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  • Apresentação dos meus livros, em palestra

    • Apresentação dos meus livros
    • Semana de História
    • Identidade em Conflito

    Boa noite a todos! Obrigado por permitirem realizar o lançamento e a apresentação dos meus livros na Semana de História, mesmo as obras não tratando do tema específico desta Semana. Por isso mesmo agradeço, mais uma vez, a coordenação e aos alunos que apoiaram a difusão do meu trabalho.

    Me cabe, nestes quinze minutos, para fazer a apresentação dos meus livros, ou os dois, nos últimos anos: Identidade em Conflito: os imigrantes lituanos na Argentina, no Brasil e no Uruguai (1924-1950) (EdUFSCar, 2014) e Mataram Alfonsas Marma: Imigração, Comunismo e Repressão (Aped, 2015). Os dois livros nasceram de uma mesma pesquisa realizada durante o meu doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e que recebeu apoio da Fapesp.

    A pergunta que muitos me fazem, quando faço a apresentação dos meus livros, é: Por que dedicar uma pesquisa a um grupo de imigrantes que é tão pequeno em número se comparados com os italianos, espanhóis, japoneses, etc.? A primeira resposta é que é justamente por isso. Os estudos migratórios sempre se dedicaram aos grupos majoritários. Não é à toa que se tornaram um tanto quanto repetitivos em tema. Assim, os grupos minoritários sempre receberam uma atenção menor.

    Como sabemos, nossa sociedade é composta de mais de uma centena de grupos de imigrantes. A imigração, emigração e migração sempre foram parte da nossa formação social. Esses movimentos devem ser considerados, portanto, como parte da nossa sociedade e receber uma atenção especial por parte dos pesquisadores sociais na sua plena diversidade. Isso tanto para temas sociais relacionados à história como às questões contemporâneas.

    Imigração, emigração e migração são temas importantes para a sociedade brasileira, basta vermos as movimentações populacionais no nosso dia-a-dia aqui mesmo no Vale do Ribeira, ou as notícias sobre as agressões sofridas por imigrantes haitianos e africanos nos dias atuais. Da mesma forma, considero importante observar os discursos sobre esses imigrantes, como as acusações de infiltração no país, de que seriam treinados militarmente ou que trariam algum tipo de ideologia política ou doutrina religiosa ao país. Essas acusações, que parecem tão novas e modernas realizadas por jovens, são bastante antigas na nossa história, cada leva de imigrante que aqui aportou as sofreu na carne. Ainda assim, esses mitos da conspiração continuam a ser difundidos por ignorantes travestidos de filósofos.

    Voltando ao tema especificamente dos meus livros, em particular do primeiro, Identidade em conflito ele recebeu certo destaque não só por tratar de um grupo minoritário, mas pela metodologia. Normalmente, as histórias sobre imigrantes europeus (e japoneses também) são apologéticas, algo como: viram, vieram e agora são parte da feliz classe média paulista, contribuindo para o país, mas mantendo alguns traços culturais de sua origem.

    Bonito! Mas aqui o que falta é justamente a História. Uma História da imigração que inclua movimentos políticos, como comunismo, fascismo, nazismo, etc. Que também inclua o tráfico humano e a prostituição. Uma História que pudesse traduzir os conflitos com o Estado brasileiro e os conflitos entre os imigrantes em seus distintos projetos políticos no Brasil.

    Para além desse aspecto, é preciso considerar que os imigrantes mantinham laços de comunicação e solidariedade com os mesmo grupos (de mesma origem) em outros países, como na Argentina e no Uruguai. Essa troca de informações, esse trânsito de pessoas foi, também, parte da formação da identidade dos imigrantes. Portanto, é necessário realizar uma História que se desprenda das formas dos Estados Nacionais.

    Grande parte da nossa escrita da história toma o Estado Nacional como um pressuposto necessário. Então, escreveríamos algo como: os lituanos no Brasil, por exemplo, mas aqui é preciso notar o quanto as fronteiras nacionais são, na realidade, permeáveis. Há uma História que está além das definições apriorísticas das fronteiras nacionais. Eis a questão: Por que delimitar os objetos de estudo de história dentro de uma fronteira nacional? Essa tentativa de superar, ou de ir além do aprisionamento dos objetos da História dentro do Estado Nação, é denominada de História transnacional.

    Essa transnacionalidade dos fenômenos imigratórios foi o que eu me propus a entender, considerando o pequeno grupo dos imigrantes lituanos como objeto de estudo.

    Isso nos leva ao segundo livro: Mataram Alfonsas Marma. Esse pequeno livro, como já mencionei, é resultado desta mesma pesquisa. Quando eu pesquisava para o meu doutorado me deparei com uma série de personagens que mereciam uma atenção em especial e Alfonsas Marma foi um deles.

    Outros dois motivos me motivaram a trabalhar nesta obra. Primeiro nós historiadores no Brasil nos dedicamos muito pouco ao gênero biografia. Normalmente, as biografias são, ainda, associadas a livros de fofocas ou das chamadas “celebridades”, muito embora tenhamos ótimos livros e excelentes pesquisas biográficas. Assim, a biografia é um gênero muito importante para nós e que devemos olhar com atenção, e eu desejava fazer um primeiro trabalho (espero que não seja o último) neste gênero.

    O segundo motivo, e esse mais complicado, se refere à violência política entre os anos de 1946 e 1949. Temos alguns documentos que apontam para ao menos 55 assassinatos políticos praticados por agentes do Estado, neste período. Entre estes crimes políticos está, justamente, o assassinato de Alfonsas Marma pela Força Pública do Estado de São Paulo.

    Quando comecei a escrever o livro, um debate que considero complicadíssimo acontecia. Era o período de início dos trabalhos da Comissão da Nacional da Verdade. A lei que estabeleceu o seu funcionamento, originalmente, previa que as investigações deveriam abranger o período de 1946 até o fim da Ditadura civil-militar, abrangendo assim as duas transições de ditaduras para democracia.

