O Primeiro de Maio é o dia do Trabalhador e, desde a consolidação do movimento operário, sempre foi uma data de contestação, de reivindicação, de desagravo. O primeiro de Maio era também o dia da esperança! O de olhar para o mundo e pensar: outra sociedade é possível! Uma sociedade mais justa. Nesse dia, dos movimento mais radicas aos reformistas (pelegos) compartilhavam esse sentimento, ainda que em manifestações diferentes. Esse sentimento, que esteve ausente no último Primeiro de Maio.

O dia do trabalhador e o movimento organizado por esses cresceu com o desenvolvimento da forma de produção fordista. Ou seja, os operários organizados e disciplinados em grandes linhas de produção, realizando trabalhos repetitivos, por um salário fixo no fim do mês e mais uns poucos direitos trabalhistas. O sonho do operário era melhorar as condições ou superá-la, se libertando ou garantindo a sua sobrevivência digna, nessa sociedade ou em outra.

É bem verdade, que o trabalhador fabril nunca chegou a ser total, ou mesmo a maioria, mas ele era o paradigma do trabalhador. E mesmo aqueles em situação mais precária, sonhavam ou já tinham passado para por aquela forma de trabalho.

Não Há Alternativa!

Trabalhar na fábricas se libertar das fábricas, dominar as fábricas eram os horizontes de um novo mundo possível. As enriquecidas centrais sindicais, contratavam artistas, sorteavam carros, atraindo massas festivas do Primeiro de Maio, que entre discursos e shows compartilhavam utopias de um mundo melhor.

Essa forma de trabalho fordista foi morrendo com o neoliberalismo. A precariedade, a insegurança, o temporário a incerteza quanto ao futuro se tornaram a realidade. A depressão da disciplina do trabalho fabril foi substituída pela paralisia da ansiedade da incerteza, do provisório do incerto.

A precarização do trabalho foi acompanhada de uma nova ideologia: a do empreendedor. “Você é seu chefe“, “você é responsável pelo seu sucesso” (ou seja pelo seu fracasso também). O que o capitalismo nos diz atualmente é: não importa o que aconteça a culpa é sempre sua.

Em outras palavras: a ideologia do empreendedor tira a transformação social do âmbito social, da ação coletiva transformadora e transmuta em culpa individual de sucesso. Ela apresenta o mundo como sendo eternamente esse e “não há alternativas”, como diria a Dama de Ferro, e também o vocalista da banda de metal, de mesmo nome, em discurso para futuros empresários.

MEU MUNDO! MEU EU!

O mundo passa a ser centrado no EU. Em um EU ilusoriamente livre, que vê qualquer coisa como amarra. Um EU egoísta que vê o outro sempre com medo, como ameaça. Que precisa sempre estar disputando, ganhando, destruindo, um Eu animalesco e competitivo.

Gritam o coach quântico e os pseudo filósofos: “o Mundo é competitivo”; “quem não tem competência não se estabelece”; “acorde ‘as 5“; “trabalhe mais“; “produza mais“; “dormir é para os fracos“; “você está fazendo o possível ou o melhor“.

A ideologia interioriza o antigo relógio de ponto! Para trabalhadores que, agora, trabalham por 24h. Não sabem a diferença entre trabalho e descanso. Trabalham mais do que o limite do humano, bombados por cafeína superconcentrada e cocaína, entre outras substância. Para relaxar tem que ficar bêbados ou drogados, entre ervas e sintéticos. O trabalhador já trabalha mais do que o corpo sóbrio é capaz de aguentar. O trabalhador é extra-humano. Para o individuo extra-humano, a ação coletiva não faz sentido. O Primeiro de Maio, já não faz sentido!

Não Tem Volta!

O Primeiro de Maio só faria sentido, como uma experiência rebelde, mas não foi o que vimos nas manifestações “flopadas”, desse ano.

As manifestações de ontem, do Lula, no Pacaembu. Ele falou para uma geração já envelhecida que sonha com a volta do capitalismo fordista. Spoiler Alert : não tem volta! O capitalismo fordista não vai voltar.

A foice e o martelo foram substituídos por aparelhos que pouco precisam de gente para produzir. As poucas pessoas que trabalham neles não sabem por quanto tempo, não sabem sobre o amanhã, ou pior, acreditam que são empreendedores, em suas plataformas e apps.

