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O Brasil é um país que deixa os seus doutores (as) sem oportunidade profissional, não valorizando os programas de doutrado. Essa é uma questão de difícil solução, ao menos que haja uma mudança de percepção e mentalidade. Não vou me aprofundar nos motivos neste post, fica para o próximo. Aqui, gostaria de reforçar as características pessoais e profissionais que um doutor pode oferecer em qualquer área que atue.

Conhecimento 

A diferença entre o doutorado e as demais formas de pós-graduação é que nas outras formas de pós-graduação você estuda e se aprofunda em formas de conhecimento consolidado, enquanto no doutorado você produz um novo conhecimento. 

Projeto

Todo doutorado começa com um projeto de pesquisa. Nesse você tem que demonstrar o conhecimento teórico metodológico, hipótese, planejamento para a elaboração da pesquisa dividida em etapas adequadas aos objetivos propostos.

Planejamento 

Planejar e planejar novamente. Desde o projeto e ao longo dos quatro ou cinco anos o planejamento é fundamental. O que fazer em cada etapa. Quais são os objetivos de cada etapa, estratégias para superar dificuldades e crises e adaptação do planejamento são constantes.

Financeiro

Relacionar gasto com resultado. Quando um projeto recebe financiamento público ou privado, o planejamento financeiro é fundamental. Acompanhar e otimizar os gasto é estratégico para não se perder oportunidades e para se conseguir.  

Relatório 

Aprender a seguir normas. Ao longo de uma pesquisa de doutorado é comum produzir relatórios semestrais (em alguns casos anuais). Os relatórios em geral são analisados pelo orientador e pela agência que o financiou. Ele deve ser adequado na justificativa dos trabalhos realizados, os avanços, os próximos passos. 

Avaliação

Perder o medo de ser avaliado. Ao longo do doutorado, o pesquisador fica sob permanente supervisão e avaliação, do orientador, além disso é avaliado pela banca de qualificação (são em geral dois doutores e mais o orientador), banca (quatro doutores mais o orientador). Além disso, deve ser avaliado nos relatórios por pareceristas externos. Quando envia artigos, é avaliado por pareceristas externos e que não conhece. Avaliado para participar de seminários.

Pressão

Pressão por resultado. O doutor deve confirmar ou negar a hipótese em sua tese. Para isso será cobrado de apresentar todos os procedimentos ao longo do processo e o resultado no fim. Além de manter uma adequada produção acadêmica (artigos, livros, congressos). 

Rigor 

Rigor teórico metodológico é o fundamento de um doutorado, sem ele o pesquisador pode ser retirado do processo ou perder a sua tese ainda na etapa da qualificação. 

Apresentação 

Além de defender a sua tese. O pesquisador deve apresentar e defender as suas ideias em diversas apresentações, aulas, congressos, seminários, etc. Organizar uma boa apresentação, ter uma postura adequada nessas é de fundamental importância para o bom desempenho. Isso é algo que se aprende com a experiência.

Convivência

Ao longo do doutorado, é recorrente períodos de estágio em outros países (eu estudei em quatro países). Essa experiência, nos força a aprender a conviver, a respeitar o outro, a observar formas de comportamento, de etiqueta (em sentido amplo), de linguagem, de respeito à diferença e quebra de estereótipos.

Idiomas

Ao longo do meu doutorado tive a oportunidade de viver em quatro países, além de ler artigos acadêmicos em diferentes idiomas. O idioma depende do contexto do seu uso. E certamente eu não usei o mesmo inglês para ler um artigo em Columbia e no apartamento em que eu vivi no Harlem, por exemplo.

Equipe

Embora a tese seja um trabalho individual, é importante ressaltar que ao longo do processo o pesquisador participa de diversas equipes. Do laboratório, dos demais orientandos do orientado, grupo de pesquisa, grupo de estudos, grupos informais de apoio que são fundamentais. Trabalhar em equipe é fundamental para se chegar a um bom trabalho.

Resiliência

Para chegar a um bom resultado, o pesquisador precisa enfrentar dificuldades tanto na vida pessoal, quanto no processo acadêmico sem perder o foco e a busca pelo resultado. Além de problemas de financiamento, de tempo, afinal, o doutorando não tem férias, fim de semana, ele é doutorando em tempo integral por quatro ou cinco anos. 

Por isso…

O Brasil tem poucos doutores, se contrastados ao total da população. A convivência com doutores em ambientes que não seja o estritamente acadêmico ainda é difícil de ser encontrado. Um doutor na sua equipe não está disponibilizando apenas o resultado da sua pesquisa, mas toda a experiência que acumulou para alcançá-lo.

Eu tive oportunidade de publicar o meu doutorado, caso queira conhecer as minhas publicações. Aqui