Autor: Erick Zen

  • Cúpula EUA e Rússia no Alasca: passos para o impasse

    Cúpula EUA e Rússia no Alasca: passos para o impasse


    O encontro marcado para 15 de agosto, em Anchorage, no Alasca, reunirá o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em um momento tenso da guerra na Ucrânia.

    Embora apresentado como uma tentativa de abrir canais para a paz, o evento reflete mais uma disputa por narrativas e posições estratégicas do que uma convergência de objetivos. A única coisa certa desse encontro é que não sairá uma proposta de paz razoável.

    Continuidade da postura russa

    O Kremlin reafirmou que seus objetivos militares e políticos na Ucrânia permanecem inalterados, ou seja ocupação. Essa posição demonstra que Moscou não está disposta a abrir mão de ganhos territoriais duramente obtidos, utilizando a cúpula como palco para sua propaganda, colocando a Rússia como potência equivalente aos Estados Unidos.

    Putin deve insistir na sua falsa narrativa histórica e com ela buscar deslegitimar a Ucrânia, enquanto Estado e o povo ucraniano, como nação.

    Essa narrativa reforça a linha dura interna e envia um sinal claro de que não há concessões à vista. Afinal, Putin pediu aos russos sacrifício e  prometeu um Império. Ele já sacrificou mais de uma geração, com essa ilusão, e voltar como derrotado colocaria o seu regime em risco.

    Nesse momento, a Rússia parece estar em vantagem. Conquistou territórios, reorganizou a sua indústria bélica, em particular, a fabricação de drones, e dispõe de mercenários e dos norte coreanos para sacrificar.

    Enquanto a diplomacia se arrasta, a Rússia prepara novas operações no sul da Ucrânia, em Kherson, e mantém ataques com drones de longo alcance contra as principais cidades aumentando o risco de vítimas civis. Além das Infiltrações recentes em Dobropillya. Com a proximidade da cúpula, o risco é que esses movimentos militares sejam usados para reforçar a posição de Moscou à mesa de negociação.

    Condições impostas por Washington

    A Casa Branca, estabeleceu limites explícitos: não haverá qualquer acordo sem um cessar-fogo imediato e sem a participação formal da Ucrânia nas negociações. Trump acrescentou que, caso Putin se recuse a avançar em conversas, a Rússia enfrentará “consequências muito graves”. O que isso significa exatamente e se haverá recuos, não é possível saber. O certo é que o presidente não pode sair da negociação com a imagem de perdedor.

    Por isso, Trump mantém aberta a possibilidade de um segundo encontro, desta vez com a presença do presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, se houver avanços concretos e já jogando qualquer solução para um futuro indefinido.

    Reações da Europa e de Kiev

    A União Europeia rejeitou a exclusão de Kiev, afirmando que a integridade territorial da Ucrânia é inegociável.

    Em Londres, Zelenskyy reforçou que não aceitará concessões territoriais e obteve novas promessas de apoio militar.

    A Alemanha anunciou um pacote de US$ 500 milhões para reforço da defesa aérea, complementado por contribuições da Holanda e da Suécia. Esses movimentos indicam que, mesmo diante de conversas bilaterais entre EUA e Rússia, o eixo europeu continuará a sustentar a resistência ucraniana, pois uma derrota, ou mesmo a imagem de derrotados, traria graves consequências políticas, já que a popularidade dos seus líderes, principalmente na França e na Alemanha, não anda nada bem.

    A cúpula no Alasca se anuncia como um momento de alta visibilidade internacional, mas com poucas garantias de avanços concretos.

    Entre exigências e resistência e  inflexibilidade, cresce a percepção de que o encontro pode servir mais para a construção de imagem política do que para uma solução efetiva do conflito. Mesmo porque, como seria possível sair de uma negociação na qual ninguém pode sair com a aparência de perdedor?

    Referências:
    Reuters
    The Guardian
    Time
    Kyiv Post

  • Sul Global ou Leste Global?  Uma questão russa.

    Sul Global ou Leste Global?  Uma questão russa.


    • As origens históricas do Sul Global
    • Por que a Rússia prefere o termo Leste Global ?
    • Como diferentes países utilizam o Sul Global em sua diplomacia
    • As contradições e conflitos potenciais no uso político desses conceitos

    O que é o Sul Global?

    O conceito de Sul Global é uma construção político e geográfica que ganhou força no final do século XX na busca por alinhar  países em desenvolvimento, concentrados no hemisfério Sul.

    Ele substituiu expressões como “Terceiro Mundo” e “países subdesenvolvidos”, usados durante a Guerra Fria (1945 – 1991). Durante a  Guerra Fria,  o “Norte” reunia potências industrializadas, enquanto o “Sul” representava economias periféricas ou emergentes. Essa perspectiva se consolidou na Conferência de Bandung, em 1955, e no Movimento dos Não Alinhados, que buscavam maior autonomia frente à disputa entre Estados Unidos e União Soviética.

    Assim, o conceito passou a simbolizar solidariedade política, defesa de reformas na governança global e a promoção de cooperação econômica entre países em desenvolvimento.

    Mas se a Rússia, ou URSS, era parte no conflito global durante a Guerra Fria, como ela poderia fazer parte do Sul Global no século seguinte?

    A questão russa e o Leste Global

    A Rússia evita ser enquadrar no Sul Global e prefere empregar expressões como Leste Global ou “países amigos”.

    Essa escolha está ligada à estratégia de se apresentar como potência euroasiática equivalente a Estados Unidos e China, e não como parte de um bloco de países em desenvolvimento.


    Propagandistas do Kremlin associa o Leste Global à construção de um bloco civilizacional alternativo ao “Ocidente Coletivo”, formado por potências militares e industriais com interesses convergentes na Eurásia. Essa visão está conectada  com a ideologia  geopolítica do eurasianismo, que coloca Moscou como centro de um espaço integrado entre Europa Oriental e Ásia.

