria questions neutrality but NATO still far off
    Financial Times, Austria boosts defence amid European security concerns
    Wikipedia, Austria–NATO relations

  • Karol Nawrocki assume a presidência da Polônia e apresenta plano para ampliar a cooperação militar


    Novo presidente conservador quer expandir o Formato Bucareste 9, reforçar a OTAN e reposicionar a Polônia como potência regional

    Quem é Karol Nawrocki e como chegou ao poder?

    Karol Nawrocki assumiu oficialmente a presidência da Polônia esse mês (agosto de 2025), após vencer as eleições de junho com pequena vantagem no segundo turno.

    Historiador e ex-diretor do Instituto da Memória Nacional, construiu sua carreira defendendo uma leitura conservadora da história, com forte ênfase na soberania nacional e nos valores tradicionais poloneses. Sua eleição representa um realinhamento político no país, com maior protagonismo da direita nacionalista.

    A vitória de Nawrocki sinaliza uma mudança de rumo nas prioridades estratégicas da Polônia, especialmente na política externa e na segurança militar. Desde a campanha, ele vinha defendendo que Varsóvia deveria assumir um papel mais ativo na defesa do flanco oriental  da OTAN.

    Relação com os Estados Unidos e distanciamento da União Europeia

    Aliado próximo de Donald Trump, Nawrocki já indicou que pretende aprofundar a cooperação com os Estados Unidos e reduzir a influência política de Bruxelas sobre Varsóvia. Essa postura sugere possíveis atritos com a União Europeia, sobretudo em questões relacionadas ao Estado de Direito, imigração e integração econômica.

    Em seu discurso de posse no Parlamento, declarou que “os poloneses são responsáveis por construir o flanco leste da OTAN” e anunciou seu objetivo de transformar o atual Formato Bucareste 9, criado em 2015 após a invasão russa da Crimeia, em um “Bucareste 11”, incluindo países escandinavos. Essa ampliação teria como meta criar uma rede de defesa mais robusta contra ameaças vindas da Rússia e Belarus.

    Conflitos com o primeiro-ministro Donald Tusk

    O início do mandato de Nawrocki já é marcado por tensões com o primeiro-ministro Donald Tusk, líder liberal e defensor da integração europeia. As diferenças entre ambos vão muito além de posicionamentos ideológicos, envolvendo também a condução da política externa, o papel das Forças Armadas e a relação da Polônia com as instituições da União Europeia.

    Analistas políticos alertam que esse embate pode gerar impasses legislativos e comprometer a estabilidade política do país, especialmente se as divergências se intensificarem nos próximos meses.

    Impactos para a Ucrânia e para a segurança regional

    A postura de Nawrocki gera incertezas em Kiev. Embora mantenha um discurso de apoio à resistência ucraniana contra a Rússia, seu alinhamento com Trump pode levar a uma política mais pragmática, com pressão por negociações de paz. Isso levanta dúvidas sobre a continuidade de um apoio militar irrestrito.

    Ao mesmo tempo, a proposta de expandir o Formato Bucareste 9 com a entrada de países escandinavos poderia reforçar a dissuasão contra Moscou e ampliar a cooperação militar entre os membros da OTAN. Tal iniciativa colocaria a Polônia no centro da estratégia de segurança do norte e do leste da Europa.

    Um possível novo eixo de liderança na OTAN

    O plano de Nawrocki de transformar Varsóvia em um polo de liderança no flanco leste da OTAN pode reposicionar a Polônia como ator-chave na arquitetura de segurança europeia. Se bem-sucedido, o projeto aumentaria a influência política do país dentro da aliança atlântica e ampliaria sua capacidade de ação frente a ameaças regionais.

    O sucesso dessa estratégia dependerá da habilidade do presidente em equilibrar alianças externas, manter a coesão interna e administrar as inevitáveis tensões com a União Europeia. O mandato que se inicia será um teste decisivo para o futuro papel da Polônia na segurança europeia.

    Referências

    NATO. “Bucharest Nine (B9) Format and Regional Security Cooperation.” OTAN.int, 2024.

