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  • Morar no Harlem: Hotel Theresa

    Morar no Harlem: Hotel Theresa

    Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Twitter: @erickrgzen

    Encontrar com o Hotel Theresa foi uma das minhas primeiras surpresas, quando cheguei a Nova York e fui morar no Harlem. Entrar no Harlem é encontrar uma parte dos Estados Unidos que fica, muitas vezes, oculta aos olhos dos turistas. Na realidade, é comum vermos o brasileiro de classe média confundir a Disneyland com a sociedade americana. Longe dos bichinhos de Orlando, da coisa brega de Miami e dos espetáculos para o público do terceiro mundo da Broadway, a sociedade americana é muito mais complexa, plural, repleta de contradições e conflitos.

    São essas contradições e conflitos que encontramos em um bairro historicamente composto por maioria negra e latina (e de negros latinos) como é o Harlem. Em cada uma das suas esquinas e das suas construções, esse bairro de trabalhadores guarda a história de luta e sofrimento dos que não foram plenamente favorecidos pelo sonho americano.

    Assim, decidi escrever alguns pequenos textos sobre o lugar onde agora resido e suas localidades históricas. Não escolhi escrever por tema ou importância e ainda não sou capaz (e não sei se serei) de escrever uma história geral do bairro. De uma forma livre, a partir das minhas caminhadas, encontros e desencontros, vou buscar contar algumas de suas histórias.

    Hotel Thereza

    Descendo a Rua 125 olho para o horizonte e vejo um enorme prédio branco e antigo. Lá no alto o letreiro indica Hotel Theresa. O hotel ficou conhecido por ser o primeiro a acabar com a segregação racial e pelos encontros inusitados que ali aconteceram.

    Fidel Castro no Harlem.

    Quando Fidel Castro veio a Nova York para discursar na ONU, após a Revolução Cubana, teve muita dificuldade em ser aceito nos hotéis da cidade. Por má vontade dos proprietários de hotéis solidários aos seus pares cubanos que perderam seu negócio devido à Revolução, pelas pressões do governo e por todo o movimento anti-comunista que se lançava contra Cuba, nenhum hotel se dispôs a aceitar a delegação cubana.

    Eis que um hotel, confortável, mas menos luxuoso que seus pares no centro financeiro de Manhattan, resolveu abrir as suas portas. O Hotel Theresa era um dos poucos hotéis em Nova York cujo proprietário era negro. Seu nome era Love B. Woods e em 1940 colocou fim à segregação racial no estabelecimento. Sua justificativa para aceitar Fidel Castro e os demais membros da delegação cubana foi extraordinário, disse ele: “como negro americano eu sei o que é ser rejeitado”.

    Foi assim que Fidel Castro chegou ao Harlem e com ele uma tropa de curiosos, políticos e do FBI que monitorou cada encontro, cada conversa que teve o líder cubano. E ali na Rua 125 foram realizados encontros políticos de personagens que marcaram o século XX.

    Um dos visitantes de Fidel Castro no Hotel Theresa foi Malcolm X, o lendário líder do movimento negro islâmico que pouco depois seria assassinado. O conteúdo do diálogo foi inteiramente anotado pelos espiões do FBI que acompanharam de muito perto a conversa.

    O mesmo caminho de encontro com Fidel Castro fez o então jovem candidato à presidência dos Estados Unidos John Kennedy que esteve pela primeira vez frente a frente com o presidente cubano. Depois de eleito, o mesmo presidente tentou derrubar Fidel Castro no fatídico episódio da Bahia dos Porcos. Assim como Malcolm X, o presidente americano também acabou por ser assassinado.

    As visitas não pararam por ai, o líder soviético Nikita Khrushchev entrou no hotel para conhecer o líder cubano. Já teria ele se convencido a aceitar o comunismo naquele momento nunca saberemos, mas o que é certo é que a presença de um revolucionário vindo de um país subdesenvolvido atraiu outras lideranças que fizeram uso dos apartamentos desenhados pela empresa George & Edward Blum em sua decoração de terracota construída entre os anos de 1912 e 1913. Assim, naqueles poucos dias passaram por ali o presidente do Egito Gamal Abdel Nasser, o Primeiro Ministro da Índia Jawaharlal Nehru e o líder do Congo Belga Patrice Lumumba. Além dos líderes políticos, escritores como e poetas como Langston Hughes e Allen Ginsburg também foram conhecer Fidel Castro. Se aqueles dias foram quentes para o hotel, esteve longe de ser o único…

    Hotel Theresa: racismo e resistência

    Aqui entra o outro lado da história americana e o seu racismo. Muitos hotéis de luxo de Manhattan se recusavam a receber hóspedes negros, mesmo aqueles que já tinham obtido fama. Desta forma, o Hotel Theresa acabou por se tornar o local de hospedagem dos músicos que iriam se apresentar no Teatro Apollo, que dista apenas uma quadra do hotel e também dos principais atletas, em particular dos lutadores de boxe. Entre os hóspedes mais ilustres estiveram os músicos Luis Armstrong, Ray Charles, Duke Ellington, Jimi Hendrix, Lena Horne, Little Richard, Dina Washington e aquele que também foi gerente do bar do hotel Andy Kirk.

