Texto escrito em 2006, a partir de notas de leitura. O propósito era fazer uma síntese da leitura e não tem pretensões de apresentar uma novidade interpretativa. Se fosse reescrever hoje é provável que eu modificaria muitas coisas, mas preferi deixar o original.

Texto escrito em 2006, a partir de notas de leitura. O propósito era fazer uma síntese da leitura e não tem pretensões de apresentar uma novidade interpretativa. Se fosse reescrever hoje é provável que eu modificaria muitas coisas, mas preferi deixar o original.

  1. O Marxismo da Segunda Internacional: a ortodoxia marxista

Para que nos seja possível compreender as questões propostas por Georg Lukács (1885 -1971) (alguns preferem a grafia György ou ainda George) em sua obra História e Consciência de Classe (LUKÁCS, 2003) se faz necessário, ainda que brevemente, recuperarmos a perspectiva do que foi denominado “marxismo da Segunda Internacional”. Não queremos, com isso, afirmar que não houvesse diferenças significativas entre os teóricos que se reuniam em torno da II Internacional, nem mesmo no maior e mais importante partido operário do período: Partido Social Democrata Alemão (PSDA). A questão central, de acordo com o autor, está na interpretação da obra de Karl Marx (1918 – 1883) e Friedrich Engels (1820 – 1895) que perpassam os principais teóricos daquela organização, como Karl Kautsky (1854 – 1938), Eduardo Bernstein (1850 – 1932) e Rosa Luxemburgo (1871 – 1919).

A formação de uma ortodoxia marxista, e seu vínculo com o movimento operário, teve lugar em um contexto que abarca uma longa transformação na economia capitalista impulsionada pelo desenvolvimento industrial e uma política imperialista. Compôs essa transformação uma ampla repressão estatal contra a classe operária, sobretudo após a Comuna de Paris (1871), permitindo à burguesia acionar mecanismos de controle social, impondo perseguições e a censura às vozes dissidentes. Na Alemanha, especificamente, foi colocada em vigor um conjunto de leis que proibiam as atividades consideradas socialistas. Neste contexto, o Partido Social Democrata se consolidou e conquistou sua legalização, ao combinar a luta parlamentar, com as publicações e difusão de suas ideias na clandestinidade.

Com esse trabalho combinado, o Partido obteve êxito eleitoral e pôde atuar no sentido de reverter as leis antissocialistas. Mesmo com o fim destas, a Alemanha, no final do século XIX, possuía um sistema político longe de poder ser caracterizado como democrático. Havia uma combinação sui generis de direitos democráticos e absolutismo. Vale lembrar que, mesmo unificado, o Império Alemão possuía significativas diferenças entre as regiões que o compunham, tanto no que se refere ao avanço da industrialização, quanto na administração (ANDREUCCI, 1982).

Mesmo neste sistema político, ainda pouco favorável a atividades democráticas, foram possíveis paulatinamente conquistas como o voto masculino universal e uma maior liberdade de expressão. Isto propiciou o desenvolvimento de partidos, a constituição de sólidas instituições sindicais e associações operárias. A conquista deste espaço na política nacional, acompanhada de uma relativa paz social, consolidou vitórias eleitorais e representação nos parlamentos, órgãos municipais e assembleia de arbitragem industrial. O crescimento enquanto instituição e as conquistas através da atividade parlamentar levaram a uma sobrevalorização destas em uma política reformista, sendo a ação revolucionária afastada da perspectiva imediata.

Com a montagem de uma gigantesca estrutura partidária e sindical (o PSDA chegou a ter um milhão de filiados), a tomada do poder pela classe operária passou a ser situada no âmbito da conquista eleitoral e consequentemente na busca pela maioria parlamentar interpretada como um indício da crise final do capitalismo a qual aguardavam.  No entanto, a resultante de tal política, esperançosa do socialismo vindouro, tornou o Partido uma força de integração ao sistema, sobretudo com a conquista de reformas sociais, limitadas, porém inéditas, e melhorias econômicas e das condições de trabalho dos operários alemães. Essa melhoria de condições só pode ser entendida se lembrarmos de que era um momento de ampla expansão da economia europeia que assumia uma política de dominação capitalista em escala global. Na lógica imperialista, a Europa situava-se no centro do sistema, , explorando como nunca a periferia, seja na tomada efetiva, como na partilha da África e da Ásia, ou na política de “portas abertas” implantada na América Latina, abrindo o mercado para a entrada de seus produtos.

