Na imprensa brasileira, e mesmo nas publicações especializadas, fica evidente a dificuldade dos analistas em entenderem o fenômeno Democrata Bernie Sanders. Para muitos, um candidato`a presidência dos Estados Unidos que se apresente como Democrata Socialista, é exótico! Para outros, ele não seria um “verdadeiro socialista” e, finalmente, a direita, já utilizou até mesmo a palavra populista para defini-lo. Neste pequeno texto vou esboçar (sim esboçar!) a resposta para duas perguntas: 1) Por que os analistas brasileiros têm dificuldade em lidar com os fenômenos da política interna dos Estados Unidos ? 2) O que o fenômeno Sanders nos diz sobre a sociedade americana? Esse texto completa o primeiro publicado AQUI

Uma das coisas mais impressionantes sobre as Ciências Humanas no Brasil é o seu eurocentrismo! Eurocentrismo tanto na elevada carga horária dos cursos de graduação como na visão europeia de mundo que coloniza a nossa percepção. Apenas aponte um único curso de História de Ciências Políticas, Relações Internacionais e Jornalismo que se dedique a História e a sociedade americana e eu mudo esse parágrafo. No geral, o que vi (e mais de uma vez) foi a História da América Latina e História dos EUA perderem espaço nas grades dos cursos substituídas, na maior parte das vezes, por um blá-blá-blá pseudo teórico ou por regionalismo provincianismo pseudo culturais.

Com isso, o nosso conhecimento, e a produção do conhecimento, sobre Estados Unidos é muito limitado. No que se refere as questões temáticas, em geral, os estudos se limitam a política externa americana e sua influência no Brasil e muito pouco sobre a sociedade americana (a excessão são as comparações entre escravismo no Brasil e nos EUA). Como resultado, não dispomos de analistas que tenham instrumentos intelectuais adequados para interpretar a sociedade e a política americana e, quando a fazem, utilizam instrumentos e paradigmas europeus para a análise. Isso é realmente incrível! Afinal, qual foi o país mais influente no Brasil em termos culturais e políticos no último século? E justamente este é o que você, caro colega de humanas, não estuda!

Diante deste quadro, o que resta são muitos chutes e desentendimentos. O fenômeno Sanders poderia servir como estudo de caso, nesse sentido. O primeiro erro é tentar analisar o que Sanders propõe como “socialismo” através da história da Europa. Assim, tentamos entender Sanders pela lente do Partido Social Democrata Alemão ou pelo Partido Socialista Francês, ambos utilizados como paradigma de social democracia. Ocorre que, em grande medida, o “socialismo”, tem um desenvolvimento histórico particular nos Estados Unidos.

Se é verdade que o Partido Socialista e o Comunista Americano seguiram por longo tempo os caminhos da Segunda e da Terceira Internacional, no que se refere ao campo das ideias, muitas perspectivas socialistas e anarquistas nos EUA se combinaram com um liberalismo radical, em particular na virada do século XIX para o XX. Portanto, se não for considerado o desenvolvimento particular do socialismo nos EUA, a tendência que se tem é de considerar Sanders como um exótico, ou como um falso socialista. Na verdade, a dificuldade aqui são dos analistas e não do candidato.

Um dos lugares mais profícuos do desenvolvimento socialista e anarquista nos EUA foi Nova York, em especial em dois bairros no Harlem e no Brooklyn. Bairros estes que são tradicionalmente de operários negros, mas também de imigrantes do leste Europeu, no início do século, e de imigrantes latinos, a partir da segunda metade do século XX. Foi justamente no Brooklyn, como filho de judeus imigrados da Polônia, que Sanders nasceu e foi criado, em uma família com ideias de esquerda. Em muito, esses imigrantes operários, como ele, se desenvolveram economicamente e chegaram ao sonho da classe média americana.

