Categoria: Artigo

  • Karol Nawrocki assume a presidência da Polônia e apresenta plano para ampliar a cooperação militar


    Novo presidente conservador quer expandir o Formato Bucareste 9, reforçar a OTAN e reposicionar a Polônia como potência regional

    Quem é Karol Nawrocki e como chegou ao poder?

    Karol Nawrocki assumiu oficialmente a presidência da Polônia esse mês (agosto de 2025), após vencer as eleições de junho com pequena vantagem no segundo turno.

    Historiador e ex-diretor do Instituto da Memória Nacional, construiu sua carreira defendendo uma leitura conservadora da história, com forte ênfase na soberania nacional e nos valores tradicionais poloneses. Sua eleição representa um realinhamento político no país, com maior protagonismo da direita nacionalista.

    A vitória de Nawrocki sinaliza uma mudança de rumo nas prioridades estratégicas da Polônia, especialmente na política externa e na segurança militar. Desde a campanha, ele vinha defendendo que Varsóvia deveria assumir um papel mais ativo na defesa do flanco oriental  da OTAN.

    Relação com os Estados Unidos e distanciamento da União Europeia

    Aliado próximo de Donald Trump, Nawrocki já indicou que pretende aprofundar a cooperação com os Estados Unidos e reduzir a influência política de Bruxelas sobre Varsóvia. Essa postura sugere possíveis atritos com a União Europeia, sobretudo em questões relacionadas ao Estado de Direito, imigração e integração econômica.

    Em seu discurso de posse no Parlamento, declarou que “os poloneses são responsáveis por construir o flanco leste da OTAN” e anunciou seu objetivo de transformar o atual Formato Bucareste 9, criado em 2015 após a invasão russa da Crimeia, em um “Bucareste 11”, incluindo países escandinavos. Essa ampliação teria como meta criar uma rede de defesa mais robusta contra ameaças vindas da Rússia e Belarus.

    Conflitos com o primeiro-ministro Donald Tusk

    O início do mandato de Nawrocki já é marcado por tensões com o primeiro-ministro Donald Tusk, líder liberal e defensor da integração europeia. As diferenças entre ambos vão muito além de posicionamentos ideológicos, envolvendo também a condução da política externa, o papel das Forças Armadas e a relação da Polônia com as instituições da União Europeia.

    Analistas políticos alertam que esse embate pode gerar impasses legislativos e comprometer a estabilidade política do país, especialmente se as divergências se intensificarem nos próximos meses.

    Impactos para a Ucrânia e para a segurança regional

    A postura de Nawrocki gera incertezas em Kiev. Embora mantenha um discurso de apoio à resistência ucraniana contra a Rússia, seu alinhamento com Trump pode levar a uma política mais pragmática, com pressão por negociações de paz. Isso levanta dúvidas sobre a continuidade de um apoio militar irrestrito.

    Ao mesmo tempo, a proposta de expandir o Formato Bucareste 9 com a entrada de países escandinavos poderia reforçar a dissuasão contra Moscou e ampliar a cooperação militar entre os membros da OTAN. Tal iniciativa colocaria a Polônia no centro da estratégia de segurança do norte e do leste da Europa.

    Um possível novo eixo de liderança na OTAN

    O plano de Nawrocki de transformar Varsóvia em um polo de liderança no flanco leste da OTAN pode reposicionar a Polônia como ator-chave na arquitetura de segurança europeia. Se bem-sucedido, o projeto aumentaria a influência política do país dentro da aliança atlântica e ampliaria sua capacidade de ação frente a ameaças regionais.

    O sucesso dessa estratégia dependerá da habilidade do presidente em equilibrar alianças externas, manter a coesão interna e administrar as inevitáveis tensões com a União Europeia. O mandato que se inicia será um teste decisivo para o futuro papel da Polônia na segurança europeia.

    Referências

    NATO. “Bucharest Nine (B9) Format and Regional Security Cooperation.” OTAN.int, 2024.

    Parlamento da Polônia. Discurso de posse de Karol Nawrocki, agosto de 2025.

    Warsaw Institute. “The Strategic Role of Poland in NATO’s Eastern Flank.” WarsawInstitute.org, 2025.

    Atlantic Council. “Poland’s Security Policy in the Context of US-Poland Relations.” AtlanticCouncil.org, 2025.

    Reuters. “Karol Nawrocki Sworn In as Poland’s New President.” Reuters.com, agosto de 2025.

  • Ucrânia: os erros de Putin

    Ucrânia: os erros de Putin

    Quando a agressão à Ucrânia teve início, as expectativa era que essa seria uma guerra rápida e a vitória da Rússia inevitável. Hoje, vemos um Putin derrotado, ao menos nos seus propósitos mais megalomaníacos de ocupação da Ucrânia.

    Mas quais foram os erros cometidos por Putin e seus seguidores?

    Preparei uma  lista deles:

    1 – Visão de mundo.  A invasão da Ucrânia é a consequência de uma visão de mundo sustentada pelo presidente Putin  e  seus seguidores. Nessa visão, a Rússia teria sido propositadamente fragilizada e ignorada, com o fim da União Soviética, o que daria legitimidade à ocupação da Ucrânia, como seu “espaço vital”, para usar as palavras dos propagandistas.

    2 –  Considera a  identidade nacional da Ucrânia uma  artificialidade. Nas suas peças de propaganda, buscava sempre associar o sentimento nacional ucraniano ao extremismo nazista, o que o levou a  duvidar da resistência ucraniana.

    3 – A ilusão de que os ucranianos que se identificam etnicamente como russos (que falam russo) aderiram às políticas do Kremlin. Ilusão compartilhada pelos russófilos de plantão.

    4 – Declínio do  Ocidente. A difusão da ideia de que o mundo vai ser governado por uma  aliança asiática. Assim, a União Europeia é apresentada como uma instituição frágil, incapaz de manter uma política própria e independente. A OTAN, como uma aliança que, apesar da sua expansão anti-russa, não conseguiria garantir mais a segurança dos seus membros e da Ucrânia. Aqui temos três avaliações erradas. 

    5 – Acreditar que por fornecer matéria prima, sobretudo o gás, para a Europa, essa seria incapaz de reagir. A reação foi brutal. As sanções, ao contrário das de 2014, provocaram danos na economia russa, que de aliada passou a ser dependente da China. Já a Europa, passo a passo ruma a outros fornecedores de gás petróleo, deixando a Rússia isolada. 

    6 –  A supremacia do Exército Russo. A propaganda russa, sobretudo aquela difundida pela RT e Sputnik, sempre mostraram as forças armadas russas, como modernizadas e eficientes. Imagem essa valorizada pela atuação na Síria. Como vemos, as ações militares foram ineficientes ao ponto de exigirem mudanças nos objetivos da guerra. Analistas apontam que a corrupção destruiu parte das forças russas, completamente despreparadas.

    7 – A irmandade com os ucranianos. Dentre as bobagens propagadas, a de que a Rússia evitaria a força total para não massacrar um povo com laços  históricos em comum foi a maior delas. Diante das derrotas russas, não foi possível esconder os massacres cometidos pelas forças russas. Essa irmandade não existe! Não existe ocupação imperialista civilizada. 

    8 – O desprezo do papel da Europa central e do Norte, como agentes na geopolítica. Polônia, países bálticos e escandinavos reagiram de forma dura e solidária a Ucrânia e passaram a exercer pressão tanto na União Europeia, quanto na Otan (com a já anunciada adesão da Finlândia e da Suécia), para ações mais decisivas, empregaram recursos vultosos, se abriram para abrigar a onda de refugiados, além de sistematicamente denunciarem a Rússia e os crimes cometidos. Assim, se tornaram protagonistas na geopolítica, deixando para trás as políticas francesas e alemãs.

