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  • Relação com a União Europeia e a Rússia

As eleições na Belarus provocaram uma onda de protestos jamais vista naquele país. Manifestações essa que colocam contra a parede o regime que é considerado como a última ditadura da Europa. Neste texto vamos abordar brevemente a História da Belarus e o processo político atual.

A República da Belarus

A Belarus teve breve períodos de independência como Estado nacional moderno. Durante a Revolução Russa de 1917, a Belarus teve um breve momento de independência, quando se formou um Congresso que declarou a independência da Republica Popular da Bielorrússia, em março de 1918. No entanto, ela foi ocupada pelas tropas alemãs, mais tarde foi tomada pelo Exército Vermelho e integrada a União Soviética, como uma de suas repúblicas.

Em março de 1990, com a crise da União Soviética, a oposição começou a ganhar espaço com a formação do Front Popular. Em 27 de julho de 1990 a Belarus declarou a sua soberania. Ao contrário do que ocorreu nos países Bálticos, o Partido Comunista, ou seja, a elite burocrática do país continuou comandando o processo político e dominando a economia.

Com a Rússia e a Ucrânia, a Belarus participou do evento 8 de dezembro de 1991 que colocou fim a União Soviética e formou a Comunidade dos Estados Independentes. Assim, ao contrário dos países Bálticos que saíram da esfera de influência da Rússia, em direção ao ocidente, a Belarus e a Ucrânia permanecem unidas a Moscou.

Portanto, observe uma questão importante: somente com o fim da União Soviética é que a Belarus teve a experiência de um Estado moderno soberano. Assim, a construção de um Estado nação se deu baixo a ditadura de Lukashenko. Esse fato levou-se até o questionamento se haveria uma identidade nacional Belarus e uma sociedade civil que poderia atuar.

O governo de Alexandre Lukashenko

Alexandre Lukashenko chegou o poder em 1994 e foi reeleito, 2001, 2006, 2010, 2015, formando um governo autoritário. Não faltam denúncias de violação aos Direitos Humanos no país. Através da violência, censura e mão de ferro, ele estabilizou o país formando uma classe de privilegiados, uma verdadeira oligarquia, sustentada pelas riquezas do país e em uma relação privilegiada com a Rússia.

Apesar da aparente estabilidade, o regime começou a dar sinais de fragilidade. Um desses sinais, o mais evidente, se deu quando a Rússia ocupou parte da Ucrânia e tomou toda a Crimeia. A ideia de uma expansão russa continuada se tornou um pesadelo para a Belarus, como para todos os demais países que fazem fronteira com a Rússia.

A invasão da Crimeia e a Reação da Belarus

Após a anexação da Crimeia, Lukashenko pela primeira vez começou a discursar no idioma local. Seus discursos eram somente em russo, até então. O regime começou a apelar aos belarussos como uma nação e defender a sua soberania.

Esse movimento fez com que o país se aproximasse dos países ocidentais, em particular dos países Bálticos e da Polônia. Acordos comerciais, educacionais e culturais foram estabelecidos no que parecia uma virada para o Ocidente.

A virada para o Ocidente foi interrompida. Por um lado, a Rússia ofereceu certas vantagens comerciais. Além disso, diversos acordos militares com a Rússia, mas ainda com uma certa tensão, pois a ideia de instalar uma base aérea russa sofreu resistência. Em 2019, em um encontro com Putin, Lukashenko, em discurso coloca a ideia de união entre os dois países, ou seja, parecendo uma volta ao lado russo. Por outro lado, a União Europeia manteve restrições ao comércio com o país e criticas ao regime autoritário e as sistemáticas violações dos Direitos Humanos. Assim, o regime pareceu novamente pender para a Rússia.

Resumindo, nos últimos anos Lukashenko tentou jogar dos dois lados observando de qual deles poderia conseguir maiores vantagens. Um jogo perigoso, pois seu autoritarismo nunca foi aceito pelos europeus e a sua relação com Putin não era das melhores, pessoalmente, ao que se sabe, Putin nunca teve apreço por Lukashenko.

A Crise na eleição de 2020

Essa situação piorou em 2020, com a pandemia, pois Lukashenko foi um dos líderes mundiais que entraram no negacionismo. Ele recomentou aos seus cidadãos: vodka, sauna e trator, como remédio para a Covid 19. O resultado, além de virar uma piada mundial, foi que sua credibilidade, já abalada, sofreu ainda mais ao se aproximar da eleição.

O início do processo eleitoral se deu como sempre. Era para ser novamente uma eleição controlada. Em outras palavras, os candidatos seriam escolhidos a dedo, apenas com formalidade, e para dar ar de legitimidade. Os oposicionistas foram presos e exilados. Restou uma candidata que deveria ser a figurante nesse processo.