Portanto, o socialismo que Sanders viveu e viu se desenvolver como princípio e ideal é histórico e não oportunista. O socialismo americano, no decorrer do século XX (e aqui precisaria de páginas e páginas para explicar como), toma bandeiras como da igualdade e equidade o que muito significou salário justo, direitos trabalhistas, direitos civis (sobretudo para inclusão do negro, indígena e das mulheres). Ao mesmo tempo, também apresentou uma crítica aguda ao domínio do Estado por uma plutocracia financeira, ao segredo de Estado, as guerras não justificadas, a crítica ao crescente poder do complexo militar e industrial sobre democracia. Não foi atoa que a primeira aparição de Sanders como ativista político se deu na luta por direitos civis e contra a Guerra do Vietnam.

A essas bandeiras, a esquerda socialista americana acrescentou uma defesa dos direitos humanos e aos direitos constitucionais e principalmente, (principalmente!) nos direitos dos trabalhadores! E a defesa do poder local como fundamental para a democracia.

Desde que se iniciou na atividade política, Sanders carregou todas essas bandeiras, mesmo quando isso significou enormes contradições. Por exemplo, sua defesa radical da constituição americana, o que inclui a Segunda Emenda, fez com que ele nunca defendesse a restrição ao uso das armas de fogo! Quando foi eleito como Governador do Estado de Vermont recebeu doações da NRA (Associação Nacional do Rifle), principal lobista dos fabricantes de arma.

Por outro lado, sua coerência fez com que ele fosse um dos poucos Senadores a votar contra a intervenção militar no Iraque e ser um forte crítico das guerras recentes que os EUA se envolveu, incluindo ai a guerra ao terror e ao excessivo poder das agências de informação para espiar os cidadãos americanos.

Isso não significa que não tenha posições duras com relação a política externa, pelo contrário. Sanders é um grande defensor, por exemplo, do Estado de Israel. Em um comício de sua campanha um militante pró-palestina que o criticava foi retirado a força do evento.

Se as ideias de Sanders não são novas o que o levou a crescer politicamente a ponto dos democratas preferirem a ele e não a Clinton? A reposta está na defesa dos direitos trabalhistas! Esse é o ponto central!

Desde a crise de 2008 os EUA passaram por uma enorme onda de desemprego que vai até 2010 (2011). Atualmente, a maioria dos americanos já recuperou o emprego (o desemprego está por volta de 5%). No entanto, nesse dado tem uma “pegadinha”.

Se o emprego aumentou o salário diminuiu! Ou seja, os americanos que já estiveram próximos a classe média tem dificuldade em pagar as suas contas. Quem recebe o salário mínimo ($7 dólares por hora) não consegue pagar por aluguel ou hipoteca, ter um plano de saúde (nos EUA não há saúde pública universal e é preciso comprar um plano privado ou agora Estatal) e menos ainda pagar educação (College) para os filhos!

É para essa população e para a classe média, que perdeu o seu poder de consumo, que as propostas de Sanders soam como música. Propostas tais como: elevação do pagamento mínimo, saúde universal, acesso a educação entre outras.

 Ainda é preciso acrescentar o papel dos jovens que aderiram a campanha, pois atualmente as possibilidades de um recém formado em uma faculdade entrar ou de se manter na classe média, na atual situação americana, é bastante limitada, ainda mais com as enormes dívidas que os jovens acumulam para estudar somadas as dificuldade para se conseguir um emprego com benefícios ou contrato longo.

No mesmo sentido, as críticas ao poder dos financistas e ao complexo militar na democracia americana, e a proposta regulamentar essa participação, revelam que a maior parte dos americanos entendem que a sua democracia corre risco, quando o poder financeiro é maior do que participação popular.

O candidato Bernie Sanders, portanto, não é um exótico, oportunista, populista, pelo contrário, ele faz parte das lutas políticas e das crises recentes pelas quais os Estados Unidos passaram nas últimas décadas. A luta é histórica e ganhou força diante de uma conjuntura em parte estrutural e em parte específicas. Se tudo isso será suficiente para conseguir a vitória sobre Hillary Clinton e sobre o candidato Republicano ainda é cedo para saber. O que certo é que tentar medir Sanders e suas ideias a partir de uma referência europeia ou latino-americano não vai facilitar nosso seu entendimento do processo eleitoral americano.