Categoria: História

  • Putin e a Esquerda: Tirando o Urso da Sala

    Putin e a Esquerda: Tirando o Urso da Sala

    Nos últimos dias, com a invasão da Ucrânia ordenada por Putin, uma série de debates tem ocorrido pela mídia e pelas redes sociais. Nelas, influenciadores da esquerda tem diretamente defendido a Putin, ou usando um frágil “doisladismos”, para criticar a Otan e Putin, ao mesmo tempo. Em meio a guerra, Putin se tornou um urso na sala. Como isso pode ter acontecido?

    No final da década de 1990 e início de 2000, o desespero com o avanço do neoliberalismo chegava ao desespero. O Brasil fez a maior dívida da história do capitalismo (até então) para não quebrar, a Argentina quebrou! 

    Tínhamos medo de mais um governo neoliberal, da ALCA, quem não gritou “Alcaralho” com o FMI, não era gente! A ideia de um mercado único é devastador para as economias da A.L era uma ameaça e sentíamos o seu efeito devastador. 

    Com isso, a esquerda se aliou a qualquer coisa que se opusesse ao neoliberalismo. Foi assim que a esquerda se aproximou do militar Chávez, dos Kirchners, da China e de Putin e esse PT (meia bomba) da Carta ao povo Brasileiro. 

    Era a ideia de um movimento contra hegemônico, absolutamente necessário. Fechamos os olhos para os defeitos e problemas como uma aliança  contra uma desgraça que era (é) cotidiana. E não estava errado! Aqui não é exercício de meia culpa. Era o que tinha que ser feito e pronto! 

    O problema é que a história não fica parada e logo os defeitos, para os quais fechamos os olhos, porque já estavam lá, nos jogaram no pesadelo que vivemos. Uma China dominante, uma ditadura do Maduro, o personalismo e fracionamos do Peronismo, um Putin autoritário, homofóbico, expansionista. Agora temos que fazer a pergunta preferida da direta: E o PT hein?

    Bom, depois de três mandatos e poucos, com todas as políticas sociais e um momento de crescimento econômico, o PT não foi capaz de superar a lógica neoliberal. Ele foi uma espécie de tampa de bueiro. Quando tiraram a tampa, a sujeira e as baratas saíram para festa. Enfim, o PT continua meia bomba, agora propõem voltar ao poder com Alckmin e tudo…

    Daí temos duas possibilidades: brigar e fechar os olhos com o que está na nossa cara ou entender o processo e pensar outros caminhos. Esses caminhos podem demorar para aparecer, por agora seguimos tentando evitar o pior. Nesta busca por tentar evitar o pior, deveríamos ter aprendido as lições do começo do século e não pretender defender o indefensável.

  • Os lituanos na Guerra Civil Espanhola

    Os lituanos na Guerra Civil Espanhola

    Os lituanos na Guerra Civil Espanhola lutaram contra o fascismo . Em julho de 1936, a Espanha entrou em Guerra Civil, quando o General Franco articulou um golpe de Estado derrubando o governo democraticamente eleito, dando início a uma ditadura. Os republicanos resistiram e, junto com as forças de esquerda, reunindo os anarquistas e comunistas, passaram a enfrentar o ditador.

    O ditador Franco buscou ajuda militar na Alemanha nazista e na Itália fascista. Os ditadores enviaram tropas “voluntárias”, assim como forneceram aviões e submarinos reforçando as forças franquistas. A ajuda militar resultou em tragédia, como o bombardeio da cidade de Guernica e Madrid.

    Do lado Republicano, a ajuda internacional também foi grande. Os movimentos antifascistas prestaram solidariedade aos combatentes republicanos. Em diversos países do mundo, notadamente na América Latina como na Argentina e em Cuba, voluntários foram mobilizadas. Desta solidariedade, grupos de esquerda se dirigiram para a Espanha e se engajaram no conflito.

    Dentre os grupos de esquerda, o mais numeroso foi organizado pelos comunistas, com o apoio da União Soviética e da Internacional Comunista. Os comunistas formaram as chamadas Brigadas Internacionais, em outubro de 1936, que chegaram a contar com quarenta mil membros.

    Os Imigrantes Lituanos na Guerra Civil

    Os imigrantes lituanos na América, que já participavam de organizações antifascistas, pois consideravam como fascista o governo lituano de Antanas Smetona, se engajaram no movimento. Os lituanos começaram a difundir a propaganda pela mobilização antifascista primeiro na América do Norte e posteriormente na América do Sul.

    A mobilização entre os lituanos reuniu voluntários para lutar na Espanha. Da Argentina, vinte e três lituanos foram combater na Espanha. Outros três da América do Sul se juntaram a eles, sendo dois do Uruguai e um do Brasil.

    Entre os lituanos radicados no Brasil, a mobilização foi menor, principalmente porque o Partido Comunista Brasileiro (PCB) estava na ilegalidade devido ao movimento (Intentona) de 1935. Assim, a difusão e mobilização de voluntários era bastante difícil, pois muitos lituanos comunistas estavam nos calabouços de Getúlio Vargas naqueles anos.

    Meu livro

    No meu livro Identidade em Conflito em dediquei um capítulo inteiro a mobilização antifascista dos lituanos na América do Sul. Vale você conhecer essa atuação dos lituanos. Aqui

  • Lituânia, o massacre de janeiro de 1991 (História)

    Lituânia, o massacre de janeiro de 1991 (História)

    Nesse ano de 2021, lembramos os trinta anos da independência da Lituânia e do massacre ocorrido em Vilnius, quando o país lutava pela sua independência, no momento em que a União Soviética entrava em colapso. Para lembrarmos esses eventos, recupero, em parte, uma narrativa que publiquei no livro Báltico, publicado no ano passado.

    É importante lembrarmos que até hoje existem disputas sobre essa narrativa, bancadas por saudosistas da União Soviética e até mesmo (incrivelmente) do genocida Stalin. A propaganda política, nos usos, por seus interesses geopolíticos contemporâneos tem por objetivo esconder e criar versões mentirosas. Assim, recuperamos ainda que brevemente.

    Enquanto o mundo assistia pela televisão à capital do Iraque sendo bombardeada pelos Estados Unidos e seus aliados, na primeira guerra do Golfo, Gorbachev aproveitava o que restava da cortina de ferro para enviar as forças militares para o Báltico. No dia 7 de janeiro, Mikhail Gorbachev e Dmitry Yazov deram ordem para que as Repúblicas Soviéticas fossem ocupadas.

    Entre 8 e 9 de janeiro, unidades militares começaram a chegar à Lituânia, entre elas as tropas antiterroristas, grupos de assalto e divisões que estavam baseadas em Pskov. No dia seguinte, Gorbachev se dirigiu ao Conselho Supremo exigindo a restauração da União Soviética na Lituânia e revogou as leis consideradas anticonstitucionais. Os oficiais lituanos solicitaram que não fossem enviadas mais tropas, mas não receberam resposta. Era o sinal do que começaria a acontecer no dia seguinte.

    O governo lituano recebeu um ultimatum e às 11h50 da manhã, os prédios públicos e a imprensa começaram a ser ocupados por forças militares na capital e nas principais cidades. Aqueles que tentaram resistir foram recebidos a bala e centenas de pessoas ficaram feridas. As tropas também começaram a tomar as estações de trem que ficaram interrompidas por várias horas. Enquanto as tropas se posicionavam em pontos estratégicos, os comunistas fiéis a Moscou, tentavam for- mar um governo paralelo na sede do Partido Comunista. O governo de fato, buscava contato com Moscou para evitar mais violência, mas não teve sucesso.

