Tag: política

  • Ucrânia: os erros de Putin

    Ucrânia: os erros de Putin

    Quando a agressão à Ucrânia teve início, as expectativa era que essa seria uma guerra rápida e a vitória da Rússia inevitável. Hoje, vemos um Putin derrotado, ao menos nos seus propósitos mais megalomaníacos de ocupação da Ucrânia.

    Mas quais foram os erros cometidos por Putin e seus seguidores?

    Preparei uma  lista deles:

    1 – Visão de mundo.  A invasão da Ucrânia é a consequência de uma visão de mundo sustentada pelo presidente Putin  e  seus seguidores. Nessa visão, a Rússia teria sido propositadamente fragilizada e ignorada, com o fim da União Soviética, o que daria legitimidade à ocupação da Ucrânia, como seu “espaço vital”, para usar as palavras dos propagandistas.

    2 –  Considera a  identidade nacional da Ucrânia uma  artificialidade. Nas suas peças de propaganda, buscava sempre associar o sentimento nacional ucraniano ao extremismo nazista, o que o levou a  duvidar da resistência ucraniana.

    3 – A ilusão de que os ucranianos que se identificam etnicamente como russos (que falam russo) aderiram às políticas do Kremlin. Ilusão compartilhada pelos russófilos de plantão.

    4 – Declínio do  Ocidente. A difusão da ideia de que o mundo vai ser governado por uma  aliança asiática. Assim, a União Europeia é apresentada como uma instituição frágil, incapaz de manter uma política própria e independente. A OTAN, como uma aliança que, apesar da sua expansão anti-russa, não conseguiria garantir mais a segurança dos seus membros e da Ucrânia. Aqui temos três avaliações erradas. 

    5 – Acreditar que por fornecer matéria prima, sobretudo o gás, para a Europa, essa seria incapaz de reagir. A reação foi brutal. As sanções, ao contrário das de 2014, provocaram danos na economia russa, que de aliada passou a ser dependente da China. Já a Europa, passo a passo ruma a outros fornecedores de gás petróleo, deixando a Rússia isolada. 

    6 –  A supremacia do Exército Russo. A propaganda russa, sobretudo aquela difundida pela RT e Sputnik, sempre mostraram as forças armadas russas, como modernizadas e eficientes. Imagem essa valorizada pela atuação na Síria. Como vemos, as ações militares foram ineficientes ao ponto de exigirem mudanças nos objetivos da guerra. Analistas apontam que a corrupção destruiu parte das forças russas, completamente despreparadas.

    7 – A irmandade com os ucranianos. Dentre as bobagens propagadas, a de que a Rússia evitaria a força total para não massacrar um povo com laços  históricos em comum foi a maior delas. Diante das derrotas russas, não foi possível esconder os massacres cometidos pelas forças russas. Essa irmandade não existe! Não existe ocupação imperialista civilizada. 

    8 – O desprezo do papel da Europa central e do Norte, como agentes na geopolítica. Polônia, países bálticos e escandinavos reagiram de forma dura e solidária a Ucrânia e passaram a exercer pressão tanto na União Europeia, quanto na Otan (com a já anunciada adesão da Finlândia e da Suécia), para ações mais decisivas, empregaram recursos vultosos, se abriram para abrigar a onda de refugiados, além de sistematicamente denunciarem a Rússia e os crimes cometidos. Assim, se tornaram protagonistas na geopolítica, deixando para trás as políticas francesas e alemãs.

    9 – A rebeldia da Belarus. Depois dos protestos dos anos anteriores, a Belarus pareceu totalmente dominada pela Rússia, mas uma coisa é domesticar o seu ditador, a outra a  sociedade civil. O que vimos na Belarus foram atos de sabotagem e resistência que dificultaram as operações russas a partir do país, ainda, satélite.

    10 – Desprezar Zelensky, enquanto liderança. Ao pressupor na fragilidade de Zelensky, a Rússia desprezou a sua capacidade de articular a resistência. Tomado como palhaço, se esqueceram de que, como  homem de mídia, ele conseguiu recriar a sua imagem e se colocar à frente do processo, fragilizando o discurso russo com relação à Ucrânia. Se Zelensky está longe de ser o herói propagado pela mídia ocidental é necessário reconhecer que  ele ganhou a mídia, gerou mobilização, se  apresentou como resistência. Em outras palavras, ao contrário da esperada fuga, ele se apresentou como resistência. 

    Diante de tantos erros, restou a Rússia a se tornar auxiliar em regiões já  em disputa e usar da chantagem nuclear para não reconhecer a vexaminosa derrota.