    Parlamento da Polônia. Discurso de posse de Karol Nawrocki, agosto de 2025.

    Warsaw Institute. “The Strategic Role of Poland in NATO’s Eastern Flank.” WarsawInstitute.org, 2025.

    Atlantic Council. “Poland’s Security Policy in the Context of US-Poland Relations.” AtlanticCouncil.org, 2025.

    Reuters. “Karol Nawrocki Sworn In as Poland’s New President.” Reuters.com, agosto de 2025.

  • Ucrânia: os erros de Putin

    Ucrânia: os erros de Putin

    Quando a agressão à Ucrânia teve início, as expectativa era que essa seria uma guerra rápida e a vitória da Rússia inevitável. Hoje, vemos um Putin derrotado, ao menos nos seus propósitos mais megalomaníacos de ocupação da Ucrânia.

    Mas quais foram os erros cometidos por Putin e seus seguidores?

    Preparei uma  lista deles:

    1 – Visão de mundo.  A invasão da Ucrânia é a consequência de uma visão de mundo sustentada pelo presidente Putin  e  seus seguidores. Nessa visão, a Rússia teria sido propositadamente fragilizada e ignorada, com o fim da União Soviética, o que daria legitimidade à ocupação da Ucrânia, como seu “espaço vital”, para usar as palavras dos propagandistas.

    2 –  Considera a  identidade nacional da Ucrânia uma  artificialidade. Nas suas peças de propaganda, buscava sempre associar o sentimento nacional ucraniano ao extremismo nazista, o que o levou a  duvidar da resistência ucraniana.

    3 – A ilusão de que os ucranianos que se identificam etnicamente como russos (que falam russo) aderiram às políticas do Kremlin. Ilusão compartilhada pelos russófilos de plantão.

    4 – Declínio do  Ocidente. A difusão da ideia de que o mundo vai ser governado por uma  aliança asiática. Assim, a União Europeia é apresentada como uma instituição frágil, incapaz de manter uma política própria e independente. A OTAN, como uma aliança que, apesar da sua expansão anti-russa, não conseguiria garantir mais a segurança dos seus membros e da Ucrânia. Aqui temos três avaliações erradas. 

    5 – Acreditar que por fornecer matéria prima, sobretudo o gás, para a Europa, essa seria incapaz de reagir. A reação foi brutal. As sanções, ao contrário das de 2014, provocaram danos na economia russa, que de aliada passou a ser dependente da China. Já a Europa, passo a passo ruma a outros fornecedores de gás petróleo, deixando a Rússia isolada. 

    6 –  A supremacia do Exército Russo. A propaganda russa, sobretudo aquela difundida pela RT e Sputnik, sempre mostraram as forças armadas russas, como modernizadas e eficientes. Imagem essa valorizada pela atuação na Síria. Como vemos, as ações militares foram ineficientes ao ponto de exigirem mudanças nos objetivos da guerra. Analistas apontam que a corrupção destruiu parte das forças russas, completamente despreparadas.

    7 – A irmandade com os ucranianos. Dentre as bobagens propagadas, a de que a Rússia evitaria a força total para não massacrar um povo com laços  históricos em comum foi a maior delas. Diante das derrotas russas, não foi possível esconder os massacres cometidos pelas forças russas. Essa irmandade não existe! Não existe ocupação imperialista civilizada. 

    8 – O desprezo do papel da Europa central e do Norte, como agentes na geopolítica. Polônia, países bálticos e escandinavos reagiram de forma dura e solidária a Ucrânia e passaram a exercer pressão tanto na União Europeia, quanto na Otan (com a já anunciada adesão da Finlândia e da Suécia), para ações mais decisivas, empregaram recursos vultosos, se abriram para abrigar a onda de refugiados, além de sistematicamente denunciarem a Rússia e os crimes cometidos. Assim, se tornaram protagonistas na geopolítica, deixando para trás as políticas francesas e alemãs.