    No entanto, uma enorme pressão política, inclusive de intelectuais e militantes da esquerda, forçou a Comissão a limitar os seus trabalhos apenas sobre o período da segunda ditadura. Desta forma, todos os assassinados no período entre as ditaduras foram simplesmente abandonados…

    Esse abandono foi sem dúvida um estímulo para que eu pudesse escrever uma biografia recuperando a trajetória de um dos ativistas políticos que tinha sido deixado sem verdade, portanto, sem memória. Tenho a esperança de que outros historiadores, com o tempo, recuperem cada um dos casos.

    Espero que minha introdução e a apresentação dos meus livros tenha sido um convite à leitura. Desde a publicação dos dois livros já tomei muitas broncas e tive uma dezena de brigas por conta das minhas ideias.Isso significa que se os livros não são bons… Ao menos não puderam ser ignorados!

    Obrigado a todos e boa noite!

  • Luís Carlos Prestes na obra de Daniel Aarão Reis….

    Luís Carlos Prestes na obra de Daniel Aarão Reis….

    • Resenha do livro Luís Carlos Prestes
    • Análise da Biografia
    • Comentários históricos

    Com ou sem polêmica era certo de que o livro Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos de Daniel Aarão Reis (1946 – ) faria parte da minha lista de leituras. Não conheço o Daniel Aarão Reis pessoalmente, nem tive com ele qualquer forma de contato acadêmico ou institucional. No entanto, posso dizer que o conheço já faz muitos anos, pois sou um leitor assíduo de suas obras. Além dos vários artigos e conferências que assisti, também tenho na minha pequena biblioteca particular algumas de suas obras, como: Ditadura Militar, Esquerda e Sociedade (Zahar, 2000), As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético (EDUNESP, 2003), Uma Revolução Perdida: a história do socialismo soviético (Perseu Abramo, 2007) e Ditadura e Democracia no Brasil (Zahar, 2014). Sobre este último pretendo dedicar algumas linhas nesse blog, quando for possível.

    Sem dúvidas, as obras desse autor fazem parte da minha formação como historiador e são constantes referências na minha forma de pensar o Brasil República e a História da União Soviética. Vale ainda acrescentar a sua influência  na história do marxismo e da esquerda, em geral, no Brasil. Referência não significa ausência de crítica, ou concordância absoluta, mas sou partícipe silencioso, ou nem tanto, das polêmicas, propostas e interpretações deste historiador.

    Senti a necessidade de esclarecer o lugar que este historiador, que considero brilhante, ocupa na minha formação, para me sentir livre para criticar a sua recente obra. Também quero esclarecer que não vou tomar lado nos debates e polêmicas. Em especial aquelas conduzidas pela filha do biografado Anita Prestes, a quem eu também não conheço pessoalmente, mas pela qual tenho profundo respeito pela historiadora. (As críticas de Anita Prestes a obra podem ser lidas AQUI)

    A confusão dos tempos históricos.

    Em diversos momentos, o texto cai em uma tremenda confusão de tempos históricos. Por exemplo, quando é feita uma citação não sabemos se é um texto escrito na época do evento narrado, se é uma memória escrita posteriormente ou algum documento da época que registra a declaração, como em um jornal. Aqui temos um problema grave!

    Não existe texto sem contextos (e a relação dialética entre os dois). Tal fato deixa o leitor confuso, pois o livro se converte em uma sequência de declarações desorganizadas e, assim, perde-se justamente a História. Quero dizer que eu não posso juntar um documento de uma época com um comentário feito quarenta anos depois sobre aquele evento sem contextualizar os dois documentos.

    No mais é sempre importante pensarmos que personagens históricos muitas vezes mudam de posição ao longo da vida. Até mesmo de ideologia! E o próprio biografado, no caso, o Luís Carlos Prestes, fez avaliações diferentes ao longo da vida sobre um mesmo episódio por ele vivenciado. Assim, quando perdemos do horizonte as relações tempo e vivências ficamos sem referências para refletirmos sobre os acontecimentos e, no fundo, eles se tornam muitas vezes confusos. Assim, a forma como foi armado o texto em nada ajuda o leitor.

    Em alguns casos, a ausência total de referências chega ao absurdo, como na polêmica afirmação sobre um suposto filho de Olga na União Soviética (fiz questão de colocar supostos aqui). Na página 171 aparece a seguinte referência: “ (…) Olga não tinha grande experiência de luta na clandestinidade. Casada e com um filho na União Soviética, sua missão, de seis meses, era oferecer as melhores condições de segurança para que Prestes pudesse ir para o Brasil e aí iniciar o trabalho revolucionário. (…)”

    Contando as estrelinhas lá no fim do livro, descobrimos que essa informação saiu dos arquivos da Internacional Comunista. No entanto, não consta a referência a um documento específico, ou em que circunstâncias tais documentos (ou documento) foiram escritos. Enfim, estamos sem nada nas mãos! Principalmente, porque Aarão não volta ao tema! Não coloca uma observação a mais. Nem mesmo quando trata do longo período da família Prestes na URSS. Parece que essas linhas ficaram simplesmente perdidas no texto. Teria sido um erro? Não sei, mas é a minha impressão final… Esperamos esclarecimentos do autor…

    Família Prestes

    Algo que nos chama a atenção ao longo de toda obra é a forma como Daniel Aarão Reis trata a família Prestes. Se Luís Carlos Prestes, como veremos, é tratado com reverência e elogios, o mesmo não se dá com relação a sua família. O autor trata de um tema delicado. A mãe de Prestes teria sempre omitido que duas das irmãs de Prestes teriam nascido de outro relacionamento após a morte do pai de Luís Carlos Prestes, ainda jovem. A questão, como o próprio autor coloca, é que na década de 1920 isso era condenável e, portanto, era “normal” que uma mulher buscasse se preservar de uma sociedade moralista e machista.

    Esse ocultamento só aparece em algumas falhas, como por exemplo, nas datas de nascimento que não batem com a data de morte do pai ou em um documento soviético que logo é substituído por outro. Neste sentido, descobrimos que na família Prestes esse tema era um tabu. A questão é: em que outra família não seria?

