Tag: Nova York

  • Músicas Sobre Nova York. É Possível Traduzi-la?

    Músicas Sobre Nova York. É Possível Traduzi-la?

    Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    Músicas Sobre Nova York. É Possível Traduzi-la?…Depois de um ano, quase, vivendo, morrendo, me apaixonando e odiando a organização, a loucura e caos. O concreto. O ferro! A limpeza e o lixo na rua. Os esquilos e os ratos. O rap, blues, punk, a Broadway e a vanguarda… Eu fiz uma lista de músicas sobre Nova York.

    Nova York se funde em muitas em seu ar liberal de gente que não para. Mesmo quando descansa o sujeito de Nova York inventa o que fazer. Tem que ler no parque no domingo. Jogar alguma coisa. Correr! Cuidar da saúde, ganhar dinheiro, parecer rico…

    Os protestos e as greves. A vida importa e quase não importa. O racismo, a violência, as drogas… O sonho Americano na Wall Street. A estátua da Liberdade que nos lembra da beleza da sua sociedade civil. E o Harlem. O Harlem é outra cidade… O Brooklyn já foi outra cidade! Já foi Nova York e agora parece Miami…

    Se palavras me faltam resolvi fazer uma lista de músicas. Tão caótica quanto a própria cidade! Tente gostar de alguma delas.

    Obs: E depois que eu escrevi, encontrei uma enorme lista com, supostamente, todas as músicas que citam Nova York. Confira AQUI

  • Bernie Sanders e a Eleição Americana

    • Candidatura de Bernie Sanders
    • Ideias democratas socialistas
    • Socialismo nos Estados Unidos

    O Fenômeno Democrata Bernie Sanders

    Na imprensa brasileira, e mesmo nas publicações especializadas, fica evidente a dificuldade dos analistas em entenderem o fenômeno Democrata Bernie Sanders. Para muitos, um candidato à presidência dos Estados Unidos que se apresente como Democrata Socialista, é exótico! Para outros, ele não seria um “verdadeiro socialista” e, finalmente, a direita, já utilizou até mesmo a palavra populista para defini-lo.

    Neste pequeno texto vou esboçar (sim esboçar!) a resposta para duas perguntas: 1) Por que os analistas brasileiros têm dificuldade em lidar com os fenômenos da política interna dos Estados Unidos ? 2) O que o fenômeno Sanders nos diz sobre a sociedade americana? Esse texto completa o primeiro publicado AQUI

    O Brasil é o seu Eurocentrismo

    Uma das coisas mais impressionantes sobre as Ciências Humanas no Brasil é o seu eurocentrismo! Eurocentrismo tanto na elevada carga horária dos cursos de graduação como na visão europeia de mundo que coloniza a nossa percepção. Apenas aponte um único curso de História de Ciências Políticas, Relações Internacionais e Jornalismo que se dedique a História e a sociedade americana e eu mudo esse parágrafo. No geral, o que vi (e mais de uma vez) foi a História da América Latina e História dos EUA perderem espaço nas grades dos cursos substituídas, na maior parte das vezes, por um blá-blá-blá pseudo teórico ou por regionalismo provincianismo pseudo culturais.

    Com isso, o nosso conhecimento, e a produção do conhecimento, sobre Estados Unidos é muito limitado. No que se refere as questões temáticas, em geral, os estudos se limitam a política externa americana e sua influência no Brasil e muito pouco sobre a sociedade americana (a excessão são as comparações entre escravismo no Brasil e nos EUA).

    Nossos analistas.

    Como resultado, não dispomos de analistas que tenham instrumentos intelectuais adequados para interpretar a sociedade e a política americana e, quando a fazem, utilizam instrumentos e paradigmas europeus para a análise. Isso é realmente incrível! Afinal, qual foi o país mais influente no Brasil em termos culturais e políticos no último século? E justamente este é o que você, caro colega de humanas, não estuda!

