Um lugar comum tomou conta dos editoriais, e, até mesmo, os escritos e palestras de intelectuais reconhecidos: “não somos mais cordiais”, eles bradam. Para piorar, tentam dar um certo tom histórico e aparecem coisas, como: “nunca fomos cordiais”.  O que se tenta expressar é que não seríamos mais “bonzinhos”, “alegres”, um país “sem conflitos” e “sem violência”. Ou seja, cordial aparece no sentido de educado, polido, bondade natural, etc. A crítica que se deseja fazer é a obra de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. Será que foi esse o sentido que Sérgio Buarque de Holanda deu à palavra cordial? Entendemos que há aqui um equívoco interpretativo, ou vários…

O livro Raízes do Brasil foi publicado pela primeira vez em 1936, em pleno desenvolvimento do que os historiadores gostam de denominar de “Era Vargas”.  Período esse marcado por profundas transformações no Estado brasileiro e pelas disputas ideológicas e políticas, com a crise do modelo liberal e pela ascensão de formas autoritárias do fascismo, do nazismo e do stalinismo. Em meio a essa crise, a pergunta fundamental era qual é o nosso lugar nestas disputas? O que levava a questões, como: quem somos nós? Quais são nossas características fundamentais?

Essas perguntas instigaram as mais diferentes obras de interpretação do Brasil, algumas das quais se tornaram clássicos do pensamento social e político brasileiro, entre elas: Evolução do Povo Brasileiro (1923) Francisco José de Oliveira Viana, Casa-Grande & Senzala (1933),  de Gilberto Freyre Evolução Política do Brasil (1933) e Formação do Brasil Contemporâneo (1942) de Caio Prado Junior. Para realizar essas interpretações, os autores utilizavam diferentes referências teóricas e metodológicas. Viana construiu uma visão negativa da mistura de raças, já Freyre buscava valorizar a mestiçagem, Caio Prado, no marxismo… Em comum, as obras, como ensaios interpretativos, buscam o que éramos (somos) através de uma análise da nossa formação histórica. E o Sérgio Buarque de Holanda?

E O SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA?

Aqui começam as questões sobre Raízes do Brasil. As referências utilizadas por Sérgio Buarque de Holanda são menos obvias, ou menos explicitas. O pensador alemão Max Weber é uma referência bastante recorrente (há quem afirme que ele foi o primeiro intelectual brasileiro a citar weber). As perspectivas históricas dialéticas inspiradas em Hegel, ou ainda a hermenêutica historicista de Dilthey também estão presentes. Ao longo dos capítulos, vamos encontrar ainda debates implícitos com Viana, Freyre, Prado Jr.

Sérgio Buarque de Holanda rejeitava as explicações raciais, seja no sentido de Viana ou de Freyre, bem como materialismo dialético do marxismo não ortodoxo de Prado Jr.

Assim, Sérgio Buarque de Holanda se dirige ao passado, em especial ao colonial, para buscar compreender a nossa formação. Dessa busca emergiram quatro pontos fundamentais: o colonialismo português, o patriarcado rural, o homem cordial e as dificuldades (aporias) do liberalismo no contexto brasileiro. Nos primeiros quatro capítulos, ao analisar a colonização, demonstra que os portugueses não tinham a mesma ética do trabalho (referência ao Weber) do que aqueles que colonizaram a América do Norte. Mesmo em relação a América espanhola, as nossas diferenças eram consideráveis, Via no espanhol o ladrilhador trabalhador, aquele que constrói, planeja. No português, o aventureiro, o semeador.

A conclusão a que chega é que a empreitada portuguesa não foi feita por uma burguesia ascendente capaz de romper a velha ordem pela razão, (iluminismo), por novos valores (trabalho, lucro), impor uma nova forma de organizar o Estado e a sociedade. Em Portugal, a burguesia se desenvolve dentro da ordem numa relação parasitária e sem provocar uma ruptura com a ordem anterior.