No final do século XIX, a influência da social democracia alemã se ampliou e todos os partidos socialistas, criados após 1890, que declaravam expressamente assumir o conjunto de concepções, a forma de organização e atuação do partido PSDA. Um dos motivos para essa inspiração foi o fracasso da Comuna de Paris, ultima ação revolucionária na Europa Ocidental. Com isso, o Partido Social Democrata Alemão se tornou o centro dos debates em torno dos projetos e ideias socialistas que se desenvolveram. A difusão dos textos de Karl Marx e Engels e o debate proporcionado sobre esse se acentuaram. Neste sentido, podemos apontar o nascimento de uma “escola marxista” e da difusão desta concepção que atravessa as fronteiras da Europa no movimento operário. Essa influência pode ser percebida já na formação da II Internacional, pois essa só aceitava a filiação de partidos excluindo as demais formas de organização política como na I Internacional. Esse modelo tinha como propósito impedir a presença dos anarquistas e suas organizações, consolidando a hegemonia partidária como única representação dos trabalhadores e o marxismo como referência teórica. Nesse sentido, é de fundamental importância observar como a obra de Karl Marx era interpretada pelos socialdemocratas, após a sua morte.

  1. A socialdemocracia e ortodoxia: marxismo e ciências naturais.

A forma de leitura das obras de Karl Marx foi influenciada decisivamente pelas condições de atuação do PSDA. Portanto, devemos nos questionar quais eram as características e o que foi ressaltado na obra de Marx e Engels? Cabe acrescentar que com a morte de Karl Marx têm início os doze anos nos quais Engels passou, para além de colaborador, a ser o primeiro, ou principal, intérprete dos escritos de Karl Marx, ou seja, o primeiro marxista. Inúmeras foram as polêmicas, já levantadas, sobre até que ponto Engels teria dado continuidade e sobre a sua “culpabilidade” nas “distorções”. Consideramos esta uma falsa questão que busca colocar a culpa, sentimento característico do cristianismo, no indivíduo. Preferimos como caminho analítico colocar em questão as possibilidades objetivas da interpretação do sujeito, em sua vivência, uma vez que o próprio Karl Marx já alertara: “os homens fazem a história, mas não fazem como querem”. O que, por sua vez, não significa retirar a importância de Engels nas bases constitutivas da ortodoxia marxista.

Ressaltamos, portanto, a importância de Engels e sua influência sobre os mais importantes marxistas, sobretudo na obra que foi interpretada, ou tomada, como uma “enciclopédia” do marxismo: o Anti-Duhring (1878). Para termos ideia do impacto desta obra tomemos a declaração de Karl Kautsky ao afirmar que, apesar de ter lido O Capital por volta de 1875, só fora “capaz de compreendê-lo mais tarde”. Sua iniciação ao marxismo é creditada à leitura do Anti-Duhring. De fato, a obra foi sendo apropriada como um curso elementar de educação política da socialdemocracia que, até então, se caracterizava por um notável ecletismo teórico.

O Anti-Duhring foi o fruto de um debate entre Engels e o filósofo Karl Eugen Dühring (1883 – 1921) um contundente adversário do socialismo marxista que em suas perspectivas ressaltava os fatores morais e individuais nas relações econômicas.  Ao refutar as posições de Dühring, Engels acabou por realizar uma primeira exposição sistemática da teoria de Karl Marx, na qual enunciou as concepções do marxismo como parte de um sistema global, numa primeira exposição sistemática do materialismo histórico utilizando-se de conteúdos da experiência prática da vida proletária. Portanto, a própria forma de exposição de Engels dá uma impressão de enciclopedista. Não é nossa intenção entrarmos no conteúdo específico da obra, marquemos as consequências de sua difusão na interpretação dos marxistas da época retomando o contexto intelectual da época.