    Ao adotar esse enquadramento, o regime de Putin se afasta do peso histórico colonial implícito no termo Sul Global e reforça sua imagem de liderança no espaço pós-soviético.

    Ao contrário dos paises do Sul Global a Rússia não passou pela experiência histórica do colonialismo, pelo contrário, no século XIX, junto com os paises europeus, o Império Russo era uma potência imperialista.

    O Imperio Russo avançou para o Cáucaso, absorvendo territórios como a Geórgia, o Azerbaijão e o Armênia, além de incorporar vastas áreas da Ásia Central, incluindo o atual Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão, Cazaquistão e Tadjiquistão. Na Europa, dominou a região do Báltico e as Finlândia, além de partilhar a Polônia.

    Esse movimento foi impulsionado tanto por objetivos estratégicos, como o controle de rotas comerciais e a contenção de influências britânicas e otomanas, quanto por motivações ideológicas ligadas à missão civilizatória e religiosa do czarismo ortodoxo.

    No extremo Oriente, a Rússia expandiu-se para a Sibéria e estabeleceu presença no Pacífico, consolidando sua posição como um império transcontinental com interesses simultâneos na Europa e na Ásia.

    Nesse sentido, o regime de Putin que se apropria, tanto da imagem de grandiosidade do Império Russo, quanto da União Soviética, joga para o seu público interno a leitura euroasiatica de leste Global. Já a sua diplomacia, por estratégia aceita a ideia de Sul global por conveniência geopolítica.


    Como os países utilizam o Sul Global

    Apesar da posição russa, outros países do BRICS utilizam o conceito de Sul Global de formas distintas. A China se apresenta como líder do mundo em desenvolvimento, fortalecendo sua posição em fóruns multilaterais e ampliando sua influência na Ásia, África e América Latina.

    A Índia mantém a identidade de porta-voz dos não alinhados e organiza encontros específicos do Sul Global para reafirmar seu papel diplomático.

    Já África do Sul, emprega o conceito para sustentar sua liderança continental e propor reformas na ordem internacional.

    O Brasil, nos governos Lula e Dilma, usa o Sul Global como narrativa de mediação e protagonismo, buscando reformas multilaterais e intensificando a cooperação com países do Sul Global e Rússia.

    Contradições e conflitos potenciais

    O uso político do Sul Global cria uma base retórica de unidade, mas esconde contradições relevantes. Potências emergentes que defendem o conceito nem sempre compartilham os mesmos interesses econômicos ou estratégicos.

    Um exemplo é a China que se tornou credora de diversos países africanos e asiáticos, os colocando em relação de dependência.

    O Brasil, embora invoque o Sul Global, não superou a sua dependência econômica das potências do Norte e se tornou dependente do mercado Chinês, o que apontou para fragilidades importantes, nas crises mais recentes.


    A própria existência da narrativa russa do Leste Global demonstra que o termo não é neutro. Sua aceitação ou rejeição revela alinhamentos geopolíticos específicos.

    Diante das crises atuais, com os EUA e a guerra na Ucrânia, será importante perceber se de fato existe a  capacidade do Sul Global de articular uma política unificada, como sonha o Brasil, ou se a retórica acabara se esfacelado diante de interesses específicos.

    Para além, retomado o sonho expansionista imperialista russo, como ficou explícito com a invasão da Ucrânia, é de se perguntar: a Rússia deve ser de fato considerada como uma aliada no Sul Global? Ou para ela os BRICS e o Sul Global são apenas estratégias dentro de uma perspectiva de reconstrução de áreas de domínio e influência que remontam ao Império Russo e a União Soviética?

    É preciso repetir, a Rússia não passou pela experiência colonial, ela foi (e é) uma potência colonizadora e se o Sul global tivesse essa compreensão, para além da propaganda do regime Putin, as estratégias e expectativas de aliança seriam melhor dimensionadas.

  • Fronteiras Invioláveis: A Posição do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia

    Fronteiras Invioláveis: A Posição do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia


    Contexto da declaração conjunta

    O que é o Northern-Baltic Eight?

    Relação do grupo com a OTAN e a segurança europeia

    Consequências geopolíticas da posição adotada


    O Northern-Baltic Eight (NB8) reúne Dinamarca, Estônia, Finlândia, Islândia, Letônia, Lituânia, Noruega e Suécia. Trata-se de um fórum regional de cooperação política e econômica que, embora não seja uma organização formal com tratado constitutivo, atua de forma coordenada em questões de segurança, diplomacia e integração europeia.

    O grupo é formado por países nórdicos e bálticos que compartilham interesses estratégicos no Mar Báltico e no Ártico, áreas de crescente importância geopolítica.

    A declaração recente do NB8 reafirma que as fronteiras internacionalmente reconhecidas da Ucrânia são invioláveis e não podem ser alteradas pela força.

    O texto defende que a paz só será possível por meio de diplomacia firme, apoio militar e econômico contínuo à Ucrânia e pressão constante sobre a Rússia para interromper sua ofensiva.

    Os líderes ressaltam que qualquer negociação só deve ocorrer após a implementação de um cessar-fogo efetivo, de forma a preservar os interesses de segurança da Ucrânia e da Europa.

    O posicionamento do NB8 também reflete o alinhamento estratégico da maioria de seus membros com a OTAN. Atualmente, todos os oito países integram a Aliança Atlântica, com a Islândia, Dinamarca e Noruega como membros históricos, enquanto Estônia, Letônia e Lituânia aderiram em 2004, e Finlândia e Suécia se tornaram membros recentemente, em 2023 e 2024. Essa integração fortalece a capacidade de defesa coletiva e a interoperabilidade militar, permitindo respostas coordenadas diante de ameaças como a guerra na Ucrânia.

    A posição do grupo é um sinal político claro para Moscou e para a comunidade internacional de que qualquer tentativa de legitimar a ocupação de territórios ucranianos seria inaceitável, violaria o direito internacional e criaria precedentes perigosos. Aceitar a anexação de territórios obtidos pela força poderia encorajar novos conflitos e minar a estabilidade do sistema internacional.