    Na madrugada, a população começou a circular formando cordões humanos para defender os principais prédios que ainda não haviam sido tomados pelos soviéticos, principalmente a rádio, a televisão, a sede do governo e de telefonia. Na noite do dia 12 para o dia 13, os tanques soviéticos começaram a entrar em Vilnius. Ao se aproxima- rem da torre de televisão, gás lacrimogêneo foi lançado e teve início o confronto. Os soviéticos atiraram e catorze pessoas foram assassina- das, duas foram atropeladas pelos tanques. As duas horas da manhã, os soviéticos tomaram a televisão de assalto. A última imagem que se pode ver da transmissão ao vivo foi a de um soldado na frente da câmera arrastando a jornalista e interrompendo a transmissão.

    Meia hora depois da tomada da televisão em Vilnius. Na cidade de Kaunas, de um pequeno estúdio, que era usado para transmissões daquela cidade, entrou em funcionamento. Eles utilizaram também ondas curtas para transmitir para o mundo sobre os acontecimentos. Uma televisão da Suécia captou os sinais e passou a retransmitir.

    A cortina de ferro da comunicação foi rompida em definitivo. Dos Estados Unidos e de outras partes da América, incluindo do Brasil, as comunidades lituanas no mundo começaram a enviar informações para imprensa de seus países, organizaram protestos, pressionaram para que a informação do confronto na Lituânia pudesse circular. O medo era que protegido pela censura o governo soviético produzisse um massacre nas ruas.

    Com as comunicações re-estabelecidas na Lituânia, a população foi às ruas e barricadas começaram a ser montadas. Colunas humanas protegendo os prédios desafiaram o poder militar soviético. O governo, protegido pela multidão, enviou mensagens para o mundo pedindo apoio. Os apelos foram atendidos pela Noruega que levou a questão à ONU. A Polônia expressou solidariedade e denunciou as ações do exército soviético. Nos dias seguintes, Gorbachev, Dimitry Yazov e Boris Pugo negaram que tivessem dado ordem de usar munição ou a força. Até hoje, na Rússia, tenta-se alimentar alguma controvérsia sobre o acontecimento e ressaltam que um soldado soviético também foi morto no conflito.

    Como as informações se difundiram pelo o ocidente nos dias seguintes não houve mais confrontos significativos, embora a Lituânia continuasse militarmente ocupada. Em 20 de janeiro, uma delegação da Islândia chegou a Vilnius para acompanhar os eventos. O Ministro de Relações Exteriores Jón Baldvin Hannibalsson fez declarações sobre a possibilidade de reconhecer a independência da Lituânia e, de fato, no dia 4 de fevereiro a Islândia foi o primeiro país a reconhecer a Lituânia independente.”

    ZEN, Erick R. G. Báltico. A História da Estônia, Letônia e Lituânia. São Paulo: Almedina, Edições 70.

    Para adquirir o livro Báltico AQUI

  • A Fotografia do passaporte e a história: gênero.

    A Fotografia do passaporte e a história: gênero.

    Família Godliauskas, Passaporte

    A fotografia no passaporte revelam histórias que estão para além dos rostos dos imigrantes. É o caso do passaporte da minha família, Godliauskas. Depois de muitos anos, consegui pela primeira vez ter acesso a um dos passaportes utilizados para família godliauskas, quando imigraram da Lituânia para o Brasil.

    Neste passaporte, encontrei diversas referências sobre a trajetória da minha família que até então desconhecia. Entre elas, a data exata da imigração. A datas e locais de saída e chegada. O local da última residência, entre outros detalhes de suas trajetórias.

    A fotografia do passaporte, com toda a família, mostrava algo um pouco mais sensível e pessoal: os rostos, as expressões nos olhares, as caras de assustados diante da maquina fotográfica ou do futuro incerto que os esperava em terras distantes.

    Como historiador empolgado em investigar, comecei a mostrar a foto para um e para outro. Ao mostrar para uma amiga, ela me perguntou: por que estão todos os membros da família em uma mesma foto de passaporte?

    Boa questão!

    Fotografia Imigração e História de Gênero.

    Eu não tinha muita ideia do que responder na hora. Passando a empolgação e olhando mais cuidadosamente me dei conta de que aquela foto, para um documento oficial, também nos comunica uma história de gênero. Primeiro é preciso notar que o documento é da minha bisavó. No documento está explicitamente escrito: “autorizada a viajar somente acompanhada do marido”.

    Na Europa, do início do século XX, em particular na Lituânia, ao se solicitar ao governo um documento cabia ao homem estabelecer se a mulher poderia viajar sozinha ou não!

    Por essa razão, as mulheres, não autorizada a viajar sozinhas eram fotografadas junto ao marido nos documentos oficiais. Assim, as autoridades nas fronteiras dos países, nas estações de trem e nos portos deveriam verificar pela foto a identidade dos dois (marido e esposa) antes de autorizar o embarque ou desembarque, a entrada e saída de um país para o outro.

    No limite, essa ação do Estado, por meio de sua burocracia, impedia a circulação das mulheres desacompanhadas de seu marido!

    Na fotografia está a minha avó, a primeira da esquerda para a direita, e seus irmãos, pois como eram menores de idade, não tinham um passaporte próprio e seus nomes eram colocados no passaporte da mulher. Dessa forma, para se deslocar de um país a outro de forma oficial e regular a família necessariamente teria que estar sempre junta ou seria impedida pelas autoridades estatais.

  • Belarus: eleição e crise na última ditadura da Europa

    Belarus: eleição e crise na última ditadura da Europa

    • Crise na Belarus
    • História da Belarus
    • Relação com a União Europeia e a Rússia

    As eleições na Belarus provocaram uma onda de protestos jamais vista naquele país. Manifestações essa que colocam contra a parede o regime que é considerado como a última ditadura da Europa. Neste texto vamos abordar brevemente a História da Belarus e o processo político atual.

    A República da Belarus

    A Belarus teve breve períodos de independência como Estado nacional moderno. Durante a Revolução Russa de 1917, a Belarus teve um breve momento de independência, quando se formou um Congresso que declarou a independência da Republica Popular da Bielorrússia, em março de 1918. No entanto, ela foi ocupada pelas tropas alemãs, mais tarde foi tomada pelo Exército Vermelho e integrada a União Soviética, como uma de suas repúblicas.

    Em março de 1990, com a crise da União Soviética, a oposição começou a ganhar espaço com a formação do Front Popular. Em 27 de julho de 1990 a Belarus declarou a sua soberania. Ao contrário do que ocorreu nos países Bálticos, o Partido Comunista, ou seja, a elite burocrática do país continuou comandando o processo político e dominando a economia.

    Com a Rússia e a Ucrânia, a Belarus participou do evento 8 de dezembro de 1991 que colocou fim a União Soviética e formou a Comunidade dos Estados Independentes. Assim, ao contrário dos países Bálticos que saíram da esfera de influência da Rússia, em direção ao ocidente, a Belarus e a Ucrânia permanecem unidas a Moscou.

    Portanto, observe uma questão importante: somente com o fim da União Soviética é que a Belarus teve a experiência de um Estado moderno soberano. Assim, a construção de um Estado nação se deu baixo a ditadura de Lukashenko. Esse fato levou-se até o questionamento se haveria uma identidade nacional Belarus e uma sociedade civil que poderia atuar.