    9 – A rebeldia da Belarus. Depois dos protestos dos anos anteriores, a Belarus pareceu totalmente dominada pela Rússia, mas uma coisa é domesticar o seu ditador, a outra a  sociedade civil. O que vimos na Belarus foram atos de sabotagem e resistência que dificultaram as operações russas a partir do país, ainda, satélite.

    10 – Desprezar Zelensky, enquanto liderança. Ao pressupor na fragilidade de Zelensky, a Rússia desprezou a sua capacidade de articular a resistência. Tomado como palhaço, se esqueceram de que, como  homem de mídia, ele conseguiu recriar a sua imagem e se colocar à frente do processo, fragilizando o discurso russo com relação à Ucrânia. Se Zelensky está longe de ser o herói propagado pela mídia ocidental é necessário reconhecer que  ele ganhou a mídia, gerou mobilização, se  apresentou como resistência. Em outras palavras, ao contrário da esperada fuga, ele se apresentou como resistência. 

    Diante de tantos erros, restou a Rússia a se tornar auxiliar em regiões já  em disputa e usar da chantagem nuclear para não reconhecer a vexaminosa derrota.

  • Refugiados: Uma Questão Global.

    Refugiados: Uma Questão Global.

    A imigração é um direito humano! E a necessidade de buscar uma nova vida, ou simplesmente sobreviver, deve ser entendida como parte da liberdade a ser protegida. As razões para que um indivíduo busque outro país ou território para viver variam de acordo com o contexto histórico e situações locais específicas. 

    Podem ter relação com problemas econômicos, sociais, violência, guerra, invasões, entre outros. Na lista de questões que existem, ainda devemos incluir as mudanças climáticas. Essas situações levam à violação sistemática dos direitos humanos e a busca, mais do que legítima, e necessária, de refúgio. O direito ao refúgio é o direito à vida.

    Com a pandemia, houve no ano passado, um apelo global para o cessar fogo! Ou seja, uma apelo à paz, para que, em meio a emergência sanitária para tentar reduzir os problemas existentes. Contudo, o apelo não foi capaz de diminuir o número de refugiados, pelo contrário, ele cresceu em 4%.  

    Os Refugiados em Números.

    Ao contrário do que poderia ser imaginado, a pandemia provocado pela Covid-19 não reduziu o número de pessoas que buscam refúgio, pelo contrário, atualmente contamos com 82, 4 milhões de pessoas de acordo com a ACNUR, A Agência da ONU para os Refugiados no relatório Tendências Globais. 

    No final de 2020, a ACNUR tinha sob a sua tutela 20,7 milhões de refugiados. A origem e razão dos que se encontram nessa condição variam. Entre os grupos mais numerosos vale chamar a atenção para os 5,7 milhões de refugiados palestino, encontramos o resultado das políticas de Israel e os 3,9 milhões de venezuelanos, provocados pelo (des) governo de Maduro. 

    A grande maioria dos refugiados, 86%, se encontram em países vizinhos, tanto devido à facilidade de escapar, mas também pela expectativa de retorno. Os países que mais recebem refugiados são: a Turquia (pela sétima vez), Colômbia, Paquistão, Uganda e Alemanha.

    Considerando os números atuais, chama a atenção o número de menores de idade entre os refugiados, pois eles compõem 42% do total de refugiados. Como refugiados, quase um milhão de crianças nasceram entre 2018 e 2020. São crianças que podem passar anos até ganharem um novo lugar ou poderem voltar ao local de origem dos seus pais. 

    Instabilidade e refugio.

    Em sua maioria, podemos observar, que governos não democráticos e situações de autoritarismo e conflito, são os responsáveis pelo grande número de refugiados. Dos deslocados, dois terços são de apenas cinco países: Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Miammar. Países que passam por situação de guerra, conflito interno, crise e golpe de Estado. O autoritarismo e os conflitos levou a que 4,1 milhões de pessoas pedissem asilo

    A falência do Estado, como no caso da Venezuela, também chama atenção, pois muitos países não reconhecem a condição de refugiado dos venezuelanos e esses números devem ser ainda maiores. Além disso, há o caso já duradouro dos palestinos que há décadas figuram entre o maior número de refugiados e, lamentavelmente, não parece haver uma melhoria de condições no horizonte próximo. 

