Categoria: História

  • Legado de Cinzas: uma história da CIA

    • Resenha do livro Legacy of Ashes. The History of the CIA
    • Sobre Tim Weiner
    • A CIA e a Guerra Fria

    Não tenho dúvidas que Legacy of Ashes. The History of the CIA é a obra narrativa mais completa sobre a atuação da CIA. O livro de Tim Weiner recebeu o principal prêmio que um jornalista norte-americano pode receber: o pulitzer. Sua proposta é realizar uma história narrativa dos principais eventos sobre a CIA que se estende da sua fundação ao o que o autor considera o seu momento de maior crise, com a revelação de que o Iraque, ao contrário do que foi levado ao público, não possuía armas de destruição em massa.

    Essa longa trajetória, cobrindo aproximadamente 60 anos, é realizada em 778 páginas. Sua narrativa é clara e prende a atenção do leitor. Mesmo para um leitor estrangeiro, como eu, o vocabulário é acessível e as construções gramaticais não se prendem a desnecessários rebuscamentos. Sua pesquisa também merece destaque. Embora o autor cubra temas relacionados à inteligência americana para diversos órgãos de imprensa, não utilizou fontes que não possam ser verificadas. Com isso a narrativa histórica, feita por um competente jornalista, ganha credibilidade e não se perde nos corredores das hipóteses mirabolantes e das teorias da conspiração.

    Esse é um aspecto importante! Aquele que se propõem a escrever a história de qualquer órgão de segurança (ou de inteligência) anda sempre no fio da navalha entre as teorias da conspiração, o que veio a público e o que pode ser comprovado. A própria comprovação é, muitas vezes, o maior problema. Assim, entrar em assuntos espinhosos e ao mesmo tempo manter a sobriedade da pesquisa é algo exaustivo e cansativo. (Aqui compartilho minha experiência trabalhando com os arquivos do Deops-SP).

    Seja como for, o autor realiza o que se propõe e o que nos oferece cobre uma ampla história da CIA. Não quero dizer com isso que não caibam questionamentos às suas afirmativas. Pelo contrário! Menos ainda que ela é completa e absolutamente correta (mesmo porque isso não existe em nenhum trabalho histórico). Na realizada, o autor nos apresenta uma avaliação bastante pessimista da atuação da CIA. Demonstra exaustivamente a sua debilidade, as suas falhas e os seus erros. O principal deles, ainda segundo o autor, foi o de sempre depender da inteligência de outros países. Mostra ainda a incapacidade desta ter penetrado a URSS, durante a Guerra Fria. Narra uma quantidade enorme de operações fracassadas nas mais diversas partes do mundo, da América Latina, Ásia e Oriente Médio. Ressalta ainda alianças duvidosas com o sub-mundo em diversos países do mundo.

    De toda as trajetórias descritas pelo autor gostaria de destacar uma em particular que se refere à Europa Centro-Oriental. Logo no início da Guerra Fria, com o objetivo de levar um discurso pró-ocidente e pró-liberdade para dentro da URSS e dos demais países comunistas, a CIA junto com diversas organizações, apostou na Rádio Europa Livre. A Rádio difundia um discurso do Ocidente que poderia ser facilmente captado por qualquer rádio e que com a tecnologia então disponível era praticamente impossível bloquear sem danificar seriamente a comunicação destes países.

    Guerra Fria: a CIA e a Europa Centro-Oriental: Rádio Europa Livre.

    No delinear da Guerra Fria, uma questão que se abriu foi como lidar com aqueles que haviam escapado da União Soviética e dos países sob regime comunista da Europa Centro-Oriental. Em particular com os intelectuais que agora viviam no ocidente. Assim, os principais cabeças da CIA como, Frank Wisnes, Kennan e Allen Dulles viram uma forma muito melhor de lidar com o fervor e com a energia destes intelectuais dos exilados e decidiram por abrir um canal por trás da cortina de ferro: a Rádio Europa Livre.