As ciências, ou os métodos das ciências naturais, ganharam espaço maior no final do século XIX. A teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1882) tomou projeção e logo passou a ser indevidamente utilizada para explicar o funcionamento da sociedade. Herbert Spencer (1820 – 1903), por exemplo, propôs uma versão radical da teoria da evolução formulando o que ficou conhecido como “Darwinismo Social”. A difusão destas ideias provocou impacto significativo sobre os marxistas, sobretudo no que se refere ao primeiro autor cuja influência deixou marcar inclusive em Engels. Vale lembrar que, quando da morte de Karl Marx (1883), Engels fez uma comparação entre os dois como se houvesse um sentido de complementaridade entre a teoria de Marx e de Darwin. Os efeitos destas posições podem ser percebidos de forma bastante acentuada nas obras de Karl Kautsky.

A junção entre essas duas percepções, a marxista e a das ciências naturais, fazia com que as ciências aparecessem ao movimento operário como uma arma, um pré-requisito natural da luta pela emancipação dos trabalhadores. Em outras palavras, a posse do conhecimento seria a arma decisiva na luta de classes. Assim, os métodos analíticos das ciências naturais foram tomados para a interpretação da obra de Karl Marx e consequentemente influenciou na concepção de ação política da socialdemocracia, formando sua crença obsessiva na ideia de natural progresso material da humanidade, digo da Europa.

Assim, do que aqui expusemos sucintamente, foi que nasceu a construção de uma interpretação evolucionista das concepções de Karl Marx ao estabelecer o determinismo econômico – o que chamamos de crença no natural progresso material – como um elemento substancial para interpretar a crise final do capitalismo que levaria, por si só, naturalmente, do modo de produção capitalista ao socialista.

  1. A tripartição do marxismo: Entre Hegel e Kant

Os socialdemocratas alemães interpretaram a obra de Karl Marx em um esquema no qual eram separadas, e isoladas, três dimensões: o materialismo histórico, a teoria do valor e a luta de classes. Oferecendo uma imagem da política, da teoria econômica e da história como três campos que não convergiam, ou melhor, não se inter-relacionavam. O que permitiu essa construção, como aponta Georg Lukács, foi a ausência da dimensão dialética na compreensão dos escritos de Marx. A dimensão dialética e a teoria da história elaboradas por Friedrich Hegel (1770 – 1831) foram uma influência fundamental para Marx, mas acabaram por serem substituídas por um retorno às categorias do conhecimento elaboradas por Immanuel Kant (1724 – 1804), bastante influente no período. Esse movimento de retorno às categorias de Kant foi denominado de neokantismo.

Como demonstra Lukács, o que pode ser caracterizado como fundamental, no que compôs o marxismo dos teóricos da social democracia alemão, em especial Bernintein e Kautsky, era a ausência da dimensão dialética que foi substituída pelos métodos das ciências naturais, ou da “ciência burguesa”. Tais fatores consolidaram uma perspectiva teórica, como dissemos, evolucionista e fatalista da transição do capitalismo, com sua crise final e transição para o socialismo. Embasando, assim, uma política reformista sendo a perspectiva da ação revolucionária deixada para um último momento da crise do capitalismo – pois o desempenho eleitoral já seria um indicativo dessa crise final e, portanto a revolução era vista apenas como uma ação de afirmação do proletariado diante de uma possível resistência da burguesia, como argumentou Kautsky (SALVADORI, 1982) – ou substituída pela tomada do poder por via parlamentar através da constituição de uma maioria nas eleições da democracia liberal burguesa, como defenderia Bernstein (FETSCHER, 1982).

  1. História e Consciência de Classe: a dialética

Georg Lukács coloca como ponto central da interpretação da obra de Karl Marx o método, opondo o método das ciências naturais ao dialético. De acordo com o autor, o método das ciências naturais  desenvolveu-se juntamente com o avanço do capitalismo, sendo produto determinado dessa época histórica. Por essa razão, é marcado, sobretudo pela reificação. Com o método das ciências naturais, os “fatos puros”, consistem em um isolamento do real ou em pensamento, para um contexto que permite estudar as leis às quais eles obedecem sem a intervenção de outros fenômenos.

