Família Godliauskas, Passaporte

A fotografia no passaporte revelam histórias que estão para além dos rostos dos imigrantes. É o caso do passaporte da minha família, Godliauskas. Depois de muitos anos, consegui pela primeira vez ter acesso a um dos passaportes utilizados para família godliauskas, quando imigraram da Lituânia para o Brasil.

Neste passaporte, encontrei diversas referências sobre a trajetória da minha família que até então desconhecia. Entre elas, a data exata da imigração. A datas e locais de saída e chegada. O local da última residência, entre outros detalhes de suas trajetórias.

A fotografia do passaporte, com toda a família, mostrava algo um pouco mais sensível e pessoal: os rostos, as expressões nos olhares, as caras de assustados diante da maquina fotográfica ou do futuro incerto que os esperava em terras distantes.

Como historiador empolgado em investigar, comecei a mostrar a foto para um e para outro. Ao mostrar para uma amiga, ela me perguntou: por que estão todos os membros da família em uma mesma foto de passaporte?

Boa questão!

Fotografia Imigração e História de Gênero.

Eu não tinha muita ideia do que responder na hora. Passando a empolgação e olhando mais cuidadosamente me dei conta de que aquela foto, para um documento oficial, também nos comunica uma história de gênero. Primeiro é preciso notar que o documento é da minha bisavó. No documento está explicitamente escrito: “autorizada a viajar somente acompanhada do marido”.

Na Europa, do início do século XX, em particular na Lituânia, ao se solicitar ao governo um documento cabia ao homem estabelecer se a mulher poderia viajar sozinha ou não!

Por essa razão, as mulheres, não autorizada a viajar sozinhas eram fotografadas junto ao marido nos documentos oficiais. Assim, as autoridades nas fronteiras dos países, nas estações de trem e nos portos deveriam verificar pela foto a identidade dos dois (marido e esposa) antes de autorizar o embarque ou desembarque, a entrada e saída de um país para o outro.

No limite, essa ação do Estado, por meio de sua burocracia, impedia a circulação das mulheres desacompanhadas de seu marido!

Na fotografia está a minha avó, a primeira da esquerda para a direita, e seus irmãos, pois como eram menores de idade, não tinham um passaporte próprio e seus nomes eram colocados no passaporte da mulher. Dessa forma, para se deslocar de um país a outro de forma oficial e regular a família necessariamente teria que estar sempre junta ou seria impedida pelas autoridades estatais.