    9 – A rebeldia da Belarus. Depois dos protestos dos anos anteriores, a Belarus pareceu totalmente dominada pela Rússia, mas uma coisa é domesticar o seu ditador, a outra a  sociedade civil. O que vimos na Belarus foram atos de sabotagem e resistência que dificultaram as operações russas a partir do país, ainda, satélite.

    10 – Desprezar Zelensky, enquanto liderança. Ao pressupor na fragilidade de Zelensky, a Rússia desprezou a sua capacidade de articular a resistência. Tomado como palhaço, se esqueceram de que, como  homem de mídia, ele conseguiu recriar a sua imagem e se colocar à frente do processo, fragilizando o discurso russo com relação à Ucrânia. Se Zelensky está longe de ser o herói propagado pela mídia ocidental é necessário reconhecer que  ele ganhou a mídia, gerou mobilização, se  apresentou como resistência. Em outras palavras, ao contrário da esperada fuga, ele se apresentou como resistência. 

    Diante de tantos erros, restou a Rússia a se tornar auxiliar em regiões já  em disputa e usar da chantagem nuclear para não reconhecer a vexaminosa derrota.

  • Refugiados: Uma Questão Global.

    Refugiados: Uma Questão Global.

    A imigração é um direito humano! E a necessidade de buscar uma nova vida, ou simplesmente sobreviver, deve ser entendida como parte da liberdade a ser protegida. As razões para que um indivíduo busque outro país ou território para viver variam de acordo com o contexto histórico e situações locais específicas. 

    Podem ter relação com problemas econômicos, sociais, violência, guerra, invasões, entre outros. Na lista de questões que existem, ainda devemos incluir as mudanças climáticas. Essas situações levam à violação sistemática dos direitos humanos e a busca, mais do que legítima, e necessária, de refúgio. O direito ao refúgio é o direito à vida.

    Com a pandemia, houve no ano passado, um apelo global para o cessar fogo! Ou seja, uma apelo à paz, para que, em meio a emergência sanitária para tentar reduzir os problemas existentes. Contudo, o apelo não foi capaz de diminuir o número de refugiados, pelo contrário, ele cresceu em 4%.  

    Os Refugiados em Números.

    Ao contrário do que poderia ser imaginado, a pandemia provocado pela Covid-19 não reduziu o número de pessoas que buscam refúgio, pelo contrário, atualmente contamos com 82, 4 milhões de pessoas de acordo com a ACNUR, A Agência da ONU para os Refugiados no relatório Tendências Globais. 

    No final de 2020, a ACNUR tinha sob a sua tutela 20,7 milhões de refugiados. A origem e razão dos que se encontram nessa condição variam. Entre os grupos mais numerosos vale chamar a atenção para os 5,7 milhões de refugiados palestino, encontramos o resultado das políticas de Israel e os 3,9 milhões de venezuelanos, provocados pelo (des) governo de Maduro. 

    A grande maioria dos refugiados, 86%, se encontram em países vizinhos, tanto devido à facilidade de escapar, mas também pela expectativa de retorno. Os países que mais recebem refugiados são: a Turquia (pela sétima vez), Colômbia, Paquistão, Uganda e Alemanha.

    Considerando os números atuais, chama a atenção o número de menores de idade entre os refugiados, pois eles compõem 42% do total de refugiados. Como refugiados, quase um milhão de crianças nasceram entre 2018 e 2020. São crianças que podem passar anos até ganharem um novo lugar ou poderem voltar ao local de origem dos seus pais. 

    Instabilidade e refugio.

    Em sua maioria, podemos observar, que governos não democráticos e situações de autoritarismo e conflito, são os responsáveis pelo grande número de refugiados. Dos deslocados, dois terços são de apenas cinco países: Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Miammar. Países que passam por situação de guerra, conflito interno, crise e golpe de Estado. O autoritarismo e os conflitos levou a que 4,1 milhões de pessoas pedissem asilo

    A falência do Estado, como no caso da Venezuela, também chama atenção, pois muitos países não reconhecem a condição de refugiado dos venezuelanos e esses números devem ser ainda maiores. Além disso, há o caso já duradouro dos palestinos que há décadas figuram entre o maior número de refugiados e, lamentavelmente, não parece haver uma melhoria de condições no horizonte próximo. 

    As guerras civis, declaradas ou mascaradas, ainda causam o problema dos refugiados internos, pessoas que se veem obrigadas a abandonar as suas regiões dentro de um país. No total, esses somaram em 2020,  3,2 milhões de pessoas, sendo os principais países: Etiópia, Sudão, Moçambique, países do Sahel, Iêmen, Afeganistão e Colômbia.

    Um problema global. 

    Atualmente 1% da humanidade se encontra na condição de refugiado. Esse é um problema que, infelizmente, tende a permanecer e ainda ganhar outros motivos para além dos políticos, como será o caso dos refugiados climáticos, sobretudo, porque ainda precisam ser reconhecidos como tal. 

    Nesse momento, relembrando os 70 anos da Convenção de 16 de junho de 1951, é necessário repensar essas questões. Tanto para defendermos a dignidade humana e atuar contra a sua violação sistemática, quanto para pensarmos que na atualidade será necessário uma redefinição de refugiados, incluindo novos problemas que a humanidade enfrenta. 

    Fonte: https://www.acnur.org/portugues/2020/06/18/relatorio-global-do-acnur-revela-deslocamento-forcado-de-1-da-humanidade/

  • Lituânia, o massacre de janeiro de 1991 (História)

    Lituânia, o massacre de janeiro de 1991 (História)

    Nesse ano de 2021, lembramos os trinta anos da independência da Lituânia e do massacre ocorrido em Vilnius, quando o país lutava pela sua independência, no momento em que a União Soviética entrava em colapso. Para lembrarmos esses eventos, recupero, em parte, uma narrativa que publiquei no livro Báltico, publicado no ano passado.

    É importante lembrarmos que até hoje existem disputas sobre essa narrativa, bancadas por saudosistas da União Soviética e até mesmo (incrivelmente) do genocida Stalin. A propaganda política, nos usos, por seus interesses geopolíticos contemporâneos tem por objetivo esconder e criar versões mentirosas. Assim, recuperamos ainda que brevemente.

    Enquanto o mundo assistia pela televisão à capital do Iraque sendo bombardeada pelos Estados Unidos e seus aliados, na primeira guerra do Golfo, Gorbachev aproveitava o que restava da cortina de ferro para enviar as forças militares para o Báltico. No dia 7 de janeiro, Mikhail Gorbachev e Dmitry Yazov deram ordem para que as Repúblicas Soviéticas fossem ocupadas.

    Entre 8 e 9 de janeiro, unidades militares começaram a chegar à Lituânia, entre elas as tropas antiterroristas, grupos de assalto e divisões que estavam baseadas em Pskov. No dia seguinte, Gorbachev se dirigiu ao Conselho Supremo exigindo a restauração da União Soviética na Lituânia e revogou as leis consideradas anticonstitucionais. Os oficiais lituanos solicitaram que não fossem enviadas mais tropas, mas não receberam resposta. Era o sinal do que começaria a acontecer no dia seguinte.

    O governo lituano recebeu um ultimatum e às 11h50 da manhã, os prédios públicos e a imprensa começaram a ser ocupados por forças militares na capital e nas principais cidades. Aqueles que tentaram resistir foram recebidos a bala e centenas de pessoas ficaram feridas. As tropas também começaram a tomar as estações de trem que ficaram interrompidas por várias horas. Enquanto as tropas se posicionavam em pontos estratégicos, os comunistas fiéis a Moscou, tentavam for- mar um governo paralelo na sede do Partido Comunista. O governo de fato, buscava contato com Moscou para evitar mais violência, mas não teve sucesso.