Da mesma forma, esses fenômenos são reduzidos a sua “essência” quantitativa expressa em números sobre as quais se torna possível a construção de leis próprias, parciais e isoladas. O experimento, ou aquele que faz uma experiência, cria um meio artificial e abstrato eliminando os elementos irracionais e incômodos, tanto do lado do sujeito quanto do objeto.  Como o objeto é isolado e suas vinculações externas são removidas, o cientista também se isola  tornando-se um sujeito autônomo e pacífico, um espectador de seu próprio experimento, enfim alienado.

Um indicativo desse fator, para além das ciências naturais, mas em que essa passa a ser a medida para todas as outras ciências, é a formação de saberes específicos, com a fragmentação do objeto tais como: a teoria econômica ou do direito, que não permitem o entendimento da totalidade das relações sociais.  O indivíduo especialista se torna incapaz de perceber o caráter histórico do que é estudado e mesmo a historicidade do próprio método. Nesse sentido, a sociedade capitalista não aparece como transitória tal como as demais formas de organização social, ou mesmo como possibilidade de ser superada, mas a suas formas são eternizadas como únicas relações possíveis inerentes ao próprio homem. O capitalismo passa a ser entendido como parte da natureza humana, ou uma segunda natureza, que adere ao sujeito. No mesmo processo, não é raro que determinados cientistas projetem sobre a natureza as relações características do capitalismo, em especial me refiro a grupos de biólogos e ecologistas.

O que permite o isolamento dos “fatos puros” é a separação radical entre o objeto e o sujeito do conhecimento. Para entender essa separação, Lukács procura realizar uma História da filosofia – que acaba por ser tornar uma filosofia da história – demonstrando como se dera esta cisão, em uma filosofia reificada, pois a fragmentação do objeto é também a fragmentação do sujeito. Embora observe que já na antiguidade as formas reificadas da filosofia já estivessem presentes foi somente na modernidade, ou seja, com o advento do capitalismo, que a separação se tornou uma forma universal.

  1. O idealismo alemão: sujeito e objeto.

Nesse sentido, aponta uma continuidade entre René Descartes (1596 -1650), Thomas Hobbes (1588 – 1679), Baruch Espinoza (1632 -1677) e Wilhelm Leibniz (1646 -1716), para os quais, a ideia central era de que o objeto só pode ser conhecido por nós na medida em que é criado por nós mesmos. A criação dos objetos se dá a partir das condições formais de objetividade em que prevalecem os métodos da matemática, da física como “guias” e medida para a filosofia. Esse desenvolvimento da filosofia em conjunto com as ciências exatas, por sua vez, se integrava ao desenvolvimento das técnicas de racionalização do trabalho que se desenvolviam.

Nesse desenrolar, Lukács demonstra que Kant realiza uma separação entre forma e conteúdo estabelecendo na Crítica da Razão Pura, com a ideia da coisa em si como elemento incognoscível. Assim, na relação forma conteúdo, demonstrava a irracionalidade dos conteúdos. Como consequência a compreensão da totalidade não era possível sendo o conhecimento dado a partir da formulação de sistemas parciais, levando o sujeito à contemplação da aparência dos fenômenos. Nesse sentido, podemos retomar as afirmativas de Lukács sobre o experimento que além de colocar o objeto de forma isolada torna o realizador do experimento um expectador cuja tarefa é constatar as leis parciais que incidem sobre o objeto através dos métodos da matemática. No entanto, Lukács destaca que Kant na Crítica da Razão Prática estabelece outra unidade entre sujeito e objeto, mas este seria unificado pela ética, o que não escapava a uma dualidade entre forma auto-produzida no pensamento e a realidade material. Colocando o princípio na prática ética, na moral e no puro pensamento, Kant recaía na contemplação e nos dilemas entre liberdade e necessidade, fatalismo e voluntarismo.

