Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

Na semana passada (no dia 18 de maio) recebemos a triste notícia do falecimento do professor Boris Schnaiderman. Tive o prazer de conhecê-lo quando lhe pedi para escrever o prefácio do meu primeiro livro O Germe da Revolução: A Comunidade Lituana Sob Vigilância do Deops e ele, de forma generosa e receptiva recebeu o texto daquele então jovem pesquisador de 21 anos de idade. Ele aceitou! E escreveu um belo texto. (Ler o Prefacil)

Na mesma época, trabalhando em um projeto chamado PROIN  (Site do projeto Aqui) tivemos a ideia de pedir para que ele escrevesse um pequeno texto para a Revista Seminário 3 editada pelo PROIN (Link para as Revistas). Novamente, Boris Schnaiderman aceitou. Fizemos uma pequena entrevista que eu transcrevi e levei para que ele pudesse acrescentar os dados que faltavam e preparar o texto que finalmente publicamos.

Ao contrário da maior parte das entrevistas, nesta desejávamos focar na sua participação na Segunda Guerra Mundial e nas suas atividades políticas. Ele selecionou um trecho que já tinha separado do seu livro que colocamos ao fim do texto. Ficou um texto simples, mas como homenagem vale ler novamente. Só lamento profundamente não ter encontrado a foto que tiramos na ocasião!

Revista Seminários – no 3. Crime, Criminalidade e Repressão no Brasil República

(link para a entrevista PDF)

BORIS SCHNAIDERMAN
UM PACIFISTA QUE FOI PARA A GUERRA…

Depoimento registrado por Erick R. Godliauskas Zen

Nasci na cidade de Úman, na Ucrânia, em 1917, como filho de judeus russos, e os judeus russos que moravam nas cidades grandes estavam, na sua maioria, muito russificados. Tive uma formação russa, não tive nenhuma formação judaica. Meu pai era comerciante e, como tal, evidentemente, não estava adaptado ao sistema comunista. Quando eu tinha apenas um ano de idade, meus pais se mudaram para Odessa por causa dos pogrons, os massacres de judeus. Tenho uma vaga lembrança, muito vaga, de histórias sobre um irmão de minha mãe que havia tomado parte nos eventos de 1905… Lembravam dele em casa com muito carinho, mas eram simpatias muito vagas.

Morei em Odessa até os oito anos de idade, ou seja, até dezembro de 1925, quando minha família imigrou para o Rio de Janeiro. Tenho uma lembrança muito especial de Odessa: era praticamente uma cidade russa. Ali eu nunca ouvi o ucraniano, só se falava russo. Meus amigos falavam russo, nós falávamos russo em casa. E quando eu ia à feira com alguém ouvia o ucraniano falado pelos homens do campo que ali vendiam seus produtos.

Chegamos ao Rio de Janeiro em dezembro de 1925, onde permanecemos por pouco tempo. Depois minha família mudou-se para São Paulo, onde meus pais tinham alguns amigos judeus, mas eram judeus também muito russificados, de tal modo que o meu ambiente era mais russo do que judeu. Nunca recebi formação judaica, embora eu tenha sido circuncidado. Enfim, nós não tínhamos nenhuma relação com o mundo judaico.

No Brasil, meu pai continuou a trabalhar como comerciante, mas com muitas dificuldades, muitas dificuldades… A convivência com os brasileiros era boa. Tenho boas lembranças da minha infância no Brasil, apesar das dificuldades, isso na infância. Mas, não tenho lembranças boas da adolescência. Não tenho porque meu pai enfrentou grandes dificuldades financeiras e eu procurava ajudá-lo sempre que possível. Faziam questão que eu tivesse um título, algum curso superior. Insistiam em agronomia e eu queria literatura.

Quando eu tinha 17 anos, portanto em 1934, meus pais mudaram-se de São Paulo para o Rio de Janeiro. Ali trabalhei com o meu pai em uma lojinha de sua propriedade até completar meus 19 anos. Minhas lembranças são péssimas… Nessa época o Brasil vivia sob um regime autoritário que tinha muita desconfiança em relação ao estrangeiro.

Eu me formei engenheiro agrônomo em 1940, mas não podia exercer a profissão porque, como estrangeiro, eu só poderia exercer a profissão depois de naturalizado. A naturalização era difícil para quem era nascido na Ucrânia, na União Soviética. Eu tratei da minha naturalização sozinho, sem advogado nenhum. Fiquei andando de repartição em repartição para consegui-la, o que ocorreu em 1941. Mas eu só poderia exercer a profissão de agrônomo depois que eu fizesse o serviço militar. Então, entre 1940 e 1942, eu fiquei sem poder exercer a profissão. Procurei dar algumas aulas, fazer uns bicos. Depois que saiu a minha naturalização, consegui um emprego no Ministério da Agricultura.