  • Putin e a Esquerda: Tirando o Urso da Sala

    Putin e a Esquerda: Tirando o Urso da Sala

    Nos últimos dias, com a invasão da Ucrânia ordenada por Putin, uma série de debates tem ocorrido pela mídia e pelas redes sociais. Nelas, influenciadores da esquerda tem diretamente defendido a Putin, ou usando um frágil “doisladismos”, para criticar a Otan e Putin, ao mesmo tempo. Em meio a guerra, Putin se tornou um urso na sala. Como isso pode ter acontecido?

    No final da década de 1990 e início de 2000, o desespero com o avanço do neoliberalismo chegava ao desespero. O Brasil fez a maior dívida da história do capitalismo (até então) para não quebrar, a Argentina quebrou! 

    Tínhamos medo de mais um governo neoliberal, da ALCA, quem não gritou “Alcaralho” com o FMI, não era gente! A ideia de um mercado único é devastador para as economias da A.L era uma ameaça e sentíamos o seu efeito devastador. 

    Com isso, a esquerda se aliou a qualquer coisa que se opusesse ao neoliberalismo. Foi assim que a esquerda se aproximou do militar Chávez, dos Kirchners, da China e de Putin e esse PT (meia bomba) da Carta ao povo Brasileiro. 

    Era a ideia de um movimento contra hegemônico, absolutamente necessário. Fechamos os olhos para os defeitos e problemas como uma aliança  contra uma desgraça que era (é) cotidiana. E não estava errado! Aqui não é exercício de meia culpa. Era o que tinha que ser feito e pronto! 

    O problema é que a história não fica parada e logo os defeitos, para os quais fechamos os olhos, porque já estavam lá, nos jogaram no pesadelo que vivemos. Uma China dominante, uma ditadura do Maduro, o personalismo e fracionamos do Peronismo, um Putin autoritário, homofóbico, expansionista. Agora temos que fazer a pergunta preferida da direta: E o PT hein?

    Bom, depois de três mandatos e poucos, com todas as políticas sociais e um momento de crescimento econômico, o PT não foi capaz de superar a lógica neoliberal. Ele foi uma espécie de tampa de bueiro. Quando tiraram a tampa, a sujeira e as baratas saíram para festa. Enfim, o PT continua meia bomba, agora propõem voltar ao poder com Alckmin e tudo…

    Daí temos duas possibilidades: brigar e fechar os olhos com o que está na nossa cara ou entender o processo e pensar outros caminhos. Esses caminhos podem demorar para aparecer, por agora seguimos tentando evitar o pior. Nesta busca por tentar evitar o pior, deveríamos ter aprendido as lições do começo do século e não pretender defender o indefensável.

  • Ucrânia: respondendo as perguntas que já me fizeram.

    Ucrânia: respondendo as perguntas que já me fizeram.

    Ucrânia, respondendo as pergunta que mais tenho recebido.

    Os Ucranianos não precisam ser perfeitos para terem direito a um Estado nacional independente.

    • Existem grupos fascistas na Ucrânia?

    Sim! E são perigosos para cacete! Eles chegaram a formar milícias armadas para lutar nas regiões ocupadas pela Rússia.

    • Eles representam a sociedade ucraniana?

    Não, inclusive nas últimas eleições a extrema direita não elegeu parlamentares. Partido de extrema direita não tem voto na Ucrânia, ao contrário de todos os países da Europa Ocidental.

    • O governo Ucraniano é fascista ou nazista?

    Não! E é curioso que o único governo no mundo (fora Israel) que tem Presidente e Primeiro Ministro judeus seja chamado de nazista.

    • Mas o governo da Ucrânia não deveria ter combatido os grupos extremistas?

    Sim, o problema é que como eles enfrentaram os separatistas russos (financiadora e apoiados pelo Kremlin) e a entrada do exército da Ucrânia poderia começar uma guerra com a Rússia. As milícias extremistas foram frente nos combate, o que significou sim produzir vítimas civis nas regiões ocupadas pela Rússia.

    • Isso deu certo?

    Como você está vendo, deu muito errado!

    • O governo da Ucrânia tomou medidas contra a população russa, praticou extermínio de russos?

    Não! Embora tenha reforçado o ensino e as escolas Ucranianas e colocado idioma ucraniano como centro das suas políticas, pois os governo anteriores, por serem fantoches da Rússia, deixavam a russificação do país comer solta. Lembrando. O presidente da Ucrânia é da comunidade russa e o ucraniano é o seu segundo idioma. Ele teve que melhorar o ucraniano para disputar eleições. Seu último apelo para o Putin foi em russo em rede nacional.

    • Por que Putin fala em defesa dos russos?

    Putin faz questão de confundir interesses do Kremlin com o da população russa. Quando Ucrânia, Letônia e Estônia, combatem a influência do Kremlin, Putin faz o discurso de que a população russa nesses países estão ameaçadas.