O idealismo alemão, de acordo com Lukács, já colocara em questão a reificação buscando um princípio de unidade, ou de relação entre sujeito e objeto. Desta forma, na obra de Schiller fora estabelecida a arte como dimensão teórica e princípio unificante, uma vez que o objeto é efetivamente criado pelo sujeito. A totalidade era possível intelectualmente, dava conta de saberes concretos levando, assim, a uma estetização do mundo. A natureza foi entendida como se houvesse um plano, ou seja, era compreendida como arte. Dessa forma, o mundo era transformado em um princípio estético. O problema era que, ainda que tenha sido apresentado um princípio unificador, o sujeito permanecia de forma contemplativa e intuitiva, o que acabava por formular formas mitológicas.

  1. É necessário voltar a Hegel.

Para Luckács foi somente com Hegel e a partir da concepção dialética é que foi possível a reelaboração da relação entre sujeito e objeto, estabelecendo a história como princípio metodológico. No entanto, para Hegel, não há um sujeito da ação. A história torna-se uma parte do sistema que culmina na ideia de espírito absoluto, ou seja, arte, religião e filosofia. Assim, embora a relação sujeito-objeto tenha sido formulada dialeticamente, ao colocar ênfase no espírito absoluto e não no sujeito concreto, Hegel recai no idealismo, pois a história escaparia aos próprios homens.

Com esse entendimento, Lukács coloca, como dissemos, o fenômeno da reificação como centro do desenvolvimento da filosofia moderna, daí a busca pelos momentos de separação entre sujeito e objeto. A influência de Kant que retoma sua força com o neokantismo e a busca de um princípio unificador no idealismo alemão. A reificação constitui um fenômeno característico da sociedade moderna ou do sistema capitalista. Nesse sentido, o fetichismo é colocado como ponto central no entendimento da obra de Marx e a dialética como método que permite a relação sujeito-objeto. Embora herdeiro de Hegel, no que concerne ao método dialético, Karl Marx coloca a questão sobre a história, sobre o sujeito da história, ao que Lukács denomina de dialética materialista.

 O fetichismo da mercadoria ou reificação se estabelece quando na produção capitalista a força de trabalho é vendida como uma mercadoria qualquer e, desta forma, acontece a eliminação progressiva das qualidades humanas. Isto isola e retira suas qualidades do objeto produzido transformando apenas em uma relação quantitativa, ou seja, na quantidade de mercadoria produzida em um determinado período de tempo. Nesse sentido, ocorre a alienação do trabalhador que se estende para além do processo de produção ou reduzindo a uma forma contemplativa de trabalho com a mecanização psíquica. Essa posição contemplativa implica uma passividade mecânica diante do processo de trabalho. As relações sociais aparecem, assim, como relação entre mercadorias perdendo a dimensão humana nos processos de produção e nas relações de troca.

Ao tomar o conceito de reificação de Karl Marx, Lukács o associa ao conceito de racionalização tal como entendido por Max Weber. Desta forma, a racionalização tanto dos processos de produção como da administração propiciariam a intensificação ou a acentuação da reificação e a alienação do homem. A partir destas definições, o autor concebe a constituição de uma “segunda natureza” no processo de troca de mercadorias. Forma-se assim um mundo de ilusões o que dá, por exemplo, a impressão da imutabilidade histórica, uma vez que a lógica da racionalização e da troca de mercadorias aparece como natural ao homem. Esta perspectiva da “segunda natureza”  explica a consciência reificada da burguesia e a formulação da metodologia das ciências naturais, que já mencionamos.

A racionalização do tempo passa a integrar o processo de produção sendo reduzido a uma relação quantitativa. No entanto, o tempo para os operários nunca poderá ser reduzido à mera forma quantitativa, reconhecendo neste sempre algo qualitativo. Isto lhe permite perceber como o seu tempo de trabalho se torna uma mercadoria que deve negociar para vender no mercado de trabalho juntamente com os demais operários, , pois é a única coisa que possuem. Essa condição faz com que o operário seja ao mesmo tempo sujeito e objeto, o que lhe permite a autoconsciência da totalidade da organização social. Neste sentido, Lukács retoma a ideia desenvolvida por Marx, que colocara a luta pelo tempo de trabalho como elemento chave dentro da estrutura de exploração capitalista e, em sentido inverso, da consciência de classe. Razão pela qual, a manifestação primeira da luta de classe se desenvolve na disputa pelo tempo de trabalho entre operários e capitalistas.