    O plano teve início no final de 1948 e no início de 1949, mas foram necessários mais de dois anos para que a rádio fosse levada ao ar. Dulles se tornou o fundador do  Comitê Nacional para Europa Livre (National Committee for a Free Europe), um dos muitos frontes organizados e financiados pela CIA nos Estados Unidos. A comissão da Europa Livre incluiu o General Eisenhower, Henry Luce, os editores da Time, da revista Life e da Fortune e Cecil B. DeMille, um produtor de Hollywood, todos recrutados por Dulles e Wisner como um disfarce  para o verdadeiro propósito: a rádio se tornaria uma arma política na Guerra Fria. Assim, durante décadas pelas ondas do rádio, a CIA, com apoio de muitos intelectuais, lançou contra a chamada “cortina de ferro” um discurso anti-comunista e que incentivava a rebeldia em todos os países na Europa sob domínio comunista.

    Sobre esse aspecto, gostaria de complementar com a seguinte observação. Em muitos países, como na Lituânia atual, a rádio livre entrou na narrativa histórica como parte da resistência “nacional” contra o comunismo. Se de fato, vários lituanos trabalharam nela, ou para ela, é sempre necessário frisar esse aspecto, qual seja, tratava-se de um projeto propaganda e com uma intenção muito bem estabelecida no delinear de uma Guerra. Portanto, estava longe de ser uma atividade espontânea de resistência, como muitas vezes aparece.

    A Tragédia dos Agentes Antissoviéticos.  

    Steve Tanner era um veterano da inteligência do exército e recém egresso da Universidade de Yale, contatado por Richard Helms, poderoso diretor da CIA, em 1947. Em Munique, na Alemanha, sua missão era recrutar agentes que pudessem oferecer material de inteligência aos Estados Unidos atuando por trás da Cortina de Ferro.

    Dessa forma, quase todas as nacionalidades da União Soviética e da Europa Oriental tinham pelo menos um importante grupo, ou que se autoconsiderava importante, de emigrado, buscando pelo socorro da CIA em Munique e em Frankfurt. Alguns dos homens que Tanner investigou como potenciais espiões eram Europeus Orientais que tinham tomado o lado da Alemanha contra a Rússia. Elas incluíam pessoas com passado fascista que tentavam salvar suas carreiras tornando-se úteis aos americanos. Tanner afirmou, e estava preocupado, pois “eles estão automaticamente do nosso lado”. Outros que haviam saído da periferia da União Soviética exageravam seu poder de influência. “Esses grupos de emigrados, o seu principal objetivo é convencer o governo dos Estados Unidos da sua importância e da sua habilidade de ajudar o governo dos Estados Unidos, e então receber apoio de uma forma ou outra”.

    Para organizar suas atividades antissoviéticas, Steve Tunner estabeleceu que para receber ajuda da CIA, os emigrados deveriam ter conexões na sua terra natal e não nos cafés. Eles não deveriam estar comprometidos com o nazismo. Em dezembro de 1948, após um estudo cuidado ele finalmente parecia ter encontrado um grupo: Supremo Conselho para a Libertação da Ucrânia.

    Eles foram infiltrados, mas a União Soviética foi capaz de identificar todos eles e rapidamente os eliminou, assassinando todos eles! Ao estilo soviético… Com isso, centenas de agentes estrangeiros da CIA foram enviados para a morte na Rússia, Polônia, Romênia, Ucrânia e nos países Bálticos durante os anos 1950.

    Essas são apenas algumas das histórias tratadas por Tim Weiner, em sua obra. E por essas e outras que ele considera que o legado da CIA tenha sido um “legado de cinzas”… Ainda sobre a Europa Centro-Oriental o autor enfatiza sua incapacidade de entrar na inteligência soviética e ainda sua total surpresa diante do colapso da URSS e do regime comunista na Europa Oriental…

    Essa é uma questão bastante preocupante para a atualidade: se a inteligência americana não conseguiu compreender e entender a União Soviética, como esperar que lidem agora com a Rússia e suas ações nos países que fizeram parte da URSS? Essa vai ser  outra história.

  • Os Outros Esquecidos: Monumentos ao Exército Vermelho

    Os Outros Esquecidos: Monumentos ao Exército Vermelho

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • A memória na Lituânia
    • Monumento ao Exército Vermelho
    • Memória oficial sobre o comunismo

    Em diversas cidades da Lituânia um incômodo monumento está à vista de quem queira ver: Os cemitérios dos combatentes do Exército Vermelho que caíram ao longo da sangrenta campanha que se arrastou no país. Um duplo sentimento se estabelece. Por um lado, são a celebração da vitória contra o nazismo e a ocupação alemã. Por outro, era o estabelecimento do regime comunista na Lituânia e a sua integração a União Soviética.