    O governo de Alexandre Lukashenko

    Alexandre Lukashenko chegou o poder em 1994 e foi reeleito, 2001, 2006, 2010, 2015, formando um governo autoritário. Não faltam denúncias de violação aos Direitos Humanos no país. Através da violência, censura e mão de ferro, ele estabilizou o país formando uma classe de privilegiados, uma verdadeira oligarquia, sustentada pelas riquezas do país e em uma relação privilegiada com a Rússia.

    Apesar da aparente estabilidade, o regime começou a dar sinais de fragilidade. Um desses sinais, o mais evidente, se deu quando a Rússia ocupou parte da Ucrânia e tomou toda a Crimeia. A ideia de uma expansão russa continuada se tornou um pesadelo para a Belarus, como para todos os demais países que fazem fronteira com a Rússia.

    A invasão da Crimeia e a Reação da Belarus

    Após a anexação da Crimeia, Lukashenko pela primeira vez começou a discursar no idioma local. Seus discursos eram somente em russo, até então. O regime começou a apelar aos belarussos como uma nação e defender a sua soberania.

    Esse movimento fez com que o país se aproximasse dos países ocidentais, em particular dos países Bálticos e da Polônia. Acordos comerciais, educacionais e culturais foram estabelecidos no que parecia uma virada para o Ocidente.

    A virada para o Ocidente foi interrompida. Por um lado, a Rússia ofereceu certas vantagens comerciais. Além disso, diversos acordos militares com a Rússia, mas ainda com uma certa tensão, pois a ideia de instalar uma base aérea russa sofreu resistência. Em 2019, em um encontro com Putin, Lukashenko, em discurso coloca a ideia de união entre os dois países, ou seja, parecendo uma volta ao lado russo. Por outro lado, a União Europeia manteve restrições ao comércio com o país e criticas ao regime autoritário e as sistemáticas violações dos Direitos Humanos. Assim, o regime pareceu novamente pender para a Rússia.

    Resumindo, nos últimos anos Lukashenko tentou jogar dos dois lados observando de qual deles poderia conseguir maiores vantagens. Um jogo perigoso, pois seu autoritarismo nunca foi aceito pelos europeus e a sua relação com Putin não era das melhores, pessoalmente, ao que se sabe, Putin nunca teve apreço por Lukashenko.

    A Crise na eleição de 2020

    Essa situação piorou em 2020, com a pandemia, pois Lukashenko foi um dos líderes mundiais que entraram no negacionismo. Ele recomentou aos seus cidadãos: vodka, sauna e trator, como remédio para a Covid 19. O resultado, além de virar uma piada mundial, foi que sua credibilidade, já abalada, sofreu ainda mais ao se aproximar da eleição.

    O início do processo eleitoral se deu como sempre. Era para ser novamente uma eleição controlada. Em outras palavras, os candidatos seriam escolhidos a dedo, apenas com formalidade, e para dar ar de legitimidade. Os oposicionistas foram presos e exilados. Restou uma candidata que deveria ser a figurante nesse processo.

    A candidatura de Svetlana Tikhanovskaya era tida como um arranjo. Os demais líderes oposicionistas ou foram presos ou tiveram que escapar para outros países. .

    Assim, Svetlana Tikhanovskaya não faz parte de uma oposição histórica organizada contra o regime, pelo contrário. De toda forma, como ela era a única candidata houve uma união ao seu entorno já como uma forma de protesto contra ao regime. Na eleição, ela, que faz parte da elite educada, deveria apenas fazer a figuração para que se criasse a imagem de uma disputa legitima

    A propaganda eleitoral foi limitada, bem como as manifestações públicas. Cenas de manifestantes e de opositores ao regime sendo presos nas ruas vazaram para o ocidente e foram divulgados pelas mídias sociais.

    A Repressão e os Movimentos Grevistas

    Mesmo com a repressão e as limitações, a candidatura Tikhanovskaya encampou a contrariedade contra ao regime e houve uma união silenciosa para votar contra o regime. Esse movimento cresceu ao ponto de ser percebido pelo conjunto da população. Assim, no dia da eleição, ao fim da tarde, quando os primeiros dados eleitorais foram divulgados a desproporção dando a vitória ao ditador chamou a atenção. Era o indício da fraude que despertou os primeiros movimentos de protestos naquela mesma noite, sobretudo na capital Minsk.

    Nos dias que se seguiram, vimos emergir manifestações públicas cada vez maiores, reunindo milhares de pessoas em um fenômeno sem precedentes para o país. Essa movimentação foi seguida pela greve dos trabalhadores dos principais setores do país.

    As declarações públicas de Lukashenko geraram ainda mais protestos e sua aparição pública diante dos trabalhadores resultou em protestos e vaiais. Algo que ele não está acostumado a receber. A situação chegou ao patético do ditador apelar a Putin para uma eventual ajuda. Ou seja, a ameaça de intervenção russa voltou a circular.

    A Influência Russa na Belarus.

    A Belarus de Lukashenko sempre atuou na espera de influência da Rússia, sobretudo com Putin no poder. Por essa razão, vimos a cena patética de um presidente dizer que recorreria a outro para ajudar com o levante popular.

    No entanto, a Rússia tem os seus próprios problemas. Uma intervenção russa, como na Crimeia (ou mesmo na Síria), poderia resultar em reações tanto externa, como mais sanções econômicas. Lembrando que esse é um momento em que a economia russa passa por dificuldades, devido a queda no preço do petróleo e a pandemia. Além disso, a Rússia está lutando para uma presença de influência no cenário geopolítico, como pode ser observado com a questão da vacina, não por acaso denominada de Sputnik 5.

    Será que Putin estaria disposto a se colocar em risco para contribuir com Lukashenko? Ainda que Putin seja um estrategista repleto de surpresas e movimentos inesperados, uma ajuda a Belarus é um cálculo complicado não só pelas reações externas, mas principalmente pelas questões internas.

    O presidente Putin acabou de aprovar uma controversa reforma constitucional que o garante no poder perpetuamente. Esse referendo, suspeito, já provocou uma série de tensões no país. Recentemente protestos contra o seu poder foram registrados no extremo oriente da Rússia, na divisa com a China. Portanto, o cálculo envolve a seguinte questão: uma intervenção pode reforçar a imagem de autoritário e ditador, mas uma não intervenção pode significar que movimentos sociais como aqueles que agora parecem colocar fim ao regime de Lukashenko possa se espalhar pela Rússia.

    Nesse quadro, Putin terá que sentir a temperatura externa e interna para tomar a melhor decisão com relação ao regime. Não está descartado apenas trocar de figura no poder, mas que mantenha a política pró-Rússia que é, no fim das contas, o que realmente o interessa.

    Imprensa Russa

    Mesmo a imprensa russa, como a RT, já colocou a ditadura de Lukashenko como em um estágio final, ainda que observe que a sua última esperança esteja na proteção de Moscou e na vontade de Putin de que ele continue no poder.

    Putin, de acordo com a própria RT, ofereceu uma “vaga necessária assistência”. No discurso, a imprensa Russa coloca como ameaça a soberania da Belarus a influência de Varsóvia. Assim teríamos uma disputa entre Moscou e Varsóvia. Um discurso que tem por objetivo convencer o publico russo, pois o regime na Belarus parece estar chegando ao fim

    É o fim?

    Nesse momento, o ditador parece que conta apenas com as forças repressivas para conter a população. Será que isso será suficiente para manter a ditadura? As manifestações continuam crescendo a cada dia, bem como a violência. Nem mesmo a censura e os cortes na internet tem evitado a difusão de imagens da repressão para o mundo. A União Europeia, com protagonismo da Lituânia e da Polônia tem elevado o tom das críticas. Os próximos dias serão decisivos.

  • O Basquete na Lituânia e a Identidade Nacional.

