Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

(…) Nada há mais terrível do que uma classe bárbara de escravos que tenha aprendido a considerar sua existência uma injustiça e que se disponha a vingar não apenas a si mesma, mas a todas as gerações. Quem ousará, contra tais tempestades ameaçadoras, apelar com ânimo segura para nossas débeis e cansadas religiões, que se degeneraram até em seus fundamentos, tornando-se religiões doutas? Desse modo, o mito, pressuposto necessário de toda religião, já está em toda parte paralisado, e mesmo nessa esfera triunfou aquele espírito otimista que indicamos como o germe destruidor da nossa sociedade.” (Nietzsche. O nascimento da tragédia, 1872.)

  1. O que é um mito da conspiração? 

Os mitos da conspiração fazem parte do arsenal da política brasileira desde o início do período republicano. De forma geral, a ideia de conspiração e de mito estão no universo da política desde que se abriram os períodos de transformação radical da sociedade ocidental, como a Revolução Francesa. Contudo, é visível que nos anos recentes os mitos da conspiração voltaram aos debates políticos, alimentados por “filósofos” charlatães, bloggers e YouTubers. Assim, hoje é praticamente impossível entrar em uma conversa política sem escutarmos uma história ou uma sugestão de conspiração.

Meu propósito neste artigo é demonstrar o que é o mito da conspiração, como surgiram e apontar para os seus usos no Brasil. Para realizar essa análise eu retomo alguns pontos que discuti no primeiro capítulo do meu livro Imigração e Revolução (Zen, 2010). (para o livro click AQUI)

O que é bastante claro é que quanto menos as pessoas compreendem como funciona o sistema político, mais elas estão dispostas a acreditar em conspirações. O problema é que a ideia de conspiração sempre está acompanhada de outras duas: a do SALVADOR e da ERA DE OURO. Por essa razão, pessoas que acreditam em conspiração costumam também acreditar em políticos que se posicionam como salvador e em períodos, no passado ou no futuro, em que tudo era (ou será) perfeito: como em ditaduras e em ditadores.

Do ponto de vista do comportamento individual as pessoas que acreditam nos mitos da conspiração se comportam de forma muito semelhante a um religioso, na sua arrogância! Pois se acreditam detentores de um conhecimento, de uma verdade que os outros não são capazes de enxergar. Assim, se tornam proselitistas, por um lado, e fechado aos argumentos racionais, por outro.

Como se pode observar, o mito da conspiração não é apenas uma curiosidade, mas tem impacto nas decisões políticas, pois ela limita a racionalidade das escolhas.

2. O que é o mito da conspiração?

Para entendermos os elementos que compõem a sua narrativa de conspiração recorremos a um dos seus mais conhecidos estudiosos o historiador francês Raoul Girardet. De acordo com Girardet, dentre os mitos da conspiração os mais influentes no século XX foram: o jesuítico, o maçônico e o judaico.

A estupidez dos mitos da conspiração. Imagem que associa o comunismo ao judaísmo.
A estupidez dos mitos da conspiração. Imagem que associa o comunismo ao judaísmo.

A primeira ideia presente na narrativa da conspiração é a da existência de uma organização secreta hierarquicamente organizada com agentes que trabalham na clandestinidade e estariam instruídos para se esconder, utilizariam símbolos comuns como senhas. A ideia principal é a da infiltração, ou nas narrativas mais recentes aparece a palavra aparelhamento, um termo bastante recorrente. Ou seja, como se pessoas com um plano pré-determinado fossem capazes de dominarem todas as instituições que controlam a sociedade e a partir deste domínio controlar toda sociedade impondo a sua vontade. (Girardet, 1997)

Nas narrativas mitológicas, os envolvidos com a conspiração aparecem identificados como sujeitos que escapam da mais elementar normalidade social. Trabalham apenas para os seus próprios objetivos ou para o da organização. Assim, a imagem associada é a da serpente, rato, sanguessuga, polvo, aranha.

A analogia com animais possibilita não só exemplificar ou enfatizar a periculosidade, mas constituir a imagem do outro enquanto não igual e, portanto, passível de ser destruído e combatido como é feito com os animais a que são associados. Outra analogia, bastante recorrente, é a doença ou aquilo que a provoca como vírus, germe que se prestavam como explicação para a difusão de idéias. Como parte da reação acionava-se a metáfora médica: da cura, do remédio, do saneamento.