    Entre os atletas, os boxeadores Muhammad Ali, Sugar Ray Robinson, Joe Louis entre outros. O hotel também abrigou organizações do movimento negro como Organization of Afro-American Unity criado por Malcolm X depois que ele deixou a Nation of Islam (Nação Islâmica). O hotel também chegou a abrigar uma livraria que difundia as obras do movimento negro.

    O hotel, e o bairro em geral, foram locais de duras lutas políticas que deixaram as suas marcas até os dias de hoje. Atualmente não há nenhum registro no prédio que lembre os seus tempos de hotel, apenas os letreiros e a fachada que tem de ser preservada, pois o local é considerado um marco histórico da cidade de Nova York. Assim, um visitante que não conheça a história do local pode passar por ele sem percebê-lo ou sem se dar conta da sua importância histórica.

    Hotel Theresa. Foto Erick Zen
    Hotel Theresa. Foto Erick Zen
    Hotel Theresa. Foto Erick Zen
    Hotel Theresa. Foto Erick Zen
  • Bernie Sanders Um “Socialista” na Casa Branca?

    Bernie Sanders Um “Socialista” na Casa Branca?

    • A pré-candidatura de Bernie Sanders
    • Uma análise da trajetória
    • Sobre as suas ideias

    A mídia tem destacado recentemente a candidatura do midiático, machista, anti-imigrantes, anti-latinos, anti-China e anti-etc. Donald Trump. Com seu jeito espalhafatoso, cabelo engraçado e sem nenhuma educação – em recente debate chegou a perguntar a uma mulher que o questionava se ela estava “no seu período” (TPM) – o candidato tem chamado a atenção de todo o mundo, mais pelas suas bobagens do que pelas suas propostas. Contudo, o fato mais relevante dessas eleições primárias – período de definições dos candidatos nos dois partidos – está do lado Democrata, com o crescimento de Bernie Sanders.

    Em sua página, Bernie Sanders se define como um “democrata socialista”. Seu programa de governo é uma ruptura tanto com as plataformas do atual presidente Obama, como com as tradicionais plataformas apresentados pelos candidatos Democratas. Sua trajetória política não deixa dúvidas sobre o seu desejo de mudar os Estados Unidos. Ao longo de muitos anos como congressista, a maior parte das vezes eleito de forma independente, sem vínculos com Democratas ou Republicamos, ele defendeu as posições mais progressistas. Entre elas: sistema de saúde universal, direito LGBT, igualdade de pagamento para homens e mulheres, igualdade racial, etc.

    Bernie Sanders uma trajetória pelos Direitos Civis

    No Congresso foi um dos poucos a votar contra a Guerra no Iraque durante o governo Bush. Criticou ainda ferrenhamente o corte de impostos para os ricos feitas por este presidente. Posicionou-se contra o USA Patriotic Act, adotado após o atentado terrorista de 11 de setembro, que deu enormes poderes de espionagem e retirou direitos civis. Mais recentemente se tornou um dos críticos dos programas de espionagem defendendo, como sempre, os direitos civis.

    Sua paixão pelos direitos civis tem uma longa trajetória e um acúmulo de experiência que deixam claro não se tratar de um oportunista. Ele é um militante histórico em prol das causas em que acredita. Iniciou sua carreira na juventude da Liga Popular Socialista, participou ativamente da luta pelos Direitos Civis na década de 1960, do histórico Congresso pela Igualdade Racial, bem como diretamente se envolveu no movimento estudantil pacifista contra a Guerra do Vietnã. Em 1963, ele participou da Marcha de Washington por Emprego e Paz.

    No seu Estado, Vermont, foi eleito Mayor por três vezes prefeito de Burlington, a principal cidade. Serviu como Congressista deste Estado por dezesseis anos e foi eleito Senador em 2006 e reeleito em 2012 com 71% dos votos.

    Desta forma, Sanders reúne duas características muito importantes: uma ampla trajetória e larga experiência na administração pública, além de uma incondicional luta pelos direitos das minorias. Sua visão de economia também é bastante diferente da dos demais candidatos. Ele não defende uma forma de liberalismo, mas a de ver nos países nórdicos um possível horizonte. Assim, propõe que os mais ricos paguem mais impostos e que o Estado seja provedor de melhores e universais serviços públicos, como saúde, educação, etc.