    O Basquete na Lituânia e a Identidade Nacional.

    • O basquete na Lituânia
    • A história do basquete no Báltico
    • Basquete e o sentimento nacional

    O Basquete na Lituânia é mais do que um exporte! É a expressão da identidade nacional. O esporte e o sentimento de comunidade sempre andaram juntos. Em situações sociais ele representar o grupo, tribo, cidade estado, bairro, clube, fábrica. Formar grupos, desenvolver sentimento por ele e enfrentar o oponente está na essência do sentimento de tantos que se movem pela paixão por algum esporte. Na contemporaneidade, o esporte mobilizou, também, os sentimentos nacionais e alguns casos o sentimento de países ou grupos nacionais para os quais o direito a um Estado foi negado.


    Esse era o caso do basquete na Lituânia durante o período em que esteve ocupada pela União Soviética. Jogadores e times moveram os mais profundos sentimentos nacionais com as suas vitórias, fazendo lembrar um tempo em que a Lituânia era livre e podia ser representada com a sua seleção nacional.


    Quando a Lituânia conquistou novamente a sua independência, a seleção Lituânia pode disputar um jogo internacional carregando a sua bandeira. A explosão de sentimentos nacionais com o terceiro lugar em Barcelona em 1992 deu uma mostra de um sentimento que por décadas estava reprimido.
    Para entendermos um pouco da paixão dos lituanos pelo basquete vamos aqui recuperar alguns aspectos da história deste esporte naquele país. Focaremos neste texto na seleção nacional e suas rivalidades e deixaremos para um próximo a história dos clubes e como esses se desenvolveram e a biografia dos jogadores.


    A história do basquete lituano é muito significativa, pois o país é uma potência no esporte, mesmo com uma população diminuta. Se fizéssemos uma analogia, a Lituânia representa para o basquete mundial o que o Uruguai representa para o futebol. São pequenas potências! Entender o que a Lituânia significa para o basquete é aprender sobre a própria história do basquete.

    O basquete na Lituânia as primeiras cestas na independente.

    A história do basquete na Lituânia tem início com a primeira independência do país, em 1918, como um desdobramento da Primeira Guerra Mundial (1914 -1918) e o fim do Império Russo (1917). Já na década seguinte o esporte começou a se consolidou como prática nacional e se tornou vitorioso na década de 1930. Inicialmente, os lituanos jogavam uma variação do chamado netball que é jogado com uma bola menor e sem a tabela atrás da cesta. O esporte era praticado pelos alemães que ocuparam a região durante a Primeira Guerra Mundial. Os primeiros times formados no país eram femininos e foi naquele momento considerado um “jogo de mulheres”, já que não envolvia contato físico, como nas lutas.


    Na década de 1920, o basquete masculino, já com as regras parecidas com as atuais, começou a ser praticado pelos homens e o primeiro jogo oficial na Lituânia ocorreu em 1922. Embora tenha atraído a atenção e fosse jogado regularmente, o basquete profissional não prosperou rapidamente, pois perdia em popularidade para o futebol.


    O ponto de virada se deu em 1935. Naquele ano, ocorreu o Congresso Mundial dos Lituanos na então capital Kaunas, com o objetivo de reunir representantes das organizações dos emigrados lituanos. Para o congresso, a Comunidade Lituana de Chicago enviou diversos atletas incluindo um time de basquete com jovens jogadores que despontavam nos campeonatos do College. Com os jogos e demonstrações, o interesse dos lituanos pelo esporte começou a crescer. Os americanos-lituanos Juozas Žukas e Konstantinas Savickas decidiram permanecer na Lituânia para jogar e treinar os times do país.

    As Primeira Vitórias


    Em 1936, a Lituânia entrou para a FIBA e começou a disputar os seus campeonatos sofrendo grandes derrotas sobretudo para a Letônia, o seu maior rival. Os letões bateram os lituanos por placares como 123 a 10 e 31 a 10. Essas derrotas acabaram por produzir grandes mudanças no basquete lituano. A primeira delas foi não participar da Olimpíadas de Berlim em 1936, o primeiro ano em que o basquete se tornou um esporte olímpico.


    Na Letônia, o basquete também começou a se desenvolver na década de 1920 e com maior sucesso do que na Lituânia. Durante as décadas de 1920 e 1930, a Letônia teve um time com muitas vitórias no cenário internacional. A Federação Letã de Basquete foi fundada em 26 de novembro de 1923.


    Em 1932, foi uma das fundadoras da FIBA (Federação Internacional de Basquetebol), junto com a Suíça, Tchecoslováquia, Grécia, Itália, Portugal e Argentina. O primeiro campeonato nacional masculino foi disputado em 1924 e o feminino em 1933. Assim como na Lituânia, o desenvolvimento do basquete se deu em conexão com os Estados Unidos, pois os primeiros treinadores eram da YMCA (Young Men’s Christian Association) dos Estados Unidos.

    Seleção de Basquete Lituana, 1937


    A Letônia venceu o primeiro Campeonato Europeu de basquete em 1935 organizado pela FIBA. Como campeã, Riga sediou o campeonato europeu seguinte. Embora fosse a favorita nas Olímpiadas de Berlim, o time não conseguiu chegar às finais. O representante do Báltico que mais avançou foi a Estônia que competia internacionalmente pela primeira vez.


    Para disputar o torneio em Riga, o time lituano decidiu não contar com jogadores “americanos”, mas uma publicação na Letônia criticando o time lituano e o colocando como o pior do torneio fez com que os lituanos mudassem de ideia. Dois jogadores foram trazidos para a Lituânia: Pranas Talzūnas e Feliksas Kriaučiūnas, o último foi designado também como técnico. A manobra junto com a intensa preparação deu certo e a Lituânia venceu pela primeira vez um título europeu batendo a Itália na final.

    Como vencedora, a Lituânia organizou o torneio em Kaunas e para ele contou com jogadores descendentes de lituanos nascidos nos Estados Unidos o que gerou protestos por parte das demais delegações. A Lituânia venceu o segundo torneio derrotando a Letônia na final e o basquete se tornou o esporte nacional.


    O sonho dos lituanos era o de vencer a Olimpíadas de 1940, mas a Segunda Guerra Mundial e a invasão do país pela União Soviética adiaram esse sonho. Um sonho que só foi retomado com a segunda independência, em 1991.

    Os jogadores Lituanos no período soviético

    Com a ocupação soviética da Lituânia que passou a fazer parte da União Soviética, o time de basquete nacional foi eliminado e os principais jogadores passaram a fazer parte da seleção da União Soviética.

    Os jogadores lituanos passaram a fazer parte do time soviético a partir da olimpíada de 1952, já que a URSS não participou da de 1948, e tiveram como resultado um segundo lugar, perdendo apenas dois jogos para os Estados Unidos. Nesse time jogaram os lituanos Stepas Butautas, Kazimieras Petkevičius, Justinas Lagunavičius e Stanislovas Stonkus.

    A partir de 1969, o lituano Modestas Paulauskas se tornou o principal jogador e o capitão da União Soviética. Na Olimpíada de 1972, disputada em Munique na Alemanha, a União Soviética superou os Estados Unidos, que até então haviam vencido todas as olimpíadas, e ficaram em segundo lugar, quebrando uma hegemonia que vinha desde 1936.

    A outra derrota dos Estados Unidos para a URSS viria em Seul (1988) lembrando que os Estados Unidos boicotaram a Olimpíada de Moscou (1980) e a URSS boicotou a Olimpíada de Los Angeles (1984).

