Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

Isso não pode atrapalhar a sua carreira?

Essa foi a pergunta indelicada e pertinente que recebi ao publicar o meu segundo conto na coletânea de contos eróticos da Planeta Azul (livro aqui).

A preocupação faz sentido! Passamos por uma incrível onda conservadora. Uma onda que está além dos movimentos políticos… Movimentos políticos conservadores nós sempre tivemos e, vez ou outra, são bastante influentes na nossa República.

Da mesma forma, o desprezo dos ricos aos pobres e dos menos pobres aos mais pobres sempre foi uma parte da nossa tragédia social desde o escravismo.

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Contudo, se há algo de particular nesse momento histórico é que o conservadorismo, muito incentivado pelo crescimento dos movimentos religiosos de todas as linhas, ultrapassou as fronteiras da dimensão política e social e alcançou o comportamento cotidiano sobretudo no que se refere ao comportamento sexual / moral.

Sabemos que a sociedade brasileira é hipócrita com relação à sexualidade. Repleta de fobias, sempre vivemos uma espécie de dupla moral. A moral do comportamento público repleto de pudores e do privado em plena depravação. Um discurso moral sobre o corpo e o comportamento e um cotidiano silencioso que servia como refúgio à moral estabelecida como padrão de comportamento.

Ainda assim, somos, ou éramos, plenamente capazes de certa tolerância, particularmente artística, com relação à sexualidade. Observe a nossa literatura, a dramaturgia, a teledramaturgia, etc. de algumas décadas passadas. Em plena ditadura civil-militar fazíamos pornochanchada com dinheiro público e isso não era um problema. O carnaval repleto de nus e fantasias que jogavam com todas as formas de sexualidade e assim por diante. “Ok! mas é carnaval!” Diria um quase moralista…

Diante desta liberdade, com relação a sexualidade, o que vemos crescendo é uma condenação moralista de todas as manifestações fora de um padrão conservador de família. Basta uma cena, um ato, uma festa que fuja dos padrões e lá estarão os haters pre001 (2)gando ódio exigindo censura.

Os haters e os pedidos de censura vindos de uma parte da sociedade civil organizada fazem um papel de destruição da liberdade mais radical do que o Estado. O Estado impõe a censura através de burocratas. E por mais perfeitos que sejam estes burocratas, mesmo em regimes totalitários, são passivos de serem enganados. Basta vermos as formas de resistência na Alemanha nazista, na União Soviética e nos regimes autoritários da América Latina.

Os haters promovem algo que pode ser mais profundo e perigoso: a auto-censura. Você deixa de se manifestar por medo ou constrangimento de ser atacado. Aquele livro, aqueles dramas deixam de ser realizados pelo medo de serem publicamente constrangidos.

Professores deixam de trabalhar temas, textos, mesmo os clássicos, deixam de ser lidos para não causar ódios e enfrentamentos e, assim, uma parte de nossa liberdade vai morrendo silenciosamente, baixo a sob um exercício constante de ódio e medo de que aquela sua liberdade de expressão, de que a forma como você vive podem ser atacadas, podem te levar à humilhação.

Por tudo isso o exercício da literatura e da liberdade de expressão me parecem tão necessários e urgentes. Essas minhas manifestações podem algum dia me prejudicar? É quase certo que sim, mas prejudicaria mais ainda se eu me resignasse e escondesse aquilo que desejo ver publicado. Não faço isso com meus escritos profissionais, também não farei com a minha literatura amadora. Não sei se são bons textos, mas para mim, eles são necessários.

Coisa mais curiosa aconteceu quando eu divulguei os contos eróticos! Toda vez que publico um texto divulgo no Facebook. Normalmente temos algumas curtidas, mas em menor quantidade acessos ao blog. Ou seja, a pessoa curte porque é amiga, mas só alguns vão realmente ler o texto. No dia que divulguei o texto aconteceu o inverso!!! Várias pessoas foram ao blogue, mas não curtiram a publicação no Facebook. Por quê? Medo de ser associado à leitura de algo sexual! Quantos amigos recalcados eu tenho por aqui, hein!

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