    O fortalecimento da atuação do NB8 ocorre em paralelo à intensificação da presença militar da OTAN no flanco norte e leste da Europa. O Mar Báltico, agora cercado quase totalmente por países da Aliança, tornou-se um ponto crítico de dissuasão contra avanços militares russos.

    Além disso, a cooperação entre NB8 e OTAN vai além do campo militar, abrangendo cibersegurança, proteção de infraestruturas críticas e vigilância no Ártico.

    Essa sinergia amplia o alcance político e militar do grupo e demonstra que, no atual cenário internacional, alianças regionais funcionam como multiplicadores de poder dentro de estruturas multilaterais maiores.

    Referências

    Ministério das Relações Exteriores da Estônia. Declaração conjunta do Northern-Baltic Eight sobre a Ucrânia. [Disponível em: https://vm.ee%5D

    Organização do Tratado do Atlântico Norte. Membros e datas de adesão. [Disponível em: https://nato.int%5D

    Conselho Nórdico de Ministros. Cooperação NB8. [Disponível em: https://www.norden.org%5D

  • Áustria repensa neutralidade militar diante da guerra na Ucrânia e debate sobre OTAN

    Áustria repensa neutralidade militar diante da guerra na Ucrânia e debate sobre OTAN

    Como a guerra na Ucrânia pressiona a revisão da neutralidade austríaca?

    Declarações da ministra Beate Meinl-Reisinger e o impacto político

    Reações internas e resistência de setores contrários à OTAN

    Perspectivas para a segurança austríaca no cenário europeu

    Desde 1955, a Áustria mantém uma posição constitucional de neutralidade permanente, evitando alianças militares e equilibrando relações com o Leste e o Oeste. A invasão russa da Ucrânia e o agravamento do ambiente estratégico europeu estão colocando essa postura histórica em debate. A recente fala da ministra das Relações Exteriores, Beate Meinl-Reisinger, afirmando que “a neutralidade por si só não nos protege”, trouxe o tema para o centro das discussões políticas e midiáticas do país.

    A neutralidade austríaca foi estabelecida após a retirada das forças aliadas no pós-guerra e tornou-se parte fundamental da identidade política do país. Neste texto, vamos examinar o contexto histórico dessa neutralidade, as declarações recentes do governo, as reações políticas internas e como a guerra na Ucrânia está influenciando o reposicionamento estratégico da Áustria. Pesquisas mostram que a maioria da população ainda defende a neutralidade, mas o clima geopolítico europeu mudou, com a Finlândia e a Suécia abandonando essa condição e ingressando na OTAN.

    Em entrevista ao jornal alemão Die Welt, Beate Meinl-Reisinger afirmou que “a neutralidade por si só não nos protege” e defendeu um debate público sobre a política de segurança da Áustria. Ela reconheceu que não existe maioria no Parlamento ou na sociedade para mudar a postura atual, mas sustentou que a discussão é necessária diante das ameaças russas e da instabilidade regional.

    A abertura para discutir a OTAN gerou forte reação de setores políticos, especialmente do Partido da Liberdade, que acusa o governo de seguir a agenda de armamento da União Europeia. Organizações e movimentos civis também anunciaram manifestações em defesa da neutralidade.

    Partidos de centro e liberais, por outro lado, defendem que a Áustria aumente seus gastos militares. A meta oficial é elevar o orçamento de defesa de cerca de 1% para 2% do PIB até 2032. A participação no programa europeu de defesa antiaérea European Sky Shield é vista como um passo relevante nesse sentido.

    O prolongamento da guerra na Ucrânia é o principal fator que está mudando a percepção sobre segurança na Áustria. A possibilidade de expansão do conflito para outras regiões da Europa aumentou a sensação de vulnerabilidade. A pressão diplomática dentro da União Europeia para que todos os membros fortaleçam sua defesa coletiva coloca a Áustria diante de escolhas estratégicas inéditas desde a Guerra Fria.

    A comparação com a Finlândia e a Suécia serve como alerta para Viena. Embora o contexto austríaco seja diferente, a experiência desses países mostra que alianças militares podem oferecer garantias de segurança que a neutralidade isolada já não consegue assegurar. O desfecho dependerá tanto do curso da guerra na Ucrânia quanto da capacidade de Viena de equilibrar sua tradição histórica com as novas demandas estratégicas.

    Referências

    Die Welt, Entrevista com Beate Meinl-Reisinger
    Daily News Hungary, Austria considers move from neutrality to NATO
    Central European Times, Austria should consider NATO membership
    Defense News, Austria is torn over age-old question of neutrality and NATO
    TVP World, Austria questions neutrality but NATO still far off
    Financial Times, Austria boosts defence amid European security concerns
    Wikipedia, Austria–NATO relations

  • Segurança do Báltico em Meio às Negociações sobre a Ucrânia

    A proposta de Donald Trump de incluir concessões territoriais da Ucrânia em um possível acordo com a Rússia gerou forte reação nos países bálticos. Estônia, Letônia e  Lituânia alertaram que qualquer cessão de território sob pressão do imperialismo russo representaria um precedente perigoso, ameaçando a estabilidade europeia em uma ameaça objetiva as independências dos paises.

    Os líderes no Báltico defenderam  que a soberania e a integridade territorial da Ucrânia devem ser preservadas, pois uma solução baseada em trocas territoriais deve incentivar novas anexões orquestradas por Putin.

    Motivos para a Preocupação Báltica

    O receio dos Estados bálticos se baseia em fatores históricos e geográficos. A proximidade com a Rússia, a presença do enclave de Kaliningrado e a existência de minorias russas na Estônia e na Letôniaem, aumentam a vulnerabilidade, sobretudo, quando se considera as  estratégias híbridas, como as vistas na Crimeia em 2014.

    Para além, as declarações recentes de autoridades russas, como a do chefe da inteligência Sergey Naryshkin, indicaram que Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia seriam as primeiras a sofrer em caso de confronto direto entre Moscou e a OTAN.

