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?… Que pasó en los 70?

Montoneros, Una Historia?Que pasó en los 70? Essa pergunta incômoda de uma filha para a mãe abre espaço em uma memória até então silenciada e que hoje clama e celebra diante da verdade, do castigo e da justiça que o Estado argentino corajosamente tem levado à frente. Ela, uma ex-militante do movimento armado peronista chamado de Montoneros, que sobreviveu ao terrorismo de Estado.

A história dos anos 1970, politicamente dura e, sem meias palavras, é narrada em suas minúcias, nos seus detalhes pessoais e emotivos, de quem viveu os dilemas do movimento armado, foi jogada na ESMA e saiu viva. Algo a ser notado, a dor dos sobreviventes, a pergunta que martela e continua a torturar: Por que meus companheiros morreram e eu sobrevivi?

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O sobrevivente do terror carrega a sua dor. Leva sobre ele, muitas vezes, o olhar da desconfiança …Ele (a) colaborou? É um herói, um traidor? Por isso o soltaram? A dor é para os que ficaram também. Como fechar essa cicatriz? Como curar um trauma. Não temos uma resposta, mas explicitar as ansiedades dúvidas e medos. Colocar a público a dor parece até o momento ter sido a melhor forma.

A ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada) foi, sem dúvida, o que mais próximo existiu dos campos de extermínio nazistas. Ali, o preso perdia sua identidade, sendo-lhe atribuído um número. As torturas eram cotidianas, além das chantagens e extorsões, que foram parte do processo que enriqueceram muitos dos repressores.

Montoneros, sobreviver ao Terror na ESMA

Na ESMA eram jogadas as mulheres grávidas que, em condições muito precárias, viam seus filhos nascer e desaparecer. Uma quantidade ainda incerta de presos recebeu o último tratamento: a injeção com calmantes que tinha como objetivo “apagá-los” para que fossem transportados até o Aeroporto próximo e dali arremessados ao mar e no Rio Plata para desaparecerem em suas águas.

Emilio Eduardo Massera, o comandante do ESMA, que tinha amplas pretensões de poder, como a de se tornar presidente, implantou um esquema de tortura, morte e extorsão que deixou cicatrizes profundas na sociedade Argentina. Em meio a sua loucura e ambição foi implementado na ESMA um processo de “reabilitação” de presos.

Estes eram conduzidos por militares escolhidos para serem reintroduzidos à sociedade, desde que estivessem recuperados de suas aspirações montoneras. Não sabemos muito sobre esse processo. Sabemos que a maioria foi assassinada da mesma forma. Daí a narração proposta no documentário ser ainda mais importante.

Para entender a repressão nos anos 70

Não se trata de mera descrição. As questões políticas se misturam com o lado mais íntimo da vida, o que explicita a violência da ditadura. Temos assim uma mulher militante, esposa e mãe, que passou pela tortura, pela violação, pela desconfiança de seus companheiros de armas e até mesmo de seu marido que é um dos desaparecido políticos.

Além do roteiro e depoimento, destaco o trabalho de pesquisa histórica. Uma pesquisa histórica que respeita a história e não a trata como coisa fútil (quando nós aprenderemos a fazer isso?) É um filme longo e detalhista, por isso, forte e indispensável para quem quiser saber “…que pasó en los 70” e NÃO gosta de documentário político e histórico que parecem com vídeo clipes da MTV, nos quais o editor parece querer ser o personagem principal e não o entrevistado ou a história. Aqui um exemplo de documentário histórico!

Montoneros, Una Historia, 1994.

  • Dirección: Andrés Di Telle
  • Roteiro: Ricardo Piglia
  • Sobre radicalismo político nos anos 1970 ver também: O Clima no Subterrâneo (Aqui)