    • A guerra é para combater o fascismo?

    Não! A guerra se dá pelo expansionismo do imperialismo russo e por estratégia de disputa geopolítica.

    • Então, por que se fala tanto em Fascismo?

    Propaganda Russa, oportunismo e saudosismo soviético. Vale lembrar que taxar de nazista qualquer manifestação política e / ou cultural era parte da técnica de propaganda soviética, para justificar a eliminação.

    Gostaria de lembrar que o fascismo, o nazismo e o antissemitismo são forças políticas atuantes e perigosas em todo o continente europeu. Basta você olhar as eleições na França, por exemplo, que tem dois candidatos de extrema direita disputando (um perdeu apoio por nomeações estranhas no seu gabinete). Mas a Le Pen tá lá… E temos que torcer para o Mácron vencê-la.

    Portanto, a extrema direita é sim um problema europeu e muito perigoso, mas não é “A” grande questão para entender a invasão da Ucrânia, pela Rússia.

    • Devemos considerar o presidente da Ucrânia um herói?

    Não! Esse papo de herói na política nem deveria existir. Ele sim surpreendeu pelas posturas que tomou e soube muito bem lidar com a comunicação, o que é um fator importante. Ele teve a habilidade de criar uma momentânea unidade nacional, o que sim é um mérito. No entanto, é preciso tomar cuidado com diversas decisões que tomou, como, por exemplo, usar milícias e liberar criminosos. Ainda que seja guerra e sobrevivência, não é qualquer coisa que passa a ser aceitável.

    • Por que os reacionários no Brasil falam em “ucranizar” o Brasil?

    Porque os reacionários são burros. Eles pegaram os grupos fascistas na Ucrânia e sua simbologia e copiaram como se fosse a realidade do país e não de grupos políticos milicianos.

    • Por que o Sérgio Moro falou em tribunal como na Ucrânia?

    Sei lá! Eu tenho dificuldades e pouca paciência para entender as lógicas e não lógicas deste senhor e também pouca paciência com as suas exposições e entrevistas.

    Sobre o judiciário na Ucrânia, podemos dizer o seguinte de forma bem simplificada. Como os governos anteriores na Ucrânia eram ligados à oligarquia russa (incluindo o judiciário) e envolvidos nos processos de privatização e em esquemas de corrupção, o governo da Ucrânia teve que refazer as suas instituições (inclusive o judiciário) para poder diminuir o poder da oligarquia russa e poder assim punir aqueles que estavam controlando na base dá corrupção a economia e a sociedade da Ucrânia. Como você percebe não é possível tirar disso analogias com o Brasil, ao menos no meu entender.

    Por fim, mas não menos importante, o Brasil vive um momento político complicado, mas isso não significa que o universo gire em torno da nossa disputa eleitoral, portanto não tente encaixar a Ucrânia na lógica da política brasileira, ou a lógica da política brasileira na Ucrânia.

  • Pós-política: Direita e Esquerda

    Pós-política: Direita e Esquerda

    • Conceito de pós-política
    • impacto na política
    • pós-polítca e democracia

    Para compreendermos a nossa sociedade, os cientistas sociais formulam conceitos que possibilitam definir e entender características da nossa contemporaneidade. Atualmente, um conceito que começa a ser utilizado com mais frequência é o de pós-política. O que é pós-política? Como ela nos ajuda a entender o nosso momento político?

    Certamente, você já escutou pessoas afirmarem que não são: “nem de direita e nem de esquerda”. Que suas decisões e seus princípios são somente técnicos. Esse discurso, de valorização da técnica e de negação da política é o que podemos conceituar como pós-política.

    O que é a pós-política?

    A pós-política, ao valorizar a técnica, a boa gestão, a decisão administrativa, esconde no seu discurso a verdadeira opção política do indivíduo. Como se fosse possível para alguém se colocar acima das ideologias, ou acima da dela. Portanto, no discurso da pós-política, qualquer embate político e ideológico, é visto como negativo, como atraso ou desnecessário.  

    Por isso, políticos que se utilizam do discurso da pós-política tem por hábito acusar o outro de serem ideológicos. Assim, esses mesmo políticos estariam fora destes debates. Eles se consideram mais racionais e acima das disputas ideológicas.

    O problema da pós-política é que ela tem o papel de enganar aqueles que participam dela. Ela serve unicamente para mascarar um ponto de vista, uma ideologia. Assim, para esconder as verdadeiras posições diante das questões sociais. O pós-político se apresenta como técnico, quando, de fato, a sua verdadeira intenção estão dissimuladas, mascaradas, escondidas em planilhas, dados e distorções da realidade. Essa postura, tem por objetivo impedir o debate político. Sufocar as escolhas que a sociedade pode fazer.