    Na madrugada, a população começou a circular formando cordões humanos para defender os principais prédios que ainda não haviam sido tomados pelos soviéticos, principalmente a rádio, a televisão, a sede do governo e de telefonia. Na noite do dia 12 para o dia 13, os tanques soviéticos começaram a entrar em Vilnius. Ao se aproxima- rem da torre de televisão, gás lacrimogêneo foi lançado e teve início o confronto. Os soviéticos atiraram e catorze pessoas foram assassina- das, duas foram atropeladas pelos tanques. As duas horas da manhã, os soviéticos tomaram a televisão de assalto. A última imagem que se pode ver da transmissão ao vivo foi a de um soldado na frente da câmera arrastando a jornalista e interrompendo a transmissão.

    Meia hora depois da tomada da televisão em Vilnius. Na cidade de Kaunas, de um pequeno estúdio, que era usado para transmissões daquela cidade, entrou em funcionamento. Eles utilizaram também ondas curtas para transmitir para o mundo sobre os acontecimentos. Uma televisão da Suécia captou os sinais e passou a retransmitir.

    A cortina de ferro da comunicação foi rompida em definitivo. Dos Estados Unidos e de outras partes da América, incluindo do Brasil, as comunidades lituanas no mundo começaram a enviar informações para imprensa de seus países, organizaram protestos, pressionaram para que a informação do confronto na Lituânia pudesse circular. O medo era que protegido pela censura o governo soviético produzisse um massacre nas ruas.

    Com as comunicações re-estabelecidas na Lituânia, a população foi às ruas e barricadas começaram a ser montadas. Colunas humanas protegendo os prédios desafiaram o poder militar soviético. O governo, protegido pela multidão, enviou mensagens para o mundo pedindo apoio. Os apelos foram atendidos pela Noruega que levou a questão à ONU. A Polônia expressou solidariedade e denunciou as ações do exército soviético. Nos dias seguintes, Gorbachev, Dimitry Yazov e Boris Pugo negaram que tivessem dado ordem de usar munição ou a força. Até hoje, na Rússia, tenta-se alimentar alguma controvérsia sobre o acontecimento e ressaltam que um soldado soviético também foi morto no conflito.

    Como as informações se difundiram pelo o ocidente nos dias seguintes não houve mais confrontos significativos, embora a Lituânia continuasse militarmente ocupada. Em 20 de janeiro, uma delegação da Islândia chegou a Vilnius para acompanhar os eventos. O Ministro de Relações Exteriores Jón Baldvin Hannibalsson fez declarações sobre a possibilidade de reconhecer a independência da Lituânia e, de fato, no dia 4 de fevereiro a Islândia foi o primeiro país a reconhecer a Lituânia independente.”

    ZEN, Erick R. G. Báltico. A História da Estônia, Letônia e Lituânia. São Paulo: Almedina, Edições 70.

    Para adquirir o livro Báltico AQUI

  • A Fotografia do passaporte e a história: gênero.

    A Fotografia do passaporte e a história: gênero.

    Família Godliauskas, Passaporte

    A fotografia no passaporte revelam histórias que estão para além dos rostos dos imigrantes. É o caso do passaporte da minha família, Godliauskas. Depois de muitos anos, consegui pela primeira vez ter acesso a um dos passaportes utilizados para família godliauskas, quando imigraram da Lituânia para o Brasil.

    Neste passaporte, encontrei diversas referências sobre a trajetória da minha família que até então desconhecia. Entre elas, a data exata da imigração. A datas e locais de saída e chegada. O local da última residência, entre outros detalhes de suas trajetórias.

    A fotografia do passaporte, com toda a família, mostrava algo um pouco mais sensível e pessoal: os rostos, as expressões nos olhares, as caras de assustados diante da maquina fotográfica ou do futuro incerto que os esperava em terras distantes.

    Como historiador empolgado em investigar, comecei a mostrar a foto para um e para outro. Ao mostrar para uma amiga, ela me perguntou: por que estão todos os membros da família em uma mesma foto de passaporte?

    Boa questão!

    Fotografia Imigração e História de Gênero.

    Eu não tinha muita ideia do que responder na hora. Passando a empolgação e olhando mais cuidadosamente me dei conta de que aquela foto, para um documento oficial, também nos comunica uma história de gênero. Primeiro é preciso notar que o documento é da minha bisavó. No documento está explicitamente escrito: “autorizada a viajar somente acompanhada do marido”.

    Na Europa, do início do século XX, em particular na Lituânia, ao se solicitar ao governo um documento cabia ao homem estabelecer se a mulher poderia viajar sozinha ou não!

    Por essa razão, as mulheres, não autorizada a viajar sozinhas eram fotografadas junto ao marido nos documentos oficiais. Assim, as autoridades nas fronteiras dos países, nas estações de trem e nos portos deveriam verificar pela foto a identidade dos dois (marido e esposa) antes de autorizar o embarque ou desembarque, a entrada e saída de um país para o outro.

    No limite, essa ação do Estado, por meio de sua burocracia, impedia a circulação das mulheres desacompanhadas de seu marido!

    Na fotografia está a minha avó, a primeira da esquerda para a direita, e seus irmãos, pois como eram menores de idade, não tinham um passaporte próprio e seus nomes eram colocados no passaporte da mulher. Dessa forma, para se deslocar de um país a outro de forma oficial e regular a família necessariamente teria que estar sempre junta ou seria impedida pelas autoridades estatais.

  • Biden e a Esquerda: o caminho para a decepção.

    Biden e a Esquerda: o caminho para a decepção.

    Não temos a menor dúvida de que o embate entre Trump e Biden será fundamental para os rumos da política em escala global. De forma até exagerada se enxerga um embate entre a civilização e a barbárie, ou entre a democracia e a demagogia (populismo) autoritário. Por essa razão, a esquerda, com excessões, tem se entusiasmado com a provável vitória do candidato Democrata, Joe Biden.

    No Brasil, a esquerda, particularmente a militante de partido, torce muito, pois entende que essa vitória fará o que ela não consegue fazer: derrubar, ou ao menos fragilizar, o atual governo. Para nós, Biden é o caminho certo para a decepção da esquerda, em todos os lugares.

    Nós sabemos quem é ele

    Os pensadores de esquerda nos Estados Unidos, seja aqueles que atuam junto aos Democratas ou não, sabem quem é o político pragmático, negociador e centrista Joe Biden. Bastaria lembrar que ele foi escolhido para ser vice de Obama como uma forma de acalmar o status quo Democrata diante do “radicalismo” que representava as propostas apresentadas Obama (“Yes, We can”) e a candidatura de um negro para a Casa Branca. Quando Obama superou a Hillary Clinton, Biden era, naquele momento, a certeza do equilíbrio e da manutenção do status quo para os Democratas e seus eleitores.

    Por essas características, muitos prefeririam ter lançado ele e não Hillary, em 2016. No entanto, devido a uma tragédia pessoal, Biden preferiu não se candidatar. Em 2020, nesse ano complicado, ele apareceu novamente como essa figura estável e conciliadora, incapaz de sustentar qualquer dogma ou algo que não possa ser mudado de acordo com a conveniência do momento, dentro dos parâmetros estabelecidos pelos Democratas.

    É mais fácil…

    Essa visão fica evidente, no apoio, com ressalvas, que recebe de Bernie Sanders (ver meu artigo de 2016). Sanders sempre afirma ter diferença com Biden, mas ressalta saber que ele é um homem decente, que respeita as regras do jogo e que respeita principalmente “a democracia”, entendendo a democracia aqui como o sistema eleitoral / legal dos Estados Unidos.

