Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

A mídia tem destacado recentemente a candidatura do midiático, machista, anti-imigrantes, anti-latinos, anti-China e anti-etc. Donald Trump. Com seu jeito espalhafatoso, cabelo engraçado e sem nenhuma educação – em recente debate chegou a perguntar a uma mulher que o questionava se ela estava “no seu período” (TPM) – o candidato tem chamado a atenção de todo o mundo, mais pelas suas bobagens do que pelas suas propostas. Contudo, o fato mais relevante dessas eleições primárias – período de definições dos candidatos nos dois partidos – está do lado Democrata, com o crescimento de Bernie Sanders.

Em sua página, Bernie Sanders se define como um “democrata socialista” e seu programa de governo é uma ruptura tanto com as plataformas do atual presidente Obama, como com as tradicionais plataformas apresentados pelos candidatos Democratas. Sua trajetória política não deixa dúvidas sobre o seu desejo de mudar os Estados Unidos, pois ao longo de muitos anos como congressista, a maior parte das vezes eleito de forma independente, sem vínculos com Democratas ou Republicamos, ele defendeu as posições mais progressistas, entre elas: sistema de saúde universal, direito LGBT, igualdade de pagamento para homens e mulheres, igualdade racial, etc.

No Congresso foi um dos poucos a votar contra a Guerra no Iraque durante o governo Bush, criticou ainda ferrenhamente o corte de impostos para os ricos feitas por este presidente. Posicionou-se contra o USA Patriotic Act, adotado após o atentado terrorista de 11 de setembro, que deu enormes poderes de espionagem e retirou direitos civis. Mais recentemente se tornou um dos críticos dos programas de espionagem defendendo, como sempre, os direitos civis.

Sua paixão pelos direitos civis tem uma longa trajetória e um acúmulo de experiência que deixam claro não se tratar de um oportunista, mas sim de um militante histórico em prol das causas em que acredita. Iniciou sua carreira na juventude da Liga Popular Socialista, participou ativamente da luta pelos Direitos Civis na década de 1960, do histórico Congresso pela Igualdade Racial, bem como diretamente se envolveu no movimento estudantil pacifista contra a Guerra do Vietnã. Em 1963, ele participou da Marcha de Washington por Emprego e Paz.

No seu Estado, Vermont, foi eleito Mayor por três vezes prefeito de Burlington, a principal cidade. Serviu como Congressista deste Estado por dezesseis anos e foi eleito Senador em 2006 e reeleito em 2012 com 71% dos votos.

Desta forma, Sanders reúne duas características muito importantes: uma ampla trajetória e larga experiência na administração pública além de uma incondicional luta pelos direitos das minorias. Sua visão de economia também é bastante diferente da dos demais candidatos ao não defender uma forma de liberalismo, mas a de ver nos países nórdicos um possível horizonte. Assim, propõe que os mais ricos paguem mais impostos e que o Estado seja provedor de melhores e universais serviços públicos, como saúde, educação, etc.

Não há dúvida de que Sanders é o candidato mais à esquerda que os Estados Unidos tiveram na sua história recente, ao menos com chances reais de vitória, mas também é claro que seu radicalismo político está longe da esquerda radical europeia ou latino-americana. Sua visão de transformação está mais próxima a uma humanização do sistema econômico através de garantias de direitos universais através do Estado (isso te lembra alguma coisa no Brasil?).

Se Sanders vai superar Clinton ainda é cedo para saber, mas nas últimas pesquisas ele já aparece muito bem posicionado, mesmo aos possíveis candidatos Republicanos, o que tem aumentado significativamente as suas chances de vitória nas primárias.

Analisando o conjunto, o comportamento do eleitorado americano, ao que parece, está a buscar, por um lado ou pelo outro, um candidato fora do status quo da política atual. Assim, o esperado e quase dado como certo, embate entre em os clãs Clinton e Bush está ficando para trás.

E nós?

O que é surpreendente, ou nem tanto, é que a mídia brasileira esteja dando tamanho espaço para Donald Trump e nem mesmo olhe para as outras possibilidades. Ela parece preferir alguém que seja machista, anti-imigrantes, liberal e veja todo o resto do mundo como uma ameaça. Talvez a mídia brasileira veja no candidato midiático seu próprio reflexo e desejo. Por sorte a sociedade americana é bem mais complexa do que os jogos televisivos de humilhação coletiva.