    Em 1988, a seleção da União Soviética tinha como principais jogadores de basquete os lituanos: Arvydas Sabonis e Šarūnas Marčiulionis. Eles lideraram o melhor time da União Soviética, que ainda contava com Rimas Kurtinaitis, Valdemaras Chomičius. A seleção soviética derrotou os Estados Unidos na semifinal e ganhou a medalha de ouro.

    O basquete dos Estados Unidos entrou em crise, pois apenas um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil, liderado por Oscar e Pipoca.

    Diante das derrotas, os americanos decidiram que para as próximas Olimpíadas passariam a enviar os jogadores da NBA.Era o início do Dream team, liderado por Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird.

    A União Soviética não sobreviveu até a Olimpíada de Barcelona, disputada em 1992, mas os principais jogadores daquele time soviético poderiam defender pela primeira vez a sua seleção nacional. A Lituânia enfrentou os Estados Unidos e seu Dream Team.

    O Basquete na Lituânia: De Volta ao Jogo!

    As Olimpíadas de Barcelona foram um momento marcante para a história dos países bálticos. Depois de quarenta anos, eles voltavam a disputar uma Olimpíada carregando as suas próprias bandeiras.


    Ao contrário dos demais países que faziam parte da União Soviética, Estônia, Letônia e Lituânia se recusaram a integrar a CEI (Comunidade dos Estados Independentes). As suas delegações não eram grandes, mas eram representativas de um sentimento nacional e de uma esperança de independência que por décadas foram suprimidas.


    Entre as atrações principais dos países bálticos estava a seleção de basquete da Lituânia. Seus principais jogadores, Arvydas Sabonis e Sarunas Marciulionis, lideraram o melhor time da União Soviética, campeão da Olimpíadas de Seul. Agora, o time soviético estava dividido, mas as suas estrelas principais comandavam a Lituânia. A Lituâniavenceu todos os seus jogos até enfrentar os Estados Unidos nas semifinais, quando perdeu de 127 a 76. Para entendermos o que aconteceu naquele jogo temos que voltar um pouco no tempo e recuperar uma história que também envolve o basquete brasileiro.


    Os Estados Unidos vinham de duas derrotas humilhantes no basquete. Em1988, na Olimpíadas de Seul, eles perderam nas semifinais para a União Soviética. Um ano antes foram derrotados no Pan-americano realizado em Indianápolis para o Brasil liderado por Oscar e Pipoca. Além do talento dos jogadores que venceram os Estados Unidos, outra questão importante que explica essas duas derrotas foi a mudança no sistema de pontuação.


    A FIBA introduziu a cesta de três pontos, enquanto os campeonatos nos Estados Unidos mantiveram o sistema de pontuação antigo. Como resultado, das duas derrotas, mudanças foram realizadas no basquete americano. Eles passaram a incluir a cesta de três pontos no College e na NBA (National Basketball Association). Pressionaram o comitê olímpico para aceitar a inscrição dos jogadores da NBA no time olímpico. Em resumo, Brasil e os jogadores lituanos atuando pela União Soviética mudaram a história do basquetebol.

    O Outro “Dream Team” De Volta ao Pódio

    Em 1992, a Lituânia passava por enormes dificuldades financeiras e o recurso para levar o time para Barcelona eram poucos. O drama dos lituanos se espalhou pelo mundo. Comovidos, a banda de rock americana Grateful Dead resolveu financiar as passagens de todo o time lituano para as Olimpíadas.


    Para Barcelona, os americanos formaram o chamado “time dos sonhos”, Dream Team, com Michel Jordan, Magic Johnson e Larry Bird. Para muitos especialistas, este foi o melhor time de basquete de todos os tempos. A superioridade era tão grande que a audiência dos jogos se dava pelos astros, pelo show, para saber quem perderia por menos pontos ou qual jogador americano faria mais cestas. Com esse time os EUA derrotaram a Lituânia na semifinal.

    Time Lituano, Barcelona, 1992.


    Para completar a história, a disputa da medalha de bronze foi conquistada contra a CEI, sendo muitos jogadores ex-companheiros de seleção e de clubes. Não importava em que lugar ficasse a bandeira nacional. Os hinos da Estônia, Letônia e Lituânia, proibidos até dois anos antes, foram tocados e os jogadores subiam ao pódio também para celebrar as independências nacionais.


    O terceiro lugar não deixou nenhum lituano triste. Ver a bandeira no pódio, a sua camiseta e a suas cores foi de uma alegria enorme para os lituanos e seus descendentes. Outro aspecto que chamou a atenção foi a camiseta utilizada no pódio.


    O artista psicodélico americano Greg Speirs presenteou o time com uma camiseta com uma caveira “enterrando” uma bola entre raios coloridos com as cores da bandeira da Lituânia. A arte foi adotada como um símbolo do basquete lituano e foi a camiseta mais vendida na Olimpíadas seguinte disputada em Atlanta nos EUA.

    Sugestão sobre o basquete na Lituânia

    O Documentário The Other Dream Team (2012) do diretor Marius Markevicius de 2012 é uma excelente obre sobre o time lituano na Olimpíada de Barcelona. Vale investir, mesmo se você não encontrar uma versão em português.

  • O Caminho do Báltico

    O Caminho do Báltico

    O que foi o Caminho do Báltico?

    Caminho do Báltico foi uma das mais belas demonstrações pacíficas de descontentamento e contestação à União Soviética unindo a população dos três países BálticosEstôniaLetônia Lituânia. A demonstração reuniu dois milhões de pessoas, ou seja, quase um quarto do total da população das três então Repúblicas Soviéticas e entrou para o Livro dos Records como a mais longa corrente humana ao cobrir um total de 600 Km. O movimento foi um dos pontos centrais no processo político que levou a independência da União Soviética (URSS)… Artigo

  • Gosta de filme e da Lituânia? Blog História da Lituânia!

    Gosta de filme e da Lituânia? Blog História da Lituânia!

    Se você gosta de filme sobre a Lituânia você vai gostar desse post no meu blog História da Lituânia.

    Depois de algum tempo voltei a escrever um pequeno texto sobre História da Lituânia lá no blog dedicado a Lituânia sobre um belo filme que tive a oportunidade de ver a estréia na AABS 2018 na Universidade de Stanford.

    Dá uma olhada lá no BlogHistória da Lituânia

    eValeu!

    Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

    Para Twitter e Instagram @erickrgzen

  • Brexit: considerações e palpites.

    Brexit: considerações e palpites.

    Por que o Brexit? 

    • Os motivos do Brexit
    • A União Europeia e o Brexit: história
    • Imigração e o Brexit

    Já que estão todos dando palpites e pitacos sobre o Brexit, aqui vão os meus.Toda a campanha Brexit foi conduzida pela direita xenófoba e com um discurso saudosista e nacionalista.

    No entanto, é importante lembrar que uma parte da esquerda sempre foi crítica à União Europeia e, mesmo o líder do Partido Trabalhista, não é lá um grande entusiasta (ou não foi durante muito tempo). Para além disso, a esquerda radical apoiou a saída e uma grande parte da classe trabalhadora também. Acrescentamos que uma grande parte da classe trabalhadora é contra as políticas migratórias.

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    Com o colapso da União Soviética em 1991, ao invés da União Europeia providenciar uma espécie de Plano Marshall que pudesse desenvolver, ou colocar a Europa Oriental nos trilhos, (como a Alemanha fez com a sua parte oriental), ela optou, baseada na teoria neoliberal, por abrir as portas do mercado para o Oriente, terminando de quebrar as empresas orientais recém ingressas no capitalismo, e permitir o fluxo da mão de obra (imigração).