    Assim, a esquerda americana está dizendo para quem queira escutar: “é mais fácil sobreviver no neoliberalismo formalmente democrático regido por Biden do que caminhar para uma nova forma de fascismo, com um demagogo, autoritário, megalomaníaco. Por isso, vote em Biden e é só isso mesmo!”

    Nas suas atitudes e nos debates, Biden fez questão de jogar baldes de água fria na esquerda que atua entre os Democratas e foram muitos os baldes… Vamos a alguns exemplos.

    Um grande balde de água fria é a estratégia de atrair os Republicanos que se afastaram de Trump (ou do trumpismo). Entre eles, o governador Republicano de Michigan Rick Snyder que responde pela acusação de ser o responsável pela contaminação da água da cidade de Flint. (ver aqui). Os movimentos sociais estão há anos lutando contra ele e seu governo.

    A água fria nos debates

    Nos dois debates, Biden jogou vários baldes de água fria na esquerda. Alguns deles foram bem discretos. No primeiro, marcado pelo caos, uma questão passou quase desapercebida: a do Green New Deal. Lembrando: essa é a proposta da esquerda Democrata para que os EUA se tornem uma economia verde. Durante o debate, Biden afirmou que ele não implantará o programa denominado Green New Deal, mas na plataforma dele estava lá. Em suma: ele afirmou que não implementará a principal bandeira da esquerda que vinha com Sanders.

    No segundo debate, sem usar a expressão Green New Deal, ele retomou o tema, usando a palavra “transição”, ou seja, na cabeça dele, é possível passar para a economia verde sem perder a os investimentos e afetar os empregos no carvão e no petróleo, por exemplo. Será?

    De toda forma, ele tentou agradar a esquerda sem desagradar aos que dependem ainda das outras formas de atividades econômicas. Obviamente, Trump tentou associar a isso a uma forma de socialismo, o que não deu certo. Ainda assim, logo após os debates, os Democratas ligados a sua campanha saíram em defesa da indústria do carvão e do Petróleo, nada de Green New Deal, portanto.

    No mesmo debate, Biden, ao ser associado aos projetos de Sanders por Trump, lembrou que ele não é socialista! E foi além! Lembrou que ele é Biden! O que derrotou os outros projetos! (não tinha conciliado?) E isso quando respondia sobre saúde. Em outras palavras, Biden descartou aderir ao programa de saúde pública e para todos, como pretendia Sanders. O mesmo, vale dizer, para a educação. Ou seja, os projetos de Sanders, representantes dos Democratas socialistas foram todos descartados!

    Biden e o Brasil

    A esquerda brasileira também não deve nutrir ilusões com relação a Biden. Primeiro, porque o Brasil e continuará a ser estratégico independente dos governos nos dois países. Segundo, porque a luta contra o avanço da influência da China é a única coisa que unifica os dois partidos e nisso, o Brasil, ainda está em disputa. Assim, o que veremos é uma mudança da forma, mas não o abandono do país nas relações estratégicas, como isso será articulado com o bolsonarismo é que é a questão.

    Os Democratas costumam oferecer vantagens aos países que querem manter boas relações, ou manter o diálogo aberto. O provável, nessa relação, entre crítica e oferecimento de vantagens, é que Biden vai buscar atuar. O efeito no Brasil, para o bolsonarismo, talvez seja mais forte no aspecto simbólico e de perda de narrativa do que de uma ação direta do governo americano. Aqui é preciso lembrar que grande parte dos investimentos estrangeiros já saíram do país. Assim, é pouco provável que o governo Biden faça aquilo que a esquerda brasileira não está conseguindo fazer…

    Com Biden… Estaremos mais confortáveis

    Em todos os cantos do mundo, em todas as alas progressistas há uma torcida por Joe Biden. Ela vai durar até o dia da sua vitória (se ela se confirmar). No dia seguinte, já ficou obvio, que ele não fará um governo de esquerda e nem mesmo progressista. Não vai assumir os compromissos de Sanders e dos Democratas Socialistas que tanto lutaram para o eleger.

    A esquerda nutre a ilusão de que é mais fácil lutar dentro das regras do jogo liberal democrática do que contra as forças que trouxeram Trump ao poder. Mas será mesmo? Se fosse fácil derrotar o neoliberalismo ela já teria conseguido. Teve oportunidades em todos os continentes e não foi o neoliberalismo o derrotado. O Brasil é um ótimo exemplo disso. Talvez a esquerda esteja apenas mais confortável no neoliberalismo.

    Nele, a esquerda, pode livremente adotar bandeiras novas, movimentos novos, fazer longos discursos e manifestações. Pode ainda publicar os seus livros, podcasts, canais no youtube, blogs (como esse) e manifestos. Pode ainda louvar e se acostumar com as derrotas e ver nela um princípio moral, quase cristão, “sou perseguido e injustiçado, por isso estou certo”…. Mas a esquerda, na sua zona confortável, nunca derrotará ninguém. Ainda assim, espero que a esquerda americana resolva sair de casa e votar em Biden.


  • Belarus: eleição e crise na última ditadura da Europa

    Belarus: eleição e crise na última ditadura da Europa

    • Crise na Belarus
    • História da Belarus
    • Relação com a União Europeia e a Rússia

    As eleições na Belarus provocaram uma onda de protestos jamais vista naquele país. Manifestações essa que colocam contra a parede o regime que é considerado como a última ditadura da Europa. Neste texto vamos abordar brevemente a História da Belarus e o processo político atual.

    A República da Belarus

    A Belarus teve breve períodos de independência como Estado nacional moderno. Durante a Revolução Russa de 1917, a Belarus teve um breve momento de independência, quando se formou um Congresso que declarou a independência da Republica Popular da Bielorrússia, em março de 1918. No entanto, ela foi ocupada pelas tropas alemãs, mais tarde foi tomada pelo Exército Vermelho e integrada a União Soviética, como uma de suas repúblicas.

    Em março de 1990, com a crise da União Soviética, a oposição começou a ganhar espaço com a formação do Front Popular. Em 27 de julho de 1990 a Belarus declarou a sua soberania. Ao contrário do que ocorreu nos países Bálticos, o Partido Comunista, ou seja, a elite burocrática do país continuou comandando o processo político e dominando a economia.

    Com a Rússia e a Ucrânia, a Belarus participou do evento 8 de dezembro de 1991 que colocou fim a União Soviética e formou a Comunidade dos Estados Independentes. Assim, ao contrário dos países Bálticos que saíram da esfera de influência da Rússia, em direção ao ocidente, a Belarus e a Ucrânia permanecem unidas a Moscou.

    Portanto, observe uma questão importante: somente com o fim da União Soviética é que a Belarus teve a experiência de um Estado moderno soberano. Assim, a construção de um Estado nação se deu baixo a ditadura de Lukashenko. Esse fato levou-se até o questionamento se haveria uma identidade nacional Belarus e uma sociedade civil que poderia atuar.

    O governo de Alexandre Lukashenko

    Alexandre Lukashenko chegou o poder em 1994 e foi reeleito, 2001, 2006, 2010, 2015, formando um governo autoritário. Não faltam denúncias de violação aos Direitos Humanos no país. Através da violência, censura e mão de ferro, ele estabilizou o país formando uma classe de privilegiados, uma verdadeira oligarquia, sustentada pelas riquezas do país e em uma relação privilegiada com a Rússia.

    Apesar da aparente estabilidade, o regime começou a dar sinais de fragilidade. Um desses sinais, o mais evidente, se deu quando a Rússia ocupou parte da Ucrânia e tomou toda a Crimeia. A ideia de uma expansão russa continuada se tornou um pesadelo para a Belarus, como para todos os demais países que fazem fronteira com a Rússia.