    Para além, se esse fato não tem nenhuma conexão com o comportamento moral de Prestes e nenhuma influência sobre as suas decisões, fora a curiosidade da vida privada, qual é a relevância do fato para entendermos o biografado? O texto não deixa claro e a conclusão a que se chega é: nenhuma!

    Da forma como Daniel Aarão Reis desenha a relação entre Prestes e a sua família fica um incômodo, pois parece que ocultar a origem e a existência de determinados filhos é um comportamento padrão. Primeiro essa questão da mãe de Prestes, segundo o suposto filho de Olga (coloco supostos novamente) e terceiro os filhos da segunda esposa de Prestes fruto de um primeiro relacionamento, mas que Prestes sempre tratara como filhos e que somente muito depois souberam de seu verdadeiro pai.

    Seria esse um comportamento padrão da família Prestes?

    A história é muito mais complicada do que isso e o próprio autor a esmiuça em detalhes para mostrar que não se tratava de uma questão moral, mas sim de múltiplas circunstâncias de que quem vivia ao lado de Prestes acabava tendo que suportar, pois exílio, clandestinidade, confusões e intrigas políticas sempre foram parte da vida deste atribulado personagem e sim afetaram as suas relações pessoais e familiares como era de se esperar.

    Seja como for, não deixa de ser incômoda essa entrada na vida privada que o autor faz, mas afinal é uma biografia e entrar na vida privada de personagem políticos não é uma tarefa fácil. Compreender mais do que julgar, bom, essa é uma tarefa para poucos.

    Quem foi Luís Carlos Prestes?

    Aqueles que procurarem uma obra anti-Prestes nesse livro certamente vão sair decepcionados. Não há uma única palavra contra Prestes, pelo contrário. Todos os adjetivos, mesmo em momentos complicados de sua vida parecem ser elogiosos. Suas qualidades pessoais e sua coerência ideológica são uma marca de sua trajetória.

    Assim, emerge uma imagem de Prestes bastante distinta do assassino cruel e calculista da obra de Willian Waack Camaradas, Nos Arquivos de Moscou: a história secreta da revolução brasileira de 1935 (Companhia das Letras, 1993), ou do herói iludido pela ideologia soviética da obra de Paulo Sérgio Pinheiro Estratégias da Ilusão. A Revolução Mundial e o Brasil, (Companhia das Letras, 1991). Também não é o Prestes herói romântico do Fernando Morais em Olga (Companhia das Letras, 2008) e menos ainda um mítico cavaleiro da esperança de Jorge Amado. Só para citar algumas referências…

    É bem possível que por se distanciar dessas imagens de louvação por um lado e de escárnio de outro que a obra de  Daniel Aarão Reis provoque incômodos. Aqui temos um Prestes com muitas qualidades, mas com dilemas, com uma coerência que esbarra na própria mudança dos tempos políticos. Ele errou, e feio, mas não é nem herói e nem bandido e sim um homem lutando com o seu tempo histórico e com os seus possíveis. Por essa razão, creio que a obra que o autor nos apresenta tem mais méritos do que se tem dado nas críticas (ao menos nas que eu tenha lido).

    Um ponto que gostaria de destacar da obra é a parte final. Em geral estamos mais acostumados com a história de Prestes na Coluna ou na “intentona”, menos destaque, por motivos óbvios, damos ao seu papel no fim da ditadura e do seu rompimento com o PCB, por exemplo.

    Aqui temos uma questão importante para percebermos quem foi Prestes, pois não foi ele quem mudou de rumos. Prestes continuou fiel ao socialismo e aos projetos de transformação radical da sociedade. Quem abandou tal projeto foi o PCB e no final das contas a própria União Soviética que, apesar das homenagens, no final acabou por desconsiderar e até desprezar Prestes, quando esse cobrava um compromisso com o socialismo que a própria URSS já tinha perdido.

    A coerência de Prestes se tornou incômoda no fim dos anos 1970 e na década de 1980. Trouxe críticas e problemas aos novos atores sociais, como Lula, e também, a antigos políticos, como Leonel Brizola, que muitas vezes recebeu apoio crítico de Prestes na luta contra a ditadura que ia chegando ao fim. Assim, o Velho, como passou a ser chamado, dá uma lição de compromisso com a esquerda e com o socialismo, enquanto os demais a sua volta foram fazendo concessões e mais concessões a uma “democracia” limitada e controlada da qual Prestes já desconfiava.

    É para se pensar…

    No mesmo sentido, seria curioso de ver a cara dos velhos decrépitos que governavam a União Soviética nos seus últimos dias e os moralistas do PCB ao escutarem declarações como essas do nosso Velho comunista, citado por Aarão na página 464:

    Um dia, quando a humanidade construir uma sociedade igualitária, todos terão liberdade para fazer qualquer coisa. Quem quiser fumar maconha, vai fumar. Homem que quiser casar com homem, vai casar. Quem desejar morar em outro planeta, vai morar (…) sem repressão religiosa, policial, ditatorial ou política. Nessa época a humanidade estará livre dos preconceitos que infernizaram a sua trajetória. (…)”

    Por fim…

    É fato que a obra deixa muitas lacunas e pontos problemáticos que precisam ser esclarecidos e estamos certos de que seria salutar se o próprio autor assim o fizesse. Uma obra como essa é merecedora de um debate tanto por respeito à figura de Prestes, quanto à pesquisa e interpretações que Daniel Aarão Reis nos propõe. Assim, longe das críticas radicais e das acusações sem o menor sentido essa é uma obra que deve permanecer viva enquanto referência e análise, pois no fim ela tem mais a contribuir para esse importante personagem da nossa vida política do que as críticas radicais e o “puxa-saquismo” tem permitido discutir. Não é uma obra anticomunista e também não é uma obra oficial para o PCB ou instituto Prestes, tampouco é uma obra que vá servir aos que odeiam Prestes e o Comunismo. Pontos para Daniel Aarão Reis!

