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  • Sobre Sanders e a eleição americana 

    Sobre Sanders e a eleição americana 

    Caros amigos,

    Tive a oportunidade de publicar uma síntese das minhas reflexões sobre Bernie Sanders e a eleição americana no blog do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais IPPRI/UNESP

    O artigo sobre Bernie Sanders e a eleição americana tem o título: Um Socialista à Americana? Conheça Sanders, o democrata. Segue o link: http://neai-unesp.org/um-socialista-a-americana-conheca-o-democrata-bernie-sanders-por-erick-zen

  • Bernie Sanders e a Eleição Americana

    • Candidatura de Bernie Sanders
    • Ideias democratas socialistas
    • Socialismo nos Estados Unidos

    O Fenômeno Democrata Bernie Sanders

    Na imprensa brasileira, e mesmo nas publicações especializadas, fica evidente a dificuldade dos analistas em entenderem o fenômeno Democrata Bernie Sanders. Para muitos, um candidato à presidência dos Estados Unidos que se apresente como Democrata Socialista, é exótico! Para outros, ele não seria um “verdadeiro socialista” e, finalmente, a direita, já utilizou até mesmo a palavra populista para defini-lo.

    Neste pequeno texto vou esboçar (sim esboçar!) a resposta para duas perguntas: 1) Por que os analistas brasileiros têm dificuldade em lidar com os fenômenos da política interna dos Estados Unidos ? 2) O que o fenômeno Sanders nos diz sobre a sociedade americana? Esse texto completa o primeiro publicado AQUI

    O Brasil é o seu Eurocentrismo

    Uma das coisas mais impressionantes sobre as Ciências Humanas no Brasil é o seu eurocentrismo! Eurocentrismo tanto na elevada carga horária dos cursos de graduação como na visão europeia de mundo que coloniza a nossa percepção. Apenas aponte um único curso de História de Ciências Políticas, Relações Internacionais e Jornalismo que se dedique a História e a sociedade americana e eu mudo esse parágrafo. No geral, o que vi (e mais de uma vez) foi a História da América Latina e História dos EUA perderem espaço nas grades dos cursos substituídas, na maior parte das vezes, por um blá-blá-blá pseudo teórico ou por regionalismo provincianismo pseudo culturais.

    Com isso, o nosso conhecimento, e a produção do conhecimento, sobre Estados Unidos é muito limitado. No que se refere as questões temáticas, em geral, os estudos se limitam a política externa americana e sua influência no Brasil e muito pouco sobre a sociedade americana (a excessão são as comparações entre escravismo no Brasil e nos EUA).

    Nossos analistas.

    Como resultado, não dispomos de analistas que tenham instrumentos intelectuais adequados para interpretar a sociedade e a política americana e, quando a fazem, utilizam instrumentos e paradigmas europeus para a análise. Isso é realmente incrível! Afinal, qual foi o país mais influente no Brasil em termos culturais e políticos no último século? E justamente este é o que você, caro colega de humanas, não estuda!

    Diante deste quadro, o que resta são muitos chutes e desentendimentos. O fenômeno Sanders poderia servir como estudo de caso, nesse sentido. O primeiro erro é tentar analisar o que Sanders propõe como “socialismo” através da história da Europa. Assim, tentamos entender Sanders pela lente do Partido Social Democrata Alemão ou pelo Partido Socialista Francês, ambos utilizados como paradigma de social democracia. Ocorre que, em grande medida, o “socialismo”, tem um desenvolvimento histórico particular nos Estados Unidos.

    O Desenvolvimento do Socialismo nos EUA

    Se é verdade que o Partido Socialista e o Comunista Americano seguiram por longo tempo os caminhos da Segunda e da Terceira Internacional, no que se refere ao campo das ideias, muitas perspectivas socialistas e anarquistas nos EUA se combinaram com um liberalismo radical, em particular na virada do século XIX para o XX. Portanto, se não for considerado o desenvolvimento particular do socialismo nos EUA, a tendência que se tem é de considerar Sanders como um exótico, ou como um falso socialista. Na verdade, a dificuldade aqui são dos analistas e não do candidato.