O fato de ser sujeito e objeto ao mesmo tempo é para Marx, segundo Lukács, a realização do idealismo alemão. Desta forma, se a dialética hegeliana encontrava no espírito absoluto o sujeito da história, a unidade ou a totalidade, Marx percebeu no proletariado o ser sujeito-objeto. Assim, a dialética marxista é entendida como constitutiva da própria história, encontrando o sujeito da história que pode agir conscientemente. Note, no entanto, que a unidade está no proletariado e não no proletário. Na classe e não no indivíduo.

 Deste entendimento dialético da obra de Karl Marx, Lukács encontra no proletariado o sujeito imanente ou aqueles que detêm a possibilidade objetiva (conceito weberiano) de realizar a transformação na história. Como sujeito objeto no capitalismo, o proletariado pode tomar autoconsciência da totalidade da organização capitalista e realizar a sua superação ao integrar diferentes elementos da vida social tornando possível o conhecimento enquanto realidade. Deste ponto de vista, é que o proletariado teria a capacidade de superar as formas fetichistas. Neste sentido, a ação do proletariado na história tem como possibilidade a ação consciente que é a superação da reificação pela Revolução, pois a sua autoconsciência é coincidente com o conhecimento da totalidade, pois ele mesmo é uma totalidade.

No entanto, para Lukács a consciência do proletariado não se dá diretamente, ela não é estável e não progride enquanto leis mecânicas e naturais dadas pelo desenvolvimento do capitalismo, tal qual entendiam os socialdemocratas. Para o autor, o proletariado é o produto da crise permanente e executor das tendências de crise do capitalismo. A essência da consciência só é possível quando o processo histórico exige diante da crise aguda do capitalismo que leva à ação. Nesse sentido, a consciência é possível na própria história da luta de classe, nos avanços e nos recuos… No erro como lição histórica. Assim, o conhecimento da totalidade se dá no processo histórico da luta do proletariado.

A partir desta concepção, temos que a consciência é entendida como a posse da teoria, ou seja, do método dialético ou do materialismo dialético, essência do marxismo no sentido definido pelo autor. Se a consciência significa a posse do método correto que permite a superação do pensamento burguês, que é a superação da reificação, a luta principal se dá, portanto no interior do proletariado contra a reificação do pensamento burguês. Nesse sentido, demonstra a negatividade da concepção socialdemocrata como a adaptação do pensamento burguês na luta proletária, o que o levaria à integração, à acomodação passiva, ao capitalismo e não a sua superação ao recair nas formas fetichistas.

A consciência de classe, como definida por Lukács, não é a consciência individual do operário e nem a soma dos operários. Na relação capitalista, as relações sociais não se dão entre indivíduos, como anuncia a ciência burguesa, mas é sobretudo a relação entre classes e, portanto a compreensão da totalidade só é possível a partir da perspectiva de classe.

O capitalismo é o momento histórico em que as classes estão definidas claramente, uma vez que, com o desencantamento do mundo (em termos weberianos) as relações de hierarquia e domínio, que nas sociedades pré-capitalistas eram dadas como relações mistificadas, naturais, no capitalismo coincidem com as classes. Desta forma, os aspectos econômicos não estão mais escondidos “por trás” da consciência, mas encontram-se presentes na própria consciência. Como já colocamos, essa condição de sujeito-objeto permite ao proletariado a consciência de todas as relações desta sociedade: a totalidade. Assim, por exemplo, a luta econômica e a luta política são uma mesma unidade, ao contrário da afirmativa da socialdemocracia.

Como já colocamos, ao vivenciar a cisão do mundo entre sujeito-objeto, a reificação, de forma mais intensa, ao tomar consciência desta condição, enquanto objeto, a consciência modifica o objeto e, portanto, o proletariado é, para Lukács, a ação! E sua ação resulta na prática que possibilita a superação da reificação cuja expressão final é a Revolução. Nesse sentido, a vivência do proletariado tende a teoria, ou ao materialismo dialético, da mesma forma que a teoria tende à prática: práxis.