    O ingresso da Polônia, principalmente, e dos países do Báltico (Lituânia, Letônia e Estônia), na União Europeia provocou uma onda interna de imigração na União Europeia. Esse fluxo se somou aos fluxos imigratórios das ex-colônias da Grã-Bretanha, já “tradicionais”, e aos refugiados dos conflitos no Oriente Médio.

    Essa imigração do leste europeu foi tão grande que na Lituânia é costume dizer que “os lituanos não estão emigrando, mas estão evacuando o país”. Assim como no caso polonês, um dos principais destinos é a Grã-Bretanha.  (sobre a Lituânia e a União Europeia ler AQUI)

    E qual é o problema do Brexit?

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    Bandeiras

    A imigração em massa foi uma estratégia do capital para depreciar o custo da mão de obra na Europa Ocidental. Na Inglaterra, a conservadora Margaret Thatcher (1925 – 2013), que governou entre 1975 e 1990, foi eliminando praticamente todos os direitos trabalhistas e os sindicatos. Seu conservadorismo social e seu neoliberalismo na condução econômica eliminaram o estado de bem estar social e privatizando todos os serviços públicos.

    A partir da década de 1990, com a imigração em massa do Leste Europeu, a mais uma abundante mão de obra, disposta a trabalhar por qualquer coisa, se acomodou a ausência de direitos trabalhistas. O resultado foi o empobrecimento da classe trabalhadora e a ampliação da desigualdade em níveis que só têm paralelos na Revolução Industrial do século XIX. Com a crise de 2008, a situação se agravou ainda mais. Vale lembrar, que a Grã-Bretanha que ainda segue a cartilha neoliberal como dogma é o único país desenvolvido que ainda não superou a crise de 2008, ao contrário da Alemanha, da França e dos Estados Unidos, por exemplo.

    As possibilidades do Brexit

    Diante desse quadro temos duas saídas possíveis:

    À direita: nacionalismo, saudosismo e xenofobia. Esses sentimentos dão a ilusão de que a mera remoção dos imigrantes resolverá o problema social, com a retomada do emprego. É uma ideia falsa! Pois removidos os direitos trabalhistas a desigualdade permanece! Ou seja, enquanto as práticas neoliberais persistirem persiste a desigualdade.

    À Esquerda: a do papel do Estado na promoção da equidade social. Aí temos um problema, pois a esquerda não sabe o que fazer com os imigrantes. De um lado, ela defende os direitos individuais e o de imigrar e o multiculturalismo (no que está certa!), mas o que fazer com essa mão de obra (imigrantes) trazida estrategicamente?

    Um problema sensível da esquerda é que ela, de uma forma ou de outra, sempre conseguiu atuar no âmbito nacional, mas não conseguiu efetivamente se organizar no âmbito internacional e menos ainda dentro da União Europeia. Jamais foi capaz de propor uma reforma igualando os direitos dos trabalhadores e a legislação trabalhista, por exemplo. Pelo contrário, como no vergonhoso caso francês é a tradicional esquerda que propôs a reforma trabalhista. O resultado final, salvo o cosmopolitismo londrino e de jovens que já nem mais conseguem se ver como parte dos “trabalhadores”: a saída foi vitoriosa.

    Depois da Euforia

    Apesar da euforia da extrema direita francesa, alemã e holandesa, o brexit não é necessariamente um indicativo da vitória da direita, ao menos na Inglaterra. A situação ali parece ser bem mais complexa. Por um lado, temos a popularidade do líder trabalhista inglês, Jeremy Corbyn. Por outro, é necessário saber se os conservadores vão conseguir se manter no poder e por quanto tempo.

    Em outras palavras quem fará a transição? Em que termos ela será feita? Quais os efeitos para a economia nos próximos meses? Nesse momento, qualquer tentativa de resposta para essa questão é apenas um chute!

    Aquele que conseguir intermediar as insatisfações sairá na frente neste processo.

    Com relação ao futuro da União Europeia, ao menos nos parâmetros em que a União está dada, será difícil se manter. É de fundamental importância lembrarmos que a estrutura de poder da União Europeia foi desenvolvida a partir de múltiplos acordos. A União Europeia foi articulada através da construção de consensos e não para a solução de crises. Na verdade, a União Europeia não tem mecanismos de solução de crises! Por isso sua movimentação e as respostas às crises são muito lentas…

    Por fim, será necessário acompanhar com muita atenção como a Grã-Bretanha vai lidar com a questão dos imigrantes. Uma política restritiva terá consequências desastrosas para outros países da União Europeia, notadamente, a Polônia e os países do Báltico.

  • Boris Schnaiderman: um tributo

    Boris Schnaiderman: um tributo

    Na semana passada (no dia 18 de maio) recebemos a triste notícia do falecimento do professor Boris Schnaiderman. Tive o prazer de conhecê-lo quando lhe pedi para escrever o prefácio do meu primeiro livro O Germe da Revolução: A Comunidade Lituana Sob Vigilância do Deops e ele, de forma generosa e receptiva recebeu o texto daquele então jovem pesquisador de 21 anos de idade. Ele aceitou! E escreveu um belo texto. (Ler o Prefácil)

    Na mesma época, trabalhando em um projeto chamado PROIN  (Site do projeto Aqui) tivemos a ideia de pedir para que ele escrevesse um pequeno texto para a Revista Seminário 3 editada pelo PROIN (Link para as Revistas). Novamente, Boris Schnaiderman aceitou. Fizemos uma pequena entrevista que eu transcrevi e levei para que ele pudesse acrescentar os dados que faltavam e preparar o texto que finalmente publicamos.

    Ao contrário da maior parte das entrevistas, nesta desejávamos focar na sua participação na Segunda Guerra Mundial e nas suas atividades políticas. Ele selecionou um trecho que já tinha separado do seu livro que colocamos ao fim do texto. Ficou um texto simples, mas como homenagem vale ler novamente. Só lamento profundamente não ter encontrado a foto que tiramos na ocasião!

    Revista Seminários – no 3. Crime, Criminalidade e Repressão no Brasil República

    (link para a entrevista PDF)

    BORIS SCHNAIDERMAN

    UM PACIFISTA QUE FOI PARA A GUERRA…

    Depoimento registrado por Erick R. Godliauskas Zen

    Nasci na cidade de Úman, na Ucrânia, em 1917, como filho de judeus russos, e os judeus russos que moravam nas cidades grandes estavam, na sua maioria, muito russificados. Tive uma formação russa, não tive nenhuma formação judaica. Meu pai era comerciante e, como tal, evidentemente, não estava adaptado ao sistema comunista. Quando eu tinha apenas um ano de idade, meus pais se mudaram para Odessa por causa dos pogrons, os massacres de judeus. Tenho uma vaga lembrança, muito vaga, de histórias sobre um irmão de minha mãe que havia tomado parte nos eventos de 1905… Lembravam dele em casa com muito carinho, mas eram simpatias muito vagas.

    Morei em Odessa até os oito anos de idade, ou seja, até dezembro de 1925, quando minha família imigrou para o Rio de Janeiro. Tenho uma lembrança muito especial de Odessa: era praticamente uma cidade russa. Ali eu nunca ouvi o ucraniano, só se falava russo. Meus amigos falavam russo, nós falávamos russo em casa. E quando eu ia à feira com alguém ouvia o ucraniano falado pelos homens do campo que ali vendiam seus produtos.