    Um dos lugares mais profícuos do desenvolvimento socialista e anarquista nos EUA foi Nova York, em especial em dois bairros no Harlem e no Brooklyn. Bairros estes que são tradicionalmente de operários negros, mas também de imigrantes do leste Europeu, no início do século, e de imigrantes latinos, a partir da segunda metade do século XX.

    No Brooklyn, como filho de judeus imigrados da Polônia, que Sanders nasceu e foi criado, em uma família com ideias de esquerda. Em muito, esses imigrantes operários, como ele, se desenvolveram economicamente e chegaram ao sonho da classe média americana.

    O socialismo de Sanders

    Portanto, o socialismo que Sanders viveu e viu se desenvolver como princípio e ideal é histórico e não oportunista. O socialismo americano, no decorrer do século XX (e aqui precisaria de páginas e páginas para explicar como), toma bandeiras como da igualdade e equidade o que muito significou salário justo, direitos trabalhistas, direitos civis (sobretudo para inclusão do negro, indígena e das mulheres).

    Ao mesmo tempo, também apresentou uma crítica aguda ao domínio do Estado por uma plutocracia financeira, ao segredo de Estado, as guerras não justificadas, a crítica ao crescente poder do complexo militar e industrial sobre democracia. Não foi atoa que a primeira aparição de Sanders como ativista político se deu na luta por direitos civis e contra a Guerra do Vietnam.

    A essas bandeiras, a esquerda socialista americana acrescentou uma defesa dos direitos humanos e aos direitos constitucionais e principalmente, (principalmente!) nos direitos dos trabalhadores! E a defesa do poder local como fundamental para a democracia.

    Bernie Sanders Carregou Essas Bandeiras

    Desde que se iniciou na atividade política, Sanders carregou todas essas bandeiras, mesmo quando isso significou enormes contradições. Por exemplo, sua defesa radical da constituição americana, o que inclui a Segunda Emenda, fez com que ele nunca defendesse a restrição ao uso das armas de fogo! Quando foi eleito como Governador do Estado de Vermont recebeu doações da NRA (Associação Nacional do Rifle), principal lobista dos fabricantes de arma.

    Por outro lado, sua coerência fez com que ele fosse um dos poucos Senadores a votar contra a intervenção militar no Iraque e ser um forte crítico das guerras recentes que os EUA se envolveu. Incluindo ai a guerra ao terror e ao excessivo poder das agências de informação para espiar os cidadãos americanos.

    Isso não significa que não tenha posições duras com relação a política externa, pelo contrário. Sanders é um grande defensor, por exemplo, do Estado de Israel. Em um comício de sua campanha um militante pró-palestina que o criticava foi retirado a força do evento.

    Bernie Sanders e suas ideias

    Se as ideias de Sanders não são novas, o que o levou a crescer politicamente a ponto dos democratas preferirem a ele e não a Clinton? A reposta está na defesa dos direitos trabalhistas! Esse é o ponto central!

    Desde a crise de 2008 os EUA passaram por uma enorme onda de desemprego que vai até 2010 (2011). Atualmente, a maioria dos americanos já recuperou o emprego (o desemprego está por volta de 5%). No entanto, nesse dado tem uma “pegadinha”.

    Se o emprego aumentou o salário diminuiu! Ou seja, os americanos que já estiveram próximos a classe média tem dificuldade em pagar as suas contas. Quem recebe o salário mínimo ($7 dólares por hora) não consegue pagar por aluguel ou hipoteca, ter um plano de saúde. Vale lembrar que nos EUA não há saúde pública universal e é preciso comprar um plano privado ou agora Estatal). Pagar educação (College) para os filhos também é proibitivo.

    É para essa população e para a classe média, que perdeu o seu poder de consumo, que as propostas de Sanders soam como música. Propostas tais como: elevação do pagamento mínimo, saúde universal, acesso a educação entre outras.

