Sempre me chamou a atenção os tios da classe média /alta que para se sentirem homens compram motos caras e se fantasiam de gangue americana de motociclistas, dos anos 1960 e 1970. Um movimento de senhores bem de vida do terceiro mundo que mimetizam, nos fins de semana, os marginalizados do primeiro mundo. Nos dias atuais, o que era apenas um movimento engraçado de senhores, se tornou manifestação política que solta, pelo escapamento, a fumaça do fascismo bananeiro.

Os senhores de meia idade da classe média copiam os Hell’s Angels, descritos no lindo livro do Hunter Thompson ou no filme Easy Rider (Sem Destino) com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson. Nos dois casos, a história é de gente marginalizada e que só se fode! São os losers que para se sentirem bem fingem uma liberdade em um sistema no qual fracassaram, ou não tiveram espaço para ser coisa melhor.

Looking for adventure

As histórias de gangues de moto são sempre histórias de fracasso e terminam de forma trágica, como na série Sons of Anarchy, (Treiler), simplesmente porque não há para onde ir. Não há um destino ou ponto de chegada, resta vagar de moto pela própria miséria romantizada em liberdade, em estradas que ligam o nada a lugar nenhum, como a Route 66.

A Route 66, vai dos lagos de Chicago até o mar em Los Angeles. Ela foi pensada e construída na década de 1920, embora a sua utilidade prática tenha sido contestada. Na década de 1930, durante a recessão, causada pela crise de 1929, a estrada serviu como rota de agricultores arruinados e desempregados da região industrial de Chicago. Como desesperados ou como aventureiros, eles procuraram por algum trabalho na terra prometida da California.

Trabalhadores pobres e famintos, explorados no seu limite. Gente arruinada, que muitas vezes viviam em acampamentos, pela estrada. Essa tragédia, do período da depressão, foi registrada no filme The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira), de 1939. (Ver trecho) Entre 1960 e 1970, inspirou aventureiros, gente sem rumo, justamente pelo seu vazio e abandono. Na década de 1980, a estrada já era, na sua grande parte, inútil.

Loser!

A Route 66 se tornou a imagem de aventureiros de moto passando por lugares secos e desertos. Gente que sonhava com Steppenwolf gritando: “Get your motor runnin’/ Head out on the highway / Looking for adventure / in whatever comes our way” (música).

A aventura na estrada era andar sem rumo. Correr em meio ao nada, esperando alguma coisa acontecer. Em meio ao vazio de perspectiva, restava algum bromance, único relacionamento possível, entre motoqueiros marginalizados, e atos fora da lei para pagar as contas.

Trocando em miúdos: os aventureiros da estrada eram losers tentando se sentir livre, esperando que algo acontecesse em suas vidas, mas nas suas vidas marginalizadas, não havia nada para acontecer, ou forma de mud

Hoje, é possível pagar fortunas para “aventuras” assistidas na Route 66. Ao longo do caminho, vale visitar os vários museus, que são a pouca fonte de receita de cidades falidas e arruinadas, no meio da América redneck (caipira). Pode cultivar o saudosismo de um passado de miséria, porém idealizado em liberdade, para escapar da miséria atual. Afinal, na miséria do passado, havia esperança no futuro. Já, na miséria atual, não há futuro a ser imaginado.

Frangos e Assados

Nas caras motos no terceiro mundo, os cidadãos de bem imitam os marginalizados do passado, vagando em jornadas reunidas nos fins de semana, entre o Graal e o Frango Assado. Ouvem músicas de três décadas passadas para se sentirem jovens, malvados e joviais, em jaquetas de couro baixo aos 30 graus.

Constroem um culto a virilidade e a testosterona para diminuírem a frustração de homens amedrontados, por um mundo que já não é mais feito por e para eles. “A minha música, a minha moto, a minha geração, a minha ditadura…” Tudo aquilo que já foi, e que, hoje, é apenas saudosismo de uma era de ouro que nunca existiu.

A frustração, o ressentimento e o medo de um mundo que não é mais feito a sua imagem e semelhança, é característico daqueles que apoiaram o fascismo bananeiro. Em meio a esse sentimentos confusos, buscam por um guia messiânico: forte, autoritário, potente, enfim, um macho provedor e, se possível for, um ditador.

Moto e Política.

O movimento político com motos, não é original. O ditador fascista italiano, Mussolini, também usou a imagem do motoqueiro, passeando com a sua gangue, como propaganda. No entanto, Mussolini tinha a intenção de passar a imagem de moderno e de promover a indústria automobilística italiana.

O fascismo italiano tinha um olho no futuro. Já, no terceiro mundo, o ato é apenas arcaísmo e fora do seu tempo e lugar. A indústria automobilística nacional está em rápida decadência, correndo risco de desaparecer. Em suma, aqui se imitam os gestos e imagens em essências vazias e fora de lugar.

As motos grandes e caras são importadas. Já as baratas é de se perguntar: quem paga pelos pedágios e pelo combustível? As motos, já não representam o futuro ou a modernidade, desejada por Mussolini. Ao contrário, hoje elas são o símbolo dos arcaicos e fumacentos motores a pistão, em uma era na qual já se busca pela limpeza ambiental dos motores elétricos.

Messias Bananeiro de Moto

O arcaísmo aqui ainda ganha o apoio de uma forma peculiar de cristianismo empresarial: a teologia da prosperidade. Uma receita perigosa que mistura cristianismo, o cruel e egotista anarcocapitalismo, com pitadas de pseudo empreendedorismo de coach de auto-ajuda.

O resultado, dessa mistura, é um movimento pseudo econômico, pseudo capitalista, pseudo religioso que angaria o desespero de um povo abandonado na sua própria miséria e o convence a promover a indiferença a dor humana.

O ato, além de político, é religioso e é negócio. O negócio de uma seita fanática e irracional de homens frustrados mimetizando um mundo que nunca viveram ou viverão. O ato chega a ser triste, além de patético. Por vezes, engraçado como uma série, ou um freak show, sobre um messias fanfarão, escrito por algum roteirista ruim.

E? Nada!

Os passeios de moto foram divulgados exaustivamente, como grande gesto político. Após o evento, os números grandiloqüentes foram lançados ao ar. Era fake news! Eis que os números reais foram finalmente divulgados e demonstraram que a marcha sobre Roma, dos camisas negras, ainda não aconteceu. Talvez, pela falta de povo, tenha que ser realizada a partir de gabinetes de velhos burocratas.

Resumindo: as motociatas se converteram em motobroxadas, tanto no seu propósito, quanto no seu simbolismo. Os cultuadores da testosterona passadista, falharam de moto. Restará a esses motorizados de meia idade, continuar buscando por aventura em suas gangues domingueiras, organizando jornadas partindo do Frango Assado em busca do Graal, na esperança de algum outro messias ditatorial.