Na minha casa todos os animais ganham um apelido. Não chega a ser um nome, como um nome próprio. É mais uma forma de identificar de quem se trata. Vivendo entre o mar e uma reserva florestal recebemos várias visitas esperadas e inesperadas. Agradáveis e as vezes nem tanto. Os animais que nos visitam tem de dividir espaço com os que vivem na casa: três gatos, dois cachorros. Os animais permanentes têm nome: Ching, Ling, BG são as gatas. Raika e Nika, as cadelas. Os visitantes mais frequentes são: família jacú, nome do pássaro que sempre chega com filhotes. E por aí vai…
De todos os animais que apareceram, ou que acabam vivendo conosco, o mais enigmático foi o gato amarelo. Grande. Forte. Uma pata enorme. Rápido e selvagem. O gato amarelo colocava medo em todos os outros animais da casa e era o menos sociável. As vezes sumia, as vezes voltava. Miava um miado alto para avisar que havia chegado. Colocávamos comida do lado de fora da casa. Pensamos em adotá-lo, mas ele não queria ser adotado. Vivia como uma espécie de pensionista. Chegava de noite, comia, dormia e antes de todos acordarem já havia desaparecido pela mata. No inverno dormia debaixo do carro, aproveitando o calor do motor.
Colocamos um tapete, ele recusou. Colocamos comida dentro da casa, ele não entrou. O gato amarelo era selvagem e não queria deixar de ser. Quando os outros animais tentavam se aproximar conheciam as suas garras e suas enormes patas. Não era raro ver os outros gatos se escondendo quando o Amarelo resolvi andar pelos muros. Por mais de uma vez, um dos cachorros apareceu com um corte no focinho. Era a unha do Amarelo fazendo mais uma vítima.
Era impossível correr atrás dele. Suas patas longas e fortes lhe davam uma impulsão difícil de ser acompanhada. De um salto só alcançava o alto do muro e dele se atirava na mata e sumia. Vivia assim, não queria saber de outra vida e com o tempo nós acostumamos com aquela forma selvagem de ser. Por vezes, como todo gato macho sumia por uns dias e voltava mais magro. Quando não encontrava comida ficava esperando na porta. Nos encarava com um olho enorme tão amarelo quanto o seu pelo. Enormes e intensos, os olhos brilhavam.
O Amarelo não era muito amigável. O vizinho o odiava! Em mais de uma ocasião ele “roubou” comida do velho desprezível. Durante os churrascos era bom que ficasse esperto mesmo. Amarelo arrumava uma forma de roubar carne e pular pelo muro. O vizinho tentou agredi-lo, tentou envenená-lo, mas o Amarelo era mais esperto, mais rápido e eu diria mesmo mais inteligente. Percebia as tramoias e arapucas do infeliz e dava volta nele. Nós ríamos das histórias. Aos poucos, o Amarelo virou uma espécie de lenda na rua.
A lenda só aumentou, quando ele, na frente de todos, matou uma cobra. Não era qualquer cobra. Era “A” cobra! Aquela que todos morrem de medo. O Amarelo foi de um pulo e a segurou com as quatro patas. Fez as garras entrarem na pele e com uma dentada eliminou o animal peçonhento. Agora, o Amarelo era temido e respeitado: “Ele matou uma cobra desse tamanho assim óh!” Apontava com as mãos e os braços, o exagerado jardineiro.
O Amarelo sumiu! Normal! Mas a natureza tem certa rotina. Se você observar bem vai descobrir que os animais desenvolvem hábitos. Chegam na mesma hora, entram pelos mesmos lugares, procuram pelas mesmas coisas. Eles se acostumam repetem, repetem e repetem, enquanto der certo.
Passou uma semana, passou a segunda semana… Na terceira ficamos preocupados. O Amarelo já está há muito tempo desaparecido. Está fora do normal. Começamos a procurá-lo. Desconfiamos do vizinho. Nós o questionamos! Nada do Amarelo aparecer.
E foi tarde da noite. Escutamos um miado: “É o Amarelo!”. “Não! Está muito fraco para ser o Amarelo”. Os cachorros corriam de um lado para o outro, latiam, não pararam quietos até que fomos ver o que estava acontecendo.
O Amarelo estava estirado ao chão, perto da porta onde ele comia. Parecia muito magro. Deitado e largado como nunca o havíamos visto. Nos aproximamos lentamente, não queríamos que ele se assustasse e tentasse correr. Quando chegamos perto, vimos que ele sangrava e uma das patas traseiras estava dilacerada. Dilacerada! Moída! Quase não existia! Era uma cena de horror…
Pegamos água e comida. Colocamos praticamente na boca do gato. Ele comeu. Estava faminto! Pela primeira vez colocamos a mão no animal. Sentimos um pelo macio e um excesso de pele sobre o que agora era pouca carne. Amarelo respirava forte entre uma bocanhada e outra na comida que tínhamos que empurrar em sua boca.
Fizemos um torniquete na perna e ele não reagiu, nem mesmo quando apertamos o pano. Sabíamos que era grave! Pegamos uma caixa, lentamente o levantamos e o colocamos nela. Fez força para miar, para se mexer, mas já não conseguiu.
A pata de trás estava perdida, mas queríamos salvá-lo mesmo assim! Procuramos um veterinário que pudesse atender. Rodamos pela cidade com o carro até descobrir alguém disposto a ver o animal que agonizava.
Encontramos um veterinário. Mas seu diagnóstico não deu nenhuma esperança. Não era só a pata… O quadril e perto da coluna também estavam afetados. Não havia melhor solução. Era preciso tomar a decisão de sacrificá-lo. O sofrimento já estava muito forte, mesmo para um animal tão grande.
Tomamos a decisão. Olhamos pela última vez nos olhos do Amarelo e nos despedimos…
O que poderia ter causado tal ferimento? Uma cerca? Arame farpado? Nada disso encontrávamos nas redondezas da casa.
– Foi uma armadilha de caça! – esclareceu o veterinário – Já é o segundo animal que eu vejo machucado dessa forma.
– E o que levaria alguém a espalhar armadilhas?
– Vender carne de animais “exóticos” para os restaurantes que agora as servem como iguaria. Os gatos acabam caindo nelas também!
– Isso é legal?
– Claro que não! Mas… nessa cidade… Os turistas adoram esses restaurantes. Sabe como é, né? Aí ninguém sabe! Ninguém viu!
Enterramos o Amarelo! Foi um selvagem enquanto viveu! Ainda hoje nos faz falta! Ele Foi assassinado pela armadilha de um caçador que, desesperado por uns trocados, caça qualquer animal nas matas para o deleite dos ricos e seus chiques restaurantes de comidas exóticas.