    A percepção de risco é reforçada pelo uso intensivo de propaganda e desinformação, patrocinada por Moscou (inclusive no Brasil) somado à instabilidade gerada pela guerra na Ucrânia.

    Para os paises Bálticos, qualquer concessão ucraniana abriria caminho para questionamentos sobre suas próprias fronteiras, colocando em risco segurança dos países.

    Fortalecimento Militar e Diplomático

    Em resposta a essas ameaças, os países bálticos avançam com a construção da Baltic Defence Line, uma rede de fortificações, bunkers, valas antitanque e barreiras defensivas ao longo das fronteiras com a Rússia e a com a  Belarus.

    O projeto, iniciado entre 2024,  conta com investimentos nacionais e busca financiamento da União Europeia, além de um projeto de integração com as iniciativas polonesas, como o “Eastern Shield”.

    A Estônia já iniciou a construção de valas e depósitos militares, enquanto a Letônia planeja destinar mais de €300 milhões até 2028. A Lituânia pretende acelerar sua participação ainda este ano.

    Os  gastos de defesa foram elevados para 5% do PIB, já em 2026, alcançando a meta estabelecida pela OTAN.


    O apoio da OTAN se faz cada vez mais intensa,  com a presença de batalhões multinacionais e exercícios conjuntos regulares.

    A Alemanha instalou a 45ª Brigada Blindada em solo lituano, e caças aliados seguem monitorando o espaço aéreo báltico, interceptando as insistentes incursões da aviação militar russa.

    Em agosto, a Lituânia solicitou reforços à defesa aérea da OTAN, após drones vindos de Belarus entrarem em seu território, provocando alerta de segurança, também para os civis.

    No campo diplomático, Letônia, Lituânia e Estônia articulam declarações conjuntas com outros países europeus, reforçando que qualquer negociação de paz para a Ucrânia deve incluir Kyiv como protagonista e respeitar as fronteiras internacionalmente reconhecidas.

    Essa posição foi reafirmada em fóruns internacionais e em reuniões com aliados-chave como os Estados Unidos.

    A percepção geral nos países bálticos é de que sua segurança está diretamente ligada ao desfecho da guerra na Ucrânia. Assim, defendem que qualquer acordo que premie a agressão russa colocará toda a arquitetura de segurança europeia em risco. Para eles, a linha que hoje se defende na Ucrânia é também a linha que protege Tallinn, Riga e Vilnius

    Os paises Bálticos são pequenos, tanto em extensão, quanto em números de habitantes. Carregam, ainda hoje, traumas históricos com as ocupações russas / soviéticas. Sabem pelo passado e pelo presente que sem apoio militar e Diplomático do ocidente a sua existência está objetivamente em risco, diante do Imperialismo russo.


    Referências

    Financial Times. European allies back Ukraine’s borders after Trump floats Russia land swap

    Reuters. Europe stresses need to protect Ukrainian interests ahead of Trump-Putin talks

    Wikipedia. Baltic Defence Line

    FPRI. The New Baltic Way: Assessing the Baltic Defensive Line Concept

    AP News. Poland to lead Eastern Shield project

    VoxEurop. Russia and the Baltic states: evacuation scenarios

    Reuters. Lithuania asks NATO for more air defences

  • Karol Nawrocki assume a presidência da Polônia e apresenta plano para ampliar a cooperação militar


    Novo presidente conservador quer expandir o Formato Bucareste 9, reforçar a OTAN e reposicionar a Polônia como potência regional

    Quem é Karol Nawrocki e como chegou ao poder?

    Karol Nawrocki assumiu oficialmente a presidência da Polônia esse mês (agosto de 2025), após vencer as eleições de junho com pequena vantagem no segundo turno.

    Historiador e ex-diretor do Instituto da Memória Nacional, construiu sua carreira defendendo uma leitura conservadora da história, com forte ênfase na soberania nacional e nos valores tradicionais poloneses. Sua eleição representa um realinhamento político no país, com maior protagonismo da direita nacionalista.

    A vitória de Nawrocki sinaliza uma mudança de rumo nas prioridades estratégicas da Polônia, especialmente na política externa e na segurança militar. Desde a campanha, ele vinha defendendo que Varsóvia deveria assumir um papel mais ativo na defesa do flanco oriental  da OTAN.

    Relação com os Estados Unidos e distanciamento da União Europeia

    Aliado próximo de Donald Trump, Nawrocki já indicou que pretende aprofundar a cooperação com os Estados Unidos e reduzir a influência política de Bruxelas sobre Varsóvia. Essa postura sugere possíveis atritos com a União Europeia, sobretudo em questões relacionadas ao Estado de Direito, imigração e integração econômica.

    Em seu discurso de posse no Parlamento, declarou que “os poloneses são responsáveis por construir o flanco leste da OTAN” e anunciou seu objetivo de transformar o atual Formato Bucareste 9, criado em 2015 após a invasão russa da Crimeia, em um “Bucareste 11”, incluindo países escandinavos. Essa ampliação teria como meta criar uma rede de defesa mais robusta contra ameaças vindas da Rússia e Belarus.

    Conflitos com o primeiro-ministro Donald Tusk

    O início do mandato de Nawrocki já é marcado por tensões com o primeiro-ministro Donald Tusk, líder liberal e defensor da integração europeia. As diferenças entre ambos vão muito além de posicionamentos ideológicos, envolvendo também a condução da política externa, o papel das Forças Armadas e a relação da Polônia com as instituições da União Europeia.

    Analistas políticos alertam que esse embate pode gerar impasses legislativos e comprometer a estabilidade política do país, especialmente se as divergências se intensificarem nos próximos meses.

    Impactos para a Ucrânia e para a segurança regional

    A postura de Nawrocki gera incertezas em Kiev. Embora mantenha um discurso de apoio à resistência ucraniana contra a Rússia, seu alinhamento com Trump pode levar a uma política mais pragmática, com pressão por negociações de paz. Isso levanta dúvidas sobre a continuidade de um apoio militar irrestrito.

