Compreender o comportamento da sociedade civil na Rússia, diante da invasão da Ucrânia, é uma tarefa difícil. O controle estatal russo da comunicação e a repressão do Kremlin a qualquer manifestação dificulta o acesso a informação. Ainda assim, mesmo com o controle da mídia e o bloqueio das redes sociais, as imagens de manifestações, as declarações de intelectuais, atletas e personalidades, mostram como a sociedade civil não é homogênea com relação a invasão da Ucrânia e existe oposição e resistência ao governo de Putin.

Resistir ao governo Putin é um ato de coragem, pois as prisões de opositores e manifestantes são recorrentes na Rússia. Ao que se sabe mais de dois mil manifestantes foram presos, nos últimos dias. No momento em que eu escrevo esse texto, é possível ver manifestações na contra o presidente, até mesmo em Moscou. Cenas de prisões estão vazando pela internet. Tem manifestação na praça Pushkin, nesse momento.

A guerra não é popular entre os russos, principalmente entre os jovens. Eles estão mais preocupados com a crise econômica, desemprego, Covid, ausência de liberdade e democracia. Observe que na TV russa, o presidente Putin, só falou sobre guerra na última hora, nos últimos dias, e teve que recorrer a um passado quase mítico para justificá-la. Ele sabia que no presente não encontraria apelos, nem mesmo com as teorias da conspiração que circulam por aqui. Na realidade, foi proibida a palavra guerra e passaram a utilizar eufemismos para se referir a ocupação da Ucrânia.

Essa observação, e apoio aos opositores russo, é importante, pois precisamos urgente acabar com esses estereótipos construídos na Segunda Guerra Mundial e na propaganda antissoviética da Guerra Fria de que russos gostam de guerra, são guerreiros natos e destruidores.

O que é mais estranho é ver essa imagem da propaganda americana da guerra fria sobre a Rússia, sendo cultuada como se fosse a realidade de um povo. Como se os russos fossem guerreiros bárbaros vindos do oriente para afrontar o ocidente. Essa imagem, reforça um sentimento de russofobia que confunde governo, com povo, com cultura.

Existe um processo de essencialização da identidade, como se a política adotada por Putin fosse uma expressão da cultura russa, e não o resultado de interesses governamentais e geopolíticos. Basta um conhecimento mínimo das expressões artísticas e da cultura da Rússia para perceber o quanto essa está distante da imagem da Rússia que se construiu nos países ocidentais, principalmente no que diz respeito a guerra.

Tirando os jogadores de War, CS, Airsoft, etc. ninguém gosta de guerra. Esse bando de playboy com caras armas de mentira para se fingirem de soldado nunca vão lutar em um exército de fato. Quando muito, o airsoft serve apenas para lidarem com seus problemas de afirmação da masculinidade.

O que as guerras produziram na Rússia foram traumas, dor, memórias que até hoje são difíceis de lidar. A dor da tragédia vivida pela Rússia nas guerras foi tão intensa que a se romantizou o sofrimento para conseguir lidar com ele e não para cultuar a morte e a destruição. O culto a guerra, obedece aos interesses de um governo autoritário, com vocação imperialista.

Nesse momento, os boicotes a participação da Rússia em eventos culturais internacionais são legítimos, para demonstrar o repúdio a agressão violenta do governo. No entanto, é preciso tomar cuidado para que essas ações não se generalizem e se perpetuem, provocando um “cancelamento” do que a Rússia tem de melhor e ainda correr o risco silenciar justamente as manifestações culturais que se opõem ao governo Putin e a sua visão reacionária de mundo.

Se você está do lado dos senhores da guerra, você está do lado dos interesses econômicos e geopolíticos, mas está distante do povo russo e distante do que é a Rússia. As vozes de oposição ao Putin precisam ser escutadas. Vamos combater estereótipos! Pois eles são apenas propaganda. O que os russos e ucranianos desejam é paz.

PAZ!