Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen 

Twitter @erickrgzen

Movements often start with a courageous act of resistance. These are not isolated acts. They are inspired by past movements. And they inspire future one.”

Amy Goodman. Democracy Now!

1. A luta pela diversidade nas Universidades Americanas.

Foto: Erick Zen
Foto: Erick Zen

É preciso neste momento escrever sobre diversidade. E este ano, muito por acaso, pude ver a luta do movimento afro-americano nas Universidades Americanas. Começo contando um “causo”.

Em um dia frio e monótono de janeiro, eu andava eu pelo campus da Columbia University (onde realizo pesquisa de pós-doutorado como visiting scholar), quando me deparei com uma roda de estudantes com cartazes e gritando em alto volume frases de ordem que faziam ecoar pelos ares ao serem repetidas como em um grande coro de fúria.

Na roda organizada nas escadarias na frente da imponente sede administrativa exigia que a Universidade desse mais atenção as questões relacionadas a diversidade seja de alunos, funcionários e professores.

Como estrangeiro, eu tive dificuldade de entender o que estava acontecendo! Verdade que eu já tinha visto cartazes do movimento Black Lives Matter. Columbia é uma universidade de elite, financeira e (principalmente) intelectual… Afinal, o que era aquele movimento? Seria um reflexo, ou repercução, entre os estudantes, de um importante movimento na sociedade Americana?

2.Black Lives Matter.

foto: Erick Zen
foto: Erick Zen

Antes de entrar na questão universitária, propriamente, para quem não está acompanhando, algumas informações sobre o movimento Black Lives Matter ( #BlackLivesMatter)

O Black Lives Matter hoje é um movimento social de alcance internacional e como movimento social é estruturado em redes horizontais e sem hierarquia.

O movimento teve início após o assassinato do adolescente Trayvon Martin e ganhou força em 2014, após o assassinato de Michael Brown que resultaram nos protestos na cidade de Ferguson e de Eric Garner em Nova York. Seu primeiro objetivo é chamar a atenção para altíssimo índice de mortalidade devido os assassinatos cometidos por policiais de afro-americanos.

3. O movimento nas universidades

No fim de 2015, os estudantes afro-americanos da Universidade de Missouri (chamada muitas vezes de Mizzou) deram início a semanas de protestos contra o que eles denominavam de “ausência de resposta ao racismo” (lax response to racism). A resposta das autoridades não foi positiva e estudantes foram reprimidos de todas as formas.

foto: Erick Zen
foto: Erick Zen

Em meio a estes protestos Jonathan Butler, um estudante da graduação deu início a uma greve de fome exigindo a renuncia do Presidente (Reitor) da Universidade de Missouri Tim Wolfe. Em suporte ao protesto de Butler os estudantes montaram um acampamento na Universidade e enfrentaram a repressão.

De forma inesperada o movimento ganhou um grande apoio, pois os jogadores afro-americanos do time de Football Americano aderiram ao movimento e decidiram não jogar, enquanto não fosse feita justiça e o Reitor Wolfe não renunciasse ou fosse removido. Os jogadores afirmavam que o Reitor fora negligente para com os estudantes marginalizados, uma vez que ele propunha cortar o seguro de saúde dos estudantes enquanto investia cerca de 72 milhões em um novo estádio de football.

Na sua manifestação eles invocaram uma frase do Dr. Martin Luther King Jr. “A Injustiça em qualquer lugar é uma ameaça a Justiça em todos os lugares” (Injustice Anywhere is a threat to Justice Everywhere).

A ameaça dos jogadores teve um impacto decisivo, pois a cada jogo que eles se recusassem a entrar em campo haveria um prejuízo de 1 milhão de dólares. A reação dos jogadores também expôs a relação entre as universidades americanas, os esportes e as relações raciais. Os estudantes afro-americanos são 7% do total de estudantes, mas são 70% dos atletas nessas mesmas universidades.

Finalmente o Reitor Wolfe renunciou e Butler colocou fim a sua greve de fome!

Esse movimento deu início na virada de 2015 – 2016 a uma série de novos movimentos nas outras universidades que ficou conhecido como #BlackOnCampus. Na Universidade de Yale, os estudantes levantaram questionamentos sobre o racismo sistemático em seu campus e marcharam com os estudantes de Missouri. Outros movimentos também se manifestaram na Smith College, Princeton, Stanford, Ithaca College e também em Columbia. Este último foi o que eu testemunhei, como você pode ver nas fotos.

O que me surpreendeu neste movimento foi verificar que um movimento social não era somente uma questão daqueles que viviam em situação de exclusão, mas mesmo entre aqueles que podemos chamar, sem nenhuma dúvida, de elite… As mesmas questões de exclusão apareciam! Desta forma, a reivindicação constate e a vigilância é a única forma de que não se dê passos para trás, em momentos de crises e oportunismos.

Dica de livro:

A maior parte das informações para este post foram retiradas do livro:

Amy Goodman, David Goodman, Denis Moyham. Democracy Now! Twenty Years Covering The Movements Changing America. Simon&Schuster, New York, 2016.

Dica de filme:

Não tem nenhuma relação direta com o artigo, mas por alguma razão enquanto eu escrevia lembre de um filme que trata da relação entre um jovem negro, racismo, esporte e estudos. Da última vez que consultei estava disponível na Netflix.Vale conferir:

Finding Forrester (Encontrando Forrester) com a direção de Gus Van Sant e atuação de Sean Connery e Rob Brown, ano 2000.