Como a colonização não foi possível de ser feita pelo comércio e pela exploração minerais preciosos foi necessário plantar e trabalhar. Para plantar, o colonizador português implementou um sistema de trabalho escravo indígena e africano e organizou a produção em unidades rurais resultando na formação de um patriarcado rural.

O senhor rural, nos limites dos seus domínios, exercia de fato o jure, ou seja, valia a sua vontade para além de uma ordem legal.

O HOMEM CORDIAL   

O patriarcado rural se torna o centro organizador das relações sociais e econômicas e o lugar de exercício do poder, nascendo dai a mistura, ou uma não separação entre poder público e o privado.

É neste ambiente do patriarcado rural que emerge o homem cordial. Dado a inexistência das organizações burocráticas do Estado, de uma administração racional da coisa pública, prevalecia a instabilidade normativa. Essa instabilidade jurídica faz com  que as relações interpessoais sobressaíssem. As relações interpessoais dependem das relações “do coração”, dai a palavra cordial.

Afiliações, casamentos, graus de parentescos (familismo), amizades, cunhados e compadres é o que dá a garantia de estabilidade em uma ordem marcada pela fragilidade e instabilidade das instituições. As relações patriarcais, como não são reguladas pela razão, acabam por ser passionais.

O elemento passional é fundamental para entendermos essa forma de domínio, pois as relações de sangue são caracterizadas pelo exercício da violência privada. No Estado moderno, o monopólio da violência cabe ao Estado e ela é legitimada por uma ordem jurídica e burocrática, cabendo a justiça através das leis, normas e ritos disciplinar a violência que cabe, ao próprio Estado, aplicar. Já no patriarcado, a violência é exercida de forma privada, passional, desregulada, desproporcional e sem mediações. Sujeita as vontades única do patriarca.

O patriarcado não aceita oposições, ou questionamentos, pois qualquer dissidência é vista como uma ameaça ao seu poder pessoal e, por consequência, a ordem que o estabelece. Diante do poder do patriarcado não há oposição racional a ser feita e o que resta, como forma de sobrevivência, é a busca por uma negociação através das relações pessoais.

Portanto, Sérgio Buarque de Holanda não sugeriu que o brasileiro é pacífico ou não violento, mas que, diante de uma ordem instável e não racionalizada, a forma de sobrevivência se dá pela busca de se pacificar o conflito através das relações pessoais, pois em caso de conflito, prevaleceria a violência passional do patriarca. Da mesma forma, as disputas de poder, no âmbito do Estado, se dão pelo conflito entre patriarcas pela capacidade de distribuição de poderes pelos laços interpessoais e / ou pela violência que consegue exercer.

NOSSA REVOLUÇÃO

A prevalência do patriarcado rural debilita a formação de uma burguesia urbana e de um desenvolvimento de uma forma capitalista liberal, sem uma burguesia liberal urbana. A insegurança jurídica, a arbitrariedade, a não racionalização das relações, a falta de racionalidade na produção e o familismo impedem o estabelecimento de uma ordem liberal e do desenvolvimento das relações capitalistas. O liberalismo no Brasil fica restrito e constrangido a um mero discurso legitimador da ordem existente e é incapaz de rompê-la.

Não é apenas a ordem liberal que o homem cordial impede de nascer. O homem cordial é incompatível com a modernidade e todas as ideias que dela derivam. Não é possível ser conservador, apenas atrasado. O fascismo exige disciplina e ordem. O comunismo, pede uma organização racional da produção… E nada disso é compatível com as relações interpessoais da cordialidade.

Para Sérgio Buarque de Holanda, a nossa revolução seria superar, em primeiro lugar, a ordem patriarcal colocando fim ao homem cordial. Tarefa da qual estamos muito distantes de realizarmos e, enquanto isso, seguimos mais cordiais do que nunca.

  • Editora: Penguin; Companhia das Letras
  • Idioma: Português
  • Número de páginas: 112
  • ISBN-10: 8563560441
  • ISBN-13: 978-8563560445