  • Direitos Humanos Sem Ser Chapa Branca!

    Direitos Humanos Sem Ser Chapa Branca!

    • História dos Direitos Humanos
    • A proposta de Samuel Moyn
    • Direitos Humanos como Utopia

    Direitos Humanos Sem Ser Chapa Branca! História dos Direitos Humanos. Os usos e abusos do passo… Como uma vez comentou minha amiga Renata Meirelles: Samuel Moyn é um dos poucos estudiosos sobre Direitos Humanos que não é “chapa branca”. Uma definição perfeita para o professor de Direito e de História da Universidade de Havard. Em sua obra Human Rights and the Uses of History (2014).

    Samuel Moyn assume um tom crítico elevado tanto sobre os usos históricos como pelos abusos retóricos nas políticas externas da noção de Direitos Humanos. Contudo, ao contrário da esquerda radical – que ainda hoje o despreza como conceito “burguês” – e da extrema direita – incapaz de compreender a universalidade da condição humana – Moyn demonstra como Direitos Humanos é um conceito em disputa.

    A análise históricas e os mitos fundadores

    No que se refere a análise histórica, e aqui não pretendo comentar cada um dos autores com os quais Moyn debate, pois seria uma lista extensa (Lynn Hunt, Tony Judt, David A. Bell…) o autor critica e desconstrói um discurso que se tornou “padrão” e é adotado como “A” história dos Direitos Humanos.

    Se entrarmos na maioria dos sites de instituições vinculadas as lutas pelos Direitos Humanos, nos manuais e textos de referência dos cursos de Direito e de Relações Internacionais, encontramos uma narrativa linear que começa em uma antiguidade longínqua, passa por marcos históricos medievais, posteriormente a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e chega ao ápice com o documento aprovado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948. Essa narrativa também, vale dizer, é adorada sem maiores críticas por historiadores, politólogos, internacionalistas, jornalistas e etc.

    No entorno de cada um desses marcos se formou uma mitologia que nos leva a acreditar que a humanidade caminhou sobre as suas tragédias até encontrar o Direito Universal. É justamente esse aspecto que Moyn vai tratar de desmontar (ou desconstruir). Tomemos dois importantes exemplos utilizados pelo autor.

    Desconstruindo os Mitos fundadores na História dos Direitos Humanos

    Ao analisar a Declaração Universal dos Direitos do Homem e dos Cidadãos aprovada durante a Revolução Francesa, Moyn demonstra que esta tinha como horizonte o conceito de NAÇÃO. Assim, o documento buscava vincular o indivíduo (agora convertido de súdito a cidadão) a sua terra natal (a sua nação), portanto estava longe de estabelecer parâmetros para toda humanidade. Na realidade a sua noção de “universalidade” era bastante limitado. Nesse sentido, é que o autor questiona esse marco histórico como uma das origens dos Direitos Humanos, na sua percepção universal.

    Outro questionamento é sobre o impacto do holocausto como “A” causa principal que teria levado as Nações Unidas, na sua fundação, a adotar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Para desconstruir essa ideia, Moyn dedica um capítulo inteiro do livro intitulado: The Intersection with Holocaust Memory, retoma alguns fatos históricos. Ele demonstra a dissincronia entre difusão do que foi o holocausto com a aprovação do texto pela ONU. Para o autor, o texto da ONU foi aprovado antes que se desse o conhecimento pleno do holocausto e que a sua magnitude pudesse ter sido absorvida pelos países membros da ONU. É um argumento para lá de polêmico!

    De certa forma, como nós absorvemos a história dos Direitos Humanos até hoje, sempre colocamos o holocausto como o epicentro do reconhecimento da necessidade de um código universal de direitos que garantisse a dignidade humana. Contudo, Moyn argumento que assim como no caso francês, o texto da ONU tem uma universalidade limitada. Ela é limitada no que se refere a proteção do indivíduo em escala global e, novamente ele servia para vincular cada indivíduo a uma nação, a um país, tal qual o texto francês.

    Direitos Humanos e a Intervenção Humanitária

    Importante notar, que da mesma forma que o autor desconstrói a ideia de intervenção humanitária, pois nos anos de 1990 essa começou a ser utilizada pela ONU e justificar as ações do governo Bill Clinton (como a intervenção em Kosovo). Alguns intelectuais se obrigaram a encontrar precedentes históricos e muitos deles são simplesmente absurdos. Entre eles argumentar que a ação inglesa de afundar navios negreiros era uma forma de intervenção humanitária orquestrada pelo Império Britânico.

    Para o Moyn intervenção humanitária é simplesmente um erro! A mesma desconfiança o autor lança sobre as Cortes Internacionais que, apesar da sua pretensão universalista, até hoje somente jugou criminosos de países subdesenvolvidos, a maior parte da África, e jamais tocaram os violadores dos países desenvolvidos.

    Qual é a história dos Direitos Humanos proposta por Moyn

    Dessa feita, fica o questionamento: então quando a noção de Direitos Humanos, entendido como a necessidade de proteção a dignidade humana teria emergido? Para responder essa questão Moyn retoma a sua obra anterior The Last Utopia (2010) na qual argumenta que os Direitos Humanos se tornaram a última Utopia – como já aponta o título.

    Assim, nos anos 1970, quando as demais utopias que visavam a transformação radical do sistema, como a socialista, entram em decadência, vencidas tanto na Europa como na América (Norte e Sul) é que emerge a luta pelos Direitos Humanos. Uma luta, não vinculado a um governo específico e em nome da proteção individual contra as violações cometidas pelo Estado. Devemos lembrar que este era também um período em que prevaleciam as ditaduras militares na América Latina. As ditaduras usavam sistematicamente a tortura, das lutas coloniais, além de países que lutavam contra a segregação racial e pelos Direitos Civis, notadamente na África do Sul e Estados Unidos.

    Isso não significa que Moyn jogue o conceito no lixo, pelo contrário! O que ele busca é uma estratégia de abordagem sem ilusões que permitam um entendimento crítico do conceito seus usos e abusos e principalmente o uso de uma suposta história da ideia de Direitos Humanos para justificar ações no presente.

