• O basquete na Lituânia
  • A história do basquete no Báltico
  • Basquete e o sentimento nacional

O Basquete na Lituânia é mais do que um exporte! É a expressão da identidade nacional. O esporte e o sentimento de comunidade sempre andaram juntos. Em situações sociais ele representar o grupo, tribo, cidade estado, bairro, clube, fábrica. Formar grupos, desenvolver sentimento por ele e enfrentar o oponente está na essência do sentimento de tantos que se movem pela paixão por algum esporte. Na contemporaneidade, o esporte mobilizou, também, os sentimentos nacionais e alguns casos o sentimento de países ou grupos nacionais para os quais o direito a um Estado foi negado.


Esse era o caso do basquete na Lituânia durante o período em que esteve ocupada pela União Soviética. Jogadores e times moveram os mais profundos sentimentos nacionais com as suas vitórias, fazendo lembrar um tempo em que a Lituânia era livre e podia ser representada com a sua seleção nacional.


Quando a Lituânia conquistou novamente a sua independência, a seleção Lituânia pode disputar um jogo internacional carregando a sua bandeira. A explosão de sentimentos nacionais com o terceiro lugar em Barcelona em 1992 deu uma mostra de um sentimento que por décadas estava reprimido.
Para entendermos um pouco da paixão dos lituanos pelo basquete vamos aqui recuperar alguns aspectos da história deste esporte naquele país. Focaremos neste texto na seleção nacional e suas rivalidades e deixaremos para um próximo a história dos clubes e como esses se desenvolveram e a biografia dos jogadores.


A história do basquete lituano é muito significativa, pois o país é uma potência no esporte, mesmo com uma população diminuta. Se fizéssemos uma analogia, a Lituânia representa para o basquete mundial o que o Uruguai representa para o futebol. São pequenas potências! Entender o que a Lituânia significa para o basquete é aprender sobre a própria história do basquete.

O basquete na Lituânia as primeiras cestas na independente.

A história do basquete na Lituânia tem início com a primeira independência do país, em 1918, como um desdobramento da Primeira Guerra Mundial (1914 -1918) e o fim do Império Russo (1917). Já na década seguinte o esporte começou a se consolidou como prática nacional e se tornou vitorioso na década de 1930. Inicialmente, os lituanos jogavam uma variação do chamado netball que é jogado com uma bola menor e sem a tabela atrás da cesta. O esporte era praticado pelos alemães que ocuparam a região durante a Primeira Guerra Mundial. Os primeiros times formados no país eram femininos e foi naquele momento considerado um “jogo de mulheres”, já que não envolvia contato físico, como nas lutas.


Na década de 1920, o basquete masculino, já com as regras parecidas com as atuais, começou a ser praticado pelos homens e o primeiro jogo oficial na Lituânia ocorreu em 1922. Embora tenha atraído a atenção e fosse jogado regularmente, o basquete profissional não prosperou rapidamente, pois perdia em popularidade para o futebol.


O ponto de virada se deu em 1935. Naquele ano, ocorreu o Congresso Mundial dos Lituanos na então capital Kaunas, com o objetivo de reunir representantes das organizações dos emigrados lituanos. Para o congresso, a Comunidade Lituana de Chicago enviou diversos atletas incluindo um time de basquete com jovens jogadores que despontavam nos campeonatos do College. Com os jogos e demonstrações, o interesse dos lituanos pelo esporte começou a crescer. Os americanos-lituanos Juozas Žukas e Konstantinas Savickas decidiram permanecer na Lituânia para jogar e treinar os times do país.

As Primeira Vitórias


Em 1936, a Lituânia entrou para a FIBA e começou a disputar os seus campeonatos sofrendo grandes derrotas sobretudo para a Letônia, o seu maior rival. Os letões bateram os lituanos por placares como 123 a 10 e 31 a 10. Essas derrotas acabaram por produzir grandes mudanças no basquete lituano. A primeira delas foi não participar da Olimpíadas de Berlim em 1936, o primeiro ano em que o basquete se tornou um esporte olímpico.


Na Letônia, o basquete também começou a se desenvolver na década de 1920 e com maior sucesso do que na Lituânia. Durante as décadas de 1920 e 1930, a Letônia teve um time com muitas vitórias no cenário internacional. A Federação Letã de Basquete foi fundada em 26 de novembro de 1923.


Em 1932, foi uma das fundadoras da FIBA (Federação Internacional de Basquetebol), junto com a Suíça, Tchecoslováquia, Grécia, Itália, Portugal e Argentina. O primeiro campeonato nacional masculino foi disputado em 1924 e o feminino em 1933. Assim como na Lituânia, o desenvolvimento do basquete se deu em conexão com os Estados Unidos, pois os primeiros treinadores eram da YMCA (Young Men’s Christian Association) dos Estados Unidos.

Seleção de Basquete Lituana, 1937


A Letônia venceu o primeiro Campeonato Europeu de basquete em 1935 organizado pela FIBA. Como campeã, Riga sediou o campeonato europeu seguinte. Embora fosse a favorita nas Olímpiadas de Berlim, o time não conseguiu chegar às finais. O representante do Báltico que mais avançou foi a Estônia que competia internacionalmente pela primeira vez.