    As guerras civis, declaradas ou mascaradas, ainda causam o problema dos refugiados internos, pessoas que se veem obrigadas a abandonar as suas regiões dentro de um país. No total, esses somaram em 2020,  3,2 milhões de pessoas, sendo os principais países: Etiópia, Sudão, Moçambique, países do Sahel, Iêmen, Afeganistão e Colômbia.

    Um problema global. 

    Atualmente 1% da humanidade se encontra na condição de refugiado. Esse é um problema que, infelizmente, tende a permanecer e ainda ganhar outros motivos para além dos políticos, como será o caso dos refugiados climáticos, sobretudo, porque ainda precisam ser reconhecidos como tal. 

    Nesse momento, relembrando os 70 anos da Convenção de 16 de junho de 1951, é necessário repensar essas questões. Tanto para defendermos a dignidade humana e atuar contra a sua violação sistemática, quanto para pensarmos que na atualidade será necessário uma redefinição de refugiados, incluindo novos problemas que a humanidade enfrenta. 

    Fonte: https://www.acnur.org/portugues/2020/06/18/relatorio-global-do-acnur-revela-deslocamento-forcado-de-1-da-humanidade/

  • Lituânia, o massacre de janeiro de 1991 (História)

    Lituânia, o massacre de janeiro de 1991 (História)

    Nesse ano de 2021, lembramos os trinta anos da independência da Lituânia e do massacre ocorrido em Vilnius, quando o país lutava pela sua independência, no momento em que a União Soviética entrava em colapso. Para lembrarmos esses eventos, recupero, em parte, uma narrativa que publiquei no livro Báltico, publicado no ano passado.

    É importante lembrarmos que até hoje existem disputas sobre essa narrativa, bancadas por saudosistas da União Soviética e até mesmo (incrivelmente) do genocida Stalin. A propaganda política, nos usos, por seus interesses geopolíticos contemporâneos tem por objetivo esconder e criar versões mentirosas. Assim, recuperamos ainda que brevemente.

    Enquanto o mundo assistia pela televisão à capital do Iraque sendo bombardeada pelos Estados Unidos e seus aliados, na primeira guerra do Golfo, Gorbachev aproveitava o que restava da cortina de ferro para enviar as forças militares para o Báltico. No dia 7 de janeiro, Mikhail Gorbachev e Dmitry Yazov deram ordem para que as Repúblicas Soviéticas fossem ocupadas.

    Entre 8 e 9 de janeiro, unidades militares começaram a chegar à Lituânia, entre elas as tropas antiterroristas, grupos de assalto e divisões que estavam baseadas em Pskov. No dia seguinte, Gorbachev se dirigiu ao Conselho Supremo exigindo a restauração da União Soviética na Lituânia e revogou as leis consideradas anticonstitucionais. Os oficiais lituanos solicitaram que não fossem enviadas mais tropas, mas não receberam resposta. Era o sinal do que começaria a acontecer no dia seguinte.

    O governo lituano recebeu um ultimatum e às 11h50 da manhã, os prédios públicos e a imprensa começaram a ser ocupados por forças militares na capital e nas principais cidades. Aqueles que tentaram resistir foram recebidos a bala e centenas de pessoas ficaram feridas. As tropas também começaram a tomar as estações de trem que ficaram interrompidas por várias horas. Enquanto as tropas se posicionavam em pontos estratégicos, os comunistas fiéis a Moscou, tentavam for- mar um governo paralelo na sede do Partido Comunista. O governo de fato, buscava contato com Moscou para evitar mais violência, mas não teve sucesso.

    Na madrugada, a população começou a circular formando cordões humanos para defender os principais prédios que ainda não haviam sido tomados pelos soviéticos, principalmente a rádio, a televisão, a sede do governo e de telefonia. Na noite do dia 12 para o dia 13, os tanques soviéticos começaram a entrar em Vilnius. Ao se aproxima- rem da torre de televisão, gás lacrimogêneo foi lançado e teve início o confronto. Os soviéticos atiraram e catorze pessoas foram assassina- das, duas foram atropeladas pelos tanques. As duas horas da manhã, os soviéticos tomaram a televisão de assalto. A última imagem que se pode ver da transmissão ao vivo foi a de um soldado na frente da câmera arrastando a jornalista e interrompendo a transmissão.