    Ao mesmo tempo, a proposta de expandir o Formato Bucareste 9 com a entrada de países escandinavos poderia reforçar a dissuasão contra Moscou e ampliar a cooperação militar entre os membros da OTAN. Tal iniciativa colocaria a Polônia no centro da estratégia de segurança do norte e do leste da Europa.

    Um possível novo eixo de liderança na OTAN

    O plano de Nawrocki de transformar Varsóvia em um polo de liderança no flanco leste da OTAN pode reposicionar a Polônia como ator-chave na arquitetura de segurança europeia. Se bem-sucedido, o projeto aumentaria a influência política do país dentro da aliança atlântica e ampliaria sua capacidade de ação frente a ameaças regionais.

    O sucesso dessa estratégia dependerá da habilidade do presidente em equilibrar alianças externas, manter a coesão interna e administrar as inevitáveis tensões com a União Europeia. O mandato que se inicia será um teste decisivo para o futuro papel da Polônia na segurança europeia.

    Referências

    NATO. “Bucharest Nine (B9) Format and Regional Security Cooperation.” OTAN.int, 2024.

    Parlamento da Polônia. Discurso de posse de Karol Nawrocki, agosto de 2025.

    Warsaw Institute. “The Strategic Role of Poland in NATO’s Eastern Flank.” WarsawInstitute.org, 2025.

    Atlantic Council. “Poland’s Security Policy in the Context of US-Poland Relations.” AtlanticCouncil.org, 2025.

    Reuters. “Karol Nawrocki Sworn In as Poland’s New President.” Reuters.com, agosto de 2025.

  • Guerra híbrida: como a Ucrânia ataca a influência da Rússia na África


    Operações secretas, sabotagem e drones revelam como a Ucrânia enfraquece a presença russa no continente africano


    Principais pontos abordados neste artigo

    Por que a África se tornou parte da guerra entre Ucrânia e Rússia

    A presença do grupo Wagner e da Africa Corps em países africanos

    Operações de sabotagem da inteligência ucraniana

    Impactos estratégicos e geopolíticos da atuação ucraniana no continente


    A África como campo de batalha geopolítico

    Desde 2023, a Ucrânia vem expandindo sua atuação internacional com foco em minar a presença da Rússia em países africanos. Essa estratégia busca atingir os pontos vulneráveis da estrutura de poder russa fora do território europeu, especialmente em regiões onde Moscou mantém operações militares, contratos de mineração e parcerias políticas com regimes autoritários.

    A Rússia mantém bases logísticas e redes comerciais estratégicas no continente por meio do grupo mercenário Wagner, reestruturado em 2024 como Africa Corps. Ao atacar essas conexões, Kiev pretende bloquear o financiamento alternativo da guerra russa e reduzir a influência de Moscou junto ao chamado Sul Global, onde ainda conserva apoio diplomático.

    Ao tornar a África parte ativa do conflito, a Ucrânia também envia um sinal geopolítico: sua defesa envolve não só o território nacional, mas uma resposta global às estruturas de poder russas.


    Sabotagem militar e operações da inteligência ucraniana

    Sudão e República Centro-Africana como alvos prioritários

    Em novembro de 2023, uma explosão destruiu um depósito de armas da Wagner próximo a Omdurmán, no Sudão. Embora inicialmente tratada como acidente, investigações indicaram uma ação planejada pela inteligência militar ucraniana (GUR). Esse ataque foi um marco no uso de operações clandestinas fora da Europa.

    Em janeiro de 2024, um líder de segurança vinculado à Wagner foi morto em Bangui, capital da República Centro-Africana, por um drone artesanal. A ação foi atribuída a uma operação de agentes ucranianos com apoio técnico de serviços de inteligência ocidentais, seguindo a mesma lógica de precisão e discrição.

    Líbia: espionagem sobre voos russos

    Agentes ucranianos também foram infiltrados na Líbia oriental, com a missão de monitorar voos militares russos que transportavam armas e mercenários para o Oriente Médio e outras regiões da África. Foram detectados aviões IL-76, Su-24 e caças MiG operando sob disfarces civis, ampliando a rede logística russa longe da vista internacional.


    A guerra pelo ouro: estratégia econômica contra Moscou

    O ouro africano tornou-se uma das principais fontes de financiamento para a presença militar russa no continente. Minas em Mali e na República Centro-Africana, controladas por mercenários da Wagner, são utilizadas para exportar ilegalmente o metal precioso, especialmente para mercados como os Emirados Árabes.

    Em 2024, a Ucrânia obteve documentos que expuseram essa rede e compartilhou as informações com autoridades francesas e americanas. O resultado foram sanções, congelamento de ativos e apreensão de carregamentos, enfraquecendo diretamente os cofres que sustentam a atuação russa na África e em outros conflitos externos.

    Essa guerra silenciosa demonstra como o confronto se dá não apenas com armas, mas com dados e inteligência econômica.

    Mali e a guerra por procuração com drones

    A atuação ucraniana também envolve apoio a grupos armados que se opõem à presença russa. No norte do Mali, rebeldes tuaregues passaram a usar drones explosivos, com orientação técnica atribuída à Ucrânia. Essas armas permitiram emboscadas e ataques de precisão contra forças aliadas à Rússia, forçando Moscou a reforçar sua presença na região.

    Após uma série de baixas em combates indiretos, o governo do Mali anunciou o rompimento de relações diplomáticas com Kiev em agosto de 2024. A medida foi vista como resposta ao crescente envolvimento ucraniano em ações indiretas contra Wagner e Africa Corps em solo maliano.

    Esse modelo de guerra por procuração mostra como a Ucrânia está adaptando sua estratégia a contextos externos, impondo custos crescentes à expansão russa.


    Uma guerra que ultrapassa fronteiras

    A guerra entre Ucrânia e Rússia já não se limita ao Leste Europeu. O campo de batalha se estende para outros continentes, como a África, onde estruturas econômicas, rotas logísticas e alianças políticas são alvos da inteligência ucraniana. Operações cirúrgicas, vazamentos estratégicos e apoio técnico a grupos locais revelam um novo tipo de guerra híbrida.