    Bernie Sanders é um candidato de esquerda?

    Não há dúvida de que Sanders é o candidato mais à esquerda que os Estados Unidos tiveram na sua história recente. Ao menos com chances reais de vitória. No entanto, o seu radicalismo político está longe da esquerda radical europeia ou latino-americana. Sua visão de transformação está mais próxima a uma humanização do sistema econômico, através de garantias de direitos universais através do Estado

    Se Sanders vai superar Clinton ainda é cedo para saber. Nas últimas pesquisas ele já aparece muito bem posicionado. Mesmo diante dos possíveis candidatos Republicanos, o que tem aumentado significativamente as suas chances de vitória nas primárias.

    Analisando o conjunto, o comportamento do eleitorado americano, ao que parece, está buscando, por um lado ou pelo outro, um candidato fora do status quo da política atual. Assim, o esperado e quase dado como certo, embate entre em os clãs Clinton e Bush está ficando para trás.

    E nós?

    O que é surpreendente, ou nem tanto, é que a mídia brasileira esteja dando tamanho espaço para Donald Trump. Ela nem mesmo olhe para as outras possibilidades. Ela parece preferir alguém que seja machista, anti-imigrantes, liberal e veja todo o resto do mundo como uma ameaça. Talvez a mídia brasileira veja no candidato midiático seu próprio reflexo e desejo. Por sorte a sociedade americana é bem mais complexa do que os jogos televisivos de humilhação coletiva.

  • Crônica de Um País Alpino

    Crônica de Um País Alpino

    Crônica escrita em 2010.

    Em um dia frio em Kaunas entrei no trem para ir a Vilnius. Mais um dia de trabalho! O Arquivo histórico do antigo Partido Comunista me esperava e eu por ele. Ainda com sono, completamente descolado no fuso horário, me atirei na poltrona nova do trem rápido. Rápido era só o nome da linha e não tem relação com a real velocidade do treco. Olhei pela janela. Gelo no chão. Arvores peladas. Passarinhos escondidos.

    Unknown

    Na poltrona, do outro lado do corredor, uma menina com mala e mochila virava e revirava um monte de mapas e livretos. Me olhou! Olhou para o mapa! Percebeu que eu era estrangeiro? Com certeza.

    Me olhou novamente e chegou perto. Com um inglês cheio de RRRRRRR e SSSSSS, me perguntou alguma coisa sobre um lugar que eu não tinha a menor ideia de onde ficava. Depois perguntou sobre outro lugar que consegui localizar no mapa. Ela queria ir para a cidade velha em Vilnius, um hostel. Problema resolvido com os mapas. Ficou ali sentada do meu lado. Silêncio constrangedor. Para puxar um papo, fiz aquela pergunta muito útil: de onde você é?

    – Da Eslovênia – me respondeu tirando a franja e arregalando os seus enormes olhos azuis que contrasta com sua pele branca e a sobrancelha negras como seus cabelos longos – Conhece?

    – Não… Nunca fui aos Balcãs…

    – Balcãs? No!!! No, Eslovênia não fica nos Balcãs – me olhou feio. Quase indignada

    – Ahhhhhh. Não?

    – Não! Fica nos Alpes. É um país Alpino!

    Putz ! Além de ignorante me senti velho. Estudei geografia no final da Guerra Fria. Em um tempo em que tudo o que ficava para lá de Berlim era Leste Europeu. Agora o Leste Europeu acabou. Ninguém mais quer ser do Leste. Assim como não querem ser mais Balcãs.

    Os países andam inventando a sua própria geografia para se reinventar no Ocidente. Quanto mais no Ocidente melhor. Ocidente é… Digamos, União Européia. Para os eslovenos, que foram um dos primeiros do “Leste” a serem aceitos na União Européia, é mais interessante inventar uma identificação com a Austria e com a Itália do que com a Sérvia. Viraram Alpino!

    Em Vilnius, você pode ir ao centro da cidade e pedir um diploma autenticado afirmando que você esteve no centro geográfico da Europa. Coisa inútil! Imagina colocar uma coisa dessas na parede da sua casa. A função desse papel é simplesmente afirmar: “não estamos no Leste. Esqueça a União Soviética e aquela geografia”.

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    Crônica de Um País Alpino

    Seja como for, minha ida para Vilnius seguiu silenciosa. A menina voltou para a sua poltrona. Maldita geografia pós-Soviética…

    Para mim, Alpino continua sendo o chocolate duro e doce embrulhado no papel dourado. Assim como o centro da Europa continua sendo Berlim queiram ou não. (isso foi uma ironia!).