3. Um breve histórico dos mitos da conspiração.

A formulação do mito da conspiração judaica e do “socialismo judeu” se deu nas particularidades do contexto do Império Russo. Como afirma Leon Poliakov, foi na Rússia “pela primeira vez na história moderna que o anti-semitismo tornar-se-ia, a partir de 1881, um meio de governo” (Poliakov,1985.p.71). A situação dos judeus se tornou particularmente grave com o assassinato de Alexandre II em 8 de março de 1881 pelo grupo Narodnaia Volia, pois o atentado foi atribuído a judia Hessia Helfman. O evento passou à ser difundido pelo czarismo como “obra dos judeus”. 

Os sucessores de Alexandre II, tanto Alexandre III como Nicolau II, passaram a utilizar sistematicamente os Pogroms como uma forma de dar vazão aos descontentamentos sociais ao incentivar as Centúrias Negras, realizadores dos massacres de judeus mais sangrentos. Neste contexto, foram articuladas acusações medievais, como o do deicídio e “assassinatos rituais” praticados por judeus, e o racismo fundamentado no cientificismo, em voga naquele período.

Capa de uma das versões dos Protocolos publicado no Brasil. Lamentavelmente essa obra, base do antissemitismo moderno, continua a circular
Capa de uma das versões dos Protocolos publicado no Brasil. Lamentavelmente essa obra, base do antissemitismo moderno, continua a circular

 Os czares passaram a justificar a perseguição aos movimentos políticos e sociais como repressão ao “perigo judeu”. Nicolau II, ao revogar as leis consideradas “liberais” argumentou que estas se tratavam de “invenções judaicas para enfraquecer os povos com o objetivo de dominá-los” (Poliakov, 1985.p.275). Neste contexto, emergiu o texto matriz do anti-semitismo moderno, os Protocolos dos Sábios de Sião. 

Neste contexto social é que aparece uma obra intitulada os Protocolos dos Sábios de Sião. O panfleto foi escrito por agentes da polícia czarista no exterior, provavelmente entre os anos de 1896 e 1898, baseado na obra satírica de Maurice Joly sobre as práticas de poder de Luiz Napoleão (Napoleão III). O objetivo original dos agentes czaristas, ao realizar a falsificação, era o de desacreditar os projetos de reformas liberais, atribuindo a ação judaica para domínio mundial.

De acordo com esse panfleto, os judeus participariam de uma conspiração mundial e visavam dominar o mundo. De tal forma, eles seriam responsáveis por todos os eventos que alteraram o rumo da humanidade, como a Revolução Francesa, o desenvolvimento do capitalismo e assim por diante… Em outras palavras, os judeus eram responsáveis por toda as mudanças que se associam à modernidade. E é esse o grande sentido dos mitos da conspiração: atacar todas as mudanças modernas da sociedade. O mito ele é essencialmente anti-modernidade.

4. O Mito da Conspiração e o Comunismo.

Diante do crescimento dos movimentos operários e o socialismo, a ideia de conspiração judaica foi complementada com a acusação de que os judeus eram responsáveis pelos movimentos socialistas. Nasciam, assim, expressões como “socialismo judeu”. Essa perspectiva ganhou força com a Revolução de 1905 na Rússia e, sobretudo com a Revolução Comunista.

Plano Cohen, difundiu a ideia de que o Brasil estava prestes a ser invadido e tomado pelos comunistas. Serviu para legitimar um golpe de Estado e uma ditadura que durou de 1937 a 1945.
Plano Cohen, difundiu a ideia de que o Brasil estava prestes a ser invadido e tomado pelos comunistas. Serviu para legitimar um golpe de Estado e uma ditadura que durou de 1937 a 1945.

No entanto, a difusão desta construção como propaganda de massa e em escala global, ocorreu por meio da propaganda nazista. A propaganda política de massa, como forma de seduzir e convencer as classes subalternas, foi formulada no final no século XIX, bem como a utilização dos mitos com os mesmo propósitos.

Nesse ambiente é que os Protocolos dos Sábios de Sião passaram a ser difundidos como propaganda anti-semita (Laquer, 1993) . Nas primeiras edições russas dos Protocolos, atribuía aos judeus o liberalismo, o individualismo e Revolução Francesa como parte da estratégia visando a dominação mundial. A versão alemã foi acrescentada com a parte dedicada à Revolução Comunista e a “culpa” dos judeus nestas. Nela a Revolução Russa é apresentada como mais uma etapa da estratégia dos judeus para dominar o mundo.