    A invasão da Crimeia e a Reação da Belarus

    Após a anexação da Crimeia, Lukashenko pela primeira vez começou a discursar no idioma local. Seus discursos eram somente em russo, até então. O regime começou a apelar aos belarussos como uma nação e defender a sua soberania.

    Esse movimento fez com que o país se aproximasse dos países ocidentais, em particular dos países Bálticos e da Polônia. Acordos comerciais, educacionais e culturais foram estabelecidos no que parecia uma virada para o Ocidente.

    A virada para o Ocidente foi interrompida. Por um lado, a Rússia ofereceu certas vantagens comerciais. Além disso, diversos acordos militares com a Rússia, mas ainda com uma certa tensão, pois a ideia de instalar uma base aérea russa sofreu resistência. Em 2019, em um encontro com Putin, Lukashenko, em discurso coloca a ideia de união entre os dois países, ou seja, parecendo uma volta ao lado russo. Por outro lado, a União Europeia manteve restrições ao comércio com o país e criticas ao regime autoritário e as sistemáticas violações dos Direitos Humanos. Assim, o regime pareceu novamente pender para a Rússia.

    Resumindo, nos últimos anos Lukashenko tentou jogar dos dois lados observando de qual deles poderia conseguir maiores vantagens. Um jogo perigoso, pois seu autoritarismo nunca foi aceito pelos europeus e a sua relação com Putin não era das melhores, pessoalmente, ao que se sabe, Putin nunca teve apreço por Lukashenko.

    A Crise na eleição de 2020

    Essa situação piorou em 2020, com a pandemia, pois Lukashenko foi um dos líderes mundiais que entraram no negacionismo. Ele recomentou aos seus cidadãos: vodka, sauna e trator, como remédio para a Covid 19. O resultado, além de virar uma piada mundial, foi que sua credibilidade, já abalada, sofreu ainda mais ao se aproximar da eleição.

    O início do processo eleitoral se deu como sempre. Era para ser novamente uma eleição controlada. Em outras palavras, os candidatos seriam escolhidos a dedo, apenas com formalidade, e para dar ar de legitimidade. Os oposicionistas foram presos e exilados. Restou uma candidata que deveria ser a figurante nesse processo.

    A candidatura de Svetlana Tikhanovskaya era tida como um arranjo. Os demais líderes oposicionistas ou foram presos ou tiveram que escapar para outros países. .

    Assim, Svetlana Tikhanovskaya não faz parte de uma oposição histórica organizada contra o regime, pelo contrário. De toda forma, como ela era a única candidata houve uma união ao seu entorno já como uma forma de protesto contra ao regime. Na eleição, ela, que faz parte da elite educada, deveria apenas fazer a figuração para que se criasse a imagem de uma disputa legitima

    A propaganda eleitoral foi limitada, bem como as manifestações públicas. Cenas de manifestantes e de opositores ao regime sendo presos nas ruas vazaram para o ocidente e foram divulgados pelas mídias sociais.

    A Repressão e os Movimentos Grevistas

    Mesmo com a repressão e as limitações, a candidatura Tikhanovskaya encampou a contrariedade contra ao regime e houve uma união silenciosa para votar contra o regime. Esse movimento cresceu ao ponto de ser percebido pelo conjunto da população. Assim, no dia da eleição, ao fim da tarde, quando os primeiros dados eleitorais foram divulgados a desproporção dando a vitória ao ditador chamou a atenção. Era o indício da fraude que despertou os primeiros movimentos de protestos naquela mesma noite, sobretudo na capital Minsk.

    Nos dias que se seguiram, vimos emergir manifestações públicas cada vez maiores, reunindo milhares de pessoas em um fenômeno sem precedentes para o país. Essa movimentação foi seguida pela greve dos trabalhadores dos principais setores do país.

    As declarações públicas de Lukashenko geraram ainda mais protestos e sua aparição pública diante dos trabalhadores resultou em protestos e vaiais. Algo que ele não está acostumado a receber. A situação chegou ao patético do ditador apelar a Putin para uma eventual ajuda. Ou seja, a ameaça de intervenção russa voltou a circular.

    A Influência Russa na Belarus.

    A Belarus de Lukashenko sempre atuou na espera de influência da Rússia, sobretudo com Putin no poder. Por essa razão, vimos a cena patética de um presidente dizer que recorreria a outro para ajudar com o levante popular.

    No entanto, a Rússia tem os seus próprios problemas. Uma intervenção russa, como na Crimeia (ou mesmo na Síria), poderia resultar em reações tanto externa, como mais sanções econômicas. Lembrando que esse é um momento em que a economia russa passa por dificuldades, devido a queda no preço do petróleo e a pandemia. Além disso, a Rússia está lutando para uma presença de influência no cenário geopolítico, como pode ser observado com a questão da vacina, não por acaso denominada de Sputnik 5.

    Será que Putin estaria disposto a se colocar em risco para contribuir com Lukashenko? Ainda que Putin seja um estrategista repleto de surpresas e movimentos inesperados, uma ajuda a Belarus é um cálculo complicado não só pelas reações externas, mas principalmente pelas questões internas.

    O presidente Putin acabou de aprovar uma controversa reforma constitucional que o garante no poder perpetuamente. Esse referendo, suspeito, já provocou uma série de tensões no país. Recentemente protestos contra o seu poder foram registrados no extremo oriente da Rússia, na divisa com a China. Portanto, o cálculo envolve a seguinte questão: uma intervenção pode reforçar a imagem de autoritário e ditador, mas uma não intervenção pode significar que movimentos sociais como aqueles que agora parecem colocar fim ao regime de Lukashenko possa se espalhar pela Rússia.

    Nesse quadro, Putin terá que sentir a temperatura externa e interna para tomar a melhor decisão com relação ao regime. Não está descartado apenas trocar de figura no poder, mas que mantenha a política pró-Rússia que é, no fim das contas, o que realmente o interessa.

    Imprensa Russa

    Mesmo a imprensa russa, como a RT, já colocou a ditadura de Lukashenko como em um estágio final, ainda que observe que a sua última esperança esteja na proteção de Moscou e na vontade de Putin de que ele continue no poder.

    Putin, de acordo com a própria RT, ofereceu uma “vaga necessária assistência”. No discurso, a imprensa Russa coloca como ameaça a soberania da Belarus a influência de Varsóvia. Assim teríamos uma disputa entre Moscou e Varsóvia. Um discurso que tem por objetivo convencer o publico russo, pois o regime na Belarus parece estar chegando ao fim

    É o fim?

    Nesse momento, o ditador parece que conta apenas com as forças repressivas para conter a população. Será que isso será suficiente para manter a ditadura? As manifestações continuam crescendo a cada dia, bem como a violência. Nem mesmo a censura e os cortes na internet tem evitado a difusão de imagens da repressão para o mundo. A União Europeia, com protagonismo da Lituânia e da Polônia tem elevado o tom das críticas. Os próximos dias serão decisivos.

  • O Basquete na Lituânia e a Identidade Nacional.

    O Basquete na Lituânia e a Identidade Nacional.

    • O basquete na Lituânia
    • A história do basquete no Báltico
    • Basquete e o sentimento nacional

    O Basquete na Lituânia é mais do que um exporte! É a expressão da identidade nacional. O esporte e o sentimento de comunidade sempre andaram juntos. Em situações sociais ele representar o grupo, tribo, cidade estado, bairro, clube, fábrica. Formar grupos, desenvolver sentimento por ele e enfrentar o oponente está na essência do sentimento de tantos que se movem pela paixão por algum esporte. Na contemporaneidade, o esporte mobilizou, também, os sentimentos nacionais e alguns casos o sentimento de países ou grupos nacionais para os quais o direito a um Estado foi negado.