    Diante deste quadro, o que resta são muitos chutes e desentendimentos. O fenômeno Sanders poderia servir como estudo de caso, nesse sentido. O primeiro erro é tentar analisar o que Sanders propõe como “socialismo” através da história da Europa. Assim, tentamos entender Sanders pela lente do Partido Social Democrata Alemão ou pelo Partido Socialista Francês, ambos utilizados como paradigma de social democracia. Ocorre que, em grande medida, o “socialismo”, tem um desenvolvimento histórico particular nos Estados Unidos.

    O Desenvolvimento do Socialismo nos EUA

    Se é verdade que o Partido Socialista e o Comunista Americano seguiram por longo tempo os caminhos da Segunda e da Terceira Internacional, no que se refere ao campo das ideias, muitas perspectivas socialistas e anarquistas nos EUA se combinaram com um liberalismo radical, em particular na virada do século XIX para o XX. Portanto, se não for considerado o desenvolvimento particular do socialismo nos EUA, a tendência que se tem é de considerar Sanders como um exótico, ou como um falso socialista. Na verdade, a dificuldade aqui são dos analistas e não do candidato.

    Um dos lugares mais profícuos do desenvolvimento socialista e anarquista nos EUA foi Nova York, em especial em dois bairros no Harlem e no Brooklyn. Bairros estes que são tradicionalmente de operários negros, mas também de imigrantes do leste Europeu, no início do século, e de imigrantes latinos, a partir da segunda metade do século XX.

    No Brooklyn, como filho de judeus imigrados da Polônia, que Sanders nasceu e foi criado, em uma família com ideias de esquerda. Em muito, esses imigrantes operários, como ele, se desenvolveram economicamente e chegaram ao sonho da classe média americana.

    O socialismo de Sanders

    Portanto, o socialismo que Sanders viveu e viu se desenvolver como princípio e ideal é histórico e não oportunista. O socialismo americano, no decorrer do século XX (e aqui precisaria de páginas e páginas para explicar como), toma bandeiras como da igualdade e equidade o que muito significou salário justo, direitos trabalhistas, direitos civis (sobretudo para inclusão do negro, indígena e das mulheres).

    Ao mesmo tempo, também apresentou uma crítica aguda ao domínio do Estado por uma plutocracia financeira, ao segredo de Estado, as guerras não justificadas, a crítica ao crescente poder do complexo militar e industrial sobre democracia. Não foi atoa que a primeira aparição de Sanders como ativista político se deu na luta por direitos civis e contra a Guerra do Vietnam.

    A essas bandeiras, a esquerda socialista americana acrescentou uma defesa dos direitos humanos e aos direitos constitucionais e principalmente, (principalmente!) nos direitos dos trabalhadores! E a defesa do poder local como fundamental para a democracia.

    Bernie Sanders Carregou Essas Bandeiras

    Desde que se iniciou na atividade política, Sanders carregou todas essas bandeiras, mesmo quando isso significou enormes contradições. Por exemplo, sua defesa radical da constituição americana, o que inclui a Segunda Emenda, fez com que ele nunca defendesse a restrição ao uso das armas de fogo! Quando foi eleito como Governador do Estado de Vermont recebeu doações da NRA (Associação Nacional do Rifle), principal lobista dos fabricantes de arma.

    Por outro lado, sua coerência fez com que ele fosse um dos poucos Senadores a votar contra a intervenção militar no Iraque e ser um forte crítico das guerras recentes que os EUA se envolveu. Incluindo ai a guerra ao terror e ao excessivo poder das agências de informação para espiar os cidadãos americanos.

    Isso não significa que não tenha posições duras com relação a política externa, pelo contrário. Sanders é um grande defensor, por exemplo, do Estado de Israel. Em um comício de sua campanha um militante pró-palestina que o criticava foi retirado a força do evento.

    Bernie Sanders e suas ideias

    Se as ideias de Sanders não são novas, o que o levou a crescer politicamente a ponto dos democratas preferirem a ele e não a Clinton? A reposta está na defesa dos direitos trabalhistas! Esse é o ponto central!

    Desde a crise de 2008 os EUA passaram por uma enorme onda de desemprego que vai até 2010 (2011). Atualmente, a maioria dos americanos já recuperou o emprego (o desemprego está por volta de 5%). No entanto, nesse dado tem uma “pegadinha”.