Para disputar o torneio em Riga, o time lituano decidiu não contar com jogadores “americanos”, mas uma publicação na Letônia criticando o time lituano e o colocando como o pior do torneio fez com que os lituanos mudassem de ideia. Dois jogadores foram trazidos para a Lituânia: Pranas Talzūnas e Feliksas Kriaučiūnas, o último foi designado também como técnico. A manobra junto com a intensa preparação deu certo e a Lituânia venceu pela primeira vez um título europeu batendo a Itália na final.

Como vencedora, a Lituânia organizou o torneio em Kaunas e para ele contou com jogadores descendentes de lituanos nascidos nos Estados Unidos o que gerou protestos por parte das demais delegações. A Lituânia venceu o segundo torneio derrotando a Letônia na final e o basquete se tornou o esporte nacional.


O sonho dos lituanos era o de vencer a Olimpíadas de 1940, mas a Segunda Guerra Mundial e a invasão do país pela União Soviética adiaram esse sonho. Um sonho que só foi retomado com a segunda independência, em 1991.

O Basquete na Lituânia: De Volta ao Jogo!

As Olimpíadas de Barcelona foram um momento marcante para a história dos países bálticos. Depois de quarenta anos, eles voltavam a disputar uma Olimpíada carregando as suas próprias bandeiras.


Ao contrário dos demais países que faziam parte da União Soviética, Estônia, Letônia e Lituânia se recusaram a integrar a CEI (Comunidade dos Estados Independentes). As suas delegações não eram grandes, mas eram representativas de um sentimento nacional e de uma esperança de independência que por décadas foram suprimidas.


Entre as atrações principais dos países bálticos estava a seleção de basquete da Lituânia. Seus principais jogadores, Arvydas Sabonis e Sarunas Marciulionis, lideraram o melhor time da União Soviética, campeão da Olimpíadas de Seul. Agora, o time soviético estava dividido, mas as suas estrelas principais comandavam a Lituânia. A Lituâniavenceu todos os seus jogos até enfrentar os Estados Unidos nas semifinais, quando perdeu de 127 a 76. Para entendermos o que aconteceu naquele jogo temos que voltar um pouco no tempo e recuperar uma história que também envolve o basquete brasileiro.


Os Estados Unidos vinham de duas derrotas humilhantes no basquete. Em1988, na Olimpíadas de Seul, eles perderam nas semifinais para a União Soviética. Um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil liderado por Oscar e Pipoca. Além do talento dos jogadores que venceram os Estados Unidos, outra questão importante que explica essas duas derrotas foi a mudança no sistema de pontuação.


A FIBA introduziu a cesta de três pontos, enquanto os campeonatos nos Estados Unidos mantiveram o sistema de pontuação antigo. Como resultado, das duas derrotas, mudanças foram realizadas no basquete americano. Eles passaram a incluir a cesta de três pontos no College e na NBA (National Basketball Association). Pressionaram o comitê olímpico para aceitar a inscrição dos jogadores da NBA no time olímpico. Em resumo, Brasil e os jogadores lituanos atuando pela União Soviética mudaram a história do basquetebol.

O Outro “Dream Team” De Volta ao Pódio

Em 1992, a Lituânia passava por enormes dificuldades financeiras e o recurso para levar o time para Barcelona eram poucos. O drama dos lituanos se espalhou pelo mundo. Comovidos, a banda de rock americana Grateful Dead resolveu financiar as passagens de todo o time lituano para as Olimpíadas.


Para Barcelona, os americanos formaram o chamado “time dos sonhos”, Dream Team, com Michel Jordan, Magic Johnson e Larry Bird. Para muitos especialistas, este foi o melhor time de basquete de todos os tempos. A superioridade era tão grande que a audiência dos jogos se dava pelos astros, pelo show, para saber quem perderia por menos pontos ou qual jogador americano faria mais cestas. Com esse time os EUA derrotaram a Lituânia na semifinal.

Time Lituano, Barcelona, 1992.


Para completar a história, a disputa da medalha de bronze foi conquistada contra a CEI, sendo muitos jogadores ex-companheiros de seleção e de clubes. Não importava em que lugar ficasse a bandeira nacional. Os hinos da Estônia, Letônia e Lituânia, proibidos até dois anos antes, foram tocados e os jogadores subiam ao pódio também para celebrar as independências nacionais.


O terceiro lugar não deixou nenhum lituano triste. Ver a bandeira no pódio, a sua camiseta e a suas cores foi de uma alegria enorme para os lituanos e seus descendentes. Outro aspecto que chamou a atenção foi a camiseta utilizada no pódio.


O artista psicodélico americano Greg Speirs presenteou o time com uma camiseta com uma caveira “enterrando” uma bola entre raios coloridos com as cores da bandeira da Lituânia. A arte foi adotada como um símbolo do basquete lituano e foi a camiseta mais vendida na Olimpíadas seguinte disputada em Atlanta nos EUA.

Sugestão sobre o basquete na Lituânia

O Documentário The Other Dream Team (2012) do diretor Marius Markevicius de 2012 é uma excelente obre sobre o time lituano na Olimpíada de Barcelona. Vale investir, mesmo se você não encontrar uma versão em português.