    Algumas considerações e criticas

    De todas as questões apresentadas gostaria de deixar apenas algumas questões a serem consideradas. Primeiro, o autor toma muito `a sério a ideia de fim das utopias. Principalmente das utopias da esquerda de transformação da sociedade, essas podem ter mudado de forma, mas afirmar que terminaram é algo bastante questionável (isso fica mais clara no livro anterior).

    Esse entendimento é bastante comum entre os pensadores liberais e conservadores Norte-Americanos, desde a década de 1990, com o fim da URSS: O fim das utopias e a vitória do liberalismo. Assim, embora seja um crítico ferrenho dos “liberais internacionalistas”, acaba por assumir um dos pontos principais da argumentação destes com relação a construção de “uma nova ordem multipolar”.

    Retomando um clássico

    Outra questão a ser coloca é uma observação de Norberto Bobbio no seu livro A Era dos Direitos (2004). Eu sei que esta é uma obra limitada (ao contrário das outras obras desse autor) e até mesmo datada, tanto assim que foi (e é) utilizada como manual em vários cursos de graduação. Por fim, está mais do que claro que é justamente esse tipo de narrativa que Moyen critica. Ainda assim tem um ponto que eu acredito que mereça ser trazido para o debate. Qual seja?

    Nos demonstra Bobbio que tanto o texto francês quanto o aprovado nas Nações Unidas, se eram limitados no seu alcance universal, ambos tornaram-se referências em todas as constituições dos Estados Modernos e, desta forma, seus princípios incorporados pelos países. Por que esse ponto é fundamental? Porque de uma forma ou de outra, foi a incorporação desses princípios que permitiu aos grupos de Direitos Humanos. Na década de 1970, a utilizarem as próprias constituições nacionais contra as violações realizadas pelos seus governos.

    Da mesma forma, no plano internacional, foi o que permitiu que os países aprovassem as resoluções na ONU e nos Congressos subsequentes sobre o tema pois havia, ainda que de forma discursiva, uma congruência mínima entre os princípios constitucionais, de cada país, e as propostas no plano internacional. Essas brechas possibilitaram muitas das ações dos grupos de Direitos Humanos na luta contra as violações, tanto no plano interno quanto no internacional, como colocamos.

    É para ser lido!

    O livro de Samuel Moyen é excelente pela sua proposta interpretativa. Mesmo que o leitor não concorde com ela, e pelo exercício de desconstrução historigráfico que o autor realiza com acidez e maestria. Eu diria mesmo que é uma leitura obrigatória para qualquer debate sobre o tema. Como coloquei no início, não espere um discurso bonitinho sobre Direitos Humanos e nem a sua glorificação, o autor não é “chapa branca”!

    Especificamente, para nós brasileiros há uma questão importante! Muitos intelectuais defendem que o Brasil deveria adotar uma política externa voltada para os Direitos Humanos criticando a política atual (que sim merece muitas crítica!). Esse discurso é muito comum entre os liberais e conservadores que tem nos Estados Unidos e na Europa um horizonte, pois bem! Eis uma boa leitura para uma visão mais crítica sobre o tema.

    Lamentavelmente o livro não foi publicado em português e como hoje são lidos mais manuais e resumos do que obras. E qualquer contestação a verdades estabelecidas no Brasil é um problema, acho que as ideias dele vão demorar uns 10 anos para chegar aqui na vanguarda do atraso.

    Referências:

    MOYN, Samuel. Human Rights and the Uses od History. London/ NYC: Verso, 2014.

    MOYN, Samuel. The Last Utopia. Human Rigts in History. Harvard University Press, 2010.

    BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro. Campus, 2004.

  • Livro novo: Identidade em Conflito.

    Livro novo: Identidade em Conflito.

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    @erickrgzen

    Caros amigos,

    Finalmente, com alegria, posso anunciar que meu novo livro foi publicado: Identidade em Conflito: Os imigrantes lituanos na Argentina, no Brasil e no Uruguai. A obra foi publicada pela EdUFSCar e contou com o apoio Fapesp, que também concedeu a bolsa de doutorado possibilitou a pesquisa.

    O livro, de uma forma geral, consiste na tese defendida na Universidade de São Paulo (USP) como resultado da minha pesquisa de doutorado em História Social. Claro, que o tempo, e as novas leituras ao longo dos últimos anos permitiu melhorar e aprimorar o texto original. No mesmo sentido, e sempre para melhor, o livro pediu algumas adaptações.

    Leitura do primeiro parágrafo do livro

    Meu trabalho de pesquisa consistiu em analisar as formas de estruturação e as relações entre as comunidades lituanas radicadas na Argentina, no Brasil e no Uruguai. De forma comparada, buscar compreender as referências identitárias deste grupo nacional durante o processo de desenraizamento territorial e a formação dos laços de solidariedade ao longo do processo de inserção nos diferentes Estados nacionais. Ao mesmo tempo, demonstrar como estas comunidades se relacionavam para além das fronteiras dos países em que se estabeleceram, construindo intercâmbios de experiências e organizando movimentos sociais e políticos.

    Busquei, com isso elaborar uma abordagem transnacional preocupada sobretudo com a circulação das ideias e as mobilizações políticas, em particular, em um momento de radicalização e de intensas mudanças tanto para os países latino-americanos, como para a Lituânia.

    Esperamos que o resultado tenha sido satisfatório e para quem quiser conhecer a obra ela pode ser adquirida no site da editora. O lançamento será nas próximas semanas…

    • O livro pode ser adquirido pelo site da editora da UFSCar AQUI  
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  • Livro: Identidade em Conflito.

    Livro: Identidade em Conflito.

    Caros amigos,

    Finalmente, com alegria, posso anunciar que meu novo livro foi publicado: Identidade em Conflito: Os imigrantes lituanos na Argentina, no Brasil e no Uruguai. A obra foi publicada pela EdUFSCar e contou com o apoio Fapesp, que também concedeu a bolsa de doutorado possibilitou a pesquisa.