    O debate e a Democracia

    Em uma democracia liberal, no Estado de Direito, a pós-política é perigosa, pois impede os debates de diferentes ideias, de diferentes opções que podem surgir em muito dos debates, sobre qualquer tema relacionado ao Estado ou a sociedade. A democracia, em uma perspectiva liberal, é justamente o debate, o conflito entre ideias e ideologias que se opõe e, dentro de um conjunto de regras consensualmente aceitos, disputam o seu espaço de poder sem eliminar a outra. Portanto, a anulação do debate por meio do tecnicismo, ou da negação da ideia do outro acaba por anular a própria política e por consequência a democracia.

    A consequência da pós-política é invariavelmente o autoritarismo, mesmo que disfarçado de uma democracia formal, pois a democracia precisa da política para ser efetiva. O autoritarismo, disfarçado de técnica e a negação da ideia do outro, nada mais é do que a imposição da vontade de um grupo sobre os outro. Resultando na negação, das vozes dissidentes, negando a oposição. Portanto, lembre-se, quando alguém se apresentar como neutro, como nem de direita ou de esquerda, quando alguém criticar a sua ideia como “ideológica”, está se usando a pós-política para impor a sua vontade e negar a sua voz e impor a sua vontade.

    Sugestões de vídeos e leituras.

    Vídeos:

    Artigos:

    Bucci, E. (2018). Pós-política e corrosão da verdade. Revista USP, (116), 19-30. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i116p19-30.

  • O Caminho do Báltico

    O Caminho do Báltico

    O que foi o Caminho do Báltico?

    Caminho do Báltico foi uma das mais belas demonstrações pacíficas de descontentamento e contestação à União Soviética unindo a população dos três países BálticosEstôniaLetônia Lituânia. A demonstração reuniu dois milhões de pessoas, ou seja, quase um quarto do total da população das três então Repúblicas Soviéticas e entrou para o Livro dos Records como a mais longa corrente humana ao cobrir um total de 600 Km. O movimento foi um dos pontos centrais no processo político que levou a independência da União Soviética (URSS)… Artigo

  • Gosta de filme e da Lituânia? Blog História da Lituânia!

    Gosta de filme e da Lituânia? Blog História da Lituânia!

    Se você gosta de filme sobre a Lituânia você vai gostar desse post no meu blog História da Lituânia.

    Depois de algum tempo voltei a escrever um pequeno texto sobre História da Lituânia lá no blog dedicado a Lituânia sobre um belo filme que tive a oportunidade de ver a estréia na AABS 2018 na Universidade de Stanford.

    Dá uma olhada lá no BlogHistória da Lituânia

    eValeu!

    Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Para Twitter e Instagram @erickrgzen

  • Brexit: considerações e palpites.

    Brexit: considerações e palpites.

    Por que o Brexit? 

    • Os motivos do Brexit
    • A União Europeia e o Brexit: história
    • Imigração e o Brexit

    Já que estão todos dando palpites e pitacos sobre o Brexit, aqui vão os meus.Toda a campanha Brexit foi conduzida pela direita xenófoba e com um discurso saudosista e nacionalista.

    No entanto, é importante lembrar que uma parte da esquerda sempre foi crítica à União Europeia e, mesmo o líder do Partido Trabalhista, não é lá um grande entusiasta (ou não foi durante muito tempo). Para além disso, a esquerda radical apoiou a saída e uma grande parte da classe trabalhadora também. Acrescentamos que uma grande parte da classe trabalhadora é contra as políticas migratórias.

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    Com o colapso da União Soviética em 1991, ao invés da União Europeia providenciar uma espécie de Plano Marshall que pudesse desenvolver, ou colocar a Europa Oriental nos trilhos, (como a Alemanha fez com a sua parte oriental), ela optou, baseada na teoria neoliberal, por abrir as portas do mercado para o Oriente, terminando de quebrar as empresas orientais recém ingressas no capitalismo, e permitir o fluxo da mão de obra (imigração).

    O ingresso da Polônia, principalmente, e dos países do Báltico (Lituânia, Letônia e Estônia), na União Europeia provocou uma onda interna de imigração na União Europeia. Esse fluxo se somou aos fluxos imigratórios das ex-colônias da Grã-Bretanha, já “tradicionais”, e aos refugiados dos conflitos no Oriente Médio.

    Essa imigração do leste europeu foi tão grande que na Lituânia é costume dizer que “os lituanos não estão emigrando, mas estão evacuando o país”. Assim como no caso polonês, um dos principais destinos é a Grã-Bretanha.  (sobre a Lituânia e a União Europeia ler AQUI)

    E qual é o problema do Brexit?

