Como a França fracassou?

A França se encontra no epicentro de uma crise política e econômica que já ultrapassa suas fronteiras. O país parece ter entrado em um ciclo vicioso de crises econômicas e políticas, com potencial de colocar em risco a França que conhecemos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ou seja, a França do Estado de bem-estar social.

Os números da economia francesa são dignos de um país que, se não fosse essencial para o equilíbrio europeu e uma potência nuclear, já estaria sob intervenção do FMI e das instituições da União Europeia.

A dívida pública supera €3,3 trilhões, equivalente a quase 114% do PIB, enquanto o déficit projetado se mantém em torno de 5,8%, muito acima dos parâmetros de Maastricht.

No mercado financeiro, os títulos de dez anos atingem rendimento de 3,53% e o diferencial em relação à Alemanha chega a 80 pontos base, sinal claro de perda de confiança.

O governo minoritário do Primeiro Ministro François Bayrou apresentou um plano de de austeridade de €44 bilhões enfrenta ampla rejeição social e política, mas enfrenta rejeições da direita fascista populistas e da esquerda institucionalizada no bem-estar social.

Com isso, o governo deve encarar um voto de confiança decisivo em setembro e seu plano. Se o governo cair, o país pode mergulhar em paralisia legislativa. Nesse caso, para fechar as contas, talvez tenha que recorrer a apoio internacional.

O próprio ministro das Finanças já admitiu que, em caso de colapso político, a França poderia solicitar ajuda ao Fundo Monetário Internacional. O FMI defende cortes equivalentes a 1,1% do PIB em 2026 e ajustes subsequentes de quase 1% ao ano.

Já o Banco Central Europeu dispõe de mecanismos emergenciais para conter crises de dívida, mas a atuação exigiria compromissos firmes que parecem improváveis em meio à fragmentação política atual.

Por isso, a instabilidade francesa deixou de ser um problema doméstico para se transformar em ameaça à estabilidade de todo o euro.

Uma eventual crise do euro colocaria o mundo em uma situação curiosa: as duas principais moedas ocidentais, euro e dolar, estariam ao mesmo tempo enfrentando crise de desconfiança.

A crise para além da economia.


A crise finqnceira francesa e a expansão dos extremismos não podem ser explicados apenas pelos últimos resultados economicos. Ela traduz um longo desgaste social dentro da crise donestado de bem-estar social e da imigração em massa m.

Desde os anos 1980, a França recebeu fluxos expressivos de imigrantes do Magrebe, da África subsaariana e do Oriente Médio. Esse processo diversificou culturalmente o país, mas também expôs falhas de inclusão.

Bairros periféricos marcados por desigualdade se tornaram símbolos de exclusão e alimentaram ressentimento. A crise dos refugiados em 2015 e atentados terroristas posteriores intensificaram a sensação de insegurança.

Esse ambiente abriu espaço para a ascensão da extrema-direita. O Rassemblement National, de Marine Le Pen, passou a associar imigração a desemprego, perda de identidade e crise econômica.

O discurso produziu efeitos em uma população já cansada de estagnação e de reformas impopulares.

Nas eleições legislativas de 2024 o RN conquistou 33,2% dos votos e 142 cadeiras, superando partidos tradicionais. Pesquisas de 2025 mostram o partido novamente na liderança, com entre 31% e 35% das intenções de voto, consolidando-se como a maior força política do país.

A esquerda populista também cresceu, mas a polarização beneficiou sobretudo os nacionalistas.

Ao mesmo tempo, movimentos como os coletes amarelos mostraram o abismo entre governo e sociedade. Embora não tivessem a imigração como pauta principal, as manifestações revelaram ressentimento profundo contra impostos altos e políticas que pareciam privilegiar uma acomodada elite burocrarica.

A pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia agravaram esse quadro ao aumentar custos, pressionar serviços públicos e corroer salários, elementos que fortaleceram ainda mais os discursos radicais.

A França precisa de mudanças, mas qualquer movimento ameaça sua estabilidade política e é dificil qualquer governabilidade, quando os dois lados do populismo, a extrema direita e a extrema esquerda, acreditam que a instabilidade pode levá-las ao poder.

Cortar gastos pode derrubar o governo e recusar reformas pode… Derrubar o governo.  No meio desseĺ cresce a perspectiva de que forças populistas assumam o poder. A França, que já foi motor da integração europeia, ameaça hoje a própria sobrevivência do projeto europeu, ainda que Macron queira brincar de lider global, somente ele acredita na sua capacidade de estadista e convenhamos que depois de um tapa na cara em público e de ficar sentadinho junto com lideres europeus na porta do gabinete de Trunp, não ajudou muito com a sua imagem.

Ainda assim, por mais fraco que seja o atual governo, o fracasso francês não é feuto de um erro isolado, mas de décadas de tensões acumuladas entre ambições sociais, disciplina fiscal europeia, pressões migratórias e transformações globais.

A ascensão da extrema-direita e do populismo refletem uma longa decadência. O país que simbolizou a força do continente agora representa o maior risco para sua estabilidade e segurança.

Referências

Reuters. French finance minister sees risk of IMF intervention if government falls. 26 ago. 2025. Disponível em: reuters.com
Financial Times. French assets hit by prospect of government collapse. 2025. Disponível em: ft.com
Wall Street Journal. With another government on the brink of collapse, is France the new Italy?. 2025. Disponível em: wsj.com
Reuters. Could ECB help France if borrowing costs surge further?. 28 nov. 2024. Disponível em: reuters.com
Reuters. IMF urges sustained French budget squeeze to rein in deficit. 22 mai. 2025. Disponível em: reuters.com
Le Monde. Is France’s debt situation as worrying as PM François Bayrou claims?. 29 ago. 2025. Disponível em: lemonde.fr
Natixis. On the brink: exploring the implications of the upcoming confidence vote on 8th September. 2025. Disponível em: home.cib.natixis.com
Chat Europe. France’s far right vote in figures. 2025. Disponível em: chateurope.eu

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