    A Ucrânia está demonstrando que, para enfrentar Moscou, é preciso ir além do território e disputar influência global. Ao comprometer redes de financiamento e alianças militares russas na África, Kiev redefine as linhas invisíveis do conflito contemporâneo.


    Referências:

    Lawfare Media. How Ukraine is challenging Russia in Africa and the Middle East

    The Kyiv Independent. Russia has laundered $2.5 billion of African gold

    The Times. Mali cuts ties with Ukraine after drone support

    Le Monde. Ukrainian drones provide support for northern Mali’s rebels

    UCF Global Perspectives. Africa: a second front in Ukraine war

    RIDL. Russia’s chances of establishing a base in Sudan

  • Eu chorei pela Argentina.

    “Baixem as faixas, para que eu possa olhar o povo nos olhos” . Néstor Kirchner

    As imagens assustadoras de uma arma apontada para a Cristina Kirchner me cobriram de aflição. Respirei fundo, ela renasceu! Uma sorte! Me bateu uma alegria por ela ter sobrevivido, ao que poderia ter sido uma tragédia. 

    No dia seguinte, sentimentos mistos, a alegria por ver a sociedade argentina, mesmo em uma profunda crise, reagindo ao ato de violência, me alegou novamente… Alegria solapada pela frieza e certo cinismo por parte de políticos e da imprensa (propagandista) em terras brasileiras. 

    Parece, que por aqui, a apologia da violência e o desprezo à vida humana se tornaram o norte de percepções políticas que promovem o culto a arma e apologia a violência. Só faz apologia a violência quem sabe (ou tem a ilusão) de estar seguro. Não por acaso, os noticiários estão cobertos de armas de fogo disparadas nas situações mais banais. 

    Memórias argentinas

    A minha memória me levou ao momento em que vi o casal Néstor e Cristina pela primeira vez. Foi em uma manifestação no ano de 2009, ou 2010. Não estou certo da data, mas esses foram os anos que passei mais tempo em Buenos Aires.

    De 2005 até 2014 fui todos os verões e invernos para Buenos Aires e morei no segundo semestre de 2009 e primeiro de 2010, por motivos de estudo para o meu doutorado. Naquela época, a Argentina me atraia, me encantava, pela cultura, pela música, pela sociedade e política tumultuada. 

    Esses anos foram repletos de aprendizagem, de alegrias e de esperanças. Vivi em Buenos Aires nos anos em que a Argentina voltava a crescer e o pleno emprego voltou a ser próximo da realidade. Buenos Aires era uma festa! Obviamente, os problemas sociais não estavam superados e eles se faziam presentes no dia-a-dia. Para além dos problemas sociais… O ranço da elite saudosista e anti-peronista estava presente no cotidiano.

    Neoliberalismo: a causa da crise na Argentina.

    Na crise de 1999, presidentes passaram pelo poder e não se estabeleceram: cinco presidentes em uma semana. Era a imagem do colapso, resultado do neoliberalismo, das privatizações alucinadas, da dolarização da economia, da desindustrialização, dos muitos créditos fáceis oferecidos para aqueles que adotavam as políticas neoliberais defendidas pelo famigerado “consenso de Washington”. Carlos Menem foi a expressão de tudo isso! E no fim veio o colapso, pela mão dos seus sucessores.

    As políticas neoliberais causaram o que elas sempre causam: desemprego em massa e inflação. A exclusão social e a fome. O fechamento de grandes fábricas e dos centenários frigoríficos na cidade de Berisso, que conheci, eram a expressão dessa crise que cortava empregos e, principalmente, futuros. 

    Os saques aos supermercados eram diários, as greves explodiram, enquanto tecnocratas apontavam como saída confiscar os dinheiro da população que estava nos bancos para pagar o FMI, Fundo Monetário Internacional, com um plano chamado “corralito”. 

    É o neoliberalismo! É O NEOLIBERALISMO!!!!

    Nos dias 19 e 20 de dezembro de 1999, a população reagiu e as ruas foram tomadas por trabalhadores, os sem-teto, os desempregados e a classe média. Os protestos provocaram a renúncia de Fernando de la Rúa, que fugiu de helicóptero da Casa Rosada, em 10 de dezembro de 1999.

    As grandes crises na Argentina são causadas pela adoção de políticas neoliberais e empréstimos de curto prazo, que são impagáveis. Exatamente a mesma receita adotada por Macri A mesma política tem o mesmo resultado: alívio e falsa sensação de prosperidade nos primeiros meses, crises nos anos seguintes. 

    As crises na Argentina são o resultado de políticas neoliberais! Vou repetir e repetir isso! Isso é um fato! Que políticos e formadores de opinião, doutrinados no neoliberalismo dos anos 1990, tentam enganar, colocando a culpa nos governos progressistas e na esquerda. A ultrapassada e fracassada política neoliberal defendida por velhos decrépitos, lamentavelmente, ainda são os argumentos para atacar aqueles que lutam pelo mínimo de dignidade. 

    Para os doutrinados do neoliberalismo, nem a História e nem a lógica parecem ser suficientes! Os neoliberais partilham de uma fé no mercado semelhante à fé dos terraplanistas e dos anti-vacinas. 

    Repetem suas pequenas verdades e velhas fórmulas, cuja sustentação já fracassaram, tanto nos aspectos teóricos, quanto práticos. A formulação do teólogo Adam Smith, da mão invisível, como um Deus que se manifesta no mercado foi reatualizada por teólogos tecnocratas. 

    O mercado é um deus vingativo, para os teólogos do neoliberalismo que catequizam os privilegiados contra os pobres, dando fantasiosa racionalidade ao seu preconceito de classe. Do menino youtuber, no seu apartamento de classe média, do jornalista bem pago da grande mídia, dos economistas com cabeça de Python, comendo o próprio rabo, todos rezam para o deus mercado, sonhando com o afago da mão invisível, nas suas partes íntimas.   