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    Bandeiras

    A imigração em massa foi uma estratégia do capital para depreciar o custo da mão de obra na Europa Ocidental. Na Inglaterra, a conservadora Margaret Thatcher (1925 – 2013), que governou entre 1975 e 1990, foi eliminando praticamente todos os direitos trabalhistas e os sindicatos. Seu conservadorismo social e seu neoliberalismo na condução econômica eliminaram o estado de bem estar social e privatizando todos os serviços públicos.

    A partir da década de 1990, com a imigração em massa do Leste Europeu, a mais uma abundante mão de obra, disposta a trabalhar por qualquer coisa, se acomodou a ausência de direitos trabalhistas. O resultado foi o empobrecimento da classe trabalhadora e a ampliação da desigualdade em níveis que só têm paralelos na Revolução Industrial do século XIX. Com a crise de 2008, a situação se agravou ainda mais. Vale lembrar, que a Grã-Bretanha que ainda segue a cartilha neoliberal como dogma é o único país desenvolvido que ainda não superou a crise de 2008, ao contrário da Alemanha, da França e dos Estados Unidos, por exemplo.

    As possibilidades do Brexit

    Diante desse quadro temos duas saídas possíveis:

    À direita: nacionalismo, saudosismo e xenofobia. Esses sentimentos dão a ilusão de que a mera remoção dos imigrantes resolverá o problema social, com a retomada do emprego. É uma ideia falsa! Pois removidos os direitos trabalhistas a desigualdade permanece! Ou seja, enquanto as práticas neoliberais persistirem persiste a desigualdade.

    À Esquerda: a do papel do Estado na promoção da equidade social. Aí temos um problema, pois a esquerda não sabe o que fazer com os imigrantes. De um lado, ela defende os direitos individuais e o de imigrar e o multiculturalismo (no que está certa!), mas o que fazer com essa mão de obra (imigrantes) trazida estrategicamente?

    Um problema sensível da esquerda é que ela, de uma forma ou de outra, sempre conseguiu atuar no âmbito nacional, mas não conseguiu efetivamente se organizar no âmbito internacional e menos ainda dentro da União Europeia. Jamais foi capaz de propor uma reforma igualando os direitos dos trabalhadores e a legislação trabalhista, por exemplo. Pelo contrário, como no vergonhoso caso francês é a tradicional esquerda que propôs a reforma trabalhista. O resultado final, salvo o cosmopolitismo londrino e de jovens que já nem mais conseguem se ver como parte dos “trabalhadores”: a saída foi vitoriosa.

    Depois da Euforia

    Apesar da euforia da extrema direita francesa, alemã e holandesa, o brexit não é necessariamente um indicativo da vitória da direita, ao menos na Inglaterra. A situação ali parece ser bem mais complexa. Por um lado, temos a popularidade do líder trabalhista inglês, Jeremy Corbyn. Por outro, é necessário saber se os conservadores vão conseguir se manter no poder e por quanto tempo.

    Em outras palavras quem fará a transição? Em que termos ela será feita? Quais os efeitos para a economia nos próximos meses? Nesse momento, qualquer tentativa de resposta para essa questão é apenas um chute!

    Aquele que conseguir intermediar as insatisfações sairá na frente neste processo.

    Com relação ao futuro da União Europeia, ao menos nos parâmetros em que a União está dada, será difícil se manter. É de fundamental importância lembrarmos que a estrutura de poder da União Europeia foi desenvolvida a partir de múltiplos acordos. A União Europeia foi articulada através da construção de consensos e não para a solução de crises. Na verdade, a União Europeia não tem mecanismos de solução de crises! Por isso sua movimentação e as respostas às crises são muito lentas…

    Por fim, será necessário acompanhar com muita atenção como a Grã-Bretanha vai lidar com a questão dos imigrantes. Uma política restritiva terá consequências desastrosas para outros países da União Europeia, notadamente, a Polônia e os países do Báltico.

  • Porto Rico em Crise: soluções?

    Porto Rico em Crise: soluções?

    • Crise em Porto Rico
    • Eleição Americana, 2016
    • A Proposta do Senador Sanders

    A crise em Porto Rico é um anúncio da crise americana? É uma pergunta apenas provocativa! Mas que chama a atenção para a precária situação institucional e financeira deste que é um “Estado livre associado” aos Estados Unidos da América (EUA). Com uma dívida de aproximadamente 73 bilhões de dólares, a pequena ilha caribenha não parece ter forças para arcar com sua dívida, sem causar um caos social.