    Esse era o caso do basquete na Lituânia durante o período em que esteve ocupada pela União Soviética. Jogadores e times moveram os mais profundos sentimentos nacionais com as suas vitórias, fazendo lembrar um tempo em que a Lituânia era livre e podia ser representada com a sua seleção nacional.


    Quando a Lituânia conquistou novamente a sua independência, a seleção Lituânia pode disputar um jogo internacional carregando a sua bandeira. A explosão de sentimentos nacionais com o terceiro lugar em Barcelona em 1992 deu uma mostra de um sentimento que por décadas estava reprimido.
    Para entendermos um pouco da paixão dos lituanos pelo basquete vamos aqui recuperar alguns aspectos da história deste esporte naquele país. Focaremos neste texto na seleção nacional e suas rivalidades e deixaremos para um próximo a história dos clubes e como esses se desenvolveram e a biografia dos jogadores.


    A história do basquete lituano é muito significativa, pois o país é uma potência no esporte, mesmo com uma população diminuta. Se fizéssemos uma analogia, a Lituânia representa para o basquete mundial o que o Uruguai representa para o futebol. São pequenas potências! Entender o que a Lituânia significa para o basquete é aprender sobre a própria história do basquete.

    O basquete na Lituânia as primeiras cestas na independente.

    A história do basquete na Lituânia tem início com a primeira independência do país, em 1918, como um desdobramento da Primeira Guerra Mundial (1914 -1918) e o fim do Império Russo (1917). Já na década seguinte o esporte começou a se consolidou como prática nacional e se tornou vitorioso na década de 1930. Inicialmente, os lituanos jogavam uma variação do chamado netball que é jogado com uma bola menor e sem a tabela atrás da cesta. O esporte era praticado pelos alemães que ocuparam a região durante a Primeira Guerra Mundial. Os primeiros times formados no país eram femininos e foi naquele momento considerado um “jogo de mulheres”, já que não envolvia contato físico, como nas lutas.


    Na década de 1920, o basquete masculino, já com as regras parecidas com as atuais, começou a ser praticado pelos homens e o primeiro jogo oficial na Lituânia ocorreu em 1922. Embora tenha atraído a atenção e fosse jogado regularmente, o basquete profissional não prosperou rapidamente, pois perdia em popularidade para o futebol.


    O ponto de virada se deu em 1935. Naquele ano, ocorreu o Congresso Mundial dos Lituanos na então capital Kaunas, com o objetivo de reunir representantes das organizações dos emigrados lituanos. Para o congresso, a Comunidade Lituana de Chicago enviou diversos atletas incluindo um time de basquete com jovens jogadores que despontavam nos campeonatos do College. Com os jogos e demonstrações, o interesse dos lituanos pelo esporte começou a crescer. Os americanos-lituanos Juozas Žukas e Konstantinas Savickas decidiram permanecer na Lituânia para jogar e treinar os times do país.

    As Primeira Vitórias


    Em 1936, a Lituânia entrou para a FIBA e começou a disputar os seus campeonatos sofrendo grandes derrotas sobretudo para a Letônia, o seu maior rival. Os letões bateram os lituanos por placares como 123 a 10 e 31 a 10. Essas derrotas acabaram por produzir grandes mudanças no basquete lituano. A primeira delas foi não participar da Olimpíadas de Berlim em 1936, o primeiro ano em que o basquete se tornou um esporte olímpico.


    Na Letônia, o basquete também começou a se desenvolver na década de 1920 e com maior sucesso do que na Lituânia. Durante as décadas de 1920 e 1930, a Letônia teve um time com muitas vitórias no cenário internacional. A Federação Letã de Basquete foi fundada em 26 de novembro de 1923.


    Em 1932, foi uma das fundadoras da FIBA (Federação Internacional de Basquetebol), junto com a Suíça, Tchecoslováquia, Grécia, Itália, Portugal e Argentina. O primeiro campeonato nacional masculino foi disputado em 1924 e o feminino em 1933. Assim como na Lituânia, o desenvolvimento do basquete se deu em conexão com os Estados Unidos, pois os primeiros treinadores eram da YMCA (Young Men’s Christian Association) dos Estados Unidos.

    Seleção de Basquete Lituana, 1937


    A Letônia venceu o primeiro Campeonato Europeu de basquete em 1935 organizado pela FIBA. Como campeã, Riga sediou o campeonato europeu seguinte. Embora fosse a favorita nas Olímpiadas de Berlim, o time não conseguiu chegar às finais. O representante do Báltico que mais avançou foi a Estônia que competia internacionalmente pela primeira vez.


    Para disputar o torneio em Riga, o time lituano decidiu não contar com jogadores “americanos”, mas uma publicação na Letônia criticando o time lituano e o colocando como o pior do torneio fez com que os lituanos mudassem de ideia. Dois jogadores foram trazidos para a Lituânia: Pranas Talzūnas e Feliksas Kriaučiūnas, o último foi designado também como técnico. A manobra junto com a intensa preparação deu certo e a Lituânia venceu pela primeira vez um título europeu batendo a Itália na final.

    Como vencedora, a Lituânia organizou o torneio em Kaunas e para ele contou com jogadores descendentes de lituanos nascidos nos Estados Unidos o que gerou protestos por parte das demais delegações. A Lituânia venceu o segundo torneio derrotando a Letônia na final e o basquete se tornou o esporte nacional.


    O sonho dos lituanos era o de vencer a Olimpíadas de 1940, mas a Segunda Guerra Mundial e a invasão do país pela União Soviética adiaram esse sonho. Um sonho que só foi retomado com a segunda independência, em 1991.

    Os jogadores Lituanos no período soviético

    Com a ocupação soviética da Lituânia que passou a fazer parte da União Soviética, o time de basquete nacional foi eliminado e os principais jogadores passaram a fazer parte da seleção da União Soviética.

    Os jogadores lituanos passaram a fazer parte do time soviético a partir da olimpíada de 1952, já que a URSS não participou da de 1948, e tiveram como resultado um segundo lugar, perdendo apenas dois jogos para os Estados Unidos. Nesse time jogaram os lituanos Stepas Butautas, Kazimieras Petkevičius, Justinas Lagunavičius e Stanislovas Stonkus.

    A partir de 1969, o lituano Modestas Paulauskas se tornou o principal jogador e o capitão da União Soviética. Na Olimpíada de 1972, disputada em Munique na Alemanha, a União Soviética superou os Estados Unidos, que até então haviam vencido todas as olimpíadas, e ficaram em segundo lugar, quebrando uma hegemonia que vinha desde 1936.

    A outra derrota dos Estados Unidos para a URSS viria em Seul (1988) lembrando que os Estados Unidos boicotaram a Olimpíada de Moscou (1980) e a URSS boicotou a Olimpíada de Los Angeles (1984).

    Em 1988, a seleção da União Soviética tinha como principais jogadores de basquete os lituanos: Arvydas Sabonis e Šarūnas Marčiulionis. Eles lideraram o melhor time da União Soviética, que ainda contava com Rimas Kurtinaitis, Valdemaras Chomičius. A seleção soviética derrotou os Estados Unidos na semifinal e ganhou a medalha de ouro.

    O basquete dos Estados Unidos entrou em crise, pois apenas um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil, liderado por Oscar e Pipoca.

    Diante das derrotas, os americanos decidiram que para as próximas Olimpíadas passariam a enviar os jogadores da NBA.Era o início do Dream team, liderado por Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird.

    A União Soviética não sobreviveu até a Olimpíada de Barcelona, disputada em 1992, mas os principais jogadores daquele time soviético poderiam defender pela primeira vez a sua seleção nacional. A Lituânia enfrentou os Estados Unidos e seu Dream Team.

