Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

  • Uma nova direita?
  • A Direita na Primeira República
  • O velho mito da conspiração
  • A nova velha ideia

Por uma História da Direita Raivosa… Nos últimos anos assistimos a um fenômeno na política nacional: a ascensão nos espaços públicos (mídia, manifestações, bloggers, YouTuber, etc.) de uma direita raivosa. Denomino direita raivosa aquela que manifesta explicitamente o ódio contra os menos favorecidos, os negros, os indígenas, os pobres, as classes subalternas). Alguns analistas têm feito ver um fenômeno novo, outros relacionam aos fenômenos sociais dos anos 1960 pré-golpe de Estado de 1964.

urlComo historiador não acredito que a história se repita (como Hegel) nem mesmo uma vez como tragédia e a outra como farsa (Karl Marx). No entanto alguns fatores estruturais devem ser observados. No entanto, proponho aqui um recuo mais longo! Voltemos nossos olhares para a chamada Primeira República (1889-1930). Quero particularmente enfatizar os movimentos sociais das décadas de 1910 e 1920.

Na década de 1910, em muito devido à Primeira Guerra Mundial, e aos recursos provindos do café, tivemos um significativo crescimento industrial e uma crescente quantidade de trabalhadores concentrados nos meios urbanos.

A industrialização foi erguida sobre uma mão-de-obra submetida a uma condição extrema. A situação precária propiciou o início de mobilizações sociais e movimentos de reivindicação, muito inspirado por ativistas anarquistas e socialistas. Como resultado as grandes greves de 1917 e um enorme ciclo de greves no início da década de 1920.

Por um lado, o governo respondeu ao processo com uma enorme repressão, mas por outro, é importante lembrar, foi nos anos de 1920 que começaram as primeiras grandes negociações para que fossem aprovadas medidas que beneficiassem os trabalhadores. Algo que depois foi consolidado (consolidado!!! Não inventado por Getúlio Vargas! Na forma da CLT).

Nesse contexto de movimentos sociais crescentes e das primeiras vitórias dos trabalhadores é que emerge uma direita que foi denominada de neo-jacobina (novos jacobinos). O jacobinismo foi um movimento radical anti-português, ultra nacionalista, que surgiu no fim da monarquia e nos primeiros anos da República.

Já os neojacobinos eram ultra-nacionalistas cristãos que viam o movimento dos trabalhadores como uma ameaça à pátria. Atribuíam a sua existência à presença de imigrantes, estrangeiros, nas grandes cidades. Desta forma, uma das características do movimento era ser xenófobo. Agrediam, sobretudo, os imigrantes recém-chegados, como portugueses, espanhóis, italianos ao qual culpavam por trazer o socialismo e o anarquismo para o Brasil.

Com isso, entendiam que os movimentos sociais, e a esquerda em particular, eram externos aos brasileiros. Nesse sentido, construíam uma dicotomia entre brasileiros pacíficos, ordeiros e trabalhadores enquanto a esquerda seria fruto de estrangeiros, e ideias estrangeiras que se “infiltravam” no país para implantar o socialismo. Mais ou menos como a direita dos dias atuais fala em “bolivarianismo” (seja lá o que isso signifique).

Eis aqui o fator estrutural que gostaria de chamar a atenção! Em um país que organiza a sua produção na extrema exploração na total submissão de um grupo social por outro… Toda vez que temos um processo de reivindicação e de inserção de grupos sociais anteriormente excluídos vemos uma reação violenta por parte da elite e de setores médios.

Essa reação se dá sob o signo de um discurso nacionalista em que são valorizados os símbolos nacionais, sob a ideia da ordem. As manifestações são de caráter violento e agressivo. As exigências são fluidas sem uma motivação fixa, mas em que se explicita o conservadorismo: a manutenção dos privilégios (a reiteração da exclusão social e econômica) marcadas pela rejeição em se conviver no mesmo espaço público com os grupos até então excluídos.

Outro elemento significativo nesse processo é o religioso. Muitas das manifestações foram organizadas a partir de entidades cristãs (católicos na década de 1920 e na de 1960). Nelas se alimentou a ideia de perigo anarquista (e mais tarde comunista) como movimentos anti-cristãos e anti-nacionais. Claro que aqui o pressuposto é de que o Brasil é um país cristão por definição!images

Assim, o combate aos ateus (entendidos como anarquistas e comunistas) estava na ordem do dia das mobilizações sociais. Tratava-se de afirmar que o Brasil era o resultado de uma tradição cristã e da sua moral (ou moralismo). Assim, a “defesa” da pátria se mesclava como uma defesa do cristianismo ampliando a intolerância social. Aqui, por suposto, se elevavam o os mitos da conspiração (Sobre o mito da conspiração e política nacional ler  AQUI)

Como nos dias atuais, na década de 1920 e na de 1960, a direita raivosa exigia um regime autoritário que colocasse ordem. Ou seja, esperavam por um salvador da pátria que pudesse impedir os movimentos sociais de terem voz ativa e principalmente colocasse as classes subalternas como definitivamente subalternas. Na década de 1920, os anarquistas denunciavam que muitos neo-jacobinos colaboravam com a polícia ou até mesmo participavam diretamente das ações repressivas.

O que  eu quero dizer com tudo isso?

1) O Brasil sempre articulou o seu sistema político econômico na base da exclusão sistemática e da exploração desmedida de uma parcela substancial da população.

2) Qualquer projeto de inserção social leva a reações extremadas pelos grupos já estabelecidos, esses movimentos são conservadores e se apropriam dos símbolos nacionais.

3) Os jovens que hoje seguem o discurso do ódio como se fossem modernos e avançados na verdade provavelmente se comportam como os seus avós (ou bisavôs)! Ou, talvez, o que seja mais patético, se comportem como aqueles que agrediram os seus avós (ou bisavôs).

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