    História de Porto Rico 

    A situação de Porto Rico é bastante intrigante, pois a ilha é parte dos Estados Unidos como um “estado livre associado”. Ou seja, juridicamente é parte dos Estados Unidos, mas não tem a mesma autonomia e direitos dos outros Estados que compõem os Estados Unidos da América.

    Porto Rico era parte do Império Espanhol na América até o fim do século XIX. Com a intervenção dos Estados Unidos na Guerra de independência de Cuba, deu-se início a Guerra Hispano-Americana que terminou com o tratado de Paris de 1898. Nesse tratado, a Espanha repassou por período indeterminado a autoridade colonial sobre Porto Rico.

    Em 1917, os Estados Unidos estenderam o direito de cidadania aos nascidos em Porto Rico. No entanto, alguns direitos lhes foram negados, como o de votar para a Presidência da República (embora possam votar nas primárias atualmente).

    É bem verdade que sempre houve grupos pró-independência em Porto Rico. Alguns com ações violentas, mas nas duas vezes em que a questão da autonomia foi levada a referendum a população optou por outro caminho. No referendum de 1998, foi decidido pela não independência e pela manutenção de Estado Associado.

    Em dezembro de 2012, um referendo na Ilha expressou, por 65%, a vontade de Porto Rico em se tornar um estado dos EUA. No entanto, para alcançar esse status é necessária a aprovação do Congresso Americano, o que ainda não aconteceu. Se é que vai acontecer! Assim, Porto Rico tem o direito de eleger o seu próprio governador e sua língua oficial é tanto o inglês quanto o espanhol. O espanhol é mais utilizado.

     A Crise em Porto Rico

    Atualmente, Porto Rico detém uma dívida de aproximadamente 73 bilhões de dólares. Ela foi adquirida através de empréstimos com diversos fundos e o atual governador Alejandro Garcia Padilha declarou que a dívida é simplesmente “impagável”. A ilha já deixou de realizar pagamentos, o que levou a uma situação de desgoverno.

    A situação chegou ao Congresso Americano que deveria apontar soluções para o problema. Depois de meses de inação, aprovou uma medida intitulada PROMESA (Oversight Management and Economic Stability Act), em um acordo entre os dois partidos Republicanos e Democratas. De acordo com o ato seriam escolhidos pelos líderes do Congresso sete membros fiscais com amplos poderes de negociação. Eles também poderiam realizar cortes no orçamento poderiam suspender leis locais e congelar pagamentos.

    Críticos a essa medida observam que uma comissão com tais poderes seria uma forma de recolonização de Porto Rico, mais do que isso. A comissão atuaria em favor dos credores e não da população local ampliando a crise na Ilha, que já acumula taxa de desemprego de 12%. Uma taxa muito maior do que a média dos outros Estados Americanos. Acrescenta-se a esse fator desestabilizador a enorme emigração, sobretudo entre os mais jovens.

    É preciso lembrar que muitos cidadãos de Porto Rico tem suas poupanças e aposentadorias investidas em títulos do governo, ou seja, a depender da negociação a ser realizada, o resultado pode ser a ampliação da pobreza principalmente na população mais vulnerável.

    Solução proposta por Sanders?

    Todas essas questões surgem, pois Porto Rico, como Estado Associado, não tem os mesmos direitos dos demais Estados. Por exemplo, o de utilizar a lei de falências que já foram utilizadas por cidades como Detroit. Neste sentido, desprotegido de uma lei que possa representar segurança e dar alguma margem de negociação para Porto Rico, seus credores têm poucos motivos para acelerar um processo de negociação ou reestruturar a dívida, já que não estão sujeitos às leis Americanas.

    Em um último esforço para aliviar a situação, o Senador e pré-candidato à Presidência Bernie Sanders propôs que o “Banco Central Americano”, o FED, use a mesma “imaginação” e engenharia financeira utilizada para resgatar empresas em dificuldades durante a crise de 2008. Na ocasião, o FED abriu os seus cofres e ofereceu bilhões em empréstimos e subsídios para salvá-las da falência.

    Por agora, ao que tudo indica, a voz de Sanders parece ecoar solitária. Os Olhos do público americano (ao menos aqueles que se preocupam com a coisa pública) está voltado para as próximas eleições.

    O debate 

    A discussão sobre Porto Rico tem ocupado um lugar bastante marginal na imprensa dos Estados Unidos. Ele também não foi tratado com a devida atenção por nenhum dos pré-candidatos (a exceção de Sanders dentro do Congresso). Parece que assim, a situação de Porto Rico, terá que ser tratada pelo próximo Presidente já que a dívida, que tem uma significativa parcela a vencer no dia Primeiro de Julho e, ao que parece, não será paga.