    O livro, de uma forma geral, consiste na tese defendida na Universidade de São Paulo (USP) como resultado da minha pesquisa de doutorado em História Social. Claro, que o tempo, e as novas leituras ao longo dos últimos anos permitiu melhorar e aprimorar o texto original. No mesmo sentido, e sempre para melhor, o livro pediu algumas adaptações.

    Leitura do primeiro parágrafo do livro

    Meu trabalho de pesquisa consistiu em analisar as formas de estruturação e as relações entre as comunidades lituanas radicadas na Argentina, no Brasil e no Uruguai. De forma comparada, buscar compreender as referências identitárias deste grupo nacional durante o processo de desenraizamento territorial e a formação dos laços de solidariedade ao longo do processo de inserção nos diferentes Estados nacionais. Ao mesmo tempo, demonstrar como estas comunidades se relacionavam para além das fronteiras dos países em que se estabeleceram, construindo intercâmbios de experiências e organizando movimentos sociais e políticos.

    Busquei, com isso elaborar uma abordagem transnacional preocupada sobretudo com a circulação das ideias e as mobilizações políticas, em particular, em um momento de radicalização e de intensas mudanças tanto para os países latino-americanos, como para a Lituânia.

    Esperamos que o resultado tenha sido satisfatório e para quem quiser conhecer a obra ela pode ser adquirida no site da editora. O lançamento será nas próximas semanas…

     

  • Legado de Cinzas: uma história da CIA

    • Resenha do livro Legacy of Ashes. The History of the CIA
    • Sobre Tim Weiner
    • A CIA e a Guerra Fria

    Não tenho dúvidas que Legacy of Ashes. The History of the CIA é a obra narrativa mais completa sobre a atuação da CIA. O livro de Tim Weiner recebeu o principal prêmio que um jornalista norte-americano pode receber: o pulitzer. Sua proposta é realizar uma história narrativa dos principais eventos sobre a CIA que se estende da sua fundação ao o que o autor considera o seu momento de maior crise, com a revelação de que o Iraque, ao contrário do que foi levado ao público, não possuía armas de destruição em massa.

    Essa longa trajetória, cobrindo aproximadamente 60 anos, é realizada em 778 páginas. Sua narrativa é clara e prende a atenção do leitor. Mesmo para um leitor estrangeiro, como eu, o vocabulário é acessível e as construções gramaticais não se prendem a desnecessários rebuscamentos. Sua pesquisa também merece destaque. Embora o autor cubra temas relacionados à inteligência americana para diversos órgãos de imprensa, não utilizou fontes que não possam ser verificadas. Com isso a narrativa histórica, feita por um competente jornalista, ganha credibilidade e não se perde nos corredores das hipóteses mirabolantes e das teorias da conspiração.

    Esse é um aspecto importante! Aquele que se propõem a escrever a história de qualquer órgão de segurança (ou de inteligência) anda sempre no fio da navalha entre as teorias da conspiração, o que veio a público e o que pode ser comprovado. A própria comprovação é, muitas vezes, o maior problema. Assim, entrar em assuntos espinhosos e ao mesmo tempo manter a sobriedade da pesquisa é algo exaustivo e cansativo. (Aqui compartilho minha experiência trabalhando com os arquivos do Deops-SP).

    Seja como for, o autor realiza o que se propõe e o que nos oferece cobre uma ampla história da CIA. Não quero dizer com isso que não caibam questionamentos às suas afirmativas. Pelo contrário! Menos ainda que ela é completa e absolutamente correta (mesmo porque isso não existe em nenhum trabalho histórico). Na realizada, o autor nos apresenta uma avaliação bastante pessimista da atuação da CIA. Demonstra exaustivamente a sua debilidade, as suas falhas e os seus erros. O principal deles, ainda segundo o autor, foi o de sempre depender da inteligência de outros países. Mostra ainda a incapacidade desta ter penetrado a URSS, durante a Guerra Fria. Narra uma quantidade enorme de operações fracassadas nas mais diversas partes do mundo, da América Latina, Ásia e Oriente Médio. Ressalta ainda alianças duvidosas com o sub-mundo em diversos países do mundo.

    De toda as trajetórias descritas pelo autor gostaria de destacar uma em particular que se refere à Europa Centro-Oriental. Logo no início da Guerra Fria, com o objetivo de levar um discurso pró-ocidente e pró-liberdade para dentro da URSS e dos demais países comunistas, a CIA junto com diversas organizações, apostou na Rádio Europa Livre. A Rádio difundia um discurso do Ocidente que poderia ser facilmente captado por qualquer rádio e que com a tecnologia então disponível era praticamente impossível bloquear sem danificar seriamente a comunicação destes países.

    Guerra Fria: a CIA e a Europa Centro-Oriental: Rádio Europa Livre.

    No delinear da Guerra Fria, uma questão que se abriu foi como lidar com aqueles que haviam escapado da União Soviética e dos países sob regime comunista da Europa Centro-Oriental. Em particular com os intelectuais que agora viviam no ocidente. Assim, os principais cabeças da CIA como, Frank Wisnes, Kennan e Allen Dulles viram uma forma muito melhor de lidar com o fervor e com a energia destes intelectuais dos exilados e decidiram por abrir um canal por trás da cortina de ferro: a Rádio Europa Livre.

    O plano teve início no final de 1948 e no início de 1949, mas foram necessários mais de dois anos para que a rádio fosse levada ao ar. Dulles se tornou o fundador do  Comitê Nacional para Europa Livre (National Committee for a Free Europe), um dos muitos frontes organizados e financiados pela CIA nos Estados Unidos. A comissão da Europa Livre incluiu o General Eisenhower, Henry Luce, os editores da Time, da revista Life e da Fortune e Cecil B. DeMille, um produtor de Hollywood, todos recrutados por Dulles e Wisner como um disfarce  para o verdadeiro propósito: a rádio se tornaria uma arma política na Guerra Fria. Assim, durante décadas pelas ondas do rádio, a CIA, com apoio de muitos intelectuais, lançou contra a chamada “cortina de ferro” um discurso anti-comunista e que incentivava a rebeldia em todos os países na Europa sob domínio comunista.