    O Papel dos jovens

    Ainda é preciso acrescentar o papel dos jovens que aderiram a campanha. Atualmente, as possibilidades de um recém formado em uma faculdade entrar ou de se manter na classe média, na atual situação americana, é bastante limitada. Com as enormes dívidas que os jovens acumulam para estudar, somadas as dificuldade para se conseguir um emprego, com benefícios ou contrato longo, a ascensão social é limitada.

    No mesmo sentido, as críticas ao poder dos financistas e ao complexo militar na democracia americana, e a proposta regulamentar essa participação, revelam que a maior parte dos americanos entendem que a sua democracia corre risco, quando o poder financeiro é maior do que participação popular.

    O candidato Bernie Sanders, portanto, não é um exótico, oportunista, populista. Pelo contrário, ele faz parte das lutas políticas e das crises recentes pelas quais os Estados Unidos passaram nas últimas décadas. A luta é histórica e ganhou força diante de uma conjuntura em parte estrutural e em parte específicas. Se tudo isso será suficiente para conseguir a vitória sobre Hillary Clinton e sobre o candidato Republicano ainda é cedo para saber. O que certo é que tentar entender Sanders e suas ideias a partir de uma referência europeia ou latino-americano não vai facilitar o nosso entendimento do processo eleitoral americano.

  • Bulgária: O Lado Esquerdo.

    Bulgária: O Lado Esquerdo.

    • Resenha do livro O Lado Esquerdo da História
    • História da Bulgária
    • Antropologia e gênero

    O Lado Esquerdo da História de Kristen Ghodsee foi sem dúvida um dos melhores livros que conseguir ler nos últimos anos, por duas razões: pelo tema abordado e pela forma como foi escrito. Kristen Ghodsee é uma conhecida antropóloga americana cujos estudos abordam temas relacionados a gênero e a Europa Oriental, após o colapso do comunismo. Em particular se concentra na região dos Balcãs, principalmente na Bulgária.

    O livro tem um tom particular: ao contrário do que se espera de uma obra escrita por uma acadêmica, a autora mescla suas pesquisas a elementos do seu cotidiano, suas impressões, e reflexões. Assim, é como se nós estivéssemos lendo o seu caderno de campo e não somente sua análise final. Essa característica, ao invés de deixar a análise confusa, acrescentou uma dramaticidade pessoal que deu maior intensidade ao livro.

    A obra começa com uma investigação sobre o assassinato de Frank Thompson que lutou como partisan na Bulgária até ser capturado e fuzilado. O capitão Thompson se tornou famoso por sua luta dedicada e foi homenageado até com nome de rua, durante o governo comunista. Ocorre que ele foi também o irmão mais velho, e para alguns o mais talentoso, de Edward P. Thompson (1924 – 1993) um dos mais importantes historiadores marxistas do século XX.

    Ao buscar as fontes de suas pesquisas sobre Frank Thompson, a autora entrou em contato com uma série de personagens que se entrelaçam com as tensões e conflitos de uma Bulgária presa entre as memórias do regime comunista e a crise que se abateu sobre o país na primeira década do século XXI. A Bulgária foi aceita na União Europeia, mas é considerada o seu membro mais pobre.

    As Mulheres na Bulgária Comunista.

    Se na primeira parte do livro, Kristen Ghodsee recupera a História daqueles que lutaram contra o fascismo, na segunda, ela se dedica à questão das mulheres na Bulgária, encontrando no seu percurso interessantes e intrigantes personagens.

    Entre esses personagens duas mulheres que trabalhavam para o regime se destacam. A primeira foi Elena Lagadinova, uma das heroínas da luta contra o nazi-fascismo, uma das mais jovens mulheres a fazer parte da resistência. Recebeu o codinome de Amazona por ter se reunido aos partisans e ao seu irmão Assen, um dos principais líderes, em um cavalo.

    Após a Guerra, e de se formar e doutorar, Elena integrou o Comitê das Mulheres. Durante o período comunista, a Bulgária conseguiu estabelecer uma relevante política de Estado com relação às mulheres o que incluía: licença maternidade de dois anos, jardins de infância, ingresso na universidade entre outras questões.