    Meia hora depois da tomada da televisão em Vilnius. Na cidade de Kaunas, de um pequeno estúdio, que era usado para transmissões daquela cidade, entrou em funcionamento. Eles utilizaram também ondas curtas para transmitir para o mundo sobre os acontecimentos. Uma televisão da Suécia captou os sinais e passou a retransmitir.

    A cortina de ferro da comunicação foi rompida em definitivo. Dos Estados Unidos e de outras partes da América, incluindo do Brasil, as comunidades lituanas no mundo começaram a enviar informações para imprensa de seus países, organizaram protestos, pressionaram para que a informação do confronto na Lituânia pudesse circular. O medo era que protegido pela censura o governo soviético produzisse um massacre nas ruas.

    Com as comunicações re-estabelecidas na Lituânia, a população foi às ruas e barricadas começaram a ser montadas. Colunas humanas protegendo os prédios desafiaram o poder militar soviético. O governo, protegido pela multidão, enviou mensagens para o mundo pedindo apoio. Os apelos foram atendidos pela Noruega que levou a questão à ONU. A Polônia expressou solidariedade e denunciou as ações do exército soviético. Nos dias seguintes, Gorbachev, Dimitry Yazov e Boris Pugo negaram que tivessem dado ordem de usar munição ou a força. Até hoje, na Rússia, tenta-se alimentar alguma controvérsia sobre o acontecimento e ressaltam que um soldado soviético também foi morto no conflito.

    Como as informações se difundiram pelo o ocidente nos dias seguintes não houve mais confrontos significativos, embora a Lituânia continuasse militarmente ocupada. Em 20 de janeiro, uma delegação da Islândia chegou a Vilnius para acompanhar os eventos. O Ministro de Relações Exteriores Jón Baldvin Hannibalsson fez declarações sobre a possibilidade de reconhecer a independência da Lituânia e, de fato, no dia 4 de fevereiro a Islândia foi o primeiro país a reconhecer a Lituânia independente.”

    ZEN, Erick R. G. Báltico. A História da Estônia, Letônia e Lituânia. São Paulo: Almedina, Edições 70.

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  • A Fotografia do passaporte e a história: gênero.

    A Fotografia do passaporte e a história: gênero.

    Família Godliauskas, Passaporte

    A fotografia no passaporte revelam histórias que estão para além dos rostos dos imigrantes. É o caso do passaporte da minha família, Godliauskas. Depois de muitos anos, consegui pela primeira vez ter acesso a um dos passaportes utilizados para família godliauskas, quando imigraram da Lituânia para o Brasil.

    Neste passaporte, encontrei diversas referências sobre a trajetória da minha família que até então desconhecia. Entre elas, a data exata da imigração. A datas e locais de saída e chegada. O local da última residência, entre outros detalhes de suas trajetórias.

    A fotografia do passaporte, com toda a família, mostrava algo um pouco mais sensível e pessoal: os rostos, as expressões nos olhares, as caras de assustados diante da maquina fotográfica ou do futuro incerto que os esperava em terras distantes.

    Como historiador empolgado em investigar, comecei a mostrar a foto para um e para outro. Ao mostrar para uma amiga, ela me perguntou: por que estão todos os membros da família em uma mesma foto de passaporte?

    Boa questão!

    Fotografia Imigração e História de Gênero.

    Eu não tinha muita ideia do que responder na hora. Passando a empolgação e olhando mais cuidadosamente me dei conta de que aquela foto, para um documento oficial, também nos comunica uma história de gênero. Primeiro é preciso notar que o documento é da minha bisavó. No documento está explicitamente escrito: “autorizada a viajar somente acompanhada do marido”.

    Na Europa, do início do século XX, em particular na Lituânia, ao se solicitar ao governo um documento cabia ao homem estabelecer se a mulher poderia viajar sozinha ou não!