    Chegamos ao Rio de Janeiro em dezembro de 1925, onde permanecemos por pouco tempo. Depois minha família mudou-se para São Paulo, onde meus pais tinham alguns amigos judeus, mas eram judeus também muito russificados, de tal modo que o meu ambiente era mais russo do que judeu. Nunca recebi formação judaica, embora eu tenha sido circuncidado. Enfim, nós não tínhamos nenhuma relação com o mundo judaico.

    No Brasil, meu pai continuou a trabalhar como comerciante, mas com muitas dificuldades, muitas dificuldades… A convivência com os brasileiros era boa. Tenho boas lembranças da minha infância no Brasil, apesar das dificuldades, isso na infância. Mas, não tenho lembranças boas da adolescência. Não tenho porque meu pai enfrentou grandes dificuldades financeiras e eu procurava ajudá-lo sempre que possível. Faziam questão que eu tivesse um título, algum curso superior. Insistiam em agronomia e eu queria literatura.

    Quando eu tinha 17 anos, portanto em 1934, meus pais mudaram-se de São Paulo para o Rio de Janeiro. Ali trabalhei com o meu pai em uma lojinha de sua propriedade até completar meus 19 anos. Minhas lembranças são péssimas… Nessa época o Brasil vivia sob um regime autoritário que tinha muita desconfiança em relação ao estrangeiro.

    Eu me formei engenheiro agrônomo em 1940, mas não podia exercer a profissão porque, como estrangeiro, eu só poderia exercer a profissão depois de naturalizado. A naturalização era difícil para quem era nascido na Ucrânia, na União Soviética. Eu tratei da minha naturalização sozinho, sem advogado nenhum. Fiquei andando de repartição em repartição para consegui-la, o que ocorreu em 1941. Mas eu só poderia exercer a profissão de agrônomo depois que eu fizesse o serviço militar. Então, entre 1940 e 1942, eu fiquei sem poder exercer a profissão. Procurei dar algumas aulas, fazer uns bicos. Depois que saiu a minha naturalização, consegui um emprego no Ministério da Agricultura.

    Essa era uma época difícil para os judeus que, localizados em diferentes pontos da Europa, tentavam encontrar refúgio em algum lugar. Lembro-me que, em 1940, meu cunhado Marc Leitchic ajudou muitos desses judeus que estavam fugindo do nazismo. Ele era diretor da JCA, instituição que cuidava da entrada de judeus para uma colônia no Rio Grande do Sul, razão pela qual tornou-se “suspeito”. A polícia política invadiu minha casa. Eu estava voltando da aula e quando cheguei encontrei homens sem paletó… Naquele tempo ficar sem paletó era o cúmulo da intimidade! Me detiveram, porque minha família já havia sido levada para o DOPS, para onde também fui levado. Era o tipo da coisa boba. Eu não tinha nada para dizer, pois não sabia o que o meu cunhado fazia. Nós morávamos na mesma casa, mas eu não sabia se ele tinha ajudado emigrantes clandestinos. Prenderam todo mundo, levaram de casa tudo que era documento, papéis, correspondências, etc. Eu recebia cartas de amigos, possuía cadernos de estudos… Levaram tudo! No entanto, minha detenção foi bem curta.

    Com relação às idéias marxistas, aconteceu o seguinte: meus pais tinham muita preocupação para eu não me envolver em nada, não ter nenhum contato… Agora eu tinha um interesse muito grande, lia os textos marxistas, mas tinha muitas dúvidas em relação à União Soviética. Tinha muitas dúvidas… Então,quando começou a II Guerra Mundial e ocorreu o pacto germano-soviético, aí fiquei contra mesmo. Os nazistas estavam fazendo coisas horríveis. Agora durante a guerra, existia aquele entusiasmo pela resistência russa. No ocidente todo havia muita admiração pela resistência russa.

    Em 1942, eu fiz o serviço militar no quartel. Poderia fazer o que se chamava “Linha de Tiro”. Mas, o CPOR – que formava oficiais de reserva – eu não tinha o direito de fazer, porque como brasileiro naturalizado não poderia ser oficial. Eu só poderia fazer o serviço militar como praça; então ao invés de fazer “Linha de Tiro”, preferi fazer no quartel. Por isso, eu fui convocado. Tinha vontade de ir para a guerra, mas ao mesmo tempo tinha muito medo da minha família… Se chegasse para a minha família e dissesse que queria ir para guerra, não daria certo. Eles tinham um domínio completo sobre mim, então eu não fiz isso. Ao invés de fazer a “Linha de Tiro” fui servir no quartel. Nessa época eu já era engenheiro-agrônomo. Fiz curso de sargento, portanto, era inevitável que iria ser convocado. Sabia que iria ser. Fui convocado nas vésperas do primeiro embarque das tropas brasileiras para a Europa em julho de 1944.

    Vejamos: qual era a motivação dos soldados? O Brasil estava sob regime de inspiração fascista e ao mesmo tempo ia-se para um outro país lutar contra o fascismo… Aí é que está! Os soldados não tinham motivação nenhuma. A grande maioria, no entanto, lutou e lutou muito bem, como os melhores. Não posso dizer o contrário. Mas, não tinham preparo nenhum, era nulo. Durante meu tempo de quartel fui treinado de acordo com as normas do exército francês, porque a tradição do exército brasileiro era a francesa; então o armamento era diferente, o sistema era diferente. Era tudo diferente do que nós encontramos na Itália. Eu era sargento de artilharia. Pelo sistema vigente no Brasil não poderia calcular tiro, quem calculava era o capitão. Pelo sistema americano, passei a ser calculador de tiro, aprendi lá, praticamente em ação, na prática.

    Durante o conflito na Itália, participei da artilharia: primeiro num front menos duro. Aos poucos fomos passando mais ao centro da Itália, depois ficamos na região do rio Serchio. Agora, o duro mesmo foi quando nos transferiram para o front do Castelo. Ali passei algumas semanas diante de uma ponte que era constantemente bombardeada. Depois participei da ofensiva final em abril de 1945.

    A população local estava completamente arrasada, em estado de miséria. Quando nós entramos no norte da Itália… aí foi uma glória! A população nos recebeu de braços abertos, jogavam flores, abraçando a gente. Antes disso era uma população miserável. Tivemos bastante contato com eles. A relação foi boa, mas não como nós encontramos no norte da Itália, o delírio da libertação. O fascismo já era muito impopular. A população já se manifestava contra o fascismo no final da guerra.

    A guerra acabou e nós voltamos ao Brasil. Depois de ter lutado contra o fascismo e o nazismo na Europa, qual foi a reação dos soldados ao voltar e encontrar o governo Vargas? A maioria dos soldados tinha lutado, lutado bem, como os melhores, mas a grande maioria não tinha consciência, a grande maioria era getulista. O povo era getulista.

    Depois da guerra, meus pais continuavam preocupados com que eu não tivesse nenhum contato com a União Soviética. Mas, ao mesmo tempo, eles se aproximaram da embaixada russa. Acabei trabalhando junto à agência de notícias soviética, a Tass, no Rio de Janeiro, mas não me considerava comunista, meus pais é que tinham medo. Eu não me considerava comunista, tinha muitas dúvidas e ficava em uma posição contraditória, porque ao mesmo tempo achava que o capitalismo tinha que acabar e tinha desconfiança em relação à União Soviética. Era uma situação muito ambígua a minha. Depois que me casei – meu primeiro casamento foi em 1949 com Regina Schnaiderman – fiquei muito influenciado não só pela minha mulher, mas pelo círculo de seus amigos. Acabei praticamente militando no Partido Comunista Brasileiro no que se chamava “comissão de finanças”, porque o partido, de modo geral, queria da colônia judaica “grana”, queria “grana”. Em fins da década de 1940, eu era funcionário do Ministério da Agricultura, mas estava cansado daquele tipo de serviço público. Meus pais estavam muito assustados com a repressão do governo Dutra. O sistema era democrático, eleito pelo povo, etc. Mas grande parte da legislação em vigor era a mesma legislação fascista do Estado Novo. Então eu participei da comissão de finanças durante alguns poucos anos. Estávamos vendo o Stalinismo, mas ao mesmo tempo queríamos que o capitalismo acabasse e achávamos que o único jeito era apoiar. Logo que houve o “estouro da boiada” em 1956, com as revelações do relatório de Kruchov e a invasão da Hungria, muitos se colocaram contra e eu fui um deles. Foi quando deixei o partido.