    Durante o período soviético, esses cemitérios foram cuidados, preservados, e eram até mesmo lugares de celebração. Com o fim do regime, virou um incômodo, pois se criou ao longo das últimas décadas uma memória e uma história oficial antissoviética – não raramente antiesquerda, como forma de afirmação da independência.

    Nos livros de história, o comunismo é sempre apresentado como algo externo aos lituanos. Como se não houvesse lituanos comunistas e quando estes trabalharam em prol da União Soviética são chamados de colaboracionistas, da forma mais pejorativa possível. Ou como mero oportunistas. Assim, ser lituano é ser anticomunista e quem escreva contra ou tente discutir – negar – o “genocídio” soviético você pode ser punido, com a mesma lei que pune aqueles que tentam negar o holocausto.

    Ainda não raramente, em muitos livros, se tenta enfatizar a quantidade de “não lituanos” nas organizações comunistas naquele país. Isso equivale a dizer que pela expressiva quantidade de judeus, russos e polacos no Partido Comunista Lituano ele não seria legitimo. Muitas vezes essas referência são feitas de forma discreta, espalhada entre as páginas, mas estão lá.

    Podemos comparar aqui a Lituânia com a Rússia e entendermos a diferença. Os russos incorporaram os “feitos” soviéticos a sua memória e a suas datas cívicas, como o Dia da Vitória, ou ainda todas as vitórias olímpicas e…não menos importante… o mausoléu do Lênin continua no mesmo lugar.

    Na Lituânia, a União Soviética é expelida da memória. Qual o problema? O problema é que isso acaba por esconder a participação de lituanos em sacrifícios e feitos importantes, como derrotar o nazismo. Em Šiauliai, por exemplo, um batalhão inteiro do Exército Vermelho era composto por lituanos – parte da historiografia nega isso afirmando que tinham mais russos – para complicar esse esforço de Guerra como esse batalhão teve como grande suporte os imigrantes lituanos que desde a América, Norte e Sul, enviavam ajuda e contribuições.

    Da mesma forma, os partisans comunistas que lutaram contra a presença nazista são em alguns casos chamados de terroristas e a eles são atribuídas as respostas à ação dos comunistas, numa inversão histórica inaceitável, mesmo para a péssima literatura histórica.

    Assim, aqueles que não se somaram às lutas antifascista e nazista na Lituânia são esquecidos ou difamados. É fato que o regime soviético por todas as atrocidades cometidas, e que não podem ser esquecidas ou negadas, representa um trauma, uma cicatriz que será difícil de fazer cicatrizar e já não estou certo de que deve deixar cicatrizar.

    Mas a ferida aberta não pode infeccionar toda a memória lituana. Desprezar ou ter vergonha de seu passado não ajuda, menos ainda falsificá-lo deliberadamente. Os cemitérios aos combatentes, ainda que estejam com os nomes escritos em russo e não tragam todos os símbolos comunistas, estão ali para lembrar do que foi lutar contra o nazismo. Dos sacrifícios de homens e mulheres que entregaram sua vida contra o fascismo e o nazismo e nisso estavam certos em fazer. Foi um sacrifício que valeu. O que aconteceu depois não pode ser imputado a eles e suas memórias não podem ser desprezadas. Ainda hoje, cemitérios dos combatentes do Exército Vermelho na Lituânia são preservados pela embaixada russa…

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  • Žagarė: memória de um genocídio

    Žagarė: memória de um genocídio

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    • Sobre o genocídio em Žagarė
    • Minhas impressões sobre a memória de um genocídio

    Žagarė: memória de um genocídio… Quando saí do Brasil carregava comigo uma obsessão: conhecer a Lituânia. Já na Lituânia de norte a sul de leste a oeste. Era o meu encontro com a terra natal da minha família. Ao chegar fui conduzido por uma amiga que em um fim de semana me convidou para conhecer a cidade onde vivia a sua família, localizada bem ao norte do país. Pegamos um ônibus em Kaunas e fomos para Joniškis, uma pequena cidade próximo a Šiauliai.