    Por essa razão, as mulheres, não autorizada a viajar sozinhas eram fotografadas junto ao marido nos documentos oficiais. Assim, as autoridades nas fronteiras dos países, nas estações de trem e nos portos deveriam verificar pela foto a identidade dos dois (marido e esposa) antes de autorizar o embarque ou desembarque, a entrada e saída de um país para o outro.

    No limite, essa ação do Estado, por meio de sua burocracia, impedia a circulação das mulheres desacompanhadas de seu marido!

    Na fotografia está a minha avó, a primeira da esquerda para a direita, e seus irmãos, pois como eram menores de idade, não tinham um passaporte próprio e seus nomes eram colocados no passaporte da mulher. Dessa forma, para se deslocar de um país a outro de forma oficial e regular a família necessariamente teria que estar sempre junta ou seria impedida pelas autoridades estatais.

  • Biden e a Esquerda: o caminho para a decepção.

    Biden e a Esquerda: o caminho para a decepção.

    Não temos a menor dúvida de que o embate entre Trump e Biden será fundamental para os rumos da política em escala global. De forma até exagerada se enxerga um embate entre a civilização e a barbárie, ou entre a democracia e a demagogia (populismo) autoritário. Por essa razão, a esquerda, com excessões, tem se entusiasmado com a provável vitória do candidato Democrata, Joe Biden.

    No Brasil, a esquerda, particularmente a militante de partido, torce muito, pois entende que essa vitória fará o que ela não consegue fazer: derrubar, ou ao menos fragilizar, o atual governo. Para nós, Biden é o caminho certo para a decepção da esquerda, em todos os lugares.

    Nós sabemos quem é ele

    Os pensadores de esquerda nos Estados Unidos, seja aqueles que atuam junto aos Democratas ou não, sabem quem é o político pragmático, negociador e centrista Joe Biden. Bastaria lembrar que ele foi escolhido para ser vice de Obama como uma forma de acalmar o status quo Democrata diante do “radicalismo” que representava as propostas apresentadas Obama (“Yes, We can”) e a candidatura de um negro para a Casa Branca. Quando Obama superou a Hillary Clinton, Biden era, naquele momento, a certeza do equilíbrio e da manutenção do status quo para os Democratas e seus eleitores.

    Por essas características, muitos prefeririam ter lançado ele e não Hillary, em 2016. No entanto, devido a uma tragédia pessoal, Biden preferiu não se candidatar. Em 2020, nesse ano complicado, ele apareceu novamente como essa figura estável e conciliadora, incapaz de sustentar qualquer dogma ou algo que não possa ser mudado de acordo com a conveniência do momento, dentro dos parâmetros estabelecidos pelos Democratas.

    É mais fácil…

    Essa visão fica evidente, no apoio, com ressalvas, que recebe de Bernie Sanders (ver meu artigo de 2016). Sanders sempre afirma ter diferença com Biden, mas ressalta saber que ele é um homem decente, que respeita as regras do jogo e que respeita principalmente “a democracia”, entendendo a democracia aqui como o sistema eleitoral / legal dos Estados Unidos.

    Assim, a esquerda americana está dizendo para quem queira escutar: “é mais fácil sobreviver no neoliberalismo formalmente democrático regido por Biden do que caminhar para uma nova forma de fascismo, com um demagogo, autoritário, megalomaníaco. Por isso, vote em Biden e é só isso mesmo!”

    Nas suas atitudes e nos debates, Biden fez questão de jogar baldes de água fria na esquerda que atua entre os Democratas e foram muitos os baldes… Vamos a alguns exemplos.

    Um grande balde de água fria é a estratégia de atrair os Republicanos que se afastaram de Trump (ou do trumpismo). Entre eles, o governador Republicano de Michigan Rick Snyder que responde pela acusação de ser o responsável pela contaminação da água da cidade de Flint. (ver aqui). Os movimentos sociais estão há anos lutando contra ele e seu governo.

