Os Romanov 1613 – 1918 de Simon Sebag Montefiore é uma obra monumental. Monumental tanto pelo número de páginas, quanto pela profunda pesquisa em documentos históricos necessárias para a sua escrita. O autor privilegiou uma análise da vida privada dos tzares, entrando a fundo em suas intimidades, entendendo suas personalidades e as relações que estabeleciam com aqueles que estavam a sua volta. Uma opção importante, pois em se tratando de uma autocracia, entender cada aspecto da vida dos tzares é relevante. Contudo, essa opção carrega problemas que merecem ser considerados.

O jornalista e historiador Simon Sebag Montefiore é uma referência em História da Rússia, com uma produção prolífica abordando diferentes períodos. Entre as suas obras mais importantes, cabe mencionar aquelas dedicadas à biografia de Stalin: Stalin. A Corte do Czar Vermelho (Companhia das Letras, 2006) e O Jovem Stalin (Companhia das Letras, 2008). Sobre o período dos Romanov, ele escreveu duas obras: Catarina a Grande & Potemkin: Uma História de Amor na Corte Romanov (Companhia das Letras, 2018) e Os Ramanov 1613 – 1918 (Companhia das Letras, 2016).

Nas bem escritas e fluidas 944 páginas de Os Romanov, Montefiore apresenta uma profunda pesquisa documental em que busca a vida privada e a intimidade daqueles que ocuparam a posição de tzar e tzarina (com “t”), bem como daqueles que estiveram em suas cortes ao longo dos 304 anos da dinastia Romanov.

 Dessa intimidade, o autor resgata os excessos, a vida sexual, a religiosidade, ambições, medos e a busca pelo poder. Através principalmente da análise de correspondências, Montefiore consegue uma aproximação com o cotidiano dos Romanov.  A sua forma de escrever e transcrever nos leva a pensar como aquelas cartas foram lidas. Para fazer compreender as mudanças e os lugares, o autor nos oferece descrições detalhadas das cidades, do campo, dos palácios e dos aspectos físicos dos indivíduos. Essas descrições são complementadas pela rica pesquisa de imagem que compõem o livro.

A proposta do autor não foi realizar a biografia de cada um dos personagens que aborda. Assim, dedica partes desiguais para destacar os processos que ele entende ser mais importante da História da Rússia, mais páginas são oferecidas a Pedro, O Grande, Catarina, Alexandre II e ao Nicolau II. O livro também é desproporcional devido as fontes, quanto mais nos aproximamos da modernidade, mais as fontes escritas são abundantes e seu incurso na vida privadas se torna mais precisas.

O leitor que não esteja familiarizado com a História da Rússia, e das dinastias em geral, pode se surpreender com a quantidade de intrigas, com a vida sexual, com os assassinatos como forma de resolver conflitos. E aqui é preciso lembrar a natureza do poder autocrata. Em um regime político no qual todas as decisões giram entorno daquele que está no trono, ficar próximo e íntimo deste significa poder, estabilidade, ascensão social e fortuna. E que forma pode-se ser mais íntimo do que a sexual? Já o distanciamento resultava no contrário e poderia levar à desgraça deportação e até a morte.

 A intimidade dos tzares, e tzarinas, é O poder! E é preciso para aqueles que o queiram disputá-lo, seja conquistando a intimidade e destruindo aquele que estejam usufruindo. Portanto, o que aos olhos contemporâneos pode aparecer apenas como um conjunto de intrigas e fofocas era justamente a disputa pelo poder. Nesse sentido, percorrer o caminho da vida privada dos autocratas é percorrer os caminhos do poder! E essa é a maior contribuição que a obra nos oferece.

Se essa opção do autor nos leva a entender os caminhos do poder ela pode causar alguns problemas. O primeiro deles é que o autor dá muita fé aos documentos, ou seja, ele não procede uma crítica do que significa usar as cartas, por exemplo, como documentos. O leitor pode ficar com a impressão de que as cartas, por serem íntimas, representam necessariamente verdades, mas é preciso considerar que elas mesmas representam narrativas de poder.

Outro ponto importante é a intricada relação entre as mudanças sociais e a vida íntima dos sujeitos históricos que o autor aborda. Por exemplo, há mais páginas debatendo a influência de Rasputin do que sobre as transformações econômicas e sociais que levaram a Revolução Russa. Inclusive mais destaque sobre a controvérsia do tamanho do pênis do Rasputin do que sobre Lenin ou Trotsky. O resultado é a ideia de que a queda do Império foi o resultado do conjunto de relações privadas e não fruto da inadequação do tzarismo a um mundo que se transformava. Importante observar que essa mesma questão aparece na série da Netflix para a qual Montefiore foi um dos historiadores entrevistados.

Outro exemplo, é a forma como o autor aborda a trajetória de Lenin. Montefiore iguala as ideias revolucionárias de Lenin ao “terrorismo” dos populistas o que é de uma enorme controvérsia na historiografia. Essa controvérsia não é avisada ao leitor ou mesmo desenvolvida.

Por fim, Montefiore tem uma tese que perpassa toda a obra, e que está pressente em seus outros livros também. Para o autor, o poder na Rússia, na sua forma autocrática, é imutável! Essa percepção de uma forma de poder e Estado essencial o permite fazer analogias e comparações com períodos históricos distintos, ao ponto de comparar tzares com Stalin e com Putin. O problema dessas comparações é perder justamente a historicidade dos regimes políticos na Rússia que tiveram (e tem) grande impacto global.