    Todo esse trabalho deu à mulher búlgara uma das melhores condições entre os países do bloco comunista e, certamente, muito melhor do que da maior parte dos países ocidentais.

    O Fim do Comunismo na Bulgária

    Com o fim do comunismo, Elena passou a ser apenas mais uma entre tantas aposentadas com as dificuldades financeiras de todos os búlgaros que viviam (vivem) de pensão, em plena crise que se abateu na economia europeia em 2008.

    Apenas saudosismo ou era tudo verdade?

    Entre os diálogos mais intrigantes registrados pela autora está o do seu último encontro com Anelia (pseudônimo). Anelia foi uma importante participante das publicações femininas na Bulgária e representante deste país em Berlim em diversos congressos.

    Ao longo dos anos ela sempre escreveu artigos críticos ao modo de vida ocidental, ao capitalismo, demonstrando como este explorava os indivíduos e os deixava em situação de miséria. Em todos os anos em que escreveu ela demonstrava desconfiança sobre o conteúdo dos seus próprios textos. Acreditava realizar apenas trabalho de propaganda ditada pela linha do Partido Comunista, da qual ela nunca foi um membro.

    Ao chegar aos setenta anos de idade, com uma pensão que não a sustentava, correndo risco de perder seu único apartamento e desempregada, ela olha para o passado e entende que tudo o que havia escrito de negativo sobre o capitalismo era verdade: “era tudo verdade”.

    Dilemas da Escrita da Bulgária

    Como muito bem aponta Ghodsee, escrever o comunismo nos coloca diante de muitas tensões. Os comunistas derrotaram o nazi-fascismo, mas instalaram um regime repressor e censor que levou milhares de pessoas às prisões e à morte.

    Assim como Boris Lukanov, assassino de Frank Thompson, Petar Gabrovski que pessoalmente assinou a deportação de 20.000 judeus está na lista de vítimas do comunismo.

    Ao mesmo tempo, no cotidiano, abriu horizontes para a ciência, para uma vida melhor das mulheres, principalmente na Bulgária, aprimorou a educação, garantiu emprego, moradia, assistência médica e principalmente acabou com a miséria. Em suma, deu estabilidade ao cotidiano dos indivíduos.

    Como articular essas duas pontas? Como expressar essas contradições? Este é o desafio de quem quiser escrever essa história de uma forma honesta. Honestidade que anda em falta nos estudos sobre o comunismo.

    Ávidos por ingressar no Ocidente, os países da Europa Oriental, com apoio financeiro do Ocidente, se apressaram em destruir qualquer referência positiva ao comunismo. Negam, manipulam, demonizam constantemente até mesmo a palavra socialismo.

    Mesmo os intelectuais, que tanto se beneficiaram do sistema universitário comunista, hoje trabalham com recursos ocidentais para falsificar a História. Colocam, assim, todos os reclames sociais gerados pela perda de benefícios e direitos que a adesão ao liberalismo radical representou, bem como todas as memórias que não combinam com a memória oficial, sob o rótulo de revisionismo e saudosismo.

    Ainda no que se refere à memória, o que se tem realizado é um discurso de vitimização, ou seja, todos viraram vítimas do comunismo, mesmo aqueles que eram conhecidos nazistas e fascistas. Como muito bem ilustra a autora, o assassino de Frank Thompson está em um destes sites de “memória” como vítima do comunismo.

    Referências

    Outros livros de Kristen Ghodsee

    Kristen Ghodsee. The Left Side of History. World War II and The Unfulfilled Promise of Communism in Eastern Europe. Duke University Press, 2015

    _________________ Lost in Transition: Ethnographies of Everyday Life After Communism, Durham: Duke University Press, 2011.

    ___________ Muslim Lives in Eastern Europe: Gender, Ethnicity and the Transformation of Islam is Postsocialist Bulgaria. Princeton: University Press, 2009.

    ___________ The Red Riviera: Gender, Tourism and Postsocialism on the Black Sea. Durham: Duke University Press, 2005.