    Se o emprego aumentou o salário diminuiu! Ou seja, os americanos que já estiveram próximos a classe média tem dificuldade em pagar as suas contas. Quem recebe o salário mínimo ($7 dólares por hora) não consegue pagar por aluguel ou hipoteca, ter um plano de saúde. Vale lembrar que nos EUA não há saúde pública universal e é preciso comprar um plano privado ou agora Estatal). Pagar educação (College) para os filhos também é proibitivo.

    É para essa população e para a classe média, que perdeu o seu poder de consumo, que as propostas de Sanders soam como música. Propostas tais como: elevação do pagamento mínimo, saúde universal, acesso a educação entre outras.

    O Papel dos jovens

    Ainda é preciso acrescentar o papel dos jovens que aderiram a campanha. Atualmente, as possibilidades de um recém formado em uma faculdade entrar ou de se manter na classe média, na atual situação americana, é bastante limitada. Com as enormes dívidas que os jovens acumulam para estudar, somadas as dificuldade para se conseguir um emprego, com benefícios ou contrato longo, a ascensão social é limitada.

    No mesmo sentido, as críticas ao poder dos financistas e ao complexo militar na democracia americana, e a proposta regulamentar essa participação, revelam que a maior parte dos americanos entendem que a sua democracia corre risco, quando o poder financeiro é maior do que participação popular.

    O candidato Bernie Sanders, portanto, não é um exótico, oportunista, populista. Pelo contrário, ele faz parte das lutas políticas e das crises recentes pelas quais os Estados Unidos passaram nas últimas décadas. A luta é histórica e ganhou força diante de uma conjuntura em parte estrutural e em parte específicas. Se tudo isso será suficiente para conseguir a vitória sobre Hillary Clinton e sobre o candidato Republicano ainda é cedo para saber. O que certo é que tentar entender Sanders e suas ideias a partir de uma referência europeia ou latino-americano não vai facilitar o nosso entendimento do processo eleitoral americano.

  • Morar no Harlem: Hotel Theresa

    Morar no Harlem: Hotel Theresa

    Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    Encontrar com o Hotel Theresa foi uma das minhas primeiras surpresas, quando cheguei a Nova York e fui morar no Harlem. Entrar no Harlem é encontrar uma parte dos Estados Unidos que fica, muitas vezes, oculta aos olhos dos turistas. Na realidade, é comum vermos o brasileiro de classe média confundir a Disneyland com a sociedade americana. Longe dos bichinhos de Orlando, da coisa brega de Miami e dos espetáculos para o público do terceiro mundo da Broadway, a sociedade americana é muito mais complexa, plural, repleta de contradições e conflitos.

    São essas contradições e conflitos que encontramos em um bairro historicamente composto por maioria negra e latina (e de negros latinos) como é o Harlem. Em cada uma das suas esquinas e das suas construções, esse bairro de trabalhadores guarda a história de luta e sofrimento dos que não foram plenamente favorecidos pelo sonho americano.

    Assim, decidi escrever alguns pequenos textos sobre o lugar onde agora resido e suas localidades históricas. Não escolhi escrever por tema ou importância e ainda não sou capaz (e não sei se serei) de escrever uma história geral do bairro. De uma forma livre, a partir das minhas caminhadas, encontros e desencontros, vou buscar contar algumas de suas histórias.

    Hotel Thereza

    Descendo a Rua 125 olho para o horizonte e vejo um enorme prédio branco e antigo. Lá no alto o letreiro indica Hotel Theresa. O hotel ficou conhecido por ser o primeiro a acabar com a segregação racial e pelos encontros inusitados que ali aconteceram.

    Fidel Castro no Harlem.

    Quando Fidel Castro veio a Nova York para discursar na ONU, após a Revolução Cubana, teve muita dificuldade em ser aceito nos hotéis da cidade. Por má vontade dos proprietários de hotéis solidários aos seus pares cubanos que perderam seu negócio devido à Revolução, pelas pressões do governo e por todo o movimento anti-comunista que se lançava contra Cuba, nenhum hotel se dispôs a aceitar a delegação cubana.