    O Basquete na Lituânia: De Volta ao Jogo!

    As Olimpíadas de Barcelona foram um momento marcante para a história dos países bálticos. Depois de quarenta anos, eles voltavam a disputar uma Olimpíada carregando as suas próprias bandeiras.


    Ao contrário dos demais países que faziam parte da União Soviética, Estônia, Letônia e Lituânia se recusaram a integrar a CEI (Comunidade dos Estados Independentes). As suas delegações não eram grandes, mas eram representativas de um sentimento nacional e de uma esperança de independência que por décadas foram suprimidas.


    Entre as atrações principais dos países bálticos estava a seleção de basquete da Lituânia. Seus principais jogadores, Arvydas Sabonis e Sarunas Marciulionis, lideraram o melhor time da União Soviética, campeão da Olimpíadas de Seul. Agora, o time soviético estava dividido, mas as suas estrelas principais comandavam a Lituânia. A Lituâniavenceu todos os seus jogos até enfrentar os Estados Unidos nas semifinais, quando perdeu de 127 a 76. Para entendermos o que aconteceu naquele jogo temos que voltar um pouco no tempo e recuperar uma história que também envolve o basquete brasileiro.


    Os Estados Unidos vinham de duas derrotas humilhantes no basquete. Em1988, na Olimpíadas de Seul, eles perderam nas semifinais para a União Soviética. Um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil liderado por Oscar e Pipoca. Além do talento dos jogadores que venceram os Estados Unidos, outra questão importante que explica essas duas derrotas foi a mudança no sistema de pontuação.


    A FIBA introduziu a cesta de três pontos, enquanto os campeonatos nos Estados Unidos mantiveram o sistema de pontuação antigo. Como resultado, das duas derrotas, mudanças foram realizadas no basquete americano. Eles passaram a incluir a cesta de três pontos no College e na NBA (National Basketball Association). Pressionaram o comitê olímpico para aceitar a inscrição dos jogadores da NBA no time olímpico. Em resumo, Brasil e os jogadores lituanos atuando pela União Soviética mudaram a história do basquetebol.

    O Outro “Dream Team” De Volta ao Pódio

    Em 1992, a Lituânia passava por enormes dificuldades financeiras e o recurso para levar o time para Barcelona eram poucos. O drama dos lituanos se espalhou pelo mundo. Comovidos, a banda de rock americana Grateful Dead resolveu financiar as passagens de todo o time lituano para as Olimpíadas.


    Para Barcelona, os americanos formaram o chamado “time dos sonhos”, Dream Team, com Michel Jordan, Magic Johnson e Larry Bird. Para muitos especialistas, este foi o melhor time de basquete de todos os tempos. A superioridade era tão grande que a audiência dos jogos se dava pelos astros, pelo show, para saber quem perderia por menos pontos ou qual jogador americano faria mais cestas. Com esse time os EUA derrotaram a Lituânia na semifinal.

    Time Lituano, Barcelona, 1992.


    Para completar a história, a disputa da medalha de bronze foi conquistada contra a CEI, sendo muitos jogadores ex-companheiros de seleção e de clubes. Não importava em que lugar ficasse a bandeira nacional. Os hinos da Estônia, Letônia e Lituânia, proibidos até dois anos antes, foram tocados e os jogadores subiam ao pódio também para celebrar as independências nacionais.


    O terceiro lugar não deixou nenhum lituano triste. Ver a bandeira no pódio, a sua camiseta e a suas cores foi de uma alegria enorme para os lituanos e seus descendentes. Outro aspecto que chamou a atenção foi a camiseta utilizada no pódio.


    O artista psicodélico americano Greg Speirs presenteou o time com uma camiseta com uma caveira “enterrando” uma bola entre raios coloridos com as cores da bandeira da Lituânia. A arte foi adotada como um símbolo do basquete lituano e foi a camiseta mais vendida na Olimpíadas seguinte disputada em Atlanta nos EUA.

    Sugestão sobre o basquete na Lituânia

    O Documentário The Other Dream Team (2012) do diretor Marius Markevicius de 2012 é uma excelente obre sobre o time lituano na Olimpíada de Barcelona. Vale investir, mesmo se você não encontrar uma versão em português.

  • Brexit: considerações e palpites.

    Brexit: considerações e palpites.

    Por que o Brexit? 

    • Os motivos do Brexit
    • A União Europeia e o Brexit: história
    • Imigração e o Brexit

    Já que estão todos dando palpites e pitacos sobre o Brexit, aqui vão os meus.Toda a campanha Brexit foi conduzida pela direita xenófoba e com um discurso saudosista e nacionalista.

    No entanto, é importante lembrar que uma parte da esquerda sempre foi crítica à União Europeia e, mesmo o líder do Partido Trabalhista, não é lá um grande entusiasta (ou não foi durante muito tempo). Para além disso, a esquerda radical apoiou a saída e uma grande parte da classe trabalhadora também. Acrescentamos que uma grande parte da classe trabalhadora é contra as políticas migratórias.

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    Com o colapso da União Soviética em 1991, ao invés da União Europeia providenciar uma espécie de Plano Marshall que pudesse desenvolver, ou colocar a Europa Oriental nos trilhos, (como a Alemanha fez com a sua parte oriental), ela optou, baseada na teoria neoliberal, por abrir as portas do mercado para o Oriente, terminando de quebrar as empresas orientais recém ingressas no capitalismo, e permitir o fluxo da mão de obra (imigração).

    O ingresso da Polônia, principalmente, e dos países do Báltico (Lituânia, Letônia e Estônia), na União Europeia provocou uma onda interna de imigração na União Europeia. Esse fluxo se somou aos fluxos imigratórios das ex-colônias da Grã-Bretanha, já “tradicionais”, e aos refugiados dos conflitos no Oriente Médio.

    Essa imigração do leste europeu foi tão grande que na Lituânia é costume dizer que “os lituanos não estão emigrando, mas estão evacuando o país”. Assim como no caso polonês, um dos principais destinos é a Grã-Bretanha.  (sobre a Lituânia e a União Europeia ler AQUI)

    E qual é o problema do Brexit?

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    Bandeiras

    A imigração em massa foi uma estratégia do capital para depreciar o custo da mão de obra na Europa Ocidental. Na Inglaterra, a conservadora Margaret Thatcher (1925 – 2013), que governou entre 1975 e 1990, foi eliminando praticamente todos os direitos trabalhistas e os sindicatos. Seu conservadorismo social e seu neoliberalismo na condução econômica eliminaram o estado de bem estar social e privatizando todos os serviços públicos.

    A partir da década de 1990, com a imigração em massa do Leste Europeu, a mais uma abundante mão de obra, disposta a trabalhar por qualquer coisa, se acomodou a ausência de direitos trabalhistas. O resultado foi o empobrecimento da classe trabalhadora e a ampliação da desigualdade em níveis que só têm paralelos na Revolução Industrial do século XIX. Com a crise de 2008, a situação se agravou ainda mais. Vale lembrar, que a Grã-Bretanha que ainda segue a cartilha neoliberal como dogma é o único país desenvolvido que ainda não superou a crise de 2008, ao contrário da Alemanha, da França e dos Estados Unidos, por exemplo.

    As possibilidades do Brexit

    Diante desse quadro temos duas saídas possíveis:

    À direita: nacionalismo, saudosismo e xenofobia. Esses sentimentos dão a ilusão de que a mera remoção dos imigrantes resolverá o problema social, com a retomada do emprego. É uma ideia falsa! Pois removidos os direitos trabalhistas a desigualdade permanece! Ou seja, enquanto as práticas neoliberais persistirem persiste a desigualdade.