    Qual será o futuro de Porto Rico? E como os EUA vão lidar com os seus débitos? Perguntas que o próximo Presidente dos EUA terá que responder.

  • Sobre Sanders e a eleição americana 

    Sobre Sanders e a eleição americana 

    Caros amigos,

    Tive a oportunidade de publicar uma síntese das minhas reflexões sobre Bernie Sanders e a eleição americana no blog do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais IPPRI/UNESP

    O artigo sobre Bernie Sanders e a eleição americana tem o título: Um Socialista à Americana? Conheça Sanders, o democrata. Segue o link: http://neai-unesp.org/um-socialista-a-americana-conheca-o-democrata-bernie-sanders-por-erick-zen

  • Bernie Sanders e a Eleição Americana

    • Candidatura de Bernie Sanders
    • Ideias democratas socialistas
    • Socialismo nos Estados Unidos

    O Fenômeno Democrata Bernie Sanders

    Na imprensa brasileira, e mesmo nas publicações especializadas, fica evidente a dificuldade dos analistas em entenderem o fenômeno Democrata Bernie Sanders. Para muitos, um candidato à presidência dos Estados Unidos que se apresente como Democrata Socialista, é exótico! Para outros, ele não seria um “verdadeiro socialista” e, finalmente, a direita, já utilizou até mesmo a palavra populista para defini-lo.

    Neste pequeno texto vou esboçar (sim esboçar!) a resposta para duas perguntas: 1) Por que os analistas brasileiros têm dificuldade em lidar com os fenômenos da política interna dos Estados Unidos ? 2) O que o fenômeno Sanders nos diz sobre a sociedade americana? Esse texto completa o primeiro publicado AQUI

    O Brasil é o seu Eurocentrismo

    Uma das coisas mais impressionantes sobre as Ciências Humanas no Brasil é o seu eurocentrismo! Eurocentrismo tanto na elevada carga horária dos cursos de graduação como na visão europeia de mundo que coloniza a nossa percepção. Apenas aponte um único curso de História de Ciências Políticas, Relações Internacionais e Jornalismo que se dedique a História e a sociedade americana e eu mudo esse parágrafo. No geral, o que vi (e mais de uma vez) foi a História da América Latina e História dos EUA perderem espaço nas grades dos cursos substituídas, na maior parte das vezes, por um blá-blá-blá pseudo teórico ou por regionalismo provincianismo pseudo culturais.

    Com isso, o nosso conhecimento, e a produção do conhecimento, sobre Estados Unidos é muito limitado. No que se refere as questões temáticas, em geral, os estudos se limitam a política externa americana e sua influência no Brasil e muito pouco sobre a sociedade americana (a excessão são as comparações entre escravismo no Brasil e nos EUA).

    Nossos analistas.

    Como resultado, não dispomos de analistas que tenham instrumentos intelectuais adequados para interpretar a sociedade e a política americana e, quando a fazem, utilizam instrumentos e paradigmas europeus para a análise. Isso é realmente incrível! Afinal, qual foi o país mais influente no Brasil em termos culturais e políticos no último século? E justamente este é o que você, caro colega de humanas, não estuda!

    Diante deste quadro, o que resta são muitos chutes e desentendimentos. O fenômeno Sanders poderia servir como estudo de caso, nesse sentido. O primeiro erro é tentar analisar o que Sanders propõe como “socialismo” através da história da Europa. Assim, tentamos entender Sanders pela lente do Partido Social Democrata Alemão ou pelo Partido Socialista Francês, ambos utilizados como paradigma de social democracia. Ocorre que, em grande medida, o “socialismo”, tem um desenvolvimento histórico particular nos Estados Unidos.

    O Desenvolvimento do Socialismo nos EUA

    Se é verdade que o Partido Socialista e o Comunista Americano seguiram por longo tempo os caminhos da Segunda e da Terceira Internacional, no que se refere ao campo das ideias, muitas perspectivas socialistas e anarquistas nos EUA se combinaram com um liberalismo radical, em particular na virada do século XIX para o XX. Portanto, se não for considerado o desenvolvimento particular do socialismo nos EUA, a tendência que se tem é de considerar Sanders como um exótico, ou como um falso socialista. Na verdade, a dificuldade aqui são dos analistas e não do candidato.

    Um dos lugares mais profícuos do desenvolvimento socialista e anarquista nos EUA foi Nova York, em especial em dois bairros no Harlem e no Brooklyn. Bairros estes que são tradicionalmente de operários negros, mas também de imigrantes do leste Europeu, no início do século, e de imigrantes latinos, a partir da segunda metade do século XX.

    No Brooklyn, como filho de judeus imigrados da Polônia, que Sanders nasceu e foi criado, em uma família com ideias de esquerda. Em muito, esses imigrantes operários, como ele, se desenvolveram economicamente e chegaram ao sonho da classe média americana.