Com este sentido, Lukács faz notar que Marx, ao escrever O Capital, percebeu passo a passo o desenvolvimento do proletariado ou, se quisermos, o proletariado, na sua condição e na sua ação realizam a obra de Marx. Dessa forma, Lukács percebe no Capital uma teoria da revolução, através do método dialético, cujo eixo central é a reificação.

  1. Organização Operária e Consciência de Classe: Rosa Luxemburgo

 A organização do proletariado na luta de classe, ou o papel do Partido, é um dos temas desenvolvido por Lukács ao longo da obra. Em um primeiro momento, tomando as concepções de Rosa Luxemburgo (1871 – 1819), o que já foi denominado de espontaneidade. Desta forma, ao tomar consciência na luta de classes, o proletariado tenderia à organização ou a encontrar o Partido como organização, portador da teoria e, portanto da consciência e do sentido último da luta. Repete-se, assim, a ideia de que a teoria tenderia à prática da mesma forma que a prática tenderia à teoria e, nesse encontro, residiria a formulação de uma organização revolucionária. Com isso, Lukács não define claramente as formas desta organização nem mesmo princípios gerais. Como o autor demonstra, a questão da legalidade e da ilegalidade são circunstâncias nas condições iniciais possíveis para a ação e não um princípio constituído.

A concepção próxima à formulação de Rosa Luxemburgo em Greve de Massa, Partido e Sindicato, na qual a imagem do proletariado é a de que educa a si mesmo, embora o livro não seja explicitamente mencionado. De fato, não dá uma atenção especial à questão do Partido, muito embora a organização seja eventualmente mencionada. Em outras palavras, embora o Partido tenha uma função, ou uma importância, para Lukács, no processo na luta de classe, sua forma é indeterminada uma vez que sua constituição se relaciona ao processo de luta. Tal aproximação, com Rosa, ocorre nos oito capítulos iniciais do livro. No entanto, nos dois últimos, há uma mudança de perspectiva ou, podemos dizer, uma ruptura.

Como Rosa foi referência para toda a obra, até este ponto, o capítulo que marca essa ruptura é dedicado à própria, no qual Lukács realiza uma crítica à concepção ou à interpretação que Rosa apresentou da Revolução Russa (1917). O ponto central da crítica se dá em torno da concepção de Revolução. Lukács afirma que Rosa tomaria como modelo de Revolução a burguesa, especificamente a Revolução Francesa (1789). Nesse sentido, para ela a dinâmica da revolução tenderia a levar os extremos ao poder. Ao que Lukács contrapõe a diferença fundamental existente entre a Revolução burguesa e a social. Na primeira, a burguesia já deteria o poder econômico e, portanto, tratar-se-ia de consolidar enquanto poder político. A Revolução proletária exige que se modifique a relação entre política e economia. Com isso, não deixa de acusar Rosa de certo economicismo. Nesse sentido, o proletariado teria de suprimir o predomínio da economia. Ao realizar essa crítica Lukács, pela primeira vez na obra, enfatiza a função do Partido.

Ainda que essa crítica específica seja válida, o que emerge é o papel do Partido na Revolução. Para tal, Lukács invoca a própria Rosa afirmando que suas concepções de Partido foram alteradas quando esta se deparou com eventos revolucionários, especificamente na Liga Espartaquista (1915 -1918), na qual, de fato, acentuou o papel da organização. Ainda acrescenta que as concepções de Rosa fracassaram durante a tentativa de se promover a revolução na Alemanha (em janeiro de 1919). Assim, Lukács invoca a história como autoridade contra as concepções de Rosa.

No entanto, a concepção de Partido elaborado por Lukács tanto nos capítulos “Notas críticas sobre a Crítica da Revolução Russa de Rosa Luxemburgo” e “Observações Metodológicas Sobre a Questão de Organização” apresentam contradições com relação ao que foi exposto nos capítulos precedentes. O Partido, ou a organização, torna-se o centro da questão ao sobrevalorizar o papel deste na condução da Revolução. Muito embora reforce, por diversas vezes, a relação massa e partido – entendendo a massa como purificadora dos membros dirigentes.