A forma de trabalho que formou a utopia da estrela não existe mais. Mimetizar as revoluções do século XX, é produzir uma esperança que olha para trás. Soa tão ultrapassado e sem graça, como aquela banda desafinada rock que mimetiza Led Zeppelin, em pleno século XXI, em videos curtos para o TikTok (tanto faz essa ou essa).

A igualdade pretendida, virou um sonho que só no passado ecoa, mas que cai no vácuo, daqueles que se quer conseguem se reconhecer na identidade de trabalhadores.

O MITO DO BOM SELVAGEM

Restou a esquerda o saudosismo de um mundo que não existe ou ainda distribuir bolo vegano, para discutir política com pronome neutro. Abraçar alguma árvore, em uma busca desesperada de reconciliação utópica e delirante com a natureza. Ou ainda a experiência lisérgica do re-encatamento do mundo.

A reconciliação com a natureza, espécie de re-encantamento do mundo, desde a Revolução Industrial, não é possível. A utopia da reconciliação com a natureza é também fruto do neoliberalismo e da incapacidade de pensar o futuro. É olhar para trás, buscando um passado utópico, no mito do bom selvagem. Uma solução que não existe.

No desespero da ausência de projeto e perspectiva, a esquerda discursa na defesa do Estado de Direito burguês, justamente aquele que a Revolução pretendia superar para estabelecer, mais liberdade, igualdade, democracia radical em um mundo socialista.

A defesa do Estado de Direito, das instituições, antes vistas como autoritárias, viraram a única forma em meio ao desespero de ainda tentar garantir alguma civilidade, diante da ameaça da vitória definitiva da barbárie.

E por falar em barbárie…

Já nas manifestações do Bozo, vemos uns tios que sonham com a ditadura. Sonhando com o passado, quando ficavam com o pau duro mais rápido e com o capitalismo, que ainda precisava de gente para produzir. Spoiler alert: não tem volta!

Nem para o fordismo, e nem para a meia bomba. O melzinho misturado com algum tipo de viagra, que, no máximo, produzirá taquicardia, meia bomba e depressão ao despertar. Talvez por isso, esse sentimento de ressentimento diante das bundas de Anittas e Sonsas, compensados com pseudo moralismo e culto ao hard rock, em inglês. Não deve ser fácil viver assombrado pelo pesadelo homofônico de acordar duro depois de ter sonhando com a Pablo.

A classe média, com sua “tendência fascista” (já alertava Florestan Fernandes, nos anos 1950!!!), é saudosista de um mundo fordista, cuja exploração, e a maior desigualdade do mundo, lhes proporcionou, um mundo de confortos e luxos, passado no cartão de crédito e no boleto. Até a camiseta da amarelinha seleção ou é falsa ou está parcelada.

Pânico Moral e Gritaria.

A manifestação, simbolicamente fascista, é a manifestação de um não futuro. É uma utopia que olha para trás. Ela reivindica uma posição de elite, da qual, a única coisa que sobrou, foi a violência, com a qual tratam o outro. A violência da discriminação e do sentimento de superioridade que seus antepassados cultivaram, em sobrenomes europeizados.

Ao fascismo atual, resta o pânico moral e a luta contra um fantasma comunista, que envelheceu junto com ele e não mais assusta o capital. Gritam pelo individualismo egocêntrico que confundem com liberdade. Falam sobre as suas conquistas e vão dormir no imóvel, que receberam de herança. Como crianças mimadas são rebeldes sem sair de casa.

Odeiam os tribunais de justiça ou qualquer institucionalidade, mas admiram o cassetete do policial. Para eles, a justiça é um super-herói vingativo, como um batman emo, triste, violento e depressivo, ressentido e incapaz de superar o passado. Mascarado e agressivo impõe a sua ordem ao mundo.

Sonham com o autoritarismo do Estado e sua violência. Sonham em dar porrada e meter bala no mais fraco, no despossuído, em quem é diferente. Em exercer o sadomasoquismo social que o único que lhes resta do seu passado de elite. Querem estar armados não para se defenderem de um inimigo ou perigo real. Querem estar armados para covardemente poder se impor ao outro, ao mais fragilizado.

É sobre o Futuro! Seu Imbecil…

O Primeiro de Maio de 2022 foi o Primeiro de Maio do não futuro!

E se há algo de esperança a ser dito é que se não existe mais futuro, então tudo é possível…

Nos convenceram do fim da história, mas ela persiste em continuar.