Essa era uma época difícil para os judeus que, localizados em diferentes pontos da Europa, tentavam encontrar refúgio em algum lugar. Lembro-me que, em 1940, meu cunhado Marc Leitchic ajudou muitos desses judeus que estavam fugindo do nazismo. Ele era diretor da JCA, instituição que cuidava da entrada de judeus para uma colônia no Rio Grande do Sul, razão pela qual tornou-se “suspeito”. A polícia política invadiu minha casa. Eu estava voltando da aula e quando cheguei encontrei homens sem paletó… Naquele tempo ficar sem paletó era o cúmulo da intimidade! Me detiveram, porque minha família já havia sido levada para o DOPS, para onde também fui levado. Era o tipo da coisa boba. Eu não tinha nada para dizer, pois não sabia o que o meu cunhado fazia. Nós morávamos na mesma casa, mas eu não sabia se ele tinha ajudado emigrantes clandestinos. Prenderam todo mundo, levaram de casa tudo que era documento, papéis, correspondências, etc. Eu recebia cartas de amigos, possuía cadernos de estudos… Levaram tudo! No entanto, minha detenção foi bem curta.

Com relação às idéias marxistas, aconteceu o seguinte: meus pais tinham muita preocupação para eu não me envolver em nada, não ter nenhum contato… Agora eu tinha um interesse muito grande, lia os textos marxistas, mas tinha muitas dúvidas em relação à União Soviética. Tinha muitas dúvidas… Então,quando começou a II Guerra Mundial e ocorreu o pacto germano-soviético, aí fiquei contra mesmo. Os nazistas estavam fazendo coisas horríveis. Agora durante a guerra, existia aquele entusiasmo pela resistência russa. No ocidente todo havia muita admiração pela resistência russa.

Em 1942, eu fiz o serviço militar no quartel. Poderia fazer o que se chamava “Linha de Tiro”. Mas, o CPOR – que formava oficiais de reserva – eu não tinha o direito de fazer, porque como brasileiro naturalizado não poderia ser oficial. Eu só poderia fazer o serviço militar como praça; então ao invés de fazer “Linha de Tiro”, preferi fazer no quartel. Por isso, eu fui convocado. Tinha vontade de ir para a guerra, mas ao mesmo tempo tinha muito medo da minha família… Se chegasse para a minha família e dissesse que queria ir para guerra, não daria certo. Eles tinham um domínio completo sobre mim, então eu não fiz isso. Ao invés de fazer a “Linha de Tiro” fui servir no quartel. Nessa época eu já era engenheiro-agrônomo. Fiz curso de sargento, portanto, era inevitável que iria ser convocado. Sabia que iria ser. Fui convocado nas vésperas do primeiro embarque das tropas brasileiras para a Europa em julho de 1944.

Vejamos: qual era a motivação dos soldados? O Brasil estava sob regime de inspiração fascista e ao mesmo tempo ia-se para um outro país lutar contra o fascismo… Aí é que está! Os soldados não tinham motivação nenhuma. A grande maioria, no entanto, lutou e lutou muito bem, como os melhores. Não posso dizer o contrário. Mas, não tinham preparo nenhum, era nulo. Durante meu tempo de quartel fui treinado de acordo com as normas do exército francês, porque a tradição do exército brasileiro era a francesa; então o armamento era diferente, o sistema era diferente. Era tudo diferente do que nós encontramos na Itália. Eu era sargento de artilharia. Pelo sistema vigente no Brasil não poderia calcular tiro, quem calculava era o capitão. Pelo sistema americano, passei a ser calculador de tiro, aprendi lá, praticamente em ação, na prática.

Durante o conflito na Itália, participei da artilharia: primeiro num front menos duro. Aos poucos fomos passando mais ao centro da Itália, depois ficamos na região do rio Serchio. Agora, o duro mesmo foi quando nos transferiram para o front do Castelo. Ali passei algumas semanas diante de uma ponte que era constantemente bombardeada. Depois participei da ofensiva final em abril de 1945.

A população local estava completamente arrasada, em estado de miséria. Quando nós entramos no norte da Itália… aí foi uma glória! A população nos recebeu de braços abertos, jogavam flores, abraçando a gente. Antes disso era uma população miserável. Tivemos bastante contato com eles. A relação foi boa, mas não como nós encontramos no norte da Itália, o delírio da libertação. O fascismo já era muito impopular. A população já se manifestava contra o fascismo no final da guerra.