    O socialismo de Sanders

    Portanto, o socialismo que Sanders viveu e viu se desenvolver como princípio e ideal é histórico e não oportunista. O socialismo americano, no decorrer do século XX (e aqui precisaria de páginas e páginas para explicar como), toma bandeiras como da igualdade e equidade o que muito significou salário justo, direitos trabalhistas, direitos civis (sobretudo para inclusão do negro, indígena e das mulheres).

    Ao mesmo tempo, também apresentou uma crítica aguda ao domínio do Estado por uma plutocracia financeira, ao segredo de Estado, as guerras não justificadas, a crítica ao crescente poder do complexo militar e industrial sobre democracia. Não foi atoa que a primeira aparição de Sanders como ativista político se deu na luta por direitos civis e contra a Guerra do Vietnam.

    A essas bandeiras, a esquerda socialista americana acrescentou uma defesa dos direitos humanos e aos direitos constitucionais e principalmente, (principalmente!) nos direitos dos trabalhadores! E a defesa do poder local como fundamental para a democracia.

    Bernie Sanders Carregou Essas Bandeiras

    Desde que se iniciou na atividade política, Sanders carregou todas essas bandeiras, mesmo quando isso significou enormes contradições. Por exemplo, sua defesa radical da constituição americana, o que inclui a Segunda Emenda, fez com que ele nunca defendesse a restrição ao uso das armas de fogo! Quando foi eleito como Governador do Estado de Vermont recebeu doações da NRA (Associação Nacional do Rifle), principal lobista dos fabricantes de arma.

    Por outro lado, sua coerência fez com que ele fosse um dos poucos Senadores a votar contra a intervenção militar no Iraque e ser um forte crítico das guerras recentes que os EUA se envolveu. Incluindo ai a guerra ao terror e ao excessivo poder das agências de informação para espiar os cidadãos americanos.

    Isso não significa que não tenha posições duras com relação a política externa, pelo contrário. Sanders é um grande defensor, por exemplo, do Estado de Israel. Em um comício de sua campanha um militante pró-palestina que o criticava foi retirado a força do evento.

    Bernie Sanders e suas ideias

    Se as ideias de Sanders não são novas, o que o levou a crescer politicamente a ponto dos democratas preferirem a ele e não a Clinton? A reposta está na defesa dos direitos trabalhistas! Esse é o ponto central!

    Desde a crise de 2008 os EUA passaram por uma enorme onda de desemprego que vai até 2010 (2011). Atualmente, a maioria dos americanos já recuperou o emprego (o desemprego está por volta de 5%). No entanto, nesse dado tem uma “pegadinha”.

    Se o emprego aumentou o salário diminuiu! Ou seja, os americanos que já estiveram próximos a classe média tem dificuldade em pagar as suas contas. Quem recebe o salário mínimo ($7 dólares por hora) não consegue pagar por aluguel ou hipoteca, ter um plano de saúde. Vale lembrar que nos EUA não há saúde pública universal e é preciso comprar um plano privado ou agora Estatal). Pagar educação (College) para os filhos também é proibitivo.

    É para essa população e para a classe média, que perdeu o seu poder de consumo, que as propostas de Sanders soam como música. Propostas tais como: elevação do pagamento mínimo, saúde universal, acesso a educação entre outras.

    O Papel dos jovens

    Ainda é preciso acrescentar o papel dos jovens que aderiram a campanha. Atualmente, as possibilidades de um recém formado em uma faculdade entrar ou de se manter na classe média, na atual situação americana, é bastante limitada. Com as enormes dívidas que os jovens acumulam para estudar, somadas as dificuldade para se conseguir um emprego, com benefícios ou contrato longo, a ascensão social é limitada.

    No mesmo sentido, as críticas ao poder dos financistas e ao complexo militar na democracia americana, e a proposta regulamentar essa participação, revelam que a maior parte dos americanos entendem que a sua democracia corre risco, quando o poder financeiro é maior do que participação popular.

    O candidato Bernie Sanders, portanto, não é um exótico, oportunista, populista. Pelo contrário, ele faz parte das lutas políticas e das crises recentes pelas quais os Estados Unidos passaram nas últimas décadas. A luta é histórica e ganhou força diante de uma conjuntura em parte estrutural e em parte específicas. Se tudo isso será suficiente para conseguir a vitória sobre Hillary Clinton e sobre o candidato Republicano ainda é cedo para saber. O que certo é que tentar entender Sanders e suas ideias a partir de uma referência europeia ou latino-americano não vai facilitar o nosso entendimento do processo eleitoral americano.