Não temos a menor dúvida de que o embate entre Trump e Biden será fundamental para os rumos da política em escala global. De forma até exagerada se enxerga um embate entre a civilização e a barbárie, ou entre a democracia e a demagogia (populismo) autoritário. Por essa razão, a esquerda, com excessões, tem se entusiasmado com a provável vitória do candidato Democrata, Joe Biden.

No Brasil, a esquerda, particularmente a militante de partido, torce muito, pois entende que essa vitória fará o que ela não consegue fazer: derrubar, ou ao menos fragilizar, o atual governo. Para nós, Biden é o caminho certo para a decepção da esquerda, em todos os lugares.

Nós sabemos quem é ele

Os pensadores de esquerda nos Estados Unidos, seja aqueles que atuam junto aos Democratas ou não, sabem quem é o político pragmático, negociador e centrista Joe Biden. Bastaria lembrar que ele foi escolhido para ser vice de Obama como uma forma de acalmar o status quo Democrata diante do “radicalismo” que representava as propostas apresentadas Obama (“Yes, We can”) e a candidatura de um negro para a Casa Branca. Quando Obama superou a Hillary Clinton, Biden era, naquele momento, a certeza do equilíbrio e da manutenção do status quo para os Democratas e seus eleitores.

Por essas características, muitos prefeririam ter lançado ele e não Hillary, em 2016. No entanto, devido a uma tragédia pessoal, Biden preferiu não se candidatar. Em 2020, nesse ano complicado, ele apareceu novamente como essa figura estável e conciliadora, incapaz de sustentar qualquer dogma ou algo que não possa ser mudado de acordo com a conveniência do momento, dentro dos parâmetros estabelecidos pelos Democratas.

É mais fácil…

Essa visão fica evidente, no apoio, com ressalvas, que recebe de Bernie Sanders (ver meu artigo de 2016). Sanders sempre afirma ter diferença com Biden, mas ressalta saber que ele é um homem decente, que respeita as regras do jogo e que respeita principalmente “a democracia”, entendendo a democracia aqui como o sistema eleitoral / legal dos Estados Unidos.

Assim, a esquerda americana está dizendo para quem queira escutar: “é mais fácil sobreviver no neoliberalismo formalmente democrático regido por Biden do que caminhar para uma nova forma de fascismo, com um demagogo, autoritário, megalomaníaco. Por isso, vote em Biden e é só isso mesmo!”

Nas suas atitudes e nos debates, Biden fez questão de jogar baldes de água fria na esquerda que atua entre os Democratas e foram muitos os baldes… Vamos a alguns exemplos.

Um grande balde de água fria é a estratégia de atrair os Republicanos que se afastaram de Trump (ou do trumpismo). Entre eles, o governador Republicano de Michigan Rick Snyder que responde pela acusação de ser o responsável pela contaminação da água da cidade de Flint. (ver aqui). Os movimentos sociais estão há anos lutando contra ele e seu governo.

A água fria nos debates

Nos dois debates, Biden jogou vários baldes de água fria na esquerda. Alguns deles foram bem discretos. No primeiro, marcado pelo caos, uma questão passou quase desapercebida: a do Green New Deal. Lembrando: essa é a proposta da esquerda Democrata para que os EUA se tornem uma economia verde. Durante o debate, Biden afirmou que ele não implantará o programa denominado Green New Deal, mas na plataforma dele estava lá. Em suma: ele afirmou que não implementará a principal bandeira da esquerda que vinha com Sanders.

No segundo debate, sem usar a expressão Green New Deal, ele retomou o tema, usando a palavra “transição”, ou seja, na cabeça dele, é possível passar para a economia verde sem perder a os investimentos e afetar os empregos no carvão e no petróleo, por exemplo. Será?

De toda forma, ele tentou agradar a esquerda sem desagradar aos que dependem ainda das outras formas de atividades econômicas. Obviamente, Trump tentou associar a isso a uma forma de socialismo, o que não deu certo. Ainda assim, logo após os debates, os Democratas ligados a sua campanha saíram em defesa da indústria do carvão e do Petróleo, nada de Green New Deal, portanto.

No mesmo debate, Biden, ao ser associado aos projetos de Sanders por Trump, lembrou que ele não é socialista! E foi além! Lembrou que ele é Biden! O que derrotou os outros projetos! (não tinha conciliado?) E isso quando respondia sobre saúde. Em outras palavras, Biden descartou aderir ao programa de saúde pública e para todos, como pretendia Sanders. O mesmo, vale dizer, para a educação. Ou seja, os projetos de Sanders, representantes dos Democratas socialistas foram todos descartados!

Biden e o Brasil

A esquerda brasileira também não deve nutrir ilusões com relação a Biden. Primeiro, porque o Brasil e continuará a ser estratégico independente dos governos nos dois países. Segundo, porque a luta contra o avanço da influência da China é a única coisa que unifica os dois partidos e nisso, o Brasil, ainda está em disputa. Assim, o que veremos é uma mudança da forma, mas não o abandono do país nas relações estratégicas, como isso será articulado com o bolsonarismo é que é a questão.

Os Democratas costumam oferecer vantagens aos países que querem manter boas relações, ou manter o diálogo aberto. O provável, nessa relação, entre crítica e oferecimento de vantagens, é que Biden vai buscar atuar. O efeito no Brasil, para o bolsonarismo, talvez seja mais forte no aspecto simbólico e de perda de narrativa do que de uma ação direta do governo americano. Aqui é preciso lembrar que grande parte dos investimentos estrangeiros já saíram do país. Assim, é pouco provável que o governo Biden faça aquilo que a esquerda brasileira não está conseguindo fazer…

Com Biden… Estaremos mais confortáveis

Em todos os cantos do mundo, em todas as alas progressistas há uma torcida por Joe Biden. Ela vai durar até o dia da sua vitória (se ela se confirmar). No dia seguinte, já ficou obvio, que ele não fará um governo de esquerda e nem mesmo progressista. Não vai assumir os compromissos de Sanders e dos Democratas Socialistas que tanto lutaram para o eleger.

A esquerda nutre a ilusão de que é mais fácil lutar dentro das regras do jogo liberal democrática do que contra as forças que trouxeram Trump ao poder. Mas será mesmo? Se fosse fácil derrotar o neoliberalismo ela já teria conseguido. Teve oportunidades em todos os continentes e não foi o neoliberalismo o derrotado. O Brasil é um ótimo exemplo disso. Talvez a esquerda esteja apenas mais confortável no neoliberalismo.

Nele, a esquerda, pode livremente adotar bandeiras novas, movimentos novos, fazer longos discursos e manifestações. Pode ainda publicar os seus livros, podcasts, canais no youtube, blogs (como esse) e manifestos. Pode ainda louvar e se acostumar com as derrotas e ver nela um princípio moral, quase cristão, “sou perseguido e injustiçado, por isso estou certo”…. Mas a esquerda, na sua zona confortável, nunca derrotará ninguém. Ainda assim, espero que a esquerda americana resolva sair de casa e votar em Biden.