Na sexta-feira recebi pelo Correio o jornal Mūsų Lietuva (Nossa Lituânia). Para minha alegria, logo na página 15, toda parte superior foi dedicada ao meu livro Identidade em conflito: os imigrantes lituanos no Argentina, no Brasil e no Uruguai (1924- 1950). Digo alegria, pois este foi o resultado da minha pesquisa de doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e, portanto, foi escrito inicialmente para um público acadêmico, mas não exclusivamente para ele. Dessa forma, é interessante que possa ser divulgado para além dos muros da academia e, em particular, a comunidade lituana.

Não tenho a menor esperança que o livro agrade a todos, ao contrário, nós historiadores sabemos que somos incômodos ao abordar temas e levantar questões que, em geral, permanecem nos subterrâneos da história. Seja como for, a minha alegria em ver o texto publicado se dá pela importante trajetória do jornal Mūsų Lietuva.

O jornal Mūsų Lietuva foi fundado em primeiro de janeiro de 1948 em um período em que a comunidade lituana e a Lituânia passavam por profundas transformações. Após a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), a Lituânia foi incorporada a União Soviética como uma de suas Repúblicas, sendo imposto o regime comunista. Em consequência da Guerra, naqueles anos, aportaram no Brasil a última leva de imigrantes lituanos, essa leva ingressou no país como DP (Displave Person). Os DP eram formados por refugiados do comunismo, quando a Lituânia foi ocupada pela União Soviética muitos deixaram o país se dirigindo para a Alemanha, principalmente. Outra parte dos DP eram formados por aqueles que foram removidos para aquele país para trabalhar nos esforços de Guerra durante a ocupação nazista da Lituânia.

Após a Guerra, o Brasil abriu o país para receber uma cota de DPs, assim, aproximadamente 500 lituanos ingressaram no país. Ao aportarem encontraram uma comunidade lituana que mantinha certa organização, mas por conta do regime varguista (1930 – 1945), que havia proibido publicações em idioma estrangeiro, bem como diversas manifestações culturais em público, passava por um período de reformulação. Não podemos deixar de notar que uma parte bastante ativa desta comunidade era simpática ao regime comunista e, com esse era o regime em vigor em seu país de origem, se colocaram de forma bastante ativa realizando diversas atividades propagandisticas. Assim, os “nacionalistas” e também os católicos necessitavam reorganizar as suas atividades.

A ocupação soviética colocou aos lituanos a necessidade de reorganizar aqueles que desejavam valorizar a história, a cultura e as manifestações lituanas. Assim, o Mūsų Lietuva surge como uma forma de reunir os lituanos com sentimentos nacionais, católicos e os que estavam interessados no folclore, no idioma e na cultura. É importante ressaltar que esse interesse no folclore vinha de uma ideia de que o regime comunista soviético iria realizar um processo de “russificação” e destruiria a cultura lituana. Neste sentido, havia um sentimento de missão entre os imigrantes, o sentimento de se manter e difundir a cultura lituana. Juntamente com esse sentimento havia a necessidade de difundir os crimes cometidos contra os lituanos pelo regime comunista e lutar pelo reconhecimento do país.

Todos esses aspectos podem ser encontrados nos primeiros anos do jornal que obteve uma grande recepção entre os lituanos. Na década de 1960, para se ter uma ideia, o Mūsų Lietuva chegou a ter uma tiragem de três mil exemplares. Como todos os jornais realizados por uma comunidade o Musu Lietuva sempre foi realizado com a dedicação de seus integrantes e, por essa razão, passou ao longo das décadas por diversas mudanças, mas se manteve em circulação até os dias de hoje, sendo o jornal lituano de maior longevidade da América do Sul.

Por todas essas razões, é uma alegria ver meu trabalho difundido nas páginas de um jornal que por tantos anos está vivo com os esforços da coletividade lituana. Aos descendentes de lituano que eventualmente leia este post eu recomendo a assinatura do Mūsų Lietuva… Nossa Lituânia.