    À Esquerda: a do papel do Estado na promoção da equidade social. Aí temos um problema, pois a esquerda não sabe o que fazer com os imigrantes. De um lado, ela defende os direitos individuais e o de imigrar e o multiculturalismo (no que está certa!), mas o que fazer com essa mão de obra (imigrantes) trazida estrategicamente?

    Um problema sensível da esquerda é que ela, de uma forma ou de outra, sempre conseguiu atuar no âmbito nacional, mas não conseguiu efetivamente se organizar no âmbito internacional e menos ainda dentro da União Europeia. Jamais foi capaz de propor uma reforma igualando os direitos dos trabalhadores e a legislação trabalhista, por exemplo. Pelo contrário, como no vergonhoso caso francês é a tradicional esquerda que propôs a reforma trabalhista. O resultado final, salvo o cosmopolitismo londrino e de jovens que já nem mais conseguem se ver como parte dos “trabalhadores”: a saída foi vitoriosa.

    Depois da Euforia

    Apesar da euforia da extrema direita francesa, alemã e holandesa, o brexit não é necessariamente um indicativo da vitória da direita, ao menos na Inglaterra. A situação ali parece ser bem mais complexa. Por um lado, temos a popularidade do líder trabalhista inglês, Jeremy Corbyn. Por outro, é necessário saber se os conservadores vão conseguir se manter no poder e por quanto tempo.

    Em outras palavras quem fará a transição? Em que termos ela será feita? Quais os efeitos para a economia nos próximos meses? Nesse momento, qualquer tentativa de resposta para essa questão é apenas um chute!

    Aquele que conseguir intermediar as insatisfações sairá na frente neste processo.

    Com relação ao futuro da União Europeia, ao menos nos parâmetros em que a União está dada, será difícil se manter. É de fundamental importância lembrarmos que a estrutura de poder da União Europeia foi desenvolvida a partir de múltiplos acordos. A União Europeia foi articulada através da construção de consensos e não para a solução de crises. Na verdade, a União Europeia não tem mecanismos de solução de crises! Por isso sua movimentação e as respostas às crises são muito lentas…

    Por fim, será necessário acompanhar com muita atenção como a Grã-Bretanha vai lidar com a questão dos imigrantes. Uma política restritiva terá consequências desastrosas para outros países da União Europeia, notadamente, a Polônia e os países do Báltico.

  • Porto Rico em Crise: soluções?

    Porto Rico em Crise: soluções?

    • Crise em Porto Rico
    • Eleição Americana, 2016
    • A Proposta do Senador Sanders

    A crise em Porto Rico é um anúncio da crise americana? É uma pergunta apenas provocativa! Mas que chama a atenção para a precária situação institucional e financeira deste que é um “Estado livre associado” aos Estados Unidos da América (EUA). Com uma dívida de aproximadamente 73 bilhões de dólares, a pequena ilha caribenha não parece ter forças para arcar com sua dívida, sem causar um caos social.

    História de Porto Rico 

    A situação de Porto Rico é bastante intrigante, pois a ilha é parte dos Estados Unidos como um “estado livre associado”. Ou seja, juridicamente é parte dos Estados Unidos, mas não tem a mesma autonomia e direitos dos outros Estados que compõem os Estados Unidos da América.

    Porto Rico era parte do Império Espanhol na América até o fim do século XIX. Com a intervenção dos Estados Unidos na Guerra de independência de Cuba, deu-se início a Guerra Hispano-Americana que terminou com o tratado de Paris de 1898. Nesse tratado, a Espanha repassou por período indeterminado a autoridade colonial sobre Porto Rico.

    Em 1917, os Estados Unidos estenderam o direito de cidadania aos nascidos em Porto Rico. No entanto, alguns direitos lhes foram negados, como o de votar para a Presidência da República (embora possam votar nas primárias atualmente).

    É bem verdade que sempre houve grupos pró-independência em Porto Rico. Alguns com ações violentas, mas nas duas vezes em que a questão da autonomia foi levada a referendum a população optou por outro caminho. No referendum de 1998, foi decidido pela não independência e pela manutenção de Estado Associado.

    Em dezembro de 2012, um referendo na Ilha expressou, por 65%, a vontade de Porto Rico em se tornar um estado dos EUA. No entanto, para alcançar esse status é necessária a aprovação do Congresso Americano, o que ainda não aconteceu. Se é que vai acontecer! Assim, Porto Rico tem o direito de eleger o seu próprio governador e sua língua oficial é tanto o inglês quanto o espanhol. O espanhol é mais utilizado.

     A Crise em Porto Rico

    Atualmente, Porto Rico detém uma dívida de aproximadamente 73 bilhões de dólares. Ela foi adquirida através de empréstimos com diversos fundos e o atual governador Alejandro Garcia Padilha declarou que a dívida é simplesmente “impagável”. A ilha já deixou de realizar pagamentos, o que levou a uma situação de desgoverno.

    A situação chegou ao Congresso Americano que deveria apontar soluções para o problema. Depois de meses de inação, aprovou uma medida intitulada PROMESA (Oversight Management and Economic Stability Act), em um acordo entre os dois partidos Republicanos e Democratas. De acordo com o ato seriam escolhidos pelos líderes do Congresso sete membros fiscais com amplos poderes de negociação. Eles também poderiam realizar cortes no orçamento poderiam suspender leis locais e congelar pagamentos.

    Críticos a essa medida observam que uma comissão com tais poderes seria uma forma de recolonização de Porto Rico, mais do que isso. A comissão atuaria em favor dos credores e não da população local ampliando a crise na Ilha, que já acumula taxa de desemprego de 12%. Uma taxa muito maior do que a média dos outros Estados Americanos. Acrescenta-se a esse fator desestabilizador a enorme emigração, sobretudo entre os mais jovens.

    É preciso lembrar que muitos cidadãos de Porto Rico tem suas poupanças e aposentadorias investidas em títulos do governo, ou seja, a depender da negociação a ser realizada, o resultado pode ser a ampliação da pobreza principalmente na população mais vulnerável.

    Solução proposta por Sanders?

    Todas essas questões surgem, pois Porto Rico, como Estado Associado, não tem os mesmos direitos dos demais Estados. Por exemplo, o de utilizar a lei de falências que já foram utilizadas por cidades como Detroit. Neste sentido, desprotegido de uma lei que possa representar segurança e dar alguma margem de negociação para Porto Rico, seus credores têm poucos motivos para acelerar um processo de negociação ou reestruturar a dívida, já que não estão sujeitos às leis Americanas.

    Em um último esforço para aliviar a situação, o Senador e pré-candidato à Presidência Bernie Sanders propôs que o “Banco Central Americano”, o FED, use a mesma “imaginação” e engenharia financeira utilizada para resgatar empresas em dificuldades durante a crise de 2008. Na ocasião, o FED abriu os seus cofres e ofereceu bilhões em empréstimos e subsídios para salvá-las da falência.

    Por agora, ao que tudo indica, a voz de Sanders parece ecoar solitária. Os Olhos do público americano (ao menos aqueles que se preocupam com a coisa pública) está voltado para as próximas eleições.

    O debate 

    A discussão sobre Porto Rico tem ocupado um lugar bastante marginal na imprensa dos Estados Unidos. Ele também não foi tratado com a devida atenção por nenhum dos pré-candidatos (a exceção de Sanders dentro do Congresso). Parece que assim, a situação de Porto Rico, terá que ser tratada pelo próximo Presidente já que a dívida, que tem uma significativa parcela a vencer no dia Primeiro de Julho e, ao que parece, não será paga.

    Qual será o futuro de Porto Rico? E como os EUA vão lidar com os seus débitos? Perguntas que o próximo Presidente dos EUA terá que responder.