    Sobre esse aspecto, gostaria de complementar com a seguinte observação. Em muitos países, como na Lituânia atual, a rádio livre entrou na narrativa histórica como parte da resistência “nacional” contra o comunismo. Se de fato, vários lituanos trabalharam nela, ou para ela, é sempre necessário frisar esse aspecto, qual seja, tratava-se de um projeto propaganda e com uma intenção muito bem estabelecida no delinear de uma Guerra. Portanto, estava longe de ser uma atividade espontânea de resistência, como muitas vezes aparece.

    A Tragédia dos Agentes Antissoviéticos.  

    Steve Tanner era um veterano da inteligência do exército e recém egresso da Universidade de Yale, contatado por Richard Helms, poderoso diretor da CIA, em 1947. Em Munique, na Alemanha, sua missão era recrutar agentes que pudessem oferecer material de inteligência aos Estados Unidos atuando por trás da Cortina de Ferro.

    Dessa forma, quase todas as nacionalidades da União Soviética e da Europa Oriental tinham pelo menos um importante grupo, ou que se autoconsiderava importante, de emigrado, buscando pelo socorro da CIA em Munique e em Frankfurt. Alguns dos homens que Tanner investigou como potenciais espiões eram Europeus Orientais que tinham tomado o lado da Alemanha contra a Rússia. Elas incluíam pessoas com passado fascista que tentavam salvar suas carreiras tornando-se úteis aos americanos. Tanner afirmou, e estava preocupado, pois “eles estão automaticamente do nosso lado”. Outros que haviam saído da periferia da União Soviética exageravam seu poder de influência. “Esses grupos de emigrados, o seu principal objetivo é convencer o governo dos Estados Unidos da sua importância e da sua habilidade de ajudar o governo dos Estados Unidos, e então receber apoio de uma forma ou outra”.

    Para organizar suas atividades antissoviéticas, Steve Tunner estabeleceu que para receber ajuda da CIA, os emigrados deveriam ter conexões na sua terra natal e não nos cafés. Eles não deveriam estar comprometidos com o nazismo. Em dezembro de 1948, após um estudo cuidado ele finalmente parecia ter encontrado um grupo: Supremo Conselho para a Libertação da Ucrânia.

    Eles foram infiltrados, mas a União Soviética foi capaz de identificar todos eles e rapidamente os eliminou, assassinando todos eles! Ao estilo soviético… Com isso, centenas de agentes estrangeiros da CIA foram enviados para a morte na Rússia, Polônia, Romênia, Ucrânia e nos países Bálticos durante os anos 1950.

    Essas são apenas algumas das histórias tratadas por Tim Weiner, em sua obra. E por essas e outras que ele considera que o legado da CIA tenha sido um “legado de cinzas”… Ainda sobre a Europa Centro-Oriental o autor enfatiza sua incapacidade de entrar na inteligência soviética e ainda sua total surpresa diante do colapso da URSS e do regime comunista na Europa Oriental…

    Essa é uma questão bastante preocupante para a atualidade: se a inteligência americana não conseguiu compreender e entender a União Soviética, como esperar que lidem agora com a Rússia e suas ações nos países que fizeram parte da URSS? Essa vai ser  outra história.

  • Os Outros Esquecidos: Monumentos ao Exército Vermelho

    Os Outros Esquecidos: Monumentos ao Exército Vermelho

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • A memória na Lituânia
    • Monumento ao Exército Vermelho
    • Memória oficial sobre o comunismo

    Em diversas cidades da Lituânia um incômodo monumento está à vista de quem queira ver: Os cemitérios dos combatentes do Exército Vermelho que caíram ao longo da sangrenta campanha que se arrastou no país. Um duplo sentimento se estabelece. Por um lado, são a celebração da vitória contra o nazismo e a ocupação alemã. Por outro, era o estabelecimento do regime comunista na Lituânia e a sua integração a União Soviética.

    Durante o período soviético, esses cemitérios foram cuidados, preservados, e eram até mesmo lugares de celebração. Com o fim do regime, virou um incômodo, pois se criou ao longo das últimas décadas uma memória e uma história oficial antissoviética – não raramente antiesquerda, como forma de afirmação da independência.

    Nos livros de história, o comunismo é sempre apresentado como algo externo aos lituanos. Como se não houvesse lituanos comunistas e quando estes trabalharam em prol da União Soviética são chamados de colaboracionistas, da forma mais pejorativa possível. Ou como mero oportunistas. Assim, ser lituano é ser anticomunista e quem escreva contra ou tente discutir – negar – o “genocídio” soviético você pode ser punido, com a mesma lei que pune aqueles que tentam negar o holocausto.

    Ainda não raramente, em muitos livros, se tenta enfatizar a quantidade de “não lituanos” nas organizações comunistas naquele país. Isso equivale a dizer que pela expressiva quantidade de judeus, russos e polacos no Partido Comunista Lituano ele não seria legitimo. Muitas vezes essas referência são feitas de forma discreta, espalhada entre as páginas, mas estão lá.

    Podemos comparar aqui a Lituânia com a Rússia e entendermos a diferença. Os russos incorporaram os “feitos” soviéticos a sua memória e a suas datas cívicas, como o Dia da Vitória, ou ainda todas as vitórias olímpicas e…não menos importante… o mausoléu do Lênin continua no mesmo lugar.

    Na Lituânia, a União Soviética é expelida da memória. Qual o problema? O problema é que isso acaba por esconder a participação de lituanos em sacrifícios e feitos importantes, como derrotar o nazismo. Em Šiauliai, por exemplo, um batalhão inteiro do Exército Vermelho era composto por lituanos – parte da historiografia nega isso afirmando que tinham mais russos – para complicar esse esforço de Guerra como esse batalhão teve como grande suporte os imigrantes lituanos que desde a América, Norte e Sul, enviavam ajuda e contribuições.