    Com relação à minha experiência na agência Tass, onde trabalhei entre 1945 e 1947, se não me falha a memória, eu era o secretário do então correspondente Iúri Kalúguin. Essa experiência foi bastante frustrante, embora ele fosse muito boa gente. Tive contato também com as pessoas da embaixada, onde eu percebia antissemitismo. Não eram pessoas com grande abertura para o mundo… de jeito nenhum! Eram muito fechados nas suas posições, muito dogmáticos.

    Depois do golpe de 1964, minha reação foi de revolta, inclusive enfrentei muitas dificuldades. Nessa época eu já era professor da USP e lecionava junto ao Departamento de Lingüística, Teoria Literária e Línguas Orientais. Tornei-me professor da USP em 1960, primeiro como contratado para iniciar um curso livre de russo. Eu sabia que eles precisavam de um professor de russo porque iria ser inaugurado, aí me candidatei. Eu já tinha publicado alguns trabalhos sobre literatura russa na imprensa. Trabalhava na redação de uma enciclopédia. Em 1963, o curso livre foi substituído por um curso regular, enquadrado no sistema geral da USP. A partir de 1964, participei das manifestações e comícios, mas não tinha nenhuma ligação partidária com grupo nenhum. Se alguém me interrogasse sobre grupos atuantes, não teria o que dizer. Agora, ao mesmo tempo, eu participei de todos os protestos. Meu filho Carlos – eu tenho um filho e uma filha – participou da luta contra a ditadura então, eu tinha muitas vezes a polícia em casa à procura do meu filho. Fui preso várias vezes, mas por poucas horas, porque eles sabiam que não tinha ligação nenhuma. Tanto é que quando eu era preso não me perguntavam quem eu conhecia, porque sabiam que estava completamente “solto”. Lembro-me que uma vez tive a polícia na sala de aula para verificar documentos dos alunos. Protestei violentamente e fui preso, claro! Várias vezes fui preso, sem maiores conseqüências. Era uma situação muito desagradável, muito difícil. Você estar almoçando e aparecer quatro, cinco indivíduos, todos com arma na cintura para revistar a casa e para te levar. Numa ocasião fui levado para o OBAN; em outra ocasião fui levado para o DEOPS.

    Opção pela luta armada? Eu não tinha muita convicção. Achava que se devia apoiar, mas ao mesmo tempo não tinha muita certeza se era esse o caminho. Mas estavam lutando e tinha que apoiar tudo que se fizesse contra a ditadura. Tenho uma certa resistência ao uso de arma, apesar de ter ido para a guerra. Nunca tive vontade de usar arma, sempre resisti a usá-las. Tenho um respeito muito grande pela vida alheia. Agora, durante a guerra, achei que era necessário, não se podia deixar! O nazismo estava avançando… Com toda a minha aversão a pegar em arma achei que não tinha outro caminho. Um paradoxo: um pacifista que foi para a guerra com vontade de ir para a guerra.

    Quando criança, nos primeiros tempos de Brasil, estava muito ligado às lembranças da Rússia, na verdade da Ucrânia (mas digo Rússia porque vivíamos em um meio muito “russificado”). Odessa era uma cidade russa. Tinha uma ligação afetiva muito grande com a minha infância na minha terra natal, com a língua russa. No Brasil eu ficava copiando autores russos… Fazia cadernos, copiava, não queria esquecer a língua. Em casa se falava o russo, e eu me esforçava para não esquecer a língua. Tinha sido alfabetizado apenas, mas queria conhecer bem a língua, ficava copiando e lia muito em russo. Aos 14 anos passei por uma fase de fascínio pelo mundo que estava encontrando no Brasil, passei a ler autores brasileiros e portugueses, a me dedicar ao português. Fui muito estimulado pelos professores no curso primário. Tenho uma lembrança muito boa. Acho que não se dá o suficiente valor à contribuição da mulher brasileira na formação de jovens. Foi uma coisa muito importante para mim. A partir daí queria me dedicar à literatura, mas como tinha antes dito que gostava de agronomia, isso aos doze, treze anos, então meus pais achavam que tinha que fazer agronomia e acabei fazendo. Com muitas dificuldades, pois meus pais estavam passando por dificuldades financeiras e eu tinha perdido todo o meu curso secundário. Em São Paulo houve – isso nos tempos de Getúlio Vargas – uma coisa horrível! Cassaram os direitos dos estudantes do Mackenzie. Os diplomas do Mackenzie passaram a não valer nada; o meu curso secundário não valia nada… Então eu cursei no Rio de Janeiro o que hoje em dia chamamos de supletivo, ou melhor, durante dois anos fiz os exames, que eram muito fáceis, muito simples, e acabei efetivando o meu curso secundário. Depois ingressei na Escola Nacional de Agronomia.

    Continuei com meu interesse pela literatura. Maiakovski eu conhecia um pouco de ver revistas, trechos, poemas reproduzidos. Tomei contato com a obra dele quando pude comprar as obras completas, isso no fim da década de 50 ou início da década de 60. Me entusiasmei e fiz traduções de suas obras em colaboração com Augusto e Haroldo de Campos, e que hoje estão no livro Maiakovski, Poemas, publicado pela Editora Perspectiva.

    Hoje, com relação ao panorama político do país, sobretudo depois da eleição de Lula, não tenho muito a dizer. Sou membro fundador do PT e sempre o encarei com muita simpatia; depois acabei me afastando… Achei a eleição muito positiva. Estou na expectativa…

    FRAGMENTO DA OBRA: GUERRA EM SURDINA

    BORIS SCHNAIDERMAN

    Eu estava certo de que, para lutar, era preciso saber o que se fazia. Estes homens, evidentemente, não sabem. E, todavia, como se dedicam, como enfrentam esta natureza hostil, como investem contra um inimigo experimentado e ardiloso! Lá diante, no front da infantaria, as patrulhas saem, penetram nas linhas inimigas, enfrentam mil perigos. Aqui, sob a minha janela, vejo soldados arrastando-se sobre a neve da estrada, às vezes sob o bombardeio, consertando linhas telefônicas. Nenhum deles pára a fim de pensar no que está fazendo, mas são tremendamente eficazes.

    A Guerra tem suas próprias leis, os homens vivem nela como num turbilhão do qual não adianta querer sair. Até a crueldade tem algo de inexorável, acaba sendo aceita como uma fatalidade. Lembro-me da ausência de qualquer animosidade contra o inimigo, e que chegou a me deixar tão indignado. Mas agora tudo mudou. A brutalidade, a estupidez da guerra nazista são por demais evidentes. O bombardeio contínuo das cidades, a população alucinada de pavor, as crianças famintas, as notícias de atrocidades contra os partiggiani e seus parentes, a morte de companheiros, tudo isso tem o seu reflexo mesmo no homem de gênio mais brando.

    SCHNAIDERMAN, Boris. Guerra em Surdina. História do Brasil na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 128.