A candidatura de Svetlana Tikhanovskaya era tida como um arranjo. Os demais líderes oposicionistas ou foram presos ou tiveram que escapar para outros países. .

Assim, Svetlana Tikhanovskaya não faz parte de uma oposição histórica organizada contra o regime, pelo contrário. De toda forma, como ela era a única candidata houve uma união ao seu entorno já como uma forma de protesto contra ao regime. Na eleição, ela, que faz parte da elite educada, deveria apenas fazer a figuração para que se criasse a imagem de uma disputa legitima

A propaganda eleitoral foi limitada, bem como as manifestações públicas. Cenas de manifestantes e de opositores ao regime sendo presos nas ruas vazaram para o ocidente e foram divulgados pelas mídias sociais.

A Repressão e os Movimentos Grevistas

Mesmo com a repressão e as limitações, a candidatura Tikhanovskaya encampou a contrariedade contra ao regime e houve uma união silenciosa para votar contra o regime. Esse movimento cresceu ao ponto de ser percebido pelo conjunto da população. Assim, no dia da eleição, ao fim da tarde, quando os primeiros dados eleitorais foram divulgados a desproporção dando a vitória ao ditador chamou a atenção. Era o indício da fraude que despertou os primeiros movimentos de protestos naquela mesma noite, sobretudo na capital Minsk.

Nos dias que se seguiram, vimos emergir manifestações públicas cada vez maiores, reunindo milhares de pessoas em um fenômeno sem precedentes para o país. Essa movimentação foi seguida pela greve dos trabalhadores dos principais setores do país.

As declarações públicas de Lukashenko geraram ainda mais protestos e sua aparição pública diante dos trabalhadores resultou em protestos e vaiais. Algo que ele não está acostumado a receber. A situação chegou ao patético do ditador apelar a Putin para uma eventual ajuda. Ou seja, a ameaça de intervenção russa voltou a circular.

A Influência Russa na Belarus.

A Belarus de Lukashenko sempre atuou na espera de influência da Rússia, sobretudo com Putin no poder. Por essa razão, vimos a cena patética de um presidente dizer que recorreria a outro para ajudar com o levante popular.

No entanto, a Rússia tem os seus próprios problemas. Uma intervenção russa, como na Crimeia (ou mesmo na Síria), poderia resultar em reações tanto externa, como mais sanções econômicas. Lembrando que esse é um momento em que a economia russa passa por dificuldades, devido a queda no preço do petróleo e a pandemia. Além disso, a Rússia está lutando para uma presença de influência no cenário geopolítico, como pode ser observado com a questão da vacina, não por acaso denominada de Sputnik 5.

Será que Putin estaria disposto a se colocar em risco para contribuir com Lukashenko? Ainda que Putin seja um estrategista repleto de surpresas e movimentos inesperados, uma ajuda a Belarus é um cálculo complicado não só pelas reações externas, mas principalmente pelas questões internas.

O presidente Putin acabou de aprovar uma controversa reforma constitucional que o garante no poder perpetuamente. Esse referendo, suspeito, já provocou uma série de tensões no país. Recentemente protestos contra o seu poder foram registrados no extremo oriente da Rússia, na divisa com a China. Portanto, o cálculo envolve a seguinte questão: uma intervenção pode reforçar a imagem de autoritário e ditador, mas uma não intervenção pode significar que movimentos sociais como aqueles que agora parecem colocar fim ao regime de Lukashenko possa se espalhar pela Rússia.

Nesse quadro, Putin terá que sentir a temperatura externa e interna para tomar a melhor decisão com relação ao regime. Não está descartado apenas trocar de figura no poder, mas que mantenha a política pró-Rússia que é, no fim das contas, o que realmente o interessa.

Imprensa Russa

Mesmo a imprensa russa, como a RT, já colocou a ditadura de Lukashenko como em um estágio final, ainda que observe que a sua última esperança esteja na proteção de Moscou e na vontade de Putin de que ele continue no poder.

Putin, de acordo com a própria RT, ofereceu uma “vaga necessária assistência”. No discurso, a imprensa Russa coloca como ameaça a soberania da Belarus a influência de Varsóvia. Assim teríamos uma disputa entre Moscou e Varsóvia. Um discurso que tem por objetivo convencer o publico russo, pois o regime na Belarus parece estar chegando ao fim

É o fim?

Nesse momento, o ditador parece que conta apenas com as forças repressivas para conter a população. Será que isso será suficiente para manter a ditadura? As manifestações continuam crescendo a cada dia, bem como a violência. Nem mesmo a censura e os cortes na internet tem evitado a difusão de imagens da repressão para o mundo. A União Europeia, com protagonismo da Lituânia e da Polônia tem elevado o tom das críticas. Os próximos dias serão decisivos.