    Da mesma forma, os partisans comunistas que lutaram contra a presença nazista são em alguns casos chamados de terroristas e a eles são atribuídas as respostas à ação dos comunistas, numa inversão histórica inaceitável, mesmo para a péssima literatura histórica.

    Assim, aqueles que não se somaram às lutas antifascista e nazista na Lituânia são esquecidos ou difamados. É fato que o regime soviético por todas as atrocidades cometidas, e que não podem ser esquecidas ou negadas, representa um trauma, uma cicatriz que será difícil de fazer cicatrizar e já não estou certo de que deve deixar cicatrizar.

    Mas a ferida aberta não pode infeccionar toda a memória lituana. Desprezar ou ter vergonha de seu passado não ajuda, menos ainda falsificá-lo deliberadamente. Os cemitérios aos combatentes, ainda que estejam com os nomes escritos em russo e não tragam todos os símbolos comunistas, estão ali para lembrar do que foi lutar contra o nazismo. Dos sacrifícios de homens e mulheres que entregaram sua vida contra o fascismo e o nazismo e nisso estavam certos em fazer. Foi um sacrifício que valeu. O que aconteceu depois não pode ser imputado a eles e suas memórias não podem ser desprezadas. Ainda hoje, cemitérios dos combatentes do Exército Vermelho na Lituânia são preservados pela embaixada russa…

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  • Žagarė: memória de um genocídio

    Žagarė: memória de um genocídio

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • Sobre o genocídio em Žagarė
    • Minhas impressões sobre a memória de um genocídio

    Žagarė: memória de um genocídio… Quando saí do Brasil carregava comigo uma obsessão: conhecer a Lituânia. Já na Lituânia de norte a sul de leste a oeste. Era o meu encontro com a terra natal da minha família. Ao chegar fui conduzido por uma amiga que em um fim de semana me convidou para conhecer a cidade onde vivia a sua família, localizada bem ao norte do país. Pegamos um ônibus em Kaunas e fomos para Joniškis, uma pequena cidade próximo a Šiauliai.

    Já na casa dela, fui recebido por seus pais e suas três irmãs mais novas e ali me deliciei com a farta comida: sopa de beterraba e bolinhos de carne de porco que foram servidos no café da manhã. Delicioso, mas pesado para quem não está acostumado.

    Seguimos para nossa jornada, as irmãs mais novas da minha amiga decidiram nos acompanhar. Conhecemos Šiauliai! Andamos pelas ruas principais e fomos ao gigantesco shopping, que estava vazio. Na parte da tarde, passamos horas simplesmente andando sem direção por algumas ruas. Buscamos por alguns lugares onde eu queria tirar fotos: a escola, o centro, a estação de trem.

    No dia seguinte, decidimos ir para o norte de Joniškis, depois de tomar a tradicional sopa lituana. Chegamos à cidade de Žagarė que parecia vazia e um tanto bagunçada depois de uma tremenda tempestade de verão. Žagarė é uma cidade muito particular na Lituânia, pois, durante o período do Império Russo foi zona de residência de judeus e ciganos. Pela sua localização, quase na divisa com a Letônia foi um ponto de passagem e comércio por séculos. Assim, a cidade teve seu tempo de glória, de desenvolvimento econômico e cultural ou, podemos dizer, multicultural.

    Essa história foi drasticamente interrompida pela brutalidade da Segunda Guerra Mundial, quando aproximadamente 2.500 judeus foram fuzilados e enterrados em uma vala comum. Hoje, no local, um gramado com um caminho de pedra e poucas arvores. No centro, um pequeno monumento em memória às vitimas do genocídio nazista.DSC03641 Diante deste monumento, minha amiga tentava explicar a sua irmã de oito anos o que tinha acontecido ali e o porque do pequeno monumento. A menina olhava a sua volta e não acreditava. Dizia não ser possível ter 2.000 pessoas enterradas naquele parque.Seu argumento era simples e comovente: não havia espaço suficiente para fazer cada um dos túmulos para essa quantidade de corpos.

    Era sem dúvida um argumento intrigante e nos colocava em uma situação complicada. Como explicar para uma criança que milhares de pessoas podem ser mortas e seus corpos atirados em uma vala comum? Minha amiga tentou explicar uma vez mais. A garotinha continuava olhando de um lado ao outro buscando algum sinal das covas e dos túmulos. Ela se aproximou de nós uma vez mais, com seus comentários, e nos disse que aquilo era muito errado. As pessoas não podem ser enterradas juntas, pois os familiares não poderiam reconhecer onde estavam os seus parentes?

    Os cemitérios na Lituânia são distintos do que estamos acostumados no Brasil. Eles são visíveis das estradas, das ruas e não são escondidos por muros. No geral, estão sempre muito arrumados, particularmente no verão e na primavera, quando arranjos de flores de diferentes tipos e cores são colocados. Pode ser que a ligação com os mortos das religiões tradicionais não exista mais. Pode ser pelo simples hábito ou para não ser difamado pelos vizinhos. Seja como for, os cemitérios são frequentemente visitados e arrumados. Dai nossa garotinha ficar ainda mais impressionada, afinal a colocamos diretamente e de uma vez diante de uma tragédia brutal.

    Com oito anos, ela entendeu muito rápido o sentido daquele genocídio, e que talvez seja o de qualquer genocídio (etnocídio): o de eliminar, esconder e principalmente fazer esquecer aqueles que foram mortos. Não bastaria eliminar fisicamente era preciso eliminar de cada memória a simples existência daquela comunidade. Fabricar um esquecimento é o que segue ao genocídio. Fazer os mortos perderam sua individualidade, suas histórias pessoais, suas relações com os descendentes. Desaparece da memória!

    Caminhar por aquele parque e escutar minha amiga explicar uma história tão difícil a sua inquieta irmã me fez repensar a importância da memória. Não deixar esquecer a brutalidade, do genocídio e da violência é uma tarefa árdua e que deve ser contínua. O que aconteceu em Žagarė deve ser lembrado, por mais doloroso que seja.