    Do Caos à Esperança. 

    O colapso na Argentina trouxe formas de esperança que apareciam em movimentos sociais, como os “piqueteros” que cortavam (paravam) a Argentina, lembrando aos deuses do mercado que a sociedade existia. A “toma” de fábricas que se converteram em cooperativas, era outra forma de esperança de reação dos trabalhadores.

    Em meio a todos esses movimentos, emergiram os Kirchner, que de certa forma capitanearam e assumiram essas manifestações de esperança popular. Assumiram junto com a crítica ao neoliberalismo, diversas bandeiras sociais e demandas de progresso social. Nesse aspecto, não decepcionaram e é notável o progresso na legislação argentina em diversas áreas nos últimos anos.

    Na economia, as questões eram mais complexas. A Argentina, como de resto a América Latina, continuou suscetível ao comércio internacional. As dívidas pesam, sempre voltam à tona. Com as dívidas, as crises cambiais e um Estado que não consegue preservar as suas reservas. A economia, de fato, em muitos setores continuou dolarizada. Com a dolarização as crises cambiais, e daí de volta ao caos. Os Kirchners na sua luta pelo poder, não foram capazes de apresentar soluções duradouras aos problemas econômicos da Argentina.

    Os Kirchners

    Assim, como todos os governos progressistas que chegaram ao poder na América do Sul, nas primeiras décadas do século XX, os Kirchner acertaram e erraram muito. E a reação a eles também se deu da mesma forma: discurso neoliberal, ressentimento de classe, saudosismos de um passado glorificado, impulso do agro em só querer exportar e faturar, formaram um caldo perigoso que resultou em um discurso de ódio.

    As acusações de corrupção, em uma guerra através do judiciário, também foi uma fórmula usada contra os Kirchners. Assim, como aqui, o resultado lá também é de muita confusão e indefinição que tensionam o mundo político. Além de não conseguir, de fato, apontar os culpados, devido a bagunça e a politização do processo judicial.

    Para escapar das ameaças de judicialização das eleições, Cristina fez um acordo com Alberto Fernandez, o conduzindo à presidência e ela, como vice. Erraram! Nada disso deu resultados. A pandemia somada à crise internacional, pressão do FMI e dos fundos, pelo pagamento das dívidas, piorou a situação, devolvendo a economia argentina para a incerteza. Os dois se desentenderam, sobretudo com a forma de lidar a dívida e com o FMI

    Com os diversos erros e da não superação dos problemas, arrastaram a Argentina para mais uma crise econômica … O discurso de ódio cresceu. A oposição ganha voz, junto a uma mídia irresponsável e ressentida, devido a reforma na legislação de mídia, realizada nos primeiros governos Kirchners. Grande parte da mídia argentina vê os Kirchners como inimigos e os tratam como inimigos. 

    O ódio que sempre encontra um fanático, um doutrinado disposto a radicalizar. Por sorte, o atentado fracassou! 

    Olhando o povo nos olhos.

    Os Kirchner sempre mantiveram uma forte mobilização política e talvez essa seja uma característica do peronismo. Nas crises, se recorre às massas para criar uma pressão social e nos parlamentares que não conseguem fugir das manifestações, dos protestos, das demandas sociais. 

    E foi em uma dessas crises que minha memória me levou. Ao ler as notícias, lembrei de uma manifestação. Néstor Kirchner, no seu último ano de vida, na frente do Senado, diante de uma enorme massa. Eu andando de um lado para o outro, um pouco perdido, um pouco cantando músicas e hinos. Camisetas eram pintadas com o rosto da Cristina. Néstor aparece para o público que vibra. As enormes faixas sobem! Parado na frente, em voz rouca, Néstor pede… Ou melhor comanda.

    – Baixem as faixas, para que eu possa olhar o povo nos olhos!

  • Ucrânia: os erros de Putin

    Ucrânia: os erros de Putin

    Quando a agressão à Ucrânia teve início, as expectativa era que essa seria uma guerra rápida e a vitória da Rússia inevitável. Hoje, vemos um Putin derrotado, ao menos nos seus propósitos mais megalomaníacos de ocupação da Ucrânia.

    Mas quais foram os erros cometidos por Putin e seus seguidores?

    Preparei uma  lista deles:

    1 – Visão de mundo.  A invasão da Ucrânia é a consequência de uma visão de mundo sustentada pelo presidente Putin  e  seus seguidores. Nessa visão, a Rússia teria sido propositadamente fragilizada e ignorada, com o fim da União Soviética, o que daria legitimidade à ocupação da Ucrânia, como seu “espaço vital”, para usar as palavras dos propagandistas.

    2 –  Considera a  identidade nacional da Ucrânia uma  artificialidade. Nas suas peças de propaganda, buscava sempre associar o sentimento nacional ucraniano ao extremismo nazista, o que o levou a  duvidar da resistência ucraniana.

    3 – A ilusão de que os ucranianos que se identificam etnicamente como russos (que falam russo) aderiram às políticas do Kremlin. Ilusão compartilhada pelos russófilos de plantão.

    4 – Declínio do  Ocidente. A difusão da ideia de que o mundo vai ser governado por uma  aliança asiática. Assim, a União Europeia é apresentada como uma instituição frágil, incapaz de manter uma política própria e independente. A OTAN, como uma aliança que, apesar da sua expansão anti-russa, não conseguiria garantir mais a segurança dos seus membros e da Ucrânia. Aqui temos três avaliações erradas. 

    5 – Acreditar que por fornecer matéria prima, sobretudo o gás, para a Europa, essa seria incapaz de reagir. A reação foi brutal. As sanções, ao contrário das de 2014, provocaram danos na economia russa, que de aliada passou a ser dependente da China. Já a Europa, passo a passo ruma a outros fornecedores de gás petróleo, deixando a Rússia isolada. 