    Eis que um hotel, confortável, mas menos luxuoso que seus pares no centro financeiro de Manhattan, resolveu abrir as suas portas. O Hotel Theresa era um dos poucos hotéis em Nova York cujo proprietário era negro. Seu nome era Love B. Woods e em 1940 colocou fim à segregação racial no estabelecimento. Sua justificativa para aceitar Fidel Castro e os demais membros da delegação cubana foi extraordinário, disse ele: “como negro americano eu sei o que é ser rejeitado”.

    Foi assim que Fidel Castro chegou ao Harlem e com ele uma tropa de curiosos, políticos e do FBI que monitorou cada encontro, cada conversa que teve o líder cubano. E ali na Rua 125 foram realizados encontros políticos de personagens que marcaram o século XX.

    Um dos visitantes de Fidel Castro no Hotel Theresa foi Malcolm X, o lendário líder do movimento negro islâmico que pouco depois seria assassinado. O conteúdo do diálogo foi inteiramente anotado pelos espiões do FBI que acompanharam de muito perto a conversa.

    O mesmo caminho de encontro com Fidel Castro fez o então jovem candidato à presidência dos Estados Unidos John Kennedy que esteve pela primeira vez frente a frente com o presidente cubano. Depois de eleito, o mesmo presidente tentou derrubar Fidel Castro no fatídico episódio da Bahia dos Porcos. Assim como Malcolm X, o presidente americano também acabou por ser assassinado.

    As visitas não pararam por ai, o líder soviético Nikita Khrushchev entrou no hotel para conhecer o líder cubano. Já teria ele se convencido a aceitar o comunismo naquele momento nunca saberemos, mas o que é certo é que a presença de um revolucionário vindo de um país subdesenvolvido atraiu outras lideranças que fizeram uso dos apartamentos desenhados pela empresa George & Edward Blum em sua decoração de terracota construída entre os anos de 1912 e 1913. Assim, naqueles poucos dias passaram por ali o presidente do Egito Gamal Abdel Nasser, o Primeiro Ministro da Índia Jawaharlal Nehru e o líder do Congo Belga Patrice Lumumba. Além dos líderes políticos, escritores como e poetas como Langston Hughes e Allen Ginsburg também foram conhecer Fidel Castro. Se aqueles dias foram quentes para o hotel, esteve longe de ser o único…

    Hotel Theresa: racismo e resistência

    Aqui entra o outro lado da história americana e o seu racismo. Muitos hotéis de luxo de Manhattan se recusavam a receber hóspedes negros, mesmo aqueles que já tinham obtido fama. Desta forma, o Hotel Theresa acabou por se tornar o local de hospedagem dos músicos que iriam se apresentar no Teatro Apollo, que dista apenas uma quadra do hotel e também dos principais atletas, em particular dos lutadores de boxe. Entre os hóspedes mais ilustres estiveram os músicos Luis Armstrong, Ray Charles, Duke Ellington, Jimi Hendrix, Lena Horne, Little Richard, Dina Washington e aquele que também foi gerente do bar do hotel Andy Kirk.

    Entre os atletas, os boxeadores Muhammad Ali, Sugar Ray Robinson, Joe Louis entre outros. O hotel também abrigou organizações do movimento negro como Organization of Afro-American Unity criado por Malcolm X depois que ele deixou a Nation of Islam (Nação Islâmica). O hotel também chegou a abrigar uma livraria que difundia as obras do movimento negro.

    O hotel, e o bairro em geral, foram locais de duras lutas políticas que deixaram as suas marcas até os dias de hoje. Atualmente não há nenhum registro no prédio que lembre os seus tempos de hotel, apenas os letreiros e a fachada que tem de ser preservada, pois o local é considerado um marco histórico da cidade de Nova York. Assim, um visitante que não conheça a história do local pode passar por ele sem percebê-lo ou sem se dar conta da sua importância histórica.

    Hotel Theresa. Foto Erick Zen
    Hotel Theresa. Foto Erick Zen

    Hotel Theresa. Foto Erick Zen
    Hotel Theresa. Foto Erick Zen