Nesse ponto, reside a ruptura da exposição de Lukács com o que havia anteriormente colocado. Se a questão era antes ideológica, ou seja, a consciência do proletariado no encontro entre teoria e prática agora esta se desloca para as formas de organização. Como se o Partido, ao assumir uma determinada forma, se convertesse na expressão da consciência do proletariado. Assim a organização passa a ser decisiva, o Partido deixa de surgir dentro da Revolução, como apontava Rosa, mas se estabelece fora do movimento, antecedendo-o e, por essa é depurado. Em grande medida Lukács assume a concepção leninista de partido revolucionário, o bolchevismo e a Revolução Russa enquanto modelo.

Tomando esta referência, distingue, através da organização, os modelos da II Internacional e da III Internacional (1919 – 1943) E aqui vale dizer que foi a ênfase nesta distinção que permitiu a sobrevivência política de Lukács na III Internacional, ao contrário do que ocorreu com Karl Korch (1886 – 1961), que ao enfatizar o que estas organizações possuíam em comum – as ideias de que elas colocariam as concepções marxistas de fora para dentro – foi expulso e levado a se afastar de qualquer atividade política.

A questão colocada por Lukács, neste segundo momento, é pensar um modelo de Partido junto à III Internacional, mas voltado para a realização da Revolução no Ocidente. Vale dizer que  ele é húngaroe considera seu país como parte do Ocidente em oposição à Rússia localizada, nesta peculiar geografia, no Oriente. Com isso, o que se aponta é a necessidade de ganhar o proletariado que estava nas fileiras dos partidos socialdemocratas. Como modelo, não deve ser entendido como a realidade do bolchevismo. A diferença entre o que Lukács propõe e a realidade vivenciada pelo bolchevismo se dá na crítica à burocratização ao que atribui à presença do sentido burguês de partido. Além do papel da vanguarda e dos intelectuais que, neste sentido, por encaminharem a luta contra a reificação como uma expressão do sentido da consciência proletária.

Esses são os pontos que permitem uma unidade ao livro, embora, como já enfatizamos, os dois últimos capítulos representem uma ruptura no conjunto da obra. Essas rupturas, no entanto, não devem ser entendidas como uma adesão integral à concepção da III Internacional ou ao leninismo, basta lembrarmos que o autor foi condenado no Quarto Congresso, embora Lukács pudesse continuar ainda atuando politicamente pelos anos seguintes.

Considerações Finais

A leitura da obra de Lukács apresenta muitas dificuldades, seja pela exigência de conhecimento de um amplo referencial intelectual como o entendimento da montagem do livro: os momentos históricos nos quais os capítulos foram escritos, as tensões e diálogos em cada um deles.

Contudo, o esforço é válido e se torna particularmente interessante nos momentos de crise. Seja em uma crise de um enorme partido de esquerda no poder, na crise das perspectivas revolucionárias ou mesmo quando se percebe o amplo processo de alienação à qual os trabalhadores estão submetidos. As perguntas feitas pelo autor no contexto da II e da III Internacional permanecem válidas para aqueles que desejam acompanhar os debates dentro da perspectiva marxista.

Bibliografia

Artigos

ANDREUCCI, Franco. “A difusão e a vulgarização do marxismo” in HOBSBAWN (org) História do Marximos. O Marxismo na Época da Segunda Internacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982

FETSCHER, Iring. “Bernstein e o desafio à ortodoxia”. O Marxismo na Época da Segunda Internacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

SALVADORI, Massimo. “Kautsky entre a ortodoxia e revisionismo” in HOBSBAWN (org). O Marxismo na Época da Segunda Internacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982

Obras

ANDERSON, Perry. Considerações Sobre o Marxismo Ocidental. São Paulo: Boitempo, 2004.

HOBSBAWM, Eric (org). História do Marxismo. O Marxismo na época da Segunda Internacional. São Paulo: Paz e Terra, 1982.

KONDER, Leandro. Lukács. Porto Alegre: L&PM, 1980.

LOWY, Michel. A Evolução Política de Lukács 1909 -1929. São Paulo: Cortez, 1998.

LUKÁCS, Georg. História e Consciência de Classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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