    A água fria nos debates

    Nos dois debates, Biden jogou vários baldes de água fria na esquerda. Alguns deles foram bem discretos. No primeiro, marcado pelo caos, uma questão passou quase desapercebida: a do Green New Deal. Lembrando: essa é a proposta da esquerda Democrata para que os EUA se tornem uma economia verde. Durante o debate, Biden afirmou que ele não implantará o programa denominado Green New Deal, mas na plataforma dele estava lá. Em suma: ele afirmou que não implementará a principal bandeira da esquerda que vinha com Sanders.

    No segundo debate, sem usar a expressão Green New Deal, ele retomou o tema, usando a palavra “transição”, ou seja, na cabeça dele, é possível passar para a economia verde sem perder a os investimentos e afetar os empregos no carvão e no petróleo, por exemplo. Será?

    De toda forma, ele tentou agradar a esquerda sem desagradar aos que dependem ainda das outras formas de atividades econômicas. Obviamente, Trump tentou associar a isso a uma forma de socialismo, o que não deu certo. Ainda assim, logo após os debates, os Democratas ligados a sua campanha saíram em defesa da indústria do carvão e do Petróleo, nada de Green New Deal, portanto.

    No mesmo debate, Biden, ao ser associado aos projetos de Sanders por Trump, lembrou que ele não é socialista! E foi além! Lembrou que ele é Biden! O que derrotou os outros projetos! (não tinha conciliado?) E isso quando respondia sobre saúde. Em outras palavras, Biden descartou aderir ao programa de saúde pública e para todos, como pretendia Sanders. O mesmo, vale dizer, para a educação. Ou seja, os projetos de Sanders, representantes dos Democratas socialistas foram todos descartados!

    Biden e o Brasil

    A esquerda brasileira também não deve nutrir ilusões com relação a Biden. Primeiro, porque o Brasil e continuará a ser estratégico independente dos governos nos dois países. Segundo, porque a luta contra o avanço da influência da China é a única coisa que unifica os dois partidos e nisso, o Brasil, ainda está em disputa. Assim, o que veremos é uma mudança da forma, mas não o abandono do país nas relações estratégicas, como isso será articulado com o bolsonarismo é que é a questão.

    Os Democratas costumam oferecer vantagens aos países que querem manter boas relações, ou manter o diálogo aberto. O provável, nessa relação, entre crítica e oferecimento de vantagens, é que Biden vai buscar atuar. O efeito no Brasil, para o bolsonarismo, talvez seja mais forte no aspecto simbólico e de perda de narrativa do que de uma ação direta do governo americano. Aqui é preciso lembrar que grande parte dos investimentos estrangeiros já saíram do país. Assim, é pouco provável que o governo Biden faça aquilo que a esquerda brasileira não está conseguindo fazer…

    Com Biden… Estaremos mais confortáveis

    Em todos os cantos do mundo, em todas as alas progressistas há uma torcida por Joe Biden. Ela vai durar até o dia da sua vitória (se ela se confirmar). No dia seguinte, já ficou obvio, que ele não fará um governo de esquerda e nem mesmo progressista. Não vai assumir os compromissos de Sanders e dos Democratas Socialistas que tanto lutaram para o eleger.

    A esquerda nutre a ilusão de que é mais fácil lutar dentro das regras do jogo liberal democrática do que contra as forças que trouxeram Trump ao poder. Mas será mesmo? Se fosse fácil derrotar o neoliberalismo ela já teria conseguido. Teve oportunidades em todos os continentes e não foi o neoliberalismo o derrotado. O Brasil é um ótimo exemplo disso. Talvez a esquerda esteja apenas mais confortável no neoliberalismo.

    Nele, a esquerda, pode livremente adotar bandeiras novas, movimentos novos, fazer longos discursos e manifestações. Pode ainda publicar os seus livros, podcasts, canais no youtube, blogs (como esse) e manifestos. Pode ainda louvar e se acostumar com as derrotas e ver nela um princípio moral, quase cristão, “sou perseguido e injustiçado, por isso estou certo”…. Mas a esquerda, na sua zona confortável, nunca derrotará ninguém. Ainda assim, espero que a esquerda americana resolva sair de casa e votar em Biden.