    Já na casa dela, fui recebido por seus pais e suas três irmãs mais novas e ali me deliciei com a farta comida: sopa de beterraba e bolinhos de carne de porco que foram servidos no café da manhã. Delicioso, mas pesado para quem não está acostumado.

    Seguimos para nossa jornada, as irmãs mais novas da minha amiga decidiram nos acompanhar. Conhecemos Šiauliai! Andamos pelas ruas principais e fomos ao gigantesco shopping, que estava vazio. Na parte da tarde, passamos horas simplesmente andando sem direção por algumas ruas. Buscamos por alguns lugares onde eu queria tirar fotos: a escola, o centro, a estação de trem.

    No dia seguinte, decidimos ir para o norte de Joniškis, depois de tomar a tradicional sopa lituana. Chegamos à cidade de Žagarė que parecia vazia e um tanto bagunçada depois de uma tremenda tempestade de verão. Žagarė é uma cidade muito particular na Lituânia, pois, durante o período do Império Russo foi zona de residência de judeus e ciganos. Pela sua localização, quase na divisa com a Letônia foi um ponto de passagem e comércio por séculos. Assim, a cidade teve seu tempo de glória, de desenvolvimento econômico e cultural ou, podemos dizer, multicultural.

    Essa história foi drasticamente interrompida pela brutalidade da Segunda Guerra Mundial, quando aproximadamente 2.500 judeus foram fuzilados e enterrados em uma vala comum. Hoje, no local, um gramado com um caminho de pedra e poucas arvores. No centro, um pequeno monumento em memória às vitimas do genocídio nazista.DSC03641 Diante deste monumento, minha amiga tentava explicar a sua irmã de oito anos o que tinha acontecido ali e o porque do pequeno monumento. A menina olhava a sua volta e não acreditava. Dizia não ser possível ter 2.000 pessoas enterradas naquele parque.Seu argumento era simples e comovente: não havia espaço suficiente para fazer cada um dos túmulos para essa quantidade de corpos.

    Era sem dúvida um argumento intrigante e nos colocava em uma situação complicada. Como explicar para uma criança que milhares de pessoas podem ser mortas e seus corpos atirados em uma vala comum? Minha amiga tentou explicar uma vez mais. A garotinha continuava olhando de um lado ao outro buscando algum sinal das covas e dos túmulos. Ela se aproximou de nós uma vez mais, com seus comentários, e nos disse que aquilo era muito errado. As pessoas não podem ser enterradas juntas, pois os familiares não poderiam reconhecer onde estavam os seus parentes?

    Os cemitérios na Lituânia são distintos do que estamos acostumados no Brasil. Eles são visíveis das estradas, das ruas e não são escondidos por muros. No geral, estão sempre muito arrumados, particularmente no verão e na primavera, quando arranjos de flores de diferentes tipos e cores são colocados. Pode ser que a ligação com os mortos das religiões tradicionais não exista mais. Pode ser pelo simples hábito ou para não ser difamado pelos vizinhos. Seja como for, os cemitérios são frequentemente visitados e arrumados. Dai nossa garotinha ficar ainda mais impressionada, afinal a colocamos diretamente e de uma vez diante de uma tragédia brutal.

    Com oito anos, ela entendeu muito rápido o sentido daquele genocídio, e que talvez seja o de qualquer genocídio (etnocídio): o de eliminar, esconder e principalmente fazer esquecer aqueles que foram mortos. Não bastaria eliminar fisicamente era preciso eliminar de cada memória a simples existência daquela comunidade. Fabricar um esquecimento é o que segue ao genocídio. Fazer os mortos perderam sua individualidade, suas histórias pessoais, suas relações com os descendentes. Desaparece da memória!

    Caminhar por aquele parque e escutar minha amiga explicar uma história tão difícil a sua inquieta irmã me fez repensar a importância da memória. Não deixar esquecer a brutalidade, do genocídio e da violência é uma tarefa árdua e que deve ser contínua. O que aconteceu em Žagarė deve ser lembrado, por mais doloroso que seja.