Ela chegou em casa toda atrapalhada. Quase foi rejeita, porque era estranha! Ela insistiu e ficou. Estávamos em dúvida se ela estava doente. Chegou junto com outra gata que também apareceu do nada e entrou no quarto sem pedir licença.

– Vamos adotar dois gatos?

– São gatas!

Ela estava com olhos opacos, tipo de peixe morto. Um pelo duro e cinza. As patas eram curtas para o seu corpo. Era toda desproporcional. A ponta do rabo era torto para direita. Tinha quebrado e cicatrizado assim mesmo.

– Que bicho mais esquisito esse que chegou aqui. Ela deve estar doente. Não é normal.

Era arisca. Não parava no lugar. Batia nos outros gatos. Dormia profundo cansada. Tinha uma cicatriz na barriga. Ainda levava alguns esparadrapos pelo corpo.

Conseguimos um veterinário para atende-la. O exame durou pouco. Era nova, mas já tinha dado cria. Estava operada e castrada.

– As patas não se desenvolveram porque ela deve ter ficada presa muito tempo – explicou o veterinário – Essa gata deve ser de algum veterinário ou de pet. Devem ter usado ela para dar cria ou para tirar o sangue e outras coisas. Está desnutrida, mas não está doente. Pelo que passou… Até que está bem!

Ela foi ficando em casa! A adotamos. Tentamos dar vários nomes, mas o único que ela e nós nos habituamos foi Rabetinha. Era a nossa pequena do rabo torto.

O pelo cresceu, ficou macio e ganhou várias tonalidades, com o tempo. Os olhos ficaram vivos ressaltando o esverdeado. Ainda continuava arisca, principalmente com os outros animais da casa.

Aos poucos se tornou a companheira que nunca nos deixava ou desaparecia, como é o normal dos outros gatos. Batia nos cachorros quando latiam de mais e atrapalhavam o seu sono. Comia qualquer coisa a qualquer hora. Era um bicho sem frescura.

Dormia do lado de um ou do outro nos cantos da cama ou do sofá. Quando escutava barulho corria para ver o que era. Normalmente era a primeira a chagar.

Comeu um passarinho. Matou as baratas. Perseguiu os outros insetos. Encarou uma cobra no jardim, mas foi salva antes da luta final.

Passaram 13 anos!

Quando me machuquei e fiquei de cama, vinha na parte da tarde me visitar. Deveria achar estranho eu deitado e por tanto tempo em casa. Chegava pela janela, vasculhava o quarto, subia na cama. Me encarava para ver se ela poderia ficar ali ou não. Eu a chamava. Subia na minha barrica. Aproximava o focinho do meu nariz. Nariz frio ela tinha. Dormia do meu lado e de noite saia para jantar. Voltava no dia seguinte.

O tempo passa. A vida tem o seu ciclo. Rabetinha foi diminuindo o ritmo e perdeu alguns hábitos. Seu corpo foi se soltando até parecer uma bonequinha de pano.

Um dia se aproximou da cama. Lentamente. Tinha algo errado com ela. Ela deitou no seu lugar de cochilo. Fechou os olhos e já não mais acordou.