A solidão de Sanders é a imagem do fim de uma geração. O Senador se tornou o meme mais compartilhado no dia, e nos dias seguintes, ao da posse do presidente Biden. A fotografia de Bernie Sanders solitário, com frio, sentado tranquilamente, em uma pose que parecia de Yoga. Como os tempos são difíceis estava mascarado, como pede os protocolos de segurança e o bom senso em tempos pandêmicos. A imagem virou a graça da internet que o recortou e colocou nas mais diferentes e risíveis situações. São assim os memes! Mas a solidão de Sanders pode ser bem interpretada como o fim de uma era para esquerda.

Ao longo de toda sua carreira como ativista social e político, Sanders sempre buscou unir duas pontas da política: o socialismo e a democracia. Socialismo entendido como a busca pela igualdade. Democracia compreendida como participação popular, representação e as liberdade civis. As duas pontas se uniam na ideia de que é possível, dentro do jogo democrático norte americano, formar uma sociedade livre e igualitária. Ou ao menos, mais livre e mais igualitária do que a atual. (Sobre as ideias de Sanders)

Sanders e a Defesa do Socialismo Democrático.

Sanders veio de uma geração talhada pelas dificuldades do pós-segunda guerra mundial. Como um judeu do Brooklyn passou pelas dificuldades de um trabalhador e as discriminações (antissemitismo) que ainda eram recorrentes. Aproveitou as oportunidades do crescimento econômico das décadas de 1950, 1960 e 1970 para se formar intelectualmente. Ao mesmo tempo, viu a desigualdade em um país racista. A luta dos negros pelos direitos civis e a luta contra as intervenções militares e pela paz marcaram os seus anos de formação. Ele se uniu a elas e foi preso.

A luta de Sanders estava pautada na visão que se formou naqueles anos. Mais tarde, como governador e Senador as colocou em prática. Votou, e foi um dos poucos, contra a guerra no Iraque, contrariando os líderes de seu partido. Lutou por um sistema de saúde público, pelos direitos das mulheres, negros e latinos. Por sua postura foi ridicularizado, até mesmo por Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e por Kamala Harris, a primeira mulher negra, latina e asiática, a ser vice-presidente.

A solidão de Sanders, na posse, contrasta com as praças que lotou em 2015 e 2016, com multidões que o seguia entusiasmada. Ainda assim, ele foi derrotado por Hilary Clinton, a burocracia do Partido Democrático e o status quo liberal. A história nós sabemos. Ele caiu fora. Clinton foi derrotada. Anos de desastre se seguiram com Trump.

A esperança reacendeu! Novamente, Sanders poderia derrotar todos os pré-candidatos Democratas, mas o partido se uniu contra ele. Coisas terríveis e mentirosas foram espalhadas. Ele venceu prévias, mas a pandemia… A pandemia mudou o jogo! O Partido se uniu e Biden, vice de Obama foi o escolhido. Acabava ali a última oportunidade de uma geração de socialistas democratas chegar ao poder. (Sobre Sanders e o status quo Democrata)

O fim? O Destino de Sanders e Corbyn…

Quase ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, na Inglaterra, Jeremy Corbyn, foi derrotado por seu próprio partido. Em comum, os dois, acreditavam que era possível, aos poucos, dentro do sistema, levar a ideia de igualdade e democracia adiante… Não conseguiram! Com a suas derrotas foram derrotadas também toda uma geração de lutadores sociais. Sanders, como Corbyn, estão solitários e mais longe do poder.

A sorte é que talvez eles já tenham inspirado uma nova geração. Na foto, Sanders está só, mas é só na fotografia! Com ele, há uma multidão de jovens já lutando com os mesmos ideais e que não esqueceram da luta, da coerência e dos discursos dele. Ele saiu da disputa pela presidência, tornou uma inspiração.