    6 –  A supremacia do Exército Russo. A propaganda russa, sobretudo aquela difundida pela RT e Sputnik, sempre mostraram as forças armadas russas, como modernizadas e eficientes. Imagem essa valorizada pela atuação na Síria. Como vemos, as ações militares foram ineficientes ao ponto de exigirem mudanças nos objetivos da guerra. Analistas apontam que a corrupção destruiu parte das forças russas, completamente despreparadas.

    7 – A irmandade com os ucranianos. Dentre as bobagens propagadas, a de que a Rússia evitaria a força total para não massacrar um povo com laços  históricos em comum foi a maior delas. Diante das derrotas russas, não foi possível esconder os massacres cometidos pelas forças russas. Essa irmandade não existe! Não existe ocupação imperialista civilizada. 

    8 – O desprezo do papel da Europa central e do Norte, como agentes na geopolítica. Polônia, países bálticos e escandinavos reagiram de forma dura e solidária a Ucrânia e passaram a exercer pressão tanto na União Europeia, quanto na Otan (com a já anunciada adesão da Finlândia e da Suécia), para ações mais decisivas, empregaram recursos vultosos, se abriram para abrigar a onda de refugiados, além de sistematicamente denunciarem a Rússia e os crimes cometidos. Assim, se tornaram protagonistas na geopolítica, deixando para trás as políticas francesas e alemãs.

    9 – A rebeldia da Belarus. Depois dos protestos dos anos anteriores, a Belarus pareceu totalmente dominada pela Rússia, mas uma coisa é domesticar o seu ditador, a outra a  sociedade civil. O que vimos na Belarus foram atos de sabotagem e resistência que dificultaram as operações russas a partir do país, ainda, satélite.

    10 – Desprezar Zelensky, enquanto liderança. Ao pressupor na fragilidade de Zelensky, a Rússia desprezou a sua capacidade de articular a resistência. Tomado como palhaço, se esqueceram de que, como  homem de mídia, ele conseguiu recriar a sua imagem e se colocar à frente do processo, fragilizando o discurso russo com relação à Ucrânia. Se Zelensky está longe de ser o herói propagado pela mídia ocidental é necessário reconhecer que  ele ganhou a mídia, gerou mobilização, se  apresentou como resistência. Em outras palavras, ao contrário da esperada fuga, ele se apresentou como resistência. 

    Diante de tantos erros, restou a Rússia a se tornar auxiliar em regiões já  em disputa e usar da chantagem nuclear para não reconhecer a vexaminosa derrota.

  • OTAN e a Soberania: os Tuites do Lula

    OTAN e a Soberania: os Tuites do Lula

    Logo no início da invasão da Ucrânia pela Rússia, o Presidente Lula foi ao twitter se posicionar sobre o conflito. Desde o início, Lula defendeu a paz e a busca por ela, em uma postura correta e digna de estadista que não deixa dúvidas ou meias palavras sobre o seu posicionamento. Apesar da postura adequada, quando Lula foi ao twitter, no dia 03 de março ele deixou uma incomoda observação que aqui gostaria de explorar, sobre a presença da OTAN na região.

    O Presidente Lula afirmou: “É inadmissível que um país se julgue no direito de instalar bases militares em torno de outro país. E é absolutamente inadmissível que um país reaja invadindo outro país.”

    Na sua soberania, um país pode aderir a aliança, união e tratado que julgar pertinente para a sua manutenção e desenvolvimento. Essa adesão é ainda mais legítima, quando são realizadas por países democráticos e no Estado de Direito. Esse foi o caso dos três membros da OTAN que fazem fronteira com a Rússia, os países bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia.

    A adesão da Lituânia, por exemplo, a OTAN e a União Europeia foi realizada por meio de um legítimo plebiscito, após amplo debate público. Comparar a adesão a uma aliança militar a uma agressão a soberania é de uma lamentável estupidez. 

    Vale ainda acrescentar que os países bálticos convivem com sistemáticas agressão por parte da Rússia. A própria imprensa russa, como a RT e Sputnik tinha até a pouco tempo o orgulho de vincular imagem de aviões de bombardeio passando sobre os países bálticos até ser interceptado pelos aviões da OTAN, como propaganda militar. Ainda no plano militar, exercícios de guerra próximos a fronteira na terra e no mar também foram sistemáticos, bem como a instalação de bases permanentes na Belarus. 

    Além dessa forma de ataque, invasões de hacker, atribuídos a Rússia, são tão sistêmicos nos países bálticos que estes se tornaram especialistas em lidar com eles (empresas e startups de tecnologia se instalaram na região). 

    Durante a pandemia, a imprensa em idioma russo nos países bálticos fez aberta campanha contra as vacinas produzidas no ocidente criando dificuldades para a vacinação coletiva. Outros ataques de sabotagem foram realizados em empresas de transporte, como na construção do trem que liga Tallinn (Estônia) a Vilnius (Lituânia). Além das várias tentativas de intervenção em processo eleitoral, conforme acusações que circulam na imprensa dos três países.

    A postura agressiva de Putin aos seus vizinhos no ocidente é amplamente documentada e verificável. Agressividade essa a ponto de Finlândia e Suécia começarem a debater sobre a sua posição de neutralidade, mantida mesmo durante a Guerra Fria.  Lamentável, os tuites do senhor Lula sobre a Guerra na Ucrânia.

    Mesmo com a presença da OTAN, frases como: “primeiro a Ucrânia, depois o Báltico” começaram a circular. Essa tensão passou a ser tão forte a ponto dos três países terem que começarem a rejeitar a afirmativa, com medo de perder investimentos. E qual a garantia que se pode dar que eles permanecerão em paz e sem guerra? O principal argumento tem sido justamente a presença da OTAN e a integração a União Europeia. Não por acaso, o mesmo objetivo da Ucrânia.

    A paz, conforme almejada por Lula e as pessoas de bom senso, deve ser buscada, mas ela se torna difícil, quando se está em um ambiente de intranquilidade e com tantas história traumáticas de guerras e ocupações.