A guerra acabou e nós voltamos ao Brasil. Depois de ter lutado contra o fascismo e o nazismo na Europa, qual foi a reação dos soldados ao voltar e encontrar o governo Vargas? A maioria dos soldados tinha lutado, lutado bem, como os melhores, mas a grande maioria não tinha consciência, a grande maioria era getulista. O povo era getulista.

Depois da guerra, meus pais continuavam preocupados com que eu não tivesse nenhum contato com a União Soviética. Mas, ao mesmo tempo, eles se aproximaram da embaixada russa. Acabei trabalhando junto à agência de notícias soviética, a Tass, no Rio de Janeiro, mas não me considerava comunista, meus pais é que tinham medo. Eu não me considerava comunista, tinha muitas dúvidas e ficava em uma posição contraditória, porque ao mesmo tempo achava que o capitalismo tinha que acabar e tinha desconfiança em relação à União Soviética. Era uma situação muito ambígua a minha. Depois que me casei – meu primeiro casamento foi em 1949 com Regina Schnaiderman – fiquei muito influenciado não só pela minha mulher, mas pelo círculo de seus amigos. Acabei praticamente militando no Partido Comunista Brasileiro no que se chamava “comissão de finanças”, porque o partido, de modo geral, queria da colônia judaica “grana”, queria “grana”. Em fins da década de 1940, eu era funcionário do Ministério da Agricultura, mas estava cansado daquele tipo de serviço público. Meus pais estavam muito assustados com a repressão do governo Dutra. O sistema era democrático, eleito pelo povo, etc. Mas grande parte da legislação em vigor era a mesma legislação fascista do Estado Novo. Então eu participei da comissão de finanças durante alguns poucos anos. Estávamos vendo o Stalinismo, mas ao mesmo tempo queríamos que o capitalismo acabasse e achávamos que o único jeito era apoiar. Logo que houve o “estouro da boiada” em 1956, com as revelações do relatório de Kruchov e a invasão da Hungria, muitos se colocaram contra e eu fui um deles. Foi quando deixei o partido.

Com relação à minha experiência na agência Tass, onde trabalhei entre 1945 e 1947, se não me falha a memória, eu era o secretário do então correspondente Iúri Kalúguin. Essa experiência foi bastante frustrante, embora ele fosse muito boa gente. Tive contato também com as pessoas da embaixada, onde eu percebia antissemitismo. Não eram pessoas com grande abertura para o mundo… de jeito nenhum! Eram muito fechados nas suas posições, muito dogmáticos.

Depois do golpe de 1964, minha reação foi de revolta, inclusive enfrentei muitas dificuldades. Nessa época eu já era professor da USP e lecionava junto ao Departamento de Lingüística, Teoria Literária e Línguas Orientais. Tornei-me professor da USP em 1960, primeiro como contratado para iniciar um curso livre de russo. Eu sabia que eles precisavam de um professor de russo porque iria ser inaugurado, aí me candidatei. Eu já tinha publicado alguns trabalhos sobre literatura russa na imprensa. Trabalhava na redação de uma enciclopédia. Em 1963, o curso livre foi substituído por um curso regular, enquadrado no sistema geral da USP. A partir de 1964, participei das manifestações e comícios, mas não tinha nenhuma ligação partidária com grupo nenhum. Se alguém me interrogasse sobre grupos atuantes, não teria o que dizer. Agora, ao mesmo tempo, eu participei de todos os protestos. Meu filho Carlos – eu tenho um filho e uma filha – participou da luta contra a ditadura então, eu tinha muitas vezes a polícia em casa à procura do meu filho. Fui preso várias vezes, mas por poucas horas, porque eles sabiam que não tinha ligação nenhuma. Tanto é que quando eu era preso não me perguntavam quem eu conhecia, porque sabiam que estava completamente “solto”. Lembro-me que uma vez tive a polícia na sala de aula para verificar documentos dos alunos. Protestei violentamente e fui preso, claro! Várias vezes fui preso, sem maiores conseqüências. Era uma situação muito desagradável, muito difícil. Você estar almoçando e aparecer quatro, cinco indivíduos, todos com arma na cintura para revistar a casa e para te levar. Numa ocasião fui levado para o OBAN; em outra ocasião fui levado para o DEOPS.

Opção pela luta armada? Eu não tinha muita convicção. Achava que se devia apoiar, mas ao mesmo tempo não tinha muita certeza se era esse o caminho. Mas estavam lutando e tinha que apoiar tudo que se fizesse contra a ditadura. Tenho uma certa resistência ao uso de arma, apesar de ter ido para a guerra. Nunca tive vontade de usar arma, sempre resisti a usá-las. Tenho um respeito muito grande pela vida alheia. Agora, durante a guerra, achei que era necessário, não se podia deixar! O nazismo estava avançando… Com toda a minha aversão a pegar em arma achei que não tinha outro caminho. Um paradoxo: um pacifista que foi para a guerra com vontade de ir para a guerra.

Quando criança, nos primeiros tempos de Brasil, estava muito ligado às lembranças da Rússia, na verdade da Ucrânia (mas digo Rússia porque vivíamos em um meio muito “russificado”). Odessa era uma cidade russa. Tinha uma ligação afetiva muito grande com a minha infância na minha terra natal, com a língua russa. No Brasil eu ficava copiando autores russos… Fazia cadernos, copiava, não queria esquecer a língua. Em casa se falava o russo, e eu me esforçava para não esquecer a língua. Tinha sido alfabetizado apenas, mas queria conhecer bem a língua, ficava copiando e lia muito em russo. Aos 14 anos passei por uma fase de fascínio pelo mundo que estava encontrando no Brasil, passei a ler autores brasileiros e portugueses, a me dedicar ao português. Fui muito estimulado pelos professores no curso primário. Tenho uma lembrança muito boa. Acho que não se dá o suficiente valor à contribuição da mulher brasileira na formação de jovens. Foi uma coisa muito importante para mim. A partir daí queria me dedicar à literatura, mas como tinha antes dito que gostava de agronomia, isso aos doze, treze anos, então meus pais achavam que tinha que fazer agronomia e acabei fazendo. Com muitas dificuldades, pois meus pais estavam passando por dificuldades financeiras e eu tinha perdido todo o meu curso secundário. Em São Paulo houve – isso nos tempos de Getúlio Vargas – uma coisa horrível! Cassaram os direitos dos estudantes do Mackenzie. Os diplomas do Mackenzie passaram a não valer nada; o meu curso secundário não valia nada… Então eu cursei no Rio de Janeiro o que hoje em dia chamamos de supletivo, ou melhor, durante dois anos fiz os exames, que eram muito fáceis, muito simples, e acabei efetivando o meu curso secundário. Depois ingressei na Escola Nacional de Agronomia.

Continuei com meu interesse pela literatura. Maiakovski eu conhecia um pouco de ver revistas, trechos, poemas reproduzidos. Tomei contato com a obra dele quando pude comprar as obras completas, isso no fim da década de 50 ou início da década de 60. Me entusiasmei e fiz traduções de suas obras em colaboração com Augusto e Haroldo de Campos, e que hoje estão no livro Maiakovski, Poemas, publicado pela Editora Perspectiva.

Hoje, com relação ao panorama político do país, sobretudo depois da eleição de Lula, não tenho muito a dizer. Sou membro fundador do PT e sempre o encarei com muita simpatia; depois acabei me afastando… Achei a eleição muito positiva. Estou na expectativa…

FRAGMENTO DA OBRA: GUERRA EM SURDINA

BORIS SCHNAIDERMAN

Eu estava certo de que, para lutar, era preciso saber o que se fazia. Estes homens, evidentemente, não sabem. E, todavia, como se dedicam, como enfrentam esta natureza hostil, como investem contra um inimigo experimentado e ardiloso! Lá diante, no front da infantaria, as patrulhas saem, penetram nas linhas inimigas, enfrentam mil perigos. Aqui, sob a minha janela, vejo soldados arrastando-se sobre a neve da estrada, às vezes sob o bombardeio, consertando linhas telefônicas. Nenhum deles pára a fim de pensar no que está fazendo, mas são tremendamente eficazes.

A Guerra tem suas próprias leis, os homens vivem nela como num turbilhão do qual não adianta querer sair. Até a crueldade tem algo de inexorável, acaba sendo aceita como uma fatalidade. Lembro-me da ausência de qualquer animosidade contra o inimigo, e que chegou a me deixar tão indignado. Mas agora tudo mudou. A brutalidade, a estupidez da guerra nazista são por demais evidentes. O bombardeio contínuo das cidades, a população alucinada de pavor, as crianças famintas, as notícias de atrocidades contra os partiggiani e seus parentes, a morte de companheiros, tudo isso tem o seu reflexo mesmo no homem de gênio mais brando.

SCHNAIDERMAN, Boris. Guerra em Surdina. História do Brasil na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 128.