5. Mito da Conspiração e mobilização da massa.

Como demonstra o historiador italiano Carlo Ginzburg a função dos mitos sempre foi de controle social e de manutenção da ordem. No entanto, o processo político ao longo do século XIX apresentou uma originalidade: a ampla utilização dos mitos enquanto instrumento propagandístico para a conquista das “massas. Essa utilização se intensificou ao longo do século XX.

O nazismo é o exemplo mais radical e trágico, neste sentido. Portanto, como afirma o historiador italiano, para “entendermos algo da história do século XX, é necessário analisar o uso político dos mitos”.

Neste sentido, situar o contexto histórico da elaboração da obra que fundamentou o mito da conspiração judaica, bem como a forma como foi maciçamente difundido, pela propaganda de massa, nos é revelador das suas possibilidades de uso, enquanto instrumento ideológico e domínio para fazer mover as massas amedrontadas e irracional a um movimento político.

6. O Mito da Conspiração no Brasil.

Antes de ingressarmos na questão dos mitos propriamente ditos, talvez seja necessário salientar uma observação feita pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Em seu mais famoso capítulo, O Homem Cordial, ele observa que o conservadorismo no Brasil sempre olha para o passado… Assim, para o conservadorismo brasileiro a resposta muitas vezes está no passado e não no futuro…

Durante a Primeira República (1989 – 1930) e seus distúrbios, os conservadores olhavam para a Monarquia como momento de estabilidade. No Varguismo olhavam para a Primeira República. Na Democracia para o Varguismo e assim por diante. Hoje, olham para a corrupta e assassina ditadura como momento de estabilidade.

Da mesma forma, em todas as eleições aparecem os salvadores da pátria…. Os salvadores contra o caos e a infiltração!

Se olharmos na nossa história, aqui me limito apenas ao século XX, encontramos vários momentos críticos e vale observar que eles sempre foram acompanhados de momentos de pedidos de Estado de exceção. A lista está incompleta, mas vale dar uma olhada para refletir. Para uma reflexão mais profunda sobre a influência do mito da conspiração judaica no Brasil recomento o livro da historiadora Taciana Wiazovski (Wiazovski, 2008)

Lista de mitos políticos 

1930 – Mito da conspiração judaico comunista: os judeus estariam trazendo o comunismo para o país que seria invadido pela URSS. Anulação dos direitos constitucionais, poderes ditatoriais ao Getúlio Vargas.

1937 – Mito do golpe comunista, Plano Cohen. Documento falso afirmava que o Brasil estava prestes a ser ocupado por comunistas. Justificou o golpe do Estado Novo.

1948 – Influência comunista nos partidos. Resulta na ilegalidade do PCB e são caçados direitos políticos de deputados e senadores eleitos. A repressão desmobilizou os movimentos sociais 55 membros do PCB foram assassinados.

1955 – Carta Brandi Suposto documento escrito na Argentina e enviado ao Brasil afirmavam o plano de se estabelecer no Brasil uma república sindical estilo peronista. A carta era falsa.

1964 – Documentos afirmariam a influência comunista no processo das chamadas reformas de base.

1970 – Apoio de Cuba e da URSS ao movimento sindical no Brasil organizando os movimentos grevistas.

1989 – Apoio financeiro de Cuba à candidatura de Lula. Ideia difundida durante o período eleitoral para provar que Lula implantaria o comunismo no Brasil assim que assumisse o poder.

2002 – Influência e Financiamento da Venezuela na eleição de Lula para presidente.

2006 – Disseminação da conspiração Gramsciana e do PT. Movido pelas ideias do pensador Antonio Gramsci, os membros do PT, professores, artistas e intelectuais estariam estabelecendo o “Marxismo cultural” no Brasil e levando o país para o comunismo. (Ideia requentada do Varguismo, das mais toscas de todas)

2014 – Adoção do bolivarianismo pela presidenta Dilma.

REFERÊNCIAS

Carlo Ginzburg. “Mito. Distância e mentira” In: Olhos de Madeira. Nove reflexões sobre a distância. São Paulo, Companhia da Letra, 2001.

Leon Poliakov. A Europa Suicida, São Paulo, Perspectiva, 1985.

Raoul Girardet. Mitos e Mitologias Políticas. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.   

Taciana Wiazovski. O Mito do Complô Judaico Comunista no Brasil (1907-1954). São Paulo: Editora Humanitas/Fapesp, 2008.

Walter Laquer. Black Hundred. The Rise of the